28 outubro 2008

Metamorfose na estrada


Demorei três longos minutos na leitura da placa que dizia Via Anchieta em letras de forma. Eu recém aprendera a ler. Minha mãe ensinou-me ali, no acostamento da estrada, o som do ceagá. O mesmo de chuva, chapéu e chave. Não entendia porque xícara deveria ser diferente. O momento foi de aprendizado, enquanto meu pai trocava o pneu. Os carros zuniam quando passavam por nós descendo a serra. Na outra pista, os fenemês bufavam negra fumaça para subir. Do lado de lá, além do estreito acostamento havia uma parede de rocha molhada vestida de musgo. Do lado de cá, havia um espaço apertado até o guard rail. Depois da barreira metálica o mundo se acabava numa ribanceira de floresta fechada. Ao longe avistávamos o mar e a baixada santista no cinza embaçado do horizonte. Abaixei-me e colhi uma flor. Soprei e ela se desfez em pequenos pára-quedas que o vento levou. Acredito que isso tenha acontecido no mesmo ano em que o Brasil ganhou a copa pela primeira vez.

Inúmeras vezes nossa família desceu a serra aos sábados assim que a aula da escola terminava. O sanduíche com fatias de queijo vinha brilhante no papel laminado. Cantoria e brincadeiras completavam a euforia da expectativa de outro final de semana na praia. Chegando a Santos pegávamos a balsa para atravessar o canal de Bertioga e seguir caminho rumo ao Guarujá.

Corre, brinca, mergulha, joga futebol, puxa arrastão, pega onda, constrói castelo na areia.

Domingo à noite, meu pai baixava o banco traseiro do carro e fazia uma cama para mim e meus irmãos. Dormíamos antes de fechar o portão da casa. Não me lembro do carro serpenteando serra acima.

Já em outras épocas, comecei a compreender a alegria se modificando em tristeza, no retorno a São Paulo. O fim de semana terminara. As férias acabaram. O clima ensolarado esfriou. Ao passarmos por Cubatão, começando a subida, enxergávamos de longe uma labareda no alto de uma chaminé. Várias outras torres imitavam vulcões criando cortinas intoxicadas de doença e morte. Tudo tão triste quanto o furto da Taça Jules Rimet e a eliminação do Brasil na copa dos ingleses.

Ao descer a estrada percebíamos a magia da transformação. Trocávamos obrigações e deveres por direitos e prazeres. As rugas migravam da testa para emoldurar sorrisos. Descer as curvas da estrada de Santos significava liberdade, alegria, descontração, paqueras, beijos, dourado na pele e peladas na praia. O toque final da metamorfose ocorria quando ouvíamos as ondas do mar.

A via Anchieta era larga na altura de São Bernardo. Um gramado e um fosso separavam as duas pistas para ir e as duas para voltar. Na altura do quilometro 23 despontava, do lado direito, a enorme fábrica da Volkswagen. Ali, todos passavam a cem por hora para drasticamente reduzir a velocidade na Polícia Rodoviária. O posto policial também era um depósito de horrores com dezenas de carros inutilizados. Acima da pilha um aviso ameaçava: não corra, não mate, não morra. Tantas foram as vezes que passamos por ali que a intimidação perdera o efeito. Logo adiante começava a descida da serra. A sombra ocupava o lugar do sol. A pista perdia largura e o fosso de separação se transformava em faixa contínua. Era um desafio ultrapassar caminhões desengrenados, quase impossível, nos freqüentes dias de neblina. Quando havia visibilidade para superar um caminhão surgia um carro na outra pista, uma ponte ou outro túnel de luzes amarelas. O visual ajudava a relaxar a tensão. Cascatas de espuma branca pintando rochas negras nas montanhas e ipês amarelos contrastando com o verde no vale. Havia um recuo com uma bica jorrando água numa bacia de pedra sabão onde os motoristas enchiam seus cantis de água gelada. Sempre tive vontade de parar, mas iria atrapalhar o plano dos meus irmãos, que agora pilotavam o carro. Boy que é boy chega no Guarujá em menos de duas horas, incluindo a fila da balsa. Dentro do porta-luvas meu irmão instalou um aparelho para tocar fitas cassete para curtirmos os Beatles.

Num sábado à noite, ah, foi inesquecível. Eu já me sentia capaz. Eu queria ser homem. Só faltava a grande prova. Chegar na praia em menos de duas horas. Meu pai me emprestara o carro para fazer um simulado no cursinho. Saí do teste confiante com meu desempenho. O Brasil tinha sido tricampeão elevando nossa auto-estima. Olhei para o ponteiro de combustível do fusquinha branco e calculei que havia gasolina suficiente para ir e voltar. A tinta da minha carteira de motorista nem havia secado e me desembestei estrada afora. Corri um bocado. Na praia foi bom encontrar um monte de amigos, divertir-me com as ironias do Pasquim, ter orgulho do Emerson, campeão de Fórmula 3, que estreava na Fórmula 1 e principalmente contar vantagem que eu tinha saído do cursinho uma hora e meia antes. Responsável que era, não tomei nenhuma cerveja e às quatro da manhã resolvi que era hora de retornar. Um primo pediu carona. Este sim era um irresponsável. Estimulou o meu pé direito a acelerar fundo. Para não morrer, brequei em muitas ultrapassagens. Graças à estrada vazia retornei em uma hora e vinte. A sorte esteve do meu lado. Jamais voltei a fazer bobagens como aquela. Mas no dia, só faltou bater a mão no peito e dizer: agora sou homem.

Anos mais tarde, morando longe de São Paulo, resolvi levar meus filhos, nas férias, para nadar nas mesmas ondas da minha infância e adolescência.

Fomos de carro até São Paulo e seguimos rumo ao litoral. Cheio de boas lembranças, busquei os sonhos ao meu redor e retornei a trilhar o caminho para a praia.

A estrada, agora, descia rápida em quatro faixas independentes das outras quatro do retorno. Pontes e túneis largos. Sem tensões, ultrapassamos e fomos ultrapassados a 120 por hora. A tecnologia da construção facilitou a vida. Acabaram-se os desafios, sumiram as transformações e expectativas a cada curva. A paisagem passava veloz, impedindo sentimentos passados e emoções maravilhosas percebidas na infância. Apesar da música alegre do cedê eu estava triste. Não encontrara flor para minha filha soprar. Meu filho chorava a perda da copa para os franceses. Enquanto lia rapidamente, em letras de forma, que aquela estrada era a Via dos Imigrantes.

21 outubro 2008

Terça crônica



O programa Terça Crônica é muito legal. O apresentador Jones Schneider começa dramatizando um texto do homenageado e depois o entrevista. Em seguida Alex Souza interpreta uma canção de um músico consagrado.

Onze cronistas foram homenageados: Affonso Romano de Sant’Anna, Luis Fernando Verissimo, Carlos Eduardo Novaes, Fernanda Takai de renome nacional. E ainda Conceição Freitas, Alexandre Ribondi, José Carlos Vieira, Márcio Cotrim, Severino Francisco e Rogério Menezes, escritores brasilienses.

Aí, tchan, tchan, tchan... Com vocês: Robeeeerto Kloooootz.

Fui ao primeiro programa e adorei o aconchego do espaço e a forma intimista na condução. No segundo, levei um caderno de crônicas, na verdade o livro “Quase pisei!” e entreguei ao Jones. Para minha surpresa ele devorou e me convidou de imediato para participar. YES!!!

Tal qual criancinha, enviei um milhão de e-mails para todos os meus amigos (e não amigos) convidando-os para o evento. O teatro é pequeno e em todas as edições apenas pouco da metade das cadeiras foram ocupadas. Eu estava morrendo de medo da casa ficar vazia. Percorri bares divulgando e distribuindo convites – o evento é gratuito – e vendendo fanzines com 7 crônicas.

O Correio Braziliense publicou uma nota no jornal enquanto o mesmo jornal publicou uma entrevista na internet. Chique, né?

A casa encheu! Soube de várias pessoas que ficaram de fora, inclusive a mulher do músico.

As pessoas que estavam ali, eram meus amigos. Não soube de nenhum que era amigo de Caetano Veloso, o outro homenageado.

Infelizmente as crônicas lidas devem ficar inéditas até a publicação do livro.

Recomendei que amigos levassem tomates maduros para o caso de não gostarem dos textos. Ninguém jogou nada. Ainda bem.

Quando a gente não é conhecido, expliquei, temos que solicitar aos famosos que nos apresentem. Então, à respeito do meu livro “Pepino e farofa” eles não disseram:

Ernesto Che Guevara – Hay que ler Pepino e farofa, pero sin perder la ternura jamás.

Neil Armstrong Um pequeno livro para o homem, um grande livro para a humanidade.

Charles de GaullePepino e farofa não é um livro sério.

Dom Pedro de Alcântara Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que leia Pepino e farofa.

Esfinge – Leia Pepino e farofa ou te devoro.

A entrevista foi muito tranqüila. O bom humor foi a marca forte do programa.

Quando o programa terminou foi um óóóóóóóóóóóóóó que pena!

Adorei.

Ficou um gosto de quero mais.

Agora que não estou ao vivo na sua frente, caro leitor, arremesse os tomates maduros e as mensagens podres.

Publicado no Correioweb

http://www.correiobraziliense.com.br/divirtase

Brasília, terça-feira, 14 de outubro de 2008
DIVIRTA-SE
Programe-se

Terça Crônica recebe o escritor Roberto Klotz

Roberto Klotz já esteve no projeto para falar sobre Luis Fernando Veríssimo
Um espectador assíduo vai subir ao palco no encerramento da primeira temporada do Terça Crônica. Roberto Klotz esteve na estréia do projeto e se encantou pela mistura de conversa, leitura e música – marca dos encontros. Agora, suas narrativas é que vão se encontrar com as composições de Caetano Veloso, interpretadas por Alex Souza, às 21h, no Teatro Goldoni, na Casa d’Itália. Com entrada franca, a noite terá também a participação do ator e diretor Jones Schneider, idealizador do projeto. É ele o responsável pela leitura dramática dos textos e pela condução do bate-papo.

Klotz se interessou pelo projeto por envolver crônicas – sua “praia”, como descreve -, e tomou a iniciativa de mostrar a Jones seu livro Quase Pisei - reunindo 50 textos sobre suas caminhadas diárias. Com três livros prontos ainda não publicados, o ex-engenheiro civil decidiu “vencer na vida sendo escritor" e no próximo ano publicará seu livro Pepino e Farofa, contando suas aventuras culinárias, com recursos do Fundo da Arte e da Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do DF. Escritor recente e apaixonado, Roberto indica o texto A Escrita, disponível em seu blog (http://robertoklotz.blogspot.com), como uma referência sobre seu modo de escrever. Crônica é meu jeito de ser", resume.
Esta não é a primeira vez que Klotz sobe ao palco do Terça Crônica: em setembro ele foi convidado para falar sobre o estilo e linguagem de Luis Fernando Veríssimo. Para Jones Schneider, o convidado desta noite "é um escritor inteligente, despretensioso e bem humorado, que representa muito bem o cronista de Brasília". Depois dessa edição, o projeto fará uma pausa e em novembro estará de volta.

11 outubro 2008

Central do Brasil virou Galeão


— Take three, cena five. — disse enquanto mostrava o caderno como se fosse uma claquete. Acendeu a luz do abajur, e gritou numa folha de papel enrolada imitando um megafone: — luzes, câmara, ação!
Saiu do papel de diretor e colocou-se no papel de roteirista.
— O saguão do Galeão, limpinho, cheio de gente bonita, homens de negócios, famílias se despedindo, carrinhos cheios de malas coloridas, um garotão sarado com uma prancha de surfe. Todos, eu disse todos, repentinamente param como se fossem estátuas para ver o desempenho da salvadora heroína arrastando o abandonado órfão perdido no Rio de Janeiro. Aí, eu, Jessielly Stone, com os cabelos soltos, corro em direção ao portão de embarque, arrasto o Stallone pela mão, me viro para trás e digo, em close: — se apresse, vou achar o seu pai, esteja ele onde estiver. — Em seguida revirou os olhos e curvou-se toda, esticando um braço, aguardando os aplausos do único espectador.
Walter bateu palmas sem entusiasmo.
— O que foi querido? Parece que não gostou?
— O roteiro é um pouco diferente. A história começa numa estação da Central do Brasil onde uma senhora escreve cartas para analfabetos...
— A Central do Brasil não está com nada! Só tem gente feia, só tem pobre. É tudo sujo e cinza. Tem que ter cor, vida, alegria. Inicie numa lan house do shopping da Barra, cheio de luzes e juventude. Eu ajudo o Sly, — aposto que você não sabia do apelido do Stallone — e a mãe dele a digitar um e-mail em português, depois os dois saem da loja e olham vitrines. É hora de mostrar as lojas bonitas. Você pode fazer mershandising e ganhar um dinheirinho extra. É a hora de mostrar o Brasil para os estrangeiros. Os nossos tênis são iguaizinhos aos deles. Temos McDonald’s, ninguém passa fome aqui. Tem o elevador panorâmico... tem até uma árvore de Natal. Linda! Na saída você mostra um garoto andando de skate quando eles pegam um táxi. Achei horrível a mãe, no seu roteiro, morrer atropelada, coisa de pobre, é preferível que a mãe dele morra numa tentativa de seqüestro. Muito mais ação, isso prende o telespectador na cadeira, sabe.
Walter, incrédulo, põe a mão no queixo.
— No roteiro é um menino de nove anos, filho de uma retirante, que nunca conheceu o pai.
— Eco. Quem gosta de pobre é assistente social e político na hora das eleições. Esse pessoal estrangeiro quer ver gente bonita, forte. Eu nem gosto do Rambo, mas a galera toda vibra com os filmes dele. Se você colocar o Stallone naquela telona, nossa, vão fazer fila na bilheteria. O Stallone tem o perfil certo para o filme. Não precisa falar e já tem aquele olhar triste e carente de minha Mami morreu. Aliás, falando-se em fala, nesse momento do seqüestro você enche de gente atirando para todos os lados. O Rambo, depois de matar uns quinze, olha bem no fundo do olho daquele que matou a mãe e antes de atirar diz: hasta la vista baby!
— Mas isso foi dito pelo Schwarzenegger em “Exterminador do Futuro”!
— Se liga, Walter, o que você queria que o Rambo dissesse olhando no fundo do olho do bandido? “Eu acho que vi um gatinho?” Me poupe! Ninguém merece! Aí o Stallone me procura e pede que eu o ajude a voltar para os Estados Unidos para encontrar o pai dele que ele nunca conheceu.
— E você fala inglês?
— E você acha que, com um nome como o meu, Jessielly Stone, eu não saberia falar inglês?
— Mas o seu nome não é Jessielly Rocha?
— Era, do verbo já não é mais. Mudei quando li que você iria lançar o filme nos States.
— Ah bom, faz sentido. — o diretor toma um gole de água — Desculpe interromper, continue por favor.
— Aí, a gente viaja por todos as cidades americanas importantes, Chicago, Washington, Orlando, Los Angeles e quando a gente chegar na capital, o filme mostra todos os pontos turísticos de Nova Iorque: Wall Street, Broadway, Empire State, Torre Eiffel...
Walter coçou o queixo, sorriu debochado.
— Como foi que eu não pensei nisso antes.
— Honey, é lógico, tem que mostrar o lado romântico, que a vida é maravilhosa. Você só pode ganhar o Oscar se você mostrar que a vida é bela. Sabe aquela parte em que eles entram num restaurantezinho chulé de beira de estrada?
— Você se refere ao ponto em que ambos são convidados por um motorista de caminhão e que ela aproveita para furtar comida?
— Esse mesmo. Ninguém agüenta história de roubar biscoitinho recheado de goiabada. Americano nem sabe o que é goiabada. Tem que roubar coisa elegante, supérflua, num shopping fino. Aí, você filma dentro de alguma loja, bem chique, da C&A, o Stallone afanando duas gravatas italianas. Então é flagrado e começa o maior quebra dentro da loja. Ele vai preso e eu sou interrogada. No interrogatório eu sento de frente para os policiais, acendo o cigarro, dou uma baforada e cruzo as pernas, lógico que estou sem calcinha e soltam a gente.
— É impressionante como você pensa em tudo!
— Isso é básico. Um filme tem que ter muita ação, romantismo e umas cenas picantes. Eu já te falei, já fiz novelas na Globo. Taí no meu book, numa eu fui lojista no capítulo 53 e na outra o Antônio Bandeira assobia para mim quando atravesso a rua no capítulo 68.
— Estou curioso. Naturalmente, para fazer sentido, você modificou o final onde a mulher, já afeiçoada ao menino, entrega o garoto aos irmãos e retorna solitária enquanto o garoto joga bola com seus irmãos em frente a uma vila de casas populares construídas pelo governo.
— Só melhorei um pouquinho. O Stallone conquista meu coração, eu fico com ele, a gente vai para cama, mas é só sexo técnico, e aí você mostra as mansões da Califórnia numa câmara se abrindo ao por do sol.
— Muito obrigado, Jessielly. Não sei como o mundo seria sem pessoas como você. Por favor, devolva o roteiro antes de sair.
— Não tem de quê, eu não sei escrever direito. Você escreve as alterações e quando terminar você me chama de novo, tá bom? Ah, e o meu nome é com dois eles e ipsilone no final.

06 outubro 2008

O homem sem sentidos

Misteriosa figura de chapéu coco, calada em seu olfato e emudecida no olhar por uma pomba branca. Quem é você? Olho para sua imagem e não tenho respostas, apenas mais perguntas e questões. Por que se esconde atrás do símbolo da paz? Ou foi a paz que o deixou sem sentidos? Você está triste com a rápida passagem da pomba ou alegre por ela ter chegado? O que você oculta? Debocha das minhas dúvidas ou está feliz por encontrar alguém questionador?
Você já se olhou no espelho? Reparou que a sua gravata é de uma cor indefinida? Hoje de manhã você levantou, tomou banhou, barbeou-se, vestiu-se com aprumo e colocou gravata cor de incógnita só para me provocar? Ou faltaram vermelhos ao pintor? Ou será que o artista escolheu um acessório discreto para que todo o impacto do quadro ficasse na pomba? Impacto? Impossível. Não há impacto. A pomba voa livre, nada sugere colisão com a não moldura.
Ao artista você posou imóvel durante horas para que seu retrato ficasse perfeito. A pomba infeliz não posou nem pousou. Talvez devesse sujar seus trajes para você sair ultrajado da posição estática. A sua negra passividade contrasta com a mobilidade branca da pacífica pomba. E daí? Daí, se mexesse, eu poderia vê-lo. Mas não, permanece oculto e continuo sem saber quem é você.
Procuro mundo afora. Reviro canções, vasculho temperos, questiono peixes, apalpo nuvens, farejo um álbum de fotografias. Estranha figura de chapéu coco, eu o encontrei. Você é um brincalhão que olha um ovo e pinta uma ave, vê uma ave e faz um óleo da Eva. Descobriu muito antes dos publicitários que um simples símbolo pode significar uma idéia. Dois dedos em vê podem significar a vitória, uma cruz identifica o cristianismo, uma pomba com um ramo de oliveira expressa a paz e um homem sem rosto e de chapéu coco pode perfeitamente representar René Magritte.
Assim sendo, prezado monsieur Magritte, me engana que eu gosto, uma pomba na frente de um rosto não é a paz à sua frente. É apenas uma tela com uma pomba ocultando o rosto de um homem de chapéu coco.

01 outubro 2008

Sob as ondas do mar



As profundezas do oceano sugerem frio, escuridão, tristeza, silêncio, trevas e claustrofobia. Exatamente o oposto do que acontece na Atlântida. Dentro da enorme bolha submersa vive um povo dançante, iluminado, extrovertido, corajoso e autoconfiante.

A enorme ilha afundou intacta num terremoto de outras eras. Intactos também ficaram a pirâmide, a ciência e a filosofia dos habitantes daquele pedaço de terra afastado do mundo.

Ao naufragar, arrastou consigo uma enorme bolha de oxigênio e quando tocou o fundo do mar desencalhou uma jazida de rocha de fogo. As pedras irradiavam luz e calor. Em pouco tempo os trabalhadores grudaram milhares de fragmentos da rocha na superfície da abóbada que se transformou em céu de lua cheia. Os cientistas desenvolveram sistemas de irrigação e colheita para as terras férteis. Graças à comida fácil e abundante os ilhéus aplicaram o tempo disponível na educação e na cultura. Ampliaram conhecimentos e retiraram energia a partir do movimento do mar. Em algumas gerações de união, perseverança e isolamento construíram uma fabulosa e fantástica vila. Todos moram em casas espaçosas, ventiladas e iluminadas. A pirâmide é reservada ao comandante e aos cientistas, a elite de Atlântida. As máquinas realizam todos os serviços desagradáveis ou que demandam esforço físico. Tudo é meticulosamente organizado e limpo. Tampouco há desperdício. Iluminação, transportes e comunicações funcionam com precisão e pontualidade. Os atlantes têm uma vida confortável.

Os trabalhadores são muito animados. Amam as segundas-feiras, o único dia em que podem sair da bolha, após a ginástica, para colher algas e crustáceos. Dedicam três dias ao desmonte de navios e aviões e à manutenção dos equipamentos da bolha e enquanto os três dias restantes da semana são destinados à música e à dança. Os cientistas preocupados com o bem estar da população temem que alguma revolta por mais espaço e por mais filhos resulte no fim da qualidade de vida. Formularam as leis decretadas pelo comandante. Leis inflexíveis e severas. Todos devem que segui-las à risca de pesados castigos. À distância Atlântida parece ser o Éden. Não é.

O problema de Atlântida é o espaço fisco. Conforme os estudos e a experiência chegaram à conclusão que o limite máximo é de 5.000 habitantes sob pena de perda na qualidade de vida. Sempre que a cifra tétrica é atingida, alguém deve ser sacrificado. E esta escolha é decidida entre as paredes da pirâmide. Os cientistas se preocupam com a melhoria genética. Os escolhidos invariavelmente são portadores de alguma deficiência. No passado, a miopia ou a calvície justificavam a sentença. Devido às inúmeras uniões consangüíneas dentre a pequena população, mais recentemente a situação se agravou com o surgimento de uma misteriosa doença que, paulatinamente, enrijece e enfraquece primeiro pernas e depois braços, além de afetar a postura em geral e, em menor intensidade, a visão e a fala. Todos são alegres, todos dançam, porém os sacrifícios são constantes e ultimamente afetam inúmeros recém-nascidos. A música diminuiu o volume.

A solução, todos sabem, está acima da superfície do mar. Há três séculos capturam navios e mais recentemente fisgam também aeronaves que trafegam na região conhecida por Triângulo das Bermudas. Exceto homens, aproveitam tudo que encontram nas embarcações. Documentos, metais, combustíveis e alimentos. Os navios e aviões invariavelmente têm tripulação masculina o que levou os cientistas, nos últimos 50 anos, a desenvolverem técnicas de retirada de sêmen para inseminação artificial visando à melhoria genética do povo submerso. A solução é paliativa. A única saída para a salvação de Atlântida é o aumento da área. É a conquista de novos territórios.

Com a captura das aeronaves atuais, os cientistas confirmam a evolução muito grande dos terráqueos. Breve, muito breve, eles, os homens da superfície, terão condições de localizar a bolha e descobrir onde são desmontados os jatos. Saberão onde está e quem a habita. Não os deixarão em paz. Enviarão sondas e submarinos. A bolha será furada. Será a destruição. Será o fim.

O comandante, apoiado pelos estudos dos cientistas, reúne a população para, num discurso, informar que é chegada a hora de sair da defensiva e partir para a ofensiva. Confirma o sucesso absoluto do último teste realizado na região da Indonésia onde uma ilhota foi afundada trazendo consigo uma bolha de oxigênio. A ilha pousou suavemente no fundo do oceano exterminando todos os habitantes com a elevada pressão. Cem trabalhadores serão contemplados para fazer a viagem exploratória para conhecer nosso triunfo. Estes felizardos também terão a oportunidade de comprovar como os terráqueos são uma ameaça pelo modo como se refizeram da tsunami e rapidamente repovoarem toda a região afetada.

O comandante continuou o discurso com palavras sobre o futuro. Precisamos abalar profundamente o poder e a força dos seres da superfície além de provocar enormes baixas na população. Confirmo o fim dos testes, comprovamos nossa capacidade de provocar uma bolha do tamanho da nossa necessidade. E, por questões estratégicas planejamos duas novas moradias para o povo atlante. Ao afundarmos as ilhas simultaneamente, provocaremos ondas gigantes para abalar todos os poderosos do planeta. Afundaremos Cuba e Hondo, a maior ilha do Japão.

A contagem regressiva para a nossa expansão começa agora. Viva!


 
Search Engine Optimisation
Search Engine Optimisation