17 dezembro 2009

Fui, mas volto


Você se conectou com a secretária de Roberto Klotz.

Apesar dela ser bonita, simpática, inteligente e gostosa é apenas uma reles secretária eletrônica.

Depois de apreciar o decote e as curvas deixe o seu recado.

Estarei ausente até o final deste ano.

O Papai Noel não vai passar em Brasília, o pessoal daqui não foi bom. As meias e cuecas já estão cheias de corrupção. Vou passar as festas em outro lugar.


Charge publicada no Jornal do Commércio do Ceará

08 dezembro 2009

Impeachment

Eu comemoraria a rapidez com que a Justiça ordenou a desocupação da Câmara Legislativa se a mesma Justiça ordenasse com a mesma rapidez a desocupação da sede do Buritinga.

26 novembro 2009

Zulma é duca


Hora e meia recebemos elogios por textos escritos. Alguns sinceros, outros nem tanto.

A gente acaba se acostumando, embora o ego seja voraz por mais e mais tapinhas de incentivo.

No dia 5 de novembro recebi uma homenagem sem nenhuma palavra. Apenas um gesto. Um gesto de carinho de um dos caras que mais admiro na comunidade Bar do Escritor.

Na imagem do orkut se mostra lendo meu livro Quase pisei!.

Fiquei emocionado.

Zulmar Lopes, conhecido em alguns bares duvidosos de Copacabana como Lameque Eros Hyde da Silva, é duca!

21 novembro 2009

Fiz Chover

Vou ficar rico. Vou ficar muito rico. Descobri a fórmula para fazer chover. É infalível. Descobri através de uma teoria que eu desenvolvi por conta da observação e prática graças à minha larga vivência.
Em primeiro lugar vou oferecer meus préstimos ao nordeste, particularmente à zona do agreste. Depois que todos os açudes estiverem a ponto de sangrar oferecerei meu amparo à região árida da África. Naquelas bandas muita gente também sofre com as agruras da seca.
Uma vez atendidas as regiões carentes passarei a cobrar meus serviços. Em euros. Portugal, França, Itália e Grécia também sofrem muito com as secas. Dos americanos, lá da Califórnia, também cobrarei em euros. Valem mais que dólar.
Difícil vai ser transportar meu carro para todos estes lugares. Não abro mão. Preciso estar sempre com o meu carro.
Aqui em Brasília já estávamos com clima arrasadoramente seco. A umidade chegou a 14%. Gramados esturricados e lábios rachando. Vocês sabem o que fiz?– Lavei meu carro. O que aconteceu? – Choveu e sujou meu carro de novo. – E daí? Daí que lavei o carro de novo. E choveu de novo. Este método é infalível.

19 novembro 2009

Fora de medida


Chego em casa depois de mais um estafante dia de trabalho e a confusão está instalada: madame chora na frente do fogão.

Sempre a tratei muito bem. Quase não lhe falta nada. Hoje, como nos últimos 35 anos, acordei-a com um delicado beijo na testa, preparei o café e misturei colherinha e meia de açúcar. Beijei-a na saída. Melhor dizendo, beijei-a na boca, ao sair. Senti saudades e retornei direto do trabalho para casa ao fim do dia.

Vejo que há uma série de xícaras espalhadas pela mesa da cozinha, um pacote de massa para bolo, um termômetro, a calculadora, alguns ovos de codorna, várias colheres de tamanhos diferentes, a jarra de leite, o pote de margarina derretida e o velho despertador barulhento.

Tomo-a em meus braços e pergunto o que foi que aconteceu.

Soluçando, responde que desejava preparar uma festinha só para nós dois, mas a receita do pacote estava por demais complicada:

BOLO DE CHOCOLATE

Ingredientes:

1

pacote de massa de bolo de chocolate

¾

de xícara de leite

3

ovos

2

colheres de margarina à temperatura ambiente

Misture tudo até formar massa homogênea; Unte e enfarinhe uma forma redonda com furo no meio; preaqueça o forno em temperatura média por quinze minutos; Não abra o forno antes de 30 minutos; após esfriar por 15 minutos, desenforme e sirva.

– Veja só quantas xícaras diferentes nós temos aqui: a do seu café, aquela outra de plástico, a do jogo de porcelana que ganhamos no nosso casamento... e todas têm tamanhos diferentes, – Ovos podem ser de codorna, de pata, de galinha caipira, brancos, de páscoa e... Enxugando as lágrimas. Qual dessas colheres? Uso a do diário ou devo usar a do faqueiro de prata?

Segurei-a pela mão, arrastando-a até a sala. Acomodei-a no sofá. E fui buscar dois cálices. Enquanto servia um porto, protestei:

– A culpa é da impunidade! Neste país as pessoas fazem o que querem e ninguém é responsabilizado por nada. Passam nos sinais vermelhos, assaltam, não fecham as pastas de dentes... Todos esses calhordas deveriam ser exemplarmente punidos! Para que serve o Instituto Nacional de Pesos e Medidas? Vou entrar com medida cautelar, seja o que isso queira dizer!

Irado, continuo meu protesto:

Cientistas do mundo inteiro se reúnem, estudam e definem que quilograma é a massa do protótipo internacional constituído por um cilindro de platina e 10% de irídio depositado no Bureau Internacional de Pesos e Medidas, e ainda que o metro é igual ao comprimento do trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299 792 458 de segundo e... que diabos!

Virei o cálice de vinho para lubrificar a garganta e continuei:

– Estes fazedores de receitas culinárias estão nos cozinhando! Como vamos definir o que é uma pitada? Quantas gramas? Uma colher rasa de farinha? Então, além das colheres de chá, sopa e sobremesa, ainda podem ser cheias, bem cheias e rasas? Aí, ainda tem a história de meia xícara, três quartos de xícara ao invés de dizerem que se trata de tantos mililitros. Tenham a santa paciência! Forno à temperatura média. Estes escritores de receita deveriam cumprir pena com trabalhos forçados.

Sirvo-me de outra tacinha de porto, viro de um gole e continuo no meu discurso:

– A falta de uniformização das medidas é um retrocesso para a nossa nação. Sucrilhos, macarrão instantâneo, molho de tomate, geléia, coco ralado, sapatos... Nada está padronizado. Estamos a léguas de distância dos povos desenvolvidos!

Resolvi respirar e dar um dedo de prosa:

– Querida, você sempre soube preparar comidas maravilhosas. Jamais precisou de enciclopédias para preparar um simples bolo de chocolate. O que foi que houve? De verdade?

– Bom, eu só tinha ovos de codorna. Então quis saber quantos ovos de codorna seriam equivalentes a um de galinha. E, principalmente queria saber onde você havia escondido a garrafa de vinho do porto.

01 novembro 2009

Antologia


– Ó, von Silva, o que é antologia?
Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é von Silva, não tenho outro de pia.
Se eu estivesse na repartição seria normal este tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento.
Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procuro uma respo
sta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas, Minas não há mais, quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentá e procurar um desmancha-dúvidas.
Meu reino por um dicionário!
Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai-dos-burros.
Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o significado de antologia.
Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho, cadê o maldito tira-teimas?
Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente surge o salvador e consulto o verbete:

“Coleção de trechos em prosa e/ou em verso.”
– Obrigado, Aurélio!

Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro.
– Mais uma vez, obrigado, Aurélio!


Pesquisa para o texto Antologia

“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução.” – O gauche – Carlos Drummond de Andrade
“João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” – Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade
“O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” –Morte e vida severina – João Cabral de Melo Neto
“Porque hoje é sábado.” – O dia da criação – Vinícius de Moraes
“A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” – A Rosa de Hiroshima – Vinícius de Moraes
“Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” – Alegria, alegria – Caetano Veloso
“Quero ir para Minas, Minas não há mais, quer morrer no mar, mas o mar secou.” – E agora, José? – Carlos Drummond de Andrade
“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei.” – Vou-me embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira
“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.” – Canção do exílio – Gonçalves Dias
“Meu reino por um cavalo!” – exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare
“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” – Vozes d'África – Castro Alves
“Queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” – As rosas – Cartola
"Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência." – Diariamente – Nando Reis
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” – No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade
“Toda pedra no caminho você pode retirar.” – É preciso saber viver – Roberto Carlos e Erasmo Carlos
“De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” – Soneto da separação – Vinícius de Moraes
“Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” – Wilson Mizner

09 outubro 2009

Pressentimento materno

Há sete meses, diariamente beijo a foto do meu filho. A última vez que o vi foi no dia 1 de junho de 1944. Subia a rampa de embarque do General Mann, ancorado no reflexo do Pão de Açúcar. Acenou com a mão direita enquanto a esquerda segurava um saco com coturnos, agasalhos e outro uniforme verde oliva. Faz tempo que não recebo uma carta. Aperto no peito este envelope com o timbre do exército. As dele, não tinham timbre. Não quero abrir, quero ficar com a esperança.

20 setembro 2009

Meu carro


Os vidros são claros: nada tenho a esconder. Tem ar condicionado: não preciso de desculpa para ventilar perfumes diferentes do seu. A cadeirinha da nenê mostra meu orgulho de ser pai. O crucifixo pendurado no espelho indica que meu carro é um local sagrado.

Quanto ao brinco encontrado, tenho certeza que você o colocou aí só para testar a minha fidelidade.

19 setembro 2009

Estou com medo!


Já conversei com uma viúva. Anteontem faleceu uma amiga de amiga. A gripe suína está entre nós.
O governo não está preparado e não tem plano contra a gripe.
O Brasil rico que empresta dinheiro para o FMI não tem grana para adquirir as vacinas e está economizando.
Deveriam imunizar os pacientes suspeitos na primeira consulta. Brigar contra a gripe. Atacar os focos em vez de permanecer na defensiva, poupando vacinas e esperando a gripe atingir toda a população.
Que esqueçam o sonho do Présal e cuidem da realidade. Há motivos para alarme, sim. Esta também não é nenhuma marolinha.
Se não há vacinas, agora, para os poucos pacientes, teremos o caos instalado muito breve quando os pacientes contagiados se multiplicarem feito moscas.
Apodreceremos nas calçadas e o governo não terá de quem cobrar impostos

03 setembro 2009


Pepino e farofa é um livro de crônicas culinárias resultantes de 50 anos de inexperiência no comando de um fogão. São histórias inteligentes, criativas e bem humoradas onde a comida é o prato principal.

No divã do psicanalista convence que o milho afasta a depressão e a solidão. Uma formiga em cima da bancada é motivo para uma fábula. Explica como um violão pode influenciar na preparação do almoço.

O autor diz que só foi possível escrever o livro graças à sua mãe que, na infância, incentivou-o a brincar de carrinho em vez de comidinhas e panelinhas. Descobrirá que Neil Armstrong não disse que Pepino e farofa é um pequeno livro para o homem e um grande livro para a humanidade. Enfim, são 48 aventuras temperadas com bom humor.

Edição da LGE, com o apoio do FAC. Tem 160 páginas.


Quase pisei! É um livro de crônicas com temática andante. Os mortais caminham, Klotz viaja na criatividade. Com escrita na primeira pessoa do singular, convence os leitores de que tudo é verdade e que aconteceu com ele. Também nos dá a impressão que o mundo só começa a acontecer quando calça o tênis e sai para a rua. Seu olhar de cronista sempre está atento através de lentes irônicas, bem humoradas e às vezes poéticas, quando coloca os óculos líricos. O entusiasmo e a alegria do autor são contagiantes.

Edição do autor, com o apoio do FAC. Tem 160 páginas.


Roberto Klotz é um engenheiro que saltou do topo do prédio recém-construído e estilhaçou-se em parágrafos. Nasceu no século passado. Bem-humorado, crítico, vacinado, analfabeto, irônico, paulistanamente candango. Suas histórias muitas vezes têm finais surpreendentes. Enquanto aprendia a cozinhar, escreveu Pepino e farofa, um livro de aventuras culinárias, engordou de tantas pizzas encomendadas. Para perder peso, o médico recomendou que caminhasse. Durante as caminhadas encontrou elefante, lâmpada mágica, cão bravo, pegadas de onça, muito cocô e 45 motivos para exercitar o bom humor em Quase pisei!


Os livros de crônicas Pepino e farofa e Quase pisei! podem ser adquiridos diretamente com o autor.

Cada exemplar custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília.

Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50

2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80

3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40

Para saber quem efetuou os depósitos acrescentarei alguns centavos identificando o número do pedido.

Faça seu pedido através do e-mail r-klotz@uol.com.br, fornecendo a quantidade desejada, o endereço para a entrega e nome para a dedicatória, se desejar.

Responderei informando o valor exato e fornecendo conta corrente do BB para crédito bancário.


08 agosto 2009

Jerusalém, a nova Babel


O zum-zum-zum correu boca-a-boca: o Rei dos Judeus chegaria a Jerusalém logo mais à tarde. A fama de milagreiro chegara muito antes. Ouvíramos falar que ele mostrara arco-íris a cegos, que possibilitara a surdos a ouvirem música e ensinara coxos a pularem como cervos.
Muito ansiosos, esperamos por ele. Precisamos de mudanças, mas acho que exageram um pouco na esperança que a profecia das escritas sagradas se concretize. Dizem que reinará com justiça, será um abrigo contra a tempestade, será como um teto protetor contra a chuva torrencial, será como a água em lugar ressequido e será como a sombra de um alto rochedo em terra árida.
Falam que nasceu pobre, que é gente do povo. Que não usa coroa, nem manto nem jóias. Que seus trajes são iguais aos nossos. Dizem até que fala a nossa linguagem.
Ninguém aguenta mais os pesados impostos, a falta de pão e, principalmente, a humilhação dos poderosos. Precisamos de mudanças.
Todos queriam saudar a chegada do Messias, o salvador. Nos portões da cidade, havia multidões somadas aos costumeiros aleijados, corcundas, leprosos e outros farrapos humanos. A aglomeração e a sujeira naquele local estavam insuportáveis.
Procurei um lugar tranqüilo, menos tumultuado, longe da entrada para ver a chegada do futuro rei. Havia muita gente em toda estrada, da cidade até onde me postei. Estenderam vestes cobrindo o chão para recebê-lo. Resultou muito mais bonito que os tapetes do templo. O caminho estava tão colorido e vivo que lembrava um tapete de flores.
Fazia muito calor. Os ambulantes cobravam fortunas por um copo d’água, por uma vasilha de coalhada ou um punhado de damascos. Apesar de antiecológico, fiz como todo mundo, cortei uma folha de palmeira para me abanar.
Está cada dia mais difícil de morar em Jerusalém. Pessoas vindas de todos os lugares invadiram a cidade. O templo, que foi construído para ser habitado pelo Senhor, agora motiva a peregrinação da Páscoa e abriga as festas de Pentecostes e dos Tabernáculos. Cada evento em uma época diferente do ano para não sobrepor os negócios. O templo transformou-se em mercado. Há tendas com mercadorias e mercadores de todas as nacionalidades. Azeite grego, vinho romano, queijos celtas, nêsperas dos sírios, essências dos gauleses, tapetes persas, cerveja dos bávaros, mulheres da mesopotâmia e até miniaturas de pirâmides dos egípcios.
Se a procedência dos mascates é variada, variadas também são as moedas. Colocam no mesmo saco dracmas, denários e pondios de prata, sestércios de latão, musmis e kutruns de bronze. Assim como necessitamos de cambistas, precisamos dos tradutores. Há um, lá no templo, com uma placa que diz: ab hoc et ab hac – discorrer sobre alguma coisa que não entende. De que adianta? Poucos sabem ler.
A nós, hebreus, cabe conviver nessa nova Babel.
E agora, chega mais um forasteiro diretamente de Nazaré, lá da Galiléia. Este, ao menos é judeu e traz a expectativa de melhores tempos.
Por causa da peregrinação da Páscoa milhares de peregrinos vieram Jerusalém. Os ambulantes montam e desmontam suas barracas num piscar de olhos. Há gente de todo lugar: gregos, fenícios, romanos. Até acredito ter visto um japonês tirando fotos.
A tarde foi passando e enquanto o profeta não vinha fui a uma barraca de um fenício para comer um espetinho de pomba passado na farofa. Fiquei furioso porque, além do carneiro e das pombas, no braseiro havia carne contrabandeada. Carne de porco! Os rabinos proibiram a carne de porco há muito tempo. Eu protestei com o assador, mas ele fez de conta que não entendia nada do que eu dizia. Devolvi a pomba e exigi meus shekels de volta. Preciso anotar isso, estou convicto que um dos cavaleiros do apocalipse trará a gripe suína.
Minutos depois Cristo apareceu na curva. Foi a minha sorte estar com as mãos vazias, peguei a minha folha de palmeira e também abanei o homem que veio trazer a fé por dias melhores.
Quase toquei nele, passou bem pertinho. Pude ver o brilho dos seus olhos. Cavalgava ereto. Usava um manto vermelho desbotado pelo sol e sandálias iguais às minhas. O belíssimo cavalo branco estava com a crina aparada e parecia saber que estava levando alguém importante.
Jesus, a família dele, seguidores, escribas, e o pessoal de uma emissora de tevê, todos acompanharam o mestre. Todos no mesmo caminho, pisando e tropeçando sobre o tapete de vestes.
Em vez de seguir a multidão, resolvi esperar um pouco e comer alguma coisa numa barraca de um compatriota. Eu saboreava um kishke quando um romano, naquele sotaque carregadíssimo, comentou comigo que o rei chegara de jerico.
Ele entendeu tudo errado, distorceu a realidade: Jesus veio de Jericó!
Eu imagino que esse deve ser um daqueles exploradores que têm uma lojinha no templo e se diz tradutor juramentado. Depois dizem que eu não capto a importância daquilo que passa na frente do meu nariz.

05 agosto 2009

Tomates educativos


Não. Não. Não! É preciso dizer não. Deveria ser obrigatório negar. Deveria ser imperativo proibir. Dizer não é ensinar, é educar.

Ontem fui ao supermercado para comprar frutas e legumes. Quando cheguei à gôndola dos tomates, uma senhora gorda e sem modos ocupava todos os espaços em movimentos rápidos e loucos, atirando os tomates rejeitados em todas as direções, impedindo que qualquer outro cliente se aproximasse. Totalmente à vontade, sem a menor consideração, a mulher jogava frutos nas pessoas e no chão. Ao redor, havia pelo menos cinco incrédulos consumidores que, num misto de espanto e riso nervoso, reprovavam a atitude silenciosamente. Pasmado, juntei-me a eles.

Um garoto de uns dez anos se aproximou, tentou pegar um tomate e quase levou um bofetão. Na mesma hora, sem pestanejar, pegou um dos tomates lançados ao chão e atirou na testa da balofa senhora.

Todos aplaudiram a atitude do menino. Só aí a gorda parou com os gestos agressivos, egoístas e desrespeitosos. Fez um muxoxo de desprezo e virou-nos as costas como se ela é que fosse a grande vítima do episódio.

A platéia recolheu os frutos do piso, recolocou na gôndola e, de forma civilizada, cada um escolheu aqueles que considerava os melhores. Depois o mundo voltou a ser aquilo que sempre fora.

Será?

O meu carrinho já estava pela metade. Detergente, lustra móveis, sabão. Desodorante, pasta dental, algodão. Açúcar, óleo de soja, feijão. Laranja, abacaxi, melão e tomate.

Os tomates tiraram meu ritmo.

A partir daquele momento, só pensei no nosso caos de cada dia. Ainda há pouco, vi duas pessoas disputando a mesma vaga no enorme estacionamento. Adiante, uma zelosa mãe pegou uma maçã, esfregou na própria roupa e ofereceu ao filhinho choramingão. Depois, observei um moço retirando um bombom de um pacote fechado. Ele ainda me perguntou, de boca cheia, se eu também queria um, antes de jogar o papel no chão. Ninguém é advertido, ninguém é punido, ninguém passa constrangimento. Tudo é feito à vista, sem nenhum acanhamento.

Estes pequenos delitos, faltas e desvios, na verdade, grandes absurdos, parecem ser bem absorvidos pela nossa sociedade. Eles são terríveis quando praticados pelos outros. Teoricamente, nós podemos, nossos filhos podem. Nada proibimos aos nossos. Este é o nosso problema: a impunidade.

Falta educação! Precisamos educar a nossa sociedade como um todo. O sistema está podre na base. Pai e mãe por precisarem trabalhar o dia todo, estão ausentes na educação dos filhos. No pouco tempo de convívio, preferem ser amáveis e gentis a serem duros e rigorosos nos valores éticos e morais. Relaxam a guarda e são totalmente permissivos em todos os atos dos filhos. Os filhos crescem e já não há mais como retomar alguma autoridade. Por necessidade, repassam a educação dos filhos para a escola. Infelizmente os professores estão despreparados para educar e lhes é negada a autoridade para isso. Cabe aos professores apenas a obrigação de ensinar as matérias curriculares. Aos alunos não são colocados limites. A garotada tudo pode.

O problema é mais grave porque não me refiro apenas à atual geração. Isto já acontece há muito tempo. Temos toda uma sociedade permissiva. Ninguém proíbe. Quando há proibição, não há punição, logo, há desobediência.

As autoridades não servem como exemplo.

Marginais, políticos e bandidos de colarinho branco têm a certeza da impunidade.

Hoje, com o menino do supermercado, aprendi uma grande lição. Não ficarei mudo e omisso frente à impunidade. Eu, ao menos, farei justiça com as próprias mãos.

A partir de agora, sempre terei uma sacola cheia de tomates maduros. Estarei pronto para acertar a testa dos incautos que atravessarem um sinal vermelho, que estacionarem em fila dupla, que fumarem dentro do elevador. Também haverá tomates para artistas que atrasarem espetáculos, para os responsáveis pelos buracos da rua, para os responsáveis pelo mau atendimento médico, para o cambista na porta do estádio, para os jornalistas omissos, políticos corruptos e empresários corruptores.

Acredito que este esporte pode até ser divertido e virar mania nacional. Pisou no tomate? Leva tomatada! O mundo vai ficar vermelho.

Quando acabarem com os tomates, será a vez das berinjelas, pepinos, jilós e repolhos. Até consigo imaginar o repórter do jornal televisivo ameaçando com um maço de aipo na mão.

Começarei amanhã mesmo. Irei munido ao banco. Sabe o que pode acontecer se eu for atendido após 15 minutos de espera?

Começarei amanhã mesmo. Irei munido ao banco. Sabe o que pode acontecer se eu for atendido após 15 minutos de espera?

Em represália, todos da fila e funcionários também jogarão tomates em mim.


25 julho 2009

Casal contrata vizinho para gerar filho



Você conhece aquela do casal alemão que queria por que queria, ter filhos apesar do marido ser estéril? É muito engraçada.
O marido era improdutivo. E por isso resolveram contratar um vizinho, pai de dois moleques, para gerar a tão desejada criança. O vizinho se esforçava, comparecia três vezes por semana e a contratante nada de engravidar. Tantas fizeram e tantas vezes tentaram, por seis meses, e nada da mulher botar barriga. Até que o marido insistiu para que o contratado passasse por exames médicos. Os testes mostraram que o infeliz também era estéril. Os olhos acusativos concentraram-se numa pessoa. Por causa disso a esposa do vizinho confessou que as duas crianças não eram dele.
Não é piada. Foi manchete, com nome e sobrenome dos envolvidos, na revista Bild.
Eu me pergunto: o que leva um casal a essa loucura? Porque um estranho aceitaria a incumbência? Como seria o contrato entre gerador e geratriz? Será que a moça em questão era um sonho ou um pesadelo? Como seria a escolha do vizinho adequado? Quais as qualidades procuradas no gerador? Como seria a execução contratual?
Com tantas perguntas, para um caso tão bizarro, resolvi, eu mesmo, criar personagens e bastidores do fato. Vício de escritor.
Na minha opinião, a mulher em questão só pode ser uma balzaquiana fogosa, de personalidade forte e preocupada em atingir a idade em que a gravidez começa a representar risco. O homem realiza todos os desejos da amada, foi bonito e forte, agora já está passadito e cada vez mais mesquinho. Após 15 anos de casamento, ela só fala em crianças enquanto ele vê futebol na tevê. Só larga a cerveja para mudar de canal.
Eu, com certa experiência de vida, tenho cá os meus palpites.
Após 10 anos de insistência o marido fez os exames de fertilidade e comprovou-se porra nenhuma. A esposa desespera-se e propõe a fertilização in vitro. O muquirana do esposo sugere a adoção imediato, sensato e barato. Ela, por sua vez, levanta a blusa e diz que mãe, só de barriga. Nem adoção, nem inseminação. Quer tradição. Só para ficar na rima.
O marido faz cara de interrogação.
— E existe alguma outra forma?
— Para engravidar sem gastar, melhor um amigo fértil, chamar.
O marido se incomoda com outra rima pobre e coça uma pequena protuberância na testa.
— Como assim?
A gente podia chamar o Dieter que tem três filhos. Ou o Hans pai de duas filhas ou ainda o Fritz que tem seis herdeiros, todos loirinhos e de olhos claros.
— Você está absolutamente maluca! Essa idéia é ridícula, absurda, ofensiva e paranóica. Esses três bastardos moram muito longe. Recuso-me a pagar vale-transporte para neguinho vir, até a minha casa, trepar com a minha esposa.
— Se o problema for esse, podemos pedir a algum vizinho.
— Não gosto de pedir nada a vizinhos. Hoje a gente pede um favorzinho e amanhã o sujeito fica à vontade e se sente no direito de pedir emprestado sal, açúcar ou farinha. Onde já se viu?
Ela joga os cabelos por cima dos ombros, morde o lábio, provocativa.
— Amorzinho, eu te amo tanto. Em vez de pedirmos um favor, simplesmente, a gente poderia propor um trabalho profissional.
— Isso faz sentido. Mas você sabe muito bem que odeio a idéia de gastar dinheiro.
— Não se preocupe, olhe estas minhas coxas – levantou a saia . — Acho que o futuro pai das minhas crianças pode dar um bom desconto por causa delas.
— Ainda acho lunática a idéia de chamar alguém para fazer os nossos filhos.
— Que bonitinho. Você está com ciúmes. Isso é bobagem. Um contrato é o melhor caminho para transformar pudores em ofício. Tudo será profissional, sem nenhum tipo de envolvimento pessoal.
Nestas alturas, concluo que a discussão entre o casal se transformou em uma reunião de negócios entre dois sócios que procuram viabilizar, objetivamente, assunto de alto interesse para o sucesso da empresa.
— O vizinho da casa 38 — propõe ela — é jovem e já tem dois rapazes e duas moças.
— Ele bebe muito, chega tarde e torce para o Bayern de Munique, nosso arquirival.
— O da 75 — não bebe, e é pai de sete filhos.
— Impossível. Esse desgraçado sempre estaciona o carro na frente do portão da nossa garagem. Toda vez que chego em casa tenho que ligar para ele e pedir que tire o carro.
— Parece que você tem birra dos seus chegados. Coisa feia. Que tal o da casa 69?
Ele olha torto e pensa exatamente o que você, leitor, está pensando.
— Tem certeza que quer fazer filhos?
— Também tem o da 112. Ele é forte, jovem, bonito, fala três línguas, tórax desenvolvido, pernas grossas...
O marido interrompeu.
— Você quer prazer ou filhos? Quem sabe o vizinho da casa 52? Ele está na faixa de 35 anos, tem dois filhos e uma esposa compreensível. É alto, de boa aparência e precisa de dinheiro.
Chegaram ao consenso.
Não deve ter sido difícil convencer o morador da 52. A esposa do 52 discutiu, esperneou, relutou, sugeriu e quase convenceu o casal que o morador da 112 deveria ser reconsiderado. Na argumentação dela, o Peter, vizinho da 112, tinha todos os quesitos e atributos para ser um bom reprodutor, só não tinha filhos porque era solteiro.
Uma vez resolvida a questão do quem, meu caro leitor, consigo perceber a preocupação do marido em incluir cláusulas contratuais como prazo, local de trabalho, fiscalização e compartilhamento. É lógico que o compartilhamento está incluído. Ou você acha que ele não faria as preliminares, cabendo ao vizinho apenas a finalização?
O item final do contrato seria o sigilo absoluto. Ninguém pode saber de nada. Muito menos algum cronista fofoqueiro.

19 julho 2009

Achttausendachthundertachtundachtzig

Você gosta de congestionamento? Alguém gosta? No pára e anda do trânsito, é difícil de fazer qualquer outra atividade além de falar escondido no celular. A minha preferência, numa sala de espera, é um livro. Não estava numa sala de espera. Estava dentro de um carro e dirigindo. Sem a menor chance de ler um livro. Só me restava ligar o meu Blaupunkt. Isso parece palavrão, mas é apenas a marca do rádio do meu Volkswagen.
Para meu alívio a música é brasileira. Caetano Veloso é brasileiro, mesmo quando faz rock, rumba ou foxtrot. Com seu jeito moleque também faz rap. Só mesmo Caetano para gostar de roçar a língua na de Luís de Camões e depois afirmar que está provado que só é possível filosofar em alemão. Será que eu ouvi direito?
Está provado que só é possível filosofar em alemão?
Ah, meu amigo, você é um pensador polêmico por natureza. E, por isso mesmo, sou obrigado a discordar de você. Filosofar não está entre as minhas 50 preferências. Confesso que preferiria andar de bicicleta ou chupar uma laranja. Mesmo que uma coisa nada tenha a ver com outra.
Dizem que filosofar é questionar. No momento, a dúvida mais importante que me abala é saber se posso devorar a bomba de chocolate da geladeira daqui a 15 minutos ou se devo comê-la agora mesmo.
Observe que todos os meus pensamentos, por mais desconexos, foram elaborados em português. O mesmo idioma de Camões, Pessoa, Bilac e Machado. Considero relativamente fácil encadear idéias e pensamentos em português. Impossível, da minha parte, raciocinar em alemão. No máximo, lembro e associo algumas poucas palavras.
Siemens, Lufthansa, Hamster, Malzbier. Servem para telefonar do avião informando que vi um camundongo tomando todas.
Kombi, Johann Faber, Odebrecht, Blitz, Führer. Têm utilidade quando dizemos que o transporte do apontador da obra foi surpreendido numa barreira policial e será punido pelo chefe ditador.
Friedrich Nietszsche, Bunker, Ludwig van Beethoven, Apfelstrudel, Liebfraumilch, Eisbein. Além de enrolarem a língua, servem para informar que Nietszsche filosofava em alemão porque estava bem protegido e se inspirava ouvindo música erudita comendo do bom e do melhor.
É sensato pensar que tudo seria diferente se Nietzsche tomasse água de coco, na lagoa de Abaeté, ouvisse Ivete, Claudia Leite e axé, comesse vatapá, cururu e acarajé. Então faria letras e músicas sensuais para mulatas como a Juliana Paes e outros simples mortais.
O germânico gosta de grudar palavras, umas nas outras para escrever palavrão. Nos números são mestres. Tente dizer 8888, achttausendachthundertachtundachtzig.
Remexendo um bocadinho e percebendo nas palavras todo o jeitinho, Caetano não queria que eu filosofasse em alemão. Isso é para Kant, Schoppenhauer, Marx e outros de plantão. Nossa língua não se presta para essas artes, serve para gingar capoeiras e rebolar malandragens. Ela tem a pimenta da gafieira, o drible tropical e o chamego brasileiro.
Caetano está com a razão, filosofar, jamais em português, só em alemão.

17 julho 2009

XXI Politeama - sarau diverso



Prestenção: sarau número 21. Se já houve tantos e continua, é porque é coisa boa!

A noite de Politeama está chegando....

O nosso encontro mais do que aguardado de toda arte: música, poesia, teatro, dança e quem mais chegar!


Desta vez o BDE terá muito o que comemorar.Teremos o pré lançamento do Livro Asas do nosso querido Cesar Veneziani e

também a super presença de Roberto Klotz trazendo pra gente o seu Pepino e farofa . Não Percam!!!!!!!!!!!

Data: 21/07/2009 – terça-feira
Hora: 20 h 46 (daquele jeito)

NOVO Local: Fidalga 33
Rua Fidalga, 32 – Vila Madalena (em São Paulo)
Tel: 3032-7346


$ 1 ( repasse ao técnico de som)
Pocket Show:Tiago Rocha


Músicos – LEVEM SEUS INSTRUMENTOS

O restante continua igual. Palco livre, arte boa, encontro humano tendo apenas duas premissas: GENTILEZA e ATENÇÃO!

Convidem seus amigos, sigamos o projeto com força total!

Acompanhe no orkut os comentários ao convite

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=3891757&tid=5357988946055098279&na=4


Imagens do sarau de 15 de julho de 2008

14 julho 2009

Uma escada para o desconhecido

Exercício proposto na oficina literária da Câmara dos Deputados.

http://ciberescritos.queroumforum.com/viewtopic.php?p=283


Uma escada para o desconhecido...
O que se encontra no topo da escada? Que sentimentos assaltam a mente ao pisar cada um dos 13 degraus ferrugentos?

Maldita hora em que desci do táxi. Julguei que apenas em filmes de terror e pânico existissem lugares tão sujos, escuros e habitados por seres com doenças estampadas nas caras e corpos. Sinto-me como um bife suculento jogado no meio de feras esquálidas de fome. Minha única saída é uma escada ferrugenta. O azar me persegue. São 13 degraus para sair do inferno e entrar num túnel de concreto escuro. Na melhor das hipóteses encontrarei apenas morcegos. Não tenho outra opção.

10 julho 2009

Poetisa


Ela pegou o meu pau com lirismo e eu disse que ela era uma poeta de mão cheia.

03 julho 2009

Na curva do rio


Por que eu deveria sentir medo? Quase todo dia eu ia pescar na beira do rio, lá no fundo de casa. Só que já era noite. Noite de vento gelado e de poucas estrelas.
Diziam que à noite a alma do velho do rio procurava algum corpo para encarnar.
De tarde, eu esquecera o canivete do papai junto ao pé da árvore. Se ele descobrisse o sumiço, eu apanharia de cinta.
A lanterna estava sem pilhas, nem adiantaria levar uma vela. O vento assopraria. Eu conhecia bem o caminho, nem 20 minutos e estaria de volta.
Quando trisquei a mão no canivete, uma coruja, bem na minha cabeça, deu um grito rasga-mortalha. Voltei em 10 segundos. Não lembro se peguei o canivete ou se apanhei de cinta. Ainda ouço o grito da maldita.

28 junho 2009

Homem-árvore assalta banco


Para alguns a tarefa de cronista é penosa, para outros é prazerosa. Jogo no segundo time. De manhã, enquanto sigo o meu trajeto diário até a redação, fico antenado procurando captar alguma coisa que chacoalhe a alma. Na maioria dos dias, presto atenção no trânsito. As luzes verdes para a escrita só acontecem quando abro e leio pequenas notícias espalhadas no jornal.

Esta foi uma semana farta de fatos extraordinários: baleias entraram em greve de sexo; traficantes colombianos fizeram carnaval com o Natal; espanhol disparou torpedo contra Evo Morales; serpente bígama teve caso com mulher e hamster; homem enfartado no coração de NY é reconhecido graças à coleira do cachorro; médicos franceses esquecem guimba em cirurgia encefálica. O jornal de hoje traz uma pequena nota internacional que sacode meus sentidos: um homem, para não ser identificado, disfarçou-se de árvore para roubar um banco. A notícia mesmo sendo curtíssima, informou também que, apesar da camuflagem, o homem foi preso. Só. Só isso, mais nada. A nota acabou por aí.

Resolvo desvendar o curioso assalto passo a passo. Meu editor não vai pagar passagens nem hospedagem. Devo viajar na minha criatividade. Mentalmente, entrevisto todas as testemunhas e reescrevo a nota tal qual deveria ter sido escrita desde o início.

A esposa, aborrecida com a vida sedentária e vegetativa do marido, imaginou-o trabalhando em uma profissão digna e incentivou-o a trazer dinheiro para casa.

O marido, sempre acomodado, resolveu que o mais fácil seria assaltar um banco. A escolha recaiu num da mesma rua em que morava, o que facilitaria muito sua vida, pois poderia ir e voltar a pé do trabalho.

O maridão era acomodado, mas não bobo. Planejou algo simples e infalível: entraria, apontaria a arma, pegaria o dinheiro e voltaria para casa. Faltava o detalhamento. Foi até a agência fazer um reconhecimento. Anotou horários, contou o número de guichês, verificou que o café oferecido estava frio e que várias câmaras monitoravam os clientes.

Pensando em escapar da identificação teria que criar um disfarce. Na loja de fantasias, experimentou de cowboy, tigre do sucrilhos, Mickey Mouse, astronauta e Bob Esponja. Aluguéis caríssimos. Voltou para casa e encontrou a solução no jardim. Iria disfarçado de árvore. Na mesma hora cortou vários galhos e costurou uma roupa. Resolveu que faria o assalto no dia seguinte, antes da fantasia murchar.

Logo cedo, fincou raízes na calçada em frente do banco. Para sua alegria, nenhum dos pedestres fez qualquer pergunta ou olhou com desconfiança. Apesar do frio e desconforto, ganhou mais confiança quando um cachorro levantou a perna para regar-lhe o tronco. O tempo passou. Vários clientes se aglomeraram na entrada esperando a abertura da agência. A porta abriu e um velho cegueta apagou o cigarro nos seus pés. Todos entraram rapidamente, exceto ele, pois árvores com os pés queimados, não costumam se locomover com rapidez.

Entrou na fila destinada a idosos, grávidas, deficientes físicos e mentais. Embora fosse um banco americano, a fila, por demorada, era brasileira.

Esperou calmamente. Na sua vez, apontou a arma:

— Isto é um assalto!

O caixa, assustado, olhou de baixo para cima.

— Não pode ser. Árvores não falam. Não pode ser um assalto, talvez uma fábula!

— Sem gracinhas! Ponha a grana na cestinha! Rápido.

Depois de esvaziar as gavetas dos três caixas retirou-se.

A polícia só chegou depois de quinze minutos, quando o homem-árvore já havia sumido.

Os investigadores começaram o trabalho imediatamente. No interrogatório às testemunhas, descobriram que o homem-árvore, nem grande nem frondoso, estava muito mais para homem-arbusto. Logo chegaram à conclusão que era um sujeito muito bem mandado, sem opinião e que era podado pela mulher. De acordo com as fichas de assaltantes de bancos, os suspeitos naturais seriam: João Oliveira, Pedro Carvalho e José da Mata. Porém, tratava-se de uma casa bancária americana e por isso os suspeitos, John Oliver, Peter Oak e Jo Forest, estavam em outra lista.

Para evitar nova onda de roubos a bancos, o FBI contratou o melhor detetive de todos os tempos e, já no dia seguinte, a polícia cercou o domicílio do perigoso meliante. Um helicóptero e pelo menos cinqüenta carros entraram em ação. Atiradores de elite foram posicionados na frente e nos fundos da residência. O pessoal da tevê espalhou-se na frente, fundos, laterais da casa e em outros quatro helicópteros.

Quando todas as câmaras estavam ajustadas, o xerife cuspiu o chiclete e gritou no megafone para o bandido sair sem reagir, senão ia dar galho — mocinhos de filmes americanos sempre fazem trocadilhos idiotas nos momentos mais tensos.

Treeman saiu de braços erguidos e perguntou como encontraram o seu esconderijo.

O famoso detetive deu uma tragada profunda no cachimbo e ergueu uma das sobrancelhas.

— Elementar, meu caro Watson. Nós estamos no outono. Nesta época, as árvores perdem as folhas. Bastou seguir o rastro das folhas até a sua casa.

Agora, cá entre nós, o bobo, o idiota, o preguiçoso, o culpado de tudo, foi o estagiário de jornalista que não soube colher os frutos da deliciosa matéria.


 
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