31 maio 2016

Eu estava em lá

Jerusalém, dia 23 do segundo mês, no ano 171
Prezado editor,

Segue a minha reportagem sobre os eventos ocorridos aqui hoje. Sem dúvida é matéria com direito a chamada na capa do jornal.

O zum-zum-zum correu boca-a-boca: o Rei dos Judeus chegaria a Jerusalém logo mais à tarde. A fama de milagreiro chegara muito antes. Ouvíramos falar que ele mostrara arco-íris a cegos, que possibilitara a surdos a ouvir passarinhos e ensinara coxos a pular como cervos.
Muito ansiosos, esperamos por ele. Precisamos de mudanças, mas acho que exageram um pouco na esperança que a profecia das escritas sagradas se concretize. Dizem que reinará com justiça, será um abrigo contra a tempestade, será como um teto protetor contra a chuva torrencial, será como a água em lugar ressequido e será como a sombra de um alto rochedo em terra árida.
Falam que nasceu pobre, que é gente do povo. Que não usa coroa, nem manto nem jóias. Que seus trajes são iguais aos nossos. Dizem até que fala a nossa linguagem.
Ninguém aguenta mais os pesados impostos, a falta de pão e, principalmente, a humilhação dos poderosos. Precisamos de mudanças.
Todos queriam saudar a chegada do Messias, o salvador. Nos portões da cidade, havia multidões somadas aos costumeiros aleijados, corcundas, leprosos e outros farrapos humanos. A aglomeração e a sujeira naquele local estavam insuportáveis.
Procurei um lugar tranqüilo, menos tumultuado, longe da entrada para ver a chegada do futuro rei. Havia muita gente em toda estrada, da cidade até onde me postei. Estenderam vestes cobrindo o chão para recebê-lo. Resultou muito mais bonito que os tapetes do templo. O caminho estava tão colorido e vivo que lembrava um tapete de flores.
Fazia muito calor. Os ambulantes cobravam fortunas por um copo d’água, por uma vasilha de coalhada ou um punhado de damascos. Apesar de antiecológico, fiz como todo mundo, cortei uma folha de palmeira para me abanar.
Está cada dia mais difícil de morar em Jerusalém. Pessoas vindas de todos os lugares invadiram a cidade. O templo, que foi construído para ser habitado pelo Senhor, agora motiva a peregrinação da Páscoa e abriga as festas de Pentecostes e dos Tabernáculos. Cada evento em uma época diferente do ano para não sobrepor os negócios. O templo transformou-se em mercado. Há tendas com mercadorias e mercadores de todas as nacionalidades. Azeite grego, vinho romano, queijos celtas, nêsperas dos sírios, essências dos gauleses, tapetes persas, cerveja dos bávaros, mulheres da mesopotâmia e até miniaturas de pirâmides dos egípcios.
Se a procedência dos mascates é variada, variadas também são as moedas. Colocam no mesmo saco dracmas, denários e pondios de prata, sestércios de latão, musmis e kutruns de bronze. Assim como necessitamos de cambistas, precisamos dos tradutores. Há um, lá no templo, com uma placa que diz: ab hoc et ab hac – discorrer sobre alguma coisa que não entende. De que adianta? Poucos sabem ler.
A nós, hebreus, cabe conviver nessa nova Babel.
E agora, chega mais um forasteiro diretamente de Nazaré, lá da Galiléia. Este, ao menos é judeu e traz a expectativa de melhores tempos.
Por causa da peregrinação da Páscoa milhares de peregrinos vieram Jerusalém. Os ambulantes montam e desmontam suas barracas num piscar de olhos. Há gente de todo lugar: gregos, fenícios, romanos. Até acredito ter visto um japonês tirando fotos.
A tarde foi passando e enquanto o profeta não vinha fui a uma barraca de um fenício para comer um espetinho de pomba passado na farofa. Fiquei furioso porque, além do carneiro e das pombas, no braseiro havia carne contrabandeada. Carne de porco! Os rabinos proibiram a carne de porco há muito tempo. Eu protestei com o assador, mas ele fez de conta que não entendia nada do que eu dizia. Devolvi a pomba e exigi meus shekels de volta. Preciso anotar isso, estou convicto que um dos cavaleiros do apocalipse trará a gripe suína.
Minutos depois Cristo apareceu na curva. Foi a minha sorte estar com as mãos vazias, peguei a minha folha de palmeira e também abanei o homem que veio trazer a fé por dias melhores.
Quase toquei nele, passou bem pertinho. Pude ver o brilho dos seus olhos. Cavalgava ereto. Usava um manto vermelho desbotado pelo sol e sandálias iguais às minhas. O belíssimo cavalo branco estava com a crina aparada e parecia saber que estava levando alguém importante.
Jesus, a família dele, seguidores, escribas, e o pessoal de uma emissora de tevê, todos acompanharam o mestre. Todos no mesmo caminho, pisando e tropeçando sobre o tapete de vestes.
Em vez de seguir a multidão, resolvi esperar um pouco e comer alguma coisa numa barraca de um compatriota. Eu saboreava um kishke quando um romano, naquele sotaque carregadíssimo, comentou comigo que o rei chegara de jerico.
Ele entendeu tudo errado, distorceu a realidade: Jesus veio de Jericó!

Eu imagino que esse deve ser um daqueles exploradores que têm uma lojinha no templo e se diz tradutor juramentado. Depois dizem que eu não capto a importância daquilo que passa na frente do meu nariz.

27 maio 2016

Dois Irmãos - Milton Hatoum

Dois irmãos
Milton Hatoum

Companhia de Bolso
200 páginas
R$25,00


O primeiro capítulo do livro é curtinho, porém muito impactante. O autor recortou um trecho de altíssimo grau de emoção da história e abriu o livro com ele.
Eis os dois últimos parágrafos deste capítulo:
“Eu não a vi morrer, eu não quis vê-la morrer. Mas alguns dias antes de sua morte, ela deitada na cama de uma clínica, soube que ergueu a cabeça e perguntou em árabe para que só a filha e a amiga quase centenária entendessem (e para que ela mesma não se traísse): “Meus filhos já fizeram as pazes?”. Repetiu a pergunta com a força que lhe restava, com a coragem que mãe aflita encontra na hora da morte”.
“Ninguém respondeu. Então o rosto quase sem rugas de Zana desvaneceu; ela ainda virou a cabeça para o lado, à procura da única janelinha da parede cinzenta, onde se apagava num pedaço do céu crepuscular”.
            O capítulo lança uma questão “Meus filhos já fizeram as pazes?“ que mostra um enorme conflito e com a pergunta atiça a curiosidade do leitor. Antes de responder sim ou não, somos provocados à bisbilhotice, queremos saber que motivo é forte o suficiente para colocar em lados opostos dois irmãos? Ansiamos por saber por que estão brigados.
            A história se passa em Manaus de 1910 a 1968. No período, o autor mostra a evolução da cidade enquanto inunda as páginas com as águas do rio Negro e enreda a história de imigrantes libaneses com ramos das seringueiras e sons dos pios de jaçanãs e jacu-ciganas.
Aos poucos somos apresentados aos irmãos gêmeos Omar e Yaqub
Em relação a Yaqub: “O que lhe faltava no manejo do idioma sobrava-lhe no poder de abstrair, calcular, operar com números”.
“E para isso”, dizia o pai orgulhoso, “não é preciso língua, só cabeça. Yaqub tem de sobra o que falta no outro”.
O outro, o Caçula – referindo-se a Omar – exagerava as audácias juvenis: gazeava lições de latim, subornava porteiros sisudos do colégio dos padres e saía para a noite, fardado, transgressor dos pés ao gogó, rondando os salões da Maloca dos Barés, do Acapulco, do Cheik Clube, do Shangri-Lá. De madrugada, na hora do último sereno, voltava para casa.
“Colhe a orquídea mais rara, mas também arranca a aninga da lama”.
Apesar de narrado na primeira pessoa, durante muito tempo ficamos sem saber quem é o narrador. “E a mim, sem me olhar, sem se importar com a minha presença Na verdade, para Zana, a mãe dos gêmeos, eu só existia como rastro dos filhos dela”.  
No transcorrer da história descobrimos que o narrador é filho de um dos gêmeos com a empregada índia que mora nos fundos da casa. O narrador, desprezado pela família, quer saber quem é o pai.
Quem são os pais dos gêmeos?
Halim, marido de Zana e pai dos gêmeos era comerciante. “Vendia coisas de qualquer um. Vendia sem prosperar muito, mas atento à ameaça da decadência, que um dia ele me garantiu ser um abismo. Não caiu nesse abismo, nem exigiu de si grandes feitos. O abismo mais temível estava em casa, e este Halim não pode evitar”.
“A intimidade com os filhos, isso o Halim nunca teve. Uma parte de sua história, a valentia de uma vida, nada disso ele contou aos gêmeos”.
“Mas acreditava, bêbado de idealismo, no amor excessivo, extático, com suas metáforas lunares. Um romântico tardio, um tanto deslocado ou anacrônico, alheio às aparências poderosas que o ouro e o roubo propiciam. Talvez pudesse ter sido poeta, um flâneur da província; não passou de um modesto negociante possuído de fervor passional”.
E quem era a esposa Zana?
“Era possuída por uma teimosia silenciosa, matutada, uma insistência em fogo brando; depois, armada por uma convicção poderosa, golpeava ferinamente e decidia tudo, deixando o outro estatelado.”
E a pergunta lançada o primeiro capítulo?
“O duelo entre os irmãos era uma centelha que prometia explodir”.
“Duelo? Melhor chamar de rivalidade, alguma coisa que não deu certo ente os gêmeos ou entre nós e eles, revelou-me Halim, mirando a seringueira centenária no quintal.”
Antes que eu, nas transcrições, revele mais do que deveria, adianto que se trata de uma história triste, uma história sem advertências ou opiniões de moral. É história de seduções consanguíneas. É história de incestos, paixões e ódios.

Em vez de responder a pergunta, elaboro outra: porque levei tanto tempo para conhecer a escrita de Milton Hatoum?

24 maio 2016

A picape

A picape

– O casal foi em casa na hora do almoço. Confirmei que a minha camionete era de cabine dupla. Entraram. Minha esposa ofereceu doce de abóbora com coco aos dois. Célia aceitou. Ela e minha mulher ficaram conversando na sala enquanto nos dirigimos ao térreo onde a picape estava estacionada. Fazia muito calor e lembro-me que ainda no elevador o Fernando perguntou se a picape tinha ar condicionado.
– E depois?
– O Fernando examinou detalhadamente a pintura, procurou diferenças de brilho, observou se as frestas das portas e do capô estavam uniformes. Abriu o porta-malas e confirmou que a lataria não sofreu nenhuma avaria. Quando examinou o motor comentou que não gostava quando o motor era lavado, pois ocultava possíveis vazamentos. Percebi que os olhos dele brilharam quando viu a quilometragem. Orgulhosamente disse que eram 28 mil quilômetros de asfalto da cidade e de uma única e maravilhosa viagem percorrendo todo o nordeste em lua-de-mel. – Aí, o Fernando virou a chave e ouviu o ronco do motor diesel. Ele fechou a porta, abaixou o vidro e perguntou se a rua à frente era de mão para a esquerda ou a para direita. Engatou a primeira e saiu lentamente.
– E a senhora, dona Andréia?
– Fiquei ouvindo a Célia me contar que o Fernando era uma pessoa muito querida. Que eles passaram a noite em claro se amando loucamente e agora, de manhã, juntos, fizeram compras no shopping. Ela ganhou a blusa e a calça que estava usando. A bolsa também era nova para combinar com as sandálias. Ela estava eufórica porque o Fernando iria apresentá-la para a família dele e gostaria que ela estivesse maravilhosa. Ah, e também foi presenteada com um relógio.
– E o que mais?

Ela disse que estava apaixonada pelo Fernando, que ele tinha bom gosto e que escolhera pessoalmente aquela blusa. Ela disse que deveria ter um decote atraente porém sem ser vulgar. Que detestava vulgaridades.
Como foi que a senhora, dona Célia, conheceu o senhor Fernando?
Eu me formei em pedagogia e não consegui encontrar emprego. Trabalhei como secretária num escritório de advogados por seis anos e fiquei desempregada e resolvi ganhar dinheiro da mesma forma como paguei minha faculdade. Coloquei anúncio no jornal e foi daí que o Fernando me ligou.
– Então a senhora conheceu o Sr. Fernando ontem à noite, fizeram um programa, foram às compras e depois escolheram a picape dele – apontando para o marido da dona Andréia.

– É por isso, seu delegado, que acho que o desgraçado não volta mais com a caminhonete.

13 maio 2016

A cor púrpura


A cor púrpura
Alice Walker
Editora Círculo do livro
258 páginas
R$ 16,00 na Estante Virtual



Este livro foi proposto e eleito pelo Clube de Leitura Leia Mulheres – Brasília. Mais um acerto de qualidade. O grupo se reúne mensalmente para conversar sobre uma obra de autora e este particularmente abre muitas possibilidades de discussão e questionamentos sobre racismo, machismo, lesbianismo, dignidade humana, direitos humanos, mas também é uma historia de resistência, superação e empoderamento de mulheres negras.
Embora não tenha visto, eu já conhecia o título por causa do filme de mesmo nome dirigido por Steven Spielberg, estrelado por Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey e indicado para 11 Oscar’s. (não levou nenhum).
Foi escrito em 1982, vencendo o Prêmio Pulitzer no ano seguinte.
É um romance epistolar, isto é, a narração se desenvolve por cartas escritas primeiro a Deus e depois é uma correspondência trocada entre irmãs desde a adolescência até a meia idade.
A história começa numa pequena cidade da Georgia em 1906 quando Celie, uma menina de 14 anos, é estuprada seguidamente pelo pai, gerando dois filhos. Em outra violência o pai se desfaz das crianças e ainda oferece a irmã mais nova Nettie, em casamento para Sinhô, um senhor viúvo. Ela, por amor e proteção à irmã, se oferece para casar no lugar dela. É feita quase que uma escrava para cuidar da casa e filhos do primeiro casamento dele. Enquanto ele é apaixonado por Doci Avery uma sedutora cantora de blues. Celie, por não ter com quem compartilhar a dor, escreve cartas a Deus. Para piorar a situação Sinhô, acolhe a amante em casa para que Celie recupere a sua debilitada saúde.
É partir desse ponto que a história ganha nova configuração com a descoberta de Celie por outra opção sexual, tomada de consciência da dignidade e conquista da autoestima.
Posteriormente passa a receber cartas da irmã que eram escondidas pelo violento Sinhô e finalmente escreve cartas à irmã.

Apesar da apesar da abolição norteamericana ter sido proclamada em 1863 – Proclamação de Emancipação por Abraham Lincoln – ela não foi capaz de extinguir a humilhação e a violência aos negros nos Estados Unidos. Talvez até tenha motivado a criação de sociedades secretas como a temida Ku Klux Klan que objetivava manter o domínio dos brancos sobre os negros. A discriminação social foi tão grande que somente em 1967, mais de cem anos depois é que foram anuladas as últimas leis de proibição de casamentos interraciais.
É uma história pesada, dolorosa, retratando toda uma época de subjugação da mulher pelo homem e do negro pelo branco. Mas é uma grande história quando mostra a força e a superação triunfantes.


Há muitos personagens, então anotei os mais significativos:

Celie – protagonista. Feia e desajeitada, semi-analfabeta. Lutadora. Celie em inglês tem pronúncia parecida com silly que significa abobado.
Nettie – irmã protegida de Celie. Bonita, estudiosa. Missionária.
Sinhô – ou Albert – viúvo casou-se com Celie. Apaixonado por Doci Avery. Machista, arrogante e infeliz.
Doci Avery – ou dependendo da versão: Shug Avery, cantora de blues, paixão de Sinhô. Sincera, independente e má afamada.
Harpo – filho de Sinhô, casado com Sofia depois com Tampinha.
Sofia – Mulher de Harpo, foi presa pelo prefeito, depois a fez empregada doméstica. Bonita e de personalidade forte. “É o tipo de pessoa que qualque coisa que ela pega na mão fica parecendo uma arma.”
Tampinha – ou Mary Agnes – mulher de Harpo quer ser cantora também.
Grady – namorado de Doci Avery. Aproveitador.
Samuel – Reverendo, com a esposa, adotou Olivia e Adam, filhos de Celie. Como missionário levaram-nos juntos com Nettie para África.
Corrine – mulher do reverendo Samuel.

As cartas escritas (a grande maioria) é de um português capenga, de uma menina que pouco frequentou a escola. Isso cansou a leitura durante muito tempo. Depois, eu me acostumei.
Exemplifico com um parágrafo quando a amante Doci Avery já está na casa de Celie:
“A Doci tá meio entre duente e curada. Meio entre boa e má, também. Na maior parte dos dia agora ela mostra pra mim e pro Sinhô o lado bom dela. Mas hoje ela tá toda brava. Ela ri, feito uma navalha se abrindo. Diz, Ora, ora, veja quem tá qui hoje.”
E Doci retribui o carinho de Celie:
“Ele num tá mais batendo muito em mim desque você fez ele parar, eu digo. Só um tapa uma ou outra vez quando ele num tem mais nada pra fazer.”
Mas a irmã escreve bem: como quando comentou:
“Eu me lembro de certa vez quando você me contou que sua vida deixava você tão envergonhada que nem com Deus você conseguia falar a respeito, você tinha que escrever, apear de achar que você escrevia muito mal.”
Ou ainda num momento de alegria:
“Alguma coisa me tocou na alma, Celie, e como se eu fosse um grande sino, eu simplesmente vibrei.”
Em outro comentário compara os a educação norteamericana com o interior da África onde está como missionária:
“Quando falei para ela que os olinkanos não acreditavam na educação das mulheres ela disse, rápido como um raio, Eles são como os brancos da nossa terra que não querem que os negros aprendam.”
Nas inúmeras cartas observamos que as de Celie apesar de fracas na escrita são fortes em emoção enquanto as escritas por Nettie são fortes na escrita, porém fracas de emoção. O que demonstra uma enorme capacidade da autora de interpretar duas magistralmente as duas personagens.
Indico. A cor púrpura é leitura obrigatória para quem gosta de uma boa história e questiona o racismo, o feminismo e o amor acima de tudo.

10 maio 2016

Palestra de autoajuda


Esta semana recebi três comunicações circulares relembrando a palestra com o prestigiado conferencista de renome nacional, o escritor de cinco best sellersDr. Tiago Neves de Melo Costa. Mesmo quem nunca ouviu falar em Melo Costa passou a enaltecê-lo após propagandearem a manada de informações.
O RH ressalta que as falas do Dr. Tiago superlotam auditórios. Que é muito importante se inscrever, apesar da gratuidade, e confirmar a presença, tendo em vista que o auditório comporta apenas trezentos felizardos. Que a palestra Melhorando a autoestima está contida na filosofia de valorização dos funcionários públicos. Que é restrita aos funcionários desta repartição. Vetada a presença de parentes.



Há vários dias, a figura do Dr. Melo Costa nos recebe com um sorriso de boas-vindas na entrada do nosso prédio. O tamanho do sorriso quase ultrapassa as margens do enorme banner multicolorido.
No hall dos elevadores, os cartazes informam que o Dr. Melo Costa já realizou mais de duzentas palestras de sucesso e que já vendeu mais de três milhões de livros. Que os seus livros “É mole ganhar dinheiro”, “Tenha amigos no lugar certo”, “Valorize-se e suba na vida”, “O mundo é dos vivos” e “O que o outro quer ouvir” estarão à venda.
Nos corredores e nas rodas de cafezinho o assunto é único: a vinda do idolatrado professor Melo Costa. Repentinamente, todos conhecem alguma tia ou vizinho que melhorara de vida após ler um dos livros dele. Os colegas citam frases selecionadas nos livros de Melo Costa: “Ajuda o teu semelhante a levantar a carga, mas não a levá-la.”, “A sorte ajuda os audazes.”, “As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam.”. Uma catarse coletiva estava em andamento e a palestra seria só à tarde.
Às 11h30, recebi mais uma circular informando que os funcionários que não conseguiram se inscrever teriam uma nova oportunidade dentro de 40 dias, porque o RH encontrou uma brecha na agenda do disputado conferencista.
À tarde, meia hora depois do combinado, o professor se instala atrás do microfone e, com a desenvoltura de um bispo evangélico, cativa a plateia extasiada.
Em resumo, enaltece o trabalho dos funcionários públicos, afirma que todos são eficientes e eficazes. Eles é que levam o País para frente. Se há alguma deficiência nas repartições públicas é culpa dos malfalados políticos que transferem a má imagem aos trabalhadores da burocracia.
Incomodei-me ao perceber que o discurso estava de acordo com o título do livro mais recente: “O que o outro quer ouvir”. Quando ele pronunciou com orgulho a própria sabedoria: “Todos os dias fazemos muitas coisas que não são importantes. Mas é muito importante que as façamos.” Um alarme soou na minha cabeça. Essa frase é de Mahatma Gandhi.
Peguei a agenda e passei a anotar outras frases de efeito até o término do teatro, quando todos aplaudiram entusiasmados.
Evitei o lanche de confraternização após a conferência. Fui para a minha sala checar as anotações. Não fiquei surpreso ao consultar a Internet e confirmar que Melo Costa, sem constrangimentos, se apossara de pensamentos do Dalai Lama, de Shakespeare, Pitágoras, Sófocles, Paulo Coelho.
Em outra pesquisa, descobri que todas as palestras aconteciam em órgãos públicos: secretarias estaduais, prefeituras, estatais, câmaras municipais e até no Senado Federal. Procurei em listas de mais vendidos e nada encontrei. Todos os livros foram adquiridos pelo governo para distribuição nas escolas e bibliotecas públicas. Sem dúvidas, o Dr. Tiago Neves de Melo Costa aplicava na prática o que ensinava nos títulos dos livros. Tendo amigos no lugar certo é mole ganhar dinheiro. Pena que não tenha escrito nenhum livro sobre honestidade e ética.
Em casa, foi difícil adormecer. Três provérbios giravam velozes na minha insônia: "Quem encobre ladrão é ladrão e meio." “Não existe almoço de graça.”; “Ladrão que não é apanhado, passa por homem honrado."
No dia seguinte, mesmo sem ter a quem apontar os fatos na repartição, juntei a documentação. Lacrei anonimamente um envelope pardo. Dirigi-me ao Ministério Público.
Quando entrei, pediram que me identificasse na portaria. Passei a porta giratória e a figura do Dr. Melo Costa me recebeu com um sorriso de boas-vindas estampado num enorme banner multicolorido.
A porta girou novamente para a minha saída. Entrei em parafuso.
 
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