14 julho 2015

O último jogo de bilboquê na França

Ser cronista tem suas vantagens. Há um mês estive em Versalhes e presenciei uma disputa animadíssima de bilboquê entre o cardeal e o duque. Cada um fez 17 arremessos consecutivos e certeiros. Foram muito aplaudidos pela enorme plateia empoada. A orquestra começou a tocar e o banquete foi servido. Abandonaram o vinho branco e ofereceram vinho tinto, acompanhamento mais adequado ao foie gras, cogumelos frescos, moelas e o pato ao crème fraiche. Quem não gostasse de maçãs recheadas com passas e cobertas com chantili poderia tomar o champanhe acompanhado de trufas e chocolates.

Nem só de vantagens vivemos. Cabe-nos anotar o que acontece na corte e fora dela.

Hoje, o dia começou com nuvens pretas sobre o Palácio Royal. Li um dos panfletos distribuídos: prevenia e incitava a população. Dizia que a tropa real seria enviada para uma repressão feroz contra o povo. Tumultos e badernas, agora, seriam combatidos na ponta da baioneta. As guilhotinas estariam prontas para receber os pescoços dos líderes. De tão quente, o papel pegava fogo em minhas mãos.

Li de novo e tive a sensação de que as nuvens negras também estariam fazendo sombra em outros palácios e castelos.

Vi que uma multidão se juntou e, furiosa, desceu a rua em direção a um dos prédios dos Inválidos, onde antigamente era o hospital. Armados de foices, pedras e armas caseiras, escolheram o edifício que abrigava o armamento. As forças reais quase não regiram. Rapidamente tomaram as instalações e saquearam tudo. Distribuíram mais de três mil espingardas e, mesmo assim, não deu para todo mundo. Além das armas leves, arrastaram canhões. Correu o boato que na Bastilha estariam a munição e a pólvora.

Os líderes direcionaram a turba em outra direção entoando liberté, egalité, fraternité.

O povo gritava. Estava insatisfeito e revoltado contra o clero e os palacianos que sobreviviam à custa do Estado. Enquanto passavam fome devido às geadas que arrasaram a safra agrícola, os barões saboreavam patos recheados. Enquanto eram chamados de sans-culottes, outros desfilavam veludo, sedas e bordados. Enquanto eram seqüestrados e mortos quando não pagavam impostos, os nobres eram isentos de tributos e ainda usufruíam do tesouro real por meio de pensões e cargos públicos.

Avançaram ruas de paralelepípedos carregados de muito ódio e algumas armas. Lentamente, começaram a marcha rumando para a Bastilha.

Saí do meu conforto. Eu também coloquei no meu peito três fitas: Bleu, blanc, rouge. Fui para a rua gritar. A cada quadra a multidão engrossava. Paris caminhava em direção à Bastilha. Alguns carregavam armas e atiravam para o alto. Outros empunhavam bandeiras. Vive la France! Vive la France! Vive la France!

Quando chegamos na Ile de Saint-Louis, confesso que fiquei com medo. Nunca vi tanta gente. Nunca senti tanto rancor. Jamais percebi tanta determinação. O povo sentiu-se forte para invadir o símbolo do absolutismo. Na prisão da Bastilha, muitos foram torturados e morreram. Durante décadas, as masmorras estiveram lotadas de gente que discordara do rei. Todas as barbaridades aconteciam dentro dos muros da Bastilha. Ninguém escapava de lá. Ouvi mais tiros.

Estava sem uma pistola, não uso espada e andava desprovido de uma simples faca. Lutar com os punhos eu não iria mesmo. Minhas pernas trêmulas decidiram por mim. Atravessei a Pont Marie e avancei apenas mais 50 metros. Curiosamente próximo e prudentemente distante da fortaleza, ouvi o primeiro tiro de canhão.

Não acredito que o rei tenha ouvido. O rei não ouve. O monarca não ouve ninguém. O rei só tem palavra. É dele a última palavra sobre a justiça, a economia, a diplomacia, a paz e a guerra. É dele a última palavra sobre os destinos da nação. Também é dele a raiva que sentimos. Quem se opuser à palavra de Luís XVI é preso.

A correria foi grande. Atearam fogo em coches e carruagens. O fogo ardia por todos os cantos. Explosões e fumaça denunciaram a sangrenta batalha. A cavalaria real veio em socorro dos soldados da Bastilha. O povo era maioria, lutava por melhores condições de vida. Lutava contra a fome. O povo já estava morto. Mortos nada temem.

Do lado de fora da fortaleza, combateram desempregados, marceneiros, diaristas, negociantes de vinho, chapeleiros, agricultores que saíram do campo, operários insatisfeitos. Do lado de fora estava toda Paris. Os do lado de fora representavam a insatisfação de todos os franceses.

Também ficamos do lado de fora, eu e meus colegas do jornal, gastando penas e tinta. Discutíamos o futuro, tentamos adivinhar o resultado da batalha. Cada um de nós opinava diferentemente. A artilharia cessou. A Bastilha caiu nas mãos do povo. Gritos de alegria. Libertaram os prisioneiros e decapitaram o marquês, chefe da prisão. A cabeça do nobre foi espetada numa lança e conduzida em macabro triunfo.

A horripilante imagem da bola espetada levou-me a uma analogia terrível com o joguinho predileto da nobreza.

Não tenho mais dúvidas: o fútil bilboquê vai sair de moda na França.




– Troféu como a melhor crônica em linguagem ou argumentação no 3.o Desafio dos Escritores em 2009, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados.

09 julho 2015

Estreia na calçada


Puxa, como está frio nesta esquina. Eu poderia ter colocado a minha calça azul. Esta saia chama mais a atenção dos homens. Ou devo chamá-los de clientes? Sinto falta do cachecol. Preciso destacar meus peitos e um cachecol poderia servir para me estrangular. Xô, pensamento ruim! Será que algum carro vai parar? Será que vai demorar? Será que meu primeiro cliente vai ser gostoso ou velho e barrigudo? Lá vem um carro devagarinho. Botou farol alto para me examinar. Fiquei cega, seu filho da puta.

Dois rapazotes! Quero não. É fria. Vai. Vai embora, vai.

Será que eles queriam um programa ou só olhar? Bem que a Zeca disse que muitos caras só querem olhar. Nem sei se quero ser olhada. Nem sei se quero programa. Preciso de grana. Tô com fome. Um mês de gororoba. A Zeca quebrou a minha essa semana. Maçã e chocolate. Vidão. Disse que podia passar fome, mas jamais sem tomar a pílula. Meu Deus, obrigado pela cartelinha. Outro carro. É melhor ficar debaixo da luz. Detesto farol alto.

Babaca, nem olhou.

E se me reconhecerem? Hahaha, sem chance. Isso aqui é bairro de rico. Minha turma fica a duas horas de ônibus daqui. Só o Rubão tem carro. Mato esse filho da puta se ele passar por aqui.

Os carros passam rápidos. Fingem que não me veem, que não existo. Que não sou gente. Que não valho nada. Que sou lixo. Que sou puta. Sou não. Meu baixinho vai comer hoje. Os rapidinhos me desprezam. Os devagarinho querem me comer. Tô sabendo. Neguim passa devagarinho junto do meio fio e me come com os olhos.

Vem aqui, gostoso. Para o carro. Pergunta quanto é o michê, safado!

Quanto eu cobro? 100? 200? E se ele disser que só tem 50?

Passou reto. Desgraçado!

E se parasse? E aí gatinha? Qual seu nome? Que vou dizer? Shirleide? Nunca. Leide nem pensar. Se papai fosse vivo ia me encher de porrada. Preciso inventar um rápido. Keila? Charlene? Chaiane? Diabos. Será que preciso ser outra pessoa? Gosto de Leide, que nem a princesa. Papai sempre me chamou de princesinha. Minha Cinderela.

Porra, meus pés estão doendo. Merda de salto alto. Eu devia saber. Melhor colocar um tênis e voltar pro balcão da papelaria. Salário de merda. Chefe de merda. Mas meu baixinho comia.

Vem mais um. De mansinho.


E se esse carro preto parar e abrir a porta? Entro nessa vida?
 
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