28 dezembro 2012

Trem noturno para Lisboa




 Autor: Pascal Mercier

Editora Record

460 páginas que levei 20 dias para ler

50 pratas nas melhores casas do ramo


O livro conta a história de Raimund Gregorius um convencional e ortodoxo professor de grego, hebraico e latim que aos 57 anos, de um estalo, resolve mudar tudo em sua vida. Abandona os alunos da escola no meio de uma aula em Berna, na Suiça, e pega um trem para Lisboa motivado pela sonoridade da palavra “português”. Tem a curiosidade aguçada pela descoberta do livro Um Ourives das Palavras escrito por Amadeu Inácio de Almeida Prado. Gregorius, na procura de remontar a biografia do autor encontra muitas reflexões sobre a vida e a morte.

O autor foi muito feliz na escolha das metáforas. Um trem para transportar o personagem para uma nova paisagem e vida. Na nova cidade, por um incidente é obrigado a trocar os óculos que permitem que enxergue novas realidades. Os cenários escolhidos, Berna e Lisboa são opostos entre si. Uma incrustrada nos sufocantes e gelados Alpes enquanto a outra ao nível do mar tem clima quase tropical. Por fim troca dois idiomas: grego e hebraico com sons e grafias diferentes do português com o alfabeto romano.

As palavras são o elo da cadeia filosófica que transporta o personagem na história.

Por exemplo, em relação a aneurisma escreveu à página 99: “Qualquer instante pode ser o último. Sem o mínimo pressentimento, no mais completo desconhecimento, vou transpor uma parede invisível atrás da qual não existe nada, nem sequer a escuridão. O meu próximo passo pode muito bem ser o passo através dessa parede. Não seria ilógico sentir medo disso, uma vez que nem vou vivenciar esse súbito apagar e sabendo de antemão que tudo é assim mesmo?” Ou para as sombras da alma escreveu à página 152: “As histórias que os outros contam sobre nós e as histórias que nós mesmos contamos – quais delas se aproximam mais da verdade?” Para medo anotou: “medo se tem de algo que ainda está por acontecer, que ainda temos que enfrentar.” E ainda à página 327 meditou: “Cheguei a pensar que o espírito de Amadeus era, antes de mais nada, linguagem, – que a sua alma era feita de palavras.”

Há frases dignas de registro: “Um ruído alto, que parecia vir de uma distância medieval.” (página 112); “silencioso como um navio sepultado no fundo do mar.” (página 176); “na escuridão, o ranger da porta parecia bem mais ruidoso do que durante o dia, mais ruídoso e mais proibitivo.” (página 177);

De todo modo, acho que a algumas consultas à Internet são importantes para a melhor compreensão de algumas passagens:
Cartão postal com a ponte Kirchenfeld e os Alpes ao fundo, em Berna na Suíça

Cartão postal com a ponte Kirchenfeld, Hotel Bellevue, Palácio Nacional e cassino



Tarrafal: É um presídio de segurança máxima construído nas Ilhas de Cabo Verde. Para lá foram enviados os presos políticos da era Salazar. Pelo menos 37 deles morreram sob tortura.

Biblioteca Joanina de Coimbra, maravilhosa na aparência e na descrição à página 401.

E, para finalizar as consultas à Internet, confirmo que o livro Um Ourives das Palavras e o autor Amadeu Inácio de Almeida Prado são ficção.

Não sei como o tradutor, o revisor e o editor deixaram passar seis “ele” em cinco linhas à página 41. Por falar em estranhezas, o verbo recender aparece quase uma dúzia de vezes. Estranheza por ser uma palavra nada usual, pelo menos no meu vocabulário.

Se eu gostei? É de difícil digestão, mas gostei. Gostei e recomendo.

12 dezembro 2012

Casamento em crise

Aurélio estava no banheiro, com o rosto coberto de espuma de barba e com uma toalha na cintura, quando a esposa, furiosa, escancarou a porta da privacidade.

– Aurélio! O que é isso no seu pijama?

Essa foi a primeira investida irada de Ana Maria enquanto quase esfregava a mancha da calça do pijama na cara do marido. Antes mesmo da resposta desferiu perguntas como uma metralhadora.

– Você agora deu para sair com vagabundas? Essa coisa molhada não é seu gozo, que eu conheço. O que é isso? Você não me respeita mais não? Sai com piranhas e depois vem deitar na minha cama, ao meu lado, com essa coisa pingando? Eu vou te capar! Não pense você que eu não sabia do seu caso com a Juliana! Ela até é bonitinha, chego a ter simpatia por ela, mas agora você passou dos limites. Você arrumou mais outra! Está se deitando com mulher ordinária, com pistoleira, com mulher da zona. Você, meu querido Aurélio, está trocando cetim por lençóis impregnados de sujeira, de piolhos, de vermes da escória. Onde você foi parar? Que decadência, Aurélio. Que decadência!

O marido segurava o aparelho de barbear com a mão direita enquanto com a esquerda tentava fechar a porta para interromper a represália que ninguém mais ousava.

– Olhe-se no espelho. Cadê aquele Aurélio cheio de orgulho? De dignidade? De poder? Você nunca foi homem de rastejar na sarjeta dos ratos. Seu lugar é na ponta da mesa, onde o coloquei. E, largue o trinco desta porta que eu ainda não disse tudo que eu tinha para dizer.

Ele, constrangido, tira a mão do trinco da porta e ajeita a toalha que ameaça a cair junto com a vergonha.

– Isso mesmo, segure esta toalha, junte com o pijama e a cueca melada para levar para a lavanderia. – fez uma pequena pausa – ou queime se preferir. Só não me espalhe essa doença suburbana na casa da sua família. – jogou o pijama nos pés do marido e virou-lhe as costas.

Eles já estavam casados há 22 anos. Com os filhos na universidade e vida estabilizada. Uma casa em condomínio fechado e outra casa na praia. Ele diretor numa empresa de transportes de carga e ela dona-de-casa.

Ana Maria é aquilo que os invejosos chamam de dondoca. Levanta depois das nove. Joga tênis duas vezes por semana e vai para a academia nos outros dias. À tarde tem uma rotina árdua. Nas segundas-feiras vai ao supermercado, nas terças e quintas joga pife, às quartas-feiras tem aula de pintura e nas sextas-feiras é dia de massagem e cabeleireiro. Aos sábados, enquanto o esposo joga golfe, ela visita lojas de moda e calçados. Desde pequena foi acostumada ao conforto pelo pai, dono da transportadora.

A esposa sempre soube do caso do marido com Juliana. Era impossível ignorar uma sombra. A amante era uns dez anos mais nova. O que tinha de bonita , tinha de insegura. Tão insegura que procurava imitar Ana Maria em tudo. Frequentava o mesmo cabeleireiro, ia às mesmas lojas, jogava tênis, estudava piano em vez da pintura. Adicionou silicone aos peitos e era paciente do mesmo ginecologista. Tudo bancado pela mesmo homem.

Ele já se encantara por mulheres mais novas outras duas vezes. Ana Maria, sempre segura e autoconfiante, soube dos casos. Eram apenas casos, duraram semanas, talvez alguns meses. Aurélio cansava e sossegava, retornando à vida caseira e familiar. Agora era diferente, sentia-se ameaçada pela ambiciosa concorrente. O caso já durava dois anos e Aurélio sequer disfarçava inventando viagens. Tanto que fora visto com a rival ocupando a mesa de canto no restaurante antes ocupado em família. Não se incomodava em ouvir comentários maldosos.

A preocupação de Ana Maria consistia em perder um casamento confortável. Uma escolha calculada na adolescência. Ele era um rapaz atraente, esforçado, inteligente, culto e refinado embora de classe mediana. Nada que um bom emprego não resolvesse. O rapaz transformou-se em senhor, depois em doutor, trabalhou muito e chegou merecidamente a diretor na firma do sogro.

Ana Maria soube que Juliana inocentemente perguntara a um lojista o preço de um vestido de noiva. Começou a respirar o ar da separação. Esse foi o limite. Mesmo transtornada não seria capaz de se vingar deitando-se com outro homem. Ficou tentada. Aurélio não suportaria ser passado para trás, jamais conseguiria tolerar a traição, seria um tiro no orgulho. Mesmo cobiçada, jamais dividiu cobertas com outro homem, não seria agora, por vingança. Mas estava decidida a vencer a noivinha inexperiente.

Numa quarta-feira, desmarcou o jogo de pife e marcou com o ginecologista.

Em vez das queixas e consulta habitual Ana perguntou pelo filho do doutor, se ele estava feliz no emprego, que ela havia arrumado para ele, e mais algumas perguntas que pareciam sem nexo até que deu a ordem ao médico:

– Quero que você contagie a Juliana com gonorreia.

Desnecessário dizer que Aurélio sentiu-se traído por Juliana, comprou um pijama novo e retornou para as cobertas de cetim.

30 novembro 2012

Jogo de palavras

Um dia me explicarm um jogo com vários participantes, ao redor de uma mesa, em que alguém com o auxílio de um dicionário escolhe uma palavra e anota o seu significado.
Todos são instados a sugerir o significado da palavra escolhida.
Aquele que chegar mais perto ganha um certo número de pontos. Se nenhum acertar, ganha alguns pontos aquele que sugerir o significado mais criativo. 

Independentemente de estarmos sentados ao redor da mesa, ou na frente de um teclado, selecionei nove palavras e sugeri alguns significados. Será que você acerta? Só uma resposta é verdadeira.
Diga quantas acertou. Sugira um significado criativo.Ou proponha outras palavras.

bródio


a) Refeição alegre

b) Irmão

c) Bolinho de arroz com espinafre.

d) Espécie de tecido fino de algodão

e) Que perdeu a razão, alienado



chibante

a) Porção de um todo

b) Valentão

c) Aquele que sela a montaria

d) Rédea muito curta; rédea chibante

e) Chute dado com o lado de fora da chuteira



colubrina

a) Instrumento musical de sopro

b) Construção circular

c) Antiga espada

d) Amásia, amante

e) Dançarina de bordel – Portugal



farândola

a) Designação comum a insetos como o cupim e a traça

b) Talo de capim seco

c) grupo de maltrapilhos

d) Aranha australiana

e) Corante obtido de insetos vermelhos



férula

a) Volúpia, lascívia

b) Secreção oleosa de palmáceas

c) Parte exterior, casca, crosta

d) Odor característico dos felinos

e) Palmatória



marau

a) Caverna, gruta

b) malandro, patife

c) Gordo, obeso

d) Navegador

e) Pequeno machado



mofatra

a) Eixo da roda de moinho

b) Disputa, peleja

c) Moldura de ornato de janela ou porta

d) logro

e) Utensílio do minerador de diamantes



patranhas

a) História mentirosa

b) Indivíduo mal intencionado

c) Conjunto de casas destinados aos escravos

d) Tira gosto à base de alho

e) Pessoa sem poderes



púcaro

a) Pessoa de mau caráter

b) Penhasco

c) Nuvem que antecede tufões

d) Órgão sensorial olfativo

e) Pequeno vaso com asa








Não vale olhar a resposta antes de tentar...


bródio - Refeição alegre; comezaina: Pândega, bagunça, barulho. Opíparo bródio

chibante - brigão, valentão; Orgulhoso, altivo, soberbo. Pessoa chibante. Ex: crioulo chibante

colubrina - Antiga espada; (colubrina sem raia = espada sem fio)

farândola - grupo de maltrapilhos; farandolagem; bando de indivíduos de má fama

férula - Palmatória (por semelhança a um de gênero de plantas)

marau - Mariola, malandro, patife; Indivíduo espertalhão, astucioso, finório, que não se deixa enganar.

mofatra - logro

patranhas - História mentirosa; história; patranhada: "Ele põe-se lá a inventar patranhas”

púcaro - Pequeno vaso com asa; qualquer vaso pequeno com asa; caneca



25 novembro 2012

Os enamoramentos



Javier Marías

Editora Companhia das Letras – 2011

344 páginas

Paguei: R$ 50,00

Observação: a editora colocou dois livros dentro de uma sobrecapa.



É muito comum que o autor de um romance cite, mencione ou até escreva um capítulo se referindo a algum outro livro. Geralmente o livro mencionado é de alguma história que todos conhecem. Neste caso, a referência é a um livro de um grande autor e cuja história foi filmada pelo menos duas vezes. Mas não é de domínio público. O autor de Os enamoramentos não apenas citou, porém fez do conteúdo de Coronel Chabert um personagem importante para a história. Logo, se você pretende ler Os enamoramentos, deve, antes, ler o fabuloso texto de Honoré de Balzac.

O título e a capa sugerem que seja um romance açucarado. Já passado da metade da história, explica que o termo enamoramento em espanhol tem uma conotação inexistente em outras línguas, que difere de amor. Pode até suplantá-lo. Que embora se confundam, não são a mesma coisa. “O que é muito raro é sentir um fraco, verdadeiro fraco por alguém, e que esse alguém produza em nós essa fraqueza, que nos torne fracos. Isso é o determinante, que nos impeça de ser objetivos e nos desarme perpetuamente e nos leve a nos render em todas as contendas.” Em um clichê, o amor cega e por um amor desses somos capazes de qualquer sacrifício. Até morrer ou matar.

Mariá Dolz é a protagonista e narradora da história de pouquíssimos personagens. Involuntariamente conhece um casal que desjejua no mesmo café e que ela, durante muito tempo, costumava observar com admiração. Ou melhor, ela conhece apenas a mulher do casal. Ele foi brutalmente assassinado alguns dias antes.

A história se desenvolve de tal maneira que Mariá, novamente sem intenções, conhece toda a história por trás do homicídio. E, numa citação de um advogado do livro de Balzac “Sempre foi assim. O número de crimes impunes supera largamente o dos punidos; e não falemos dos ignorados e ocultos, por força deve ser infinitamente maior que o dos conhecidos e registrados.”

Eu gostei do livro. Mas com restrições, pois o autor é prolixo e repete e revive e remói e reconta a mesma passagem sob os mais diversos ângulos. Tanto que em determinado capítulo uma personagem leva oito páginas à porta para se apresentar e convidar o visitante a entrar na sala.

Para quem gosta de uma discussão de relacionamento, daquelas em que a mulher fala ininterruptamente, é um prato cheio.

Em tempo, o autor, conforme a orelha, publicou mais de 30 livros, foi traduzido para mais de 40 idiomas (acredito que queriam dizer vendido em mais de 40 países) e vendeu mais de 6 milhões de exemplares.

23 novembro 2012

Ainda quero almoçar com Veríssimo muitos domingos


Fui dormir triste e acordei ainda triste. O noticiário noturno informou que Luis Fernando Verissimo está internado em estado grave. Suspeita-se que virose alimentar tenha provocado infecção generalizada.

Alguém desconhece Verissimo?

Para ajudar quem é de outro planeta, ele disse, por exemplo, que “Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet.” E também escreveu O Analista de Bagé, Comédias da Vida Privada, As mentiras que os homens contam.

Nas imagens sempre o vemos com uma camisa social clara, às vezes com um paletó. O rosto redondo, as sobrancelhas espessas e ligeiramente caídas nas laterais, os óculos de aros transparentes, a testa grande, a fala pausada e gestos comedidos nos remetem a um tio querido. Uma pessoa que gostaríamos de ter à mesa nos almoços domingueiros.

Como sempre numa churrascaria.

Ele se serviria da salada. Regaria com azeite (do bom), salpicaria um pouco de sal, moeria uma pimenta-do-reino para temperar alguma reflexão. Ficaria em silêncio até o minuto anterior ao gole na taça do tinto seco.

– Saúde! –- Num olhar cúmplice para a esposa.

Depois do brinde voltaria ao silêncio ou às palavras discretas, inaudíveis aos comensais mais afastados da ponta.

Talvez fizesse alguma observação sobre comida antes essencial e agora proibida por organizações médicas. Talvez comentasse uma letra de Lupicínio. Só falaria de futebol se nenhum colorado tivesse sido convocado para a seleção. De Charlie Parker reverenciaria os improvisos. Jamais faria piadas ou trocadilhos, somente observações originais.

Fiel à família, vai à churrascaria pela companhia. O médico o proibiu as carnes vermelhas.

É comedido na hora de servir do bufê. Gosta dos tomates cereja, mas evita as frases longas. Repele as cacofonias e se serve de dois talos de aspargos. Rejeita a cumbuca de lugares comuns, torce o nariz para a travessa de ideias clichê e escolhe três cogumelos cozidos, uma colherada de ervilhas e num único momento se permite ao óbvio: dois pedaços de frango grelhado. Por cima de tudo, uma generosa colherada de bom humor.

Já sentado com o guardanapo no colo, mastiga devagar. Os olhinhos pequenos se movem com rapidez. Enxergam tudo. Observam o desenho da mancha da toalha da mesa, leem a marca do teclado do músico cego, apreciam a transparência do vestido da mulher que passa em frente da porta aberta. Enquanto isso as orelhas são grandes antenas que captam o chiado da carne assada, escutam cochichos à mesa vizinha e ouvem um natureba contar até 32 enquanto mastiga.

Tudo isso pode virar uma crônica. Ou não. Assim como o psicanalista não analisa todas as conversas de que participa, o escritor não escreve tudo o que acontece à sua volta.

O almoço só termina com a sobremesa. Diabético que é, rejeita o pudim de leite, o queijo com goiabada e a ambrosia. Nem pensa duas vezes, vai direto no prato com fechamento inusitado..

Fique bom logo, querido mestre, ainda quero almoçar com você muitos domingos.


15 novembro 2012

O coronel Chabert



De Honoré de Balzac

Em 83 páginas impressas pela Companhia das Letras

Paguei R$ 50 porque vinha embrulhado numa sobrecapa junto com o livro Os enamoramentos.



Honoré de Balzac é um dos grandes nomes da literatura mundial. É um daqueles para os quais os “cult” estufam o peito antes de reverenciar o nome. Li no Wikipédia que ele teria escrito 88 romances, novelas e contos. Até aí nenhuma vantagem. Somando apenas os contos e crônicas dos meus três livros já tenho uns 150. A diferença (ligeiríssima diferença) é que o moço com o nome francês é considerado o fundador do Realismo na literatura moderna. Entre outros vários, escreveu a Comédia humana, um dos cem melhores livros incluído em todas as listas dos melhores da literatura universal. Que é muito mais que os cem melhores da literatura mundial. O cara influenciou gente da grandeza de Proust, Zolá, Dickens, Dostô, Flaubert e até do nosso mestre Machado. Ah sim, os tais 88 romances, novelas e contos estão contidos na Comédia humana que é um verdadeiro estudo de costumes e filosóficos a partir da observação do homem no seu tempo e esse estudo foi eitado pela Globo resultando em 17 volumes.

Eu não li os 17 volumes, nem algum dos outros vários livros publicaos, mas agora já posso estufar o peito, revenciar o nome de Balzac e exlclamar: eu li e gostei.

Eu li apenas um livrinho de 83 páginas que acompanhou a edição de Os enamoramentos de Javier Marías.

Livrinho no tamnho, enorme no conteúdo. Balzac, escreve muito!

Trata do reaparecimento de um coronel que foi dado como morto numa batalha napoleônica. Sua viúva herdou uma grande bolada, casou de novo e não quer mais saber dele. Ele procura um advogado para reaver a sua grana, identidade e lugar na sociedade. O drama esmiúça o caráter de cada um dos personagens com profundidade, elegância e revelações que todos preferiam deixar sepultas no fundo da alma. Sobra para todo mundo. Pois afirma que “em Paris, muitas mulheres vivem com um monstro moral desconhecido ou estão à beira de um abismo; elas criam um calo no lugar da sua dor e conseguem continuar a rir e se divertir.”

Terminei de ler o livro às 5h59. Exatamente um minuto antes de o despertador tocar dizendo que eu precisava levantar.

Mais ou menos na metade da novela assinalei alguns trechos fortes sobre as características da viúva do Coronel Chabert imaginando que seriam peças fundamentais para o desenlace. Quebrei a cara. A história não tem um fechamento espetacular. É muito mais que isso. Mostra, numa espácie de lição de moral, a grandeza interna do coronel.

Passei o dia com sono, mas maravilhado com o livro.

06 novembro 2012

Nasce uma constelação




Enquanto me ensaboo, lembro que o tio Alfredo me levou para a escola no meu primeiro dia. Eu me lembro bem, ganhei balas e uma boneca, a Doris.

Eu adorava brincar de ciranda, cavar buracos e construir castelos na areia. Como era bom passar o anel. Minha brincadeira predileta era Corre, cotia, na casa da tia. Corre, cipó, na casa da vó. Lencinho na mão, caiu no chão. Moça bonita do meu coração. Posso jogar? Ninguém vai olhar?

Foi a época mais feliz da minha vida.

O tio me levava e buscava na escola. Ele estava desempregado e à tarde lia histórias para mim. Histórias de cachorros e gatos. Histórias de montanhas e rios. Histórias de príncipes e princesas. O tio latia e miava. Subia nas pedras e nadava. Um dia mostrou como o príncipe beijava a princesa.

Preciso me esfregar bem.

Quando eu fecho a torneira peço para as lembranças irem para o ralo, junto com a água.

Basta eu entrar no chuveiro e eu me recordo quando a minha mãe, pela primeira vez, pintou as minhas unhas de vermelho. Fiquei muito saltitante. Mamãe disse que os homens gostam muito de unhas vermelhas. Que são atraídos pela cor. Que fora assim que conquistara o tio Alfredo.

No dia seguinte, depois da aula o tio contou outra história. História de guerreiro. Pediu que eu segurasse com as minhas mãos a sua espada. Disse que eram as mãos mais lindas que já vira.

Estou tão suja. Passo a esponja nos braços e nas pernas.

Era o tio que fazia o café de manhã. Ele escovava meus cabelos, amarrava uma fita cor-de-rosa, escolhia uma laranja ou banana para a minha lancheira e me deixava na escola. Quase sempre fazia o almoço, sabia que eu gostava de batatas fritas.

Quando a água morna toca as minhas costas, percebo as mãos do tio deslizando em cima de mim. Como estou suja.

Um dia eu falei para minha mãe que o tio trocara de roupa na minha frente. No mesmo dia, o tio bateu em mim pela primeira vez. Ele arrancou a perna da Doris e disse que faria a mesma coisa comigo se eu falasse do nosso segredo para qualquer outra pessoa.

Fiquei muda durante uma semana.

Nunca falei do tio para ninguém.

Abro um pouco mais a torneira de água quente.

O tempo passava e o tio sempre queria fazer aquilo. Todos os dias fazia aquilo. Só depois eu podia brincar ou estudar na casa da Fê. À noite, quando mamãe chegava do trabalho, o tio era um doce.

Eu queria morrer. Eu queria ser uma estrela no céu. Eu tinha medo de apanhar. Eu não sabia como morrer.

Sempre foi assim. Estava suja. Precisava do banho. Ainda preciso do banho, mesmo agora que já me aposentei.

Um dia, eu devia ter 35. Não, 36. O Brasil ganhara a Copa naquele dia. Eu me lembro da manchete no jornal do dia seguinte. Ainda bem que não escreveram nada sobre aquela menininha.

Eu a vi no ônibus. Devia ter sete anos, olhos tristes, uma blusinha branca e unhas com esmalte vermelho. Fiquei chocada. Será que a história se repetia? Desci na mesma parada e segui as duas. Mãe e filha. Reparei bem a casa em que elas entraram. O portão se fechou e eu fiquei do outro lado da rua pelo menos uns 20 minutos pensando em quem estaria fazendo aquilo com a menininha dos olhos tristes.

Voltei no dia seguinte, determinada a ajudá-la. Levei um chocolate com estriquinina na minha bolsa. Confirmando minha suspeita ela surgiu no portão segurando uma boneca sem uma das pernas. Quase vomitei. Lembrei-me do meu pavor por outra surra e que não sabia como fazer para morrer. Dei-lhe o chocolate. Agora ela seria uma estrela.

Quanta sujeira. Não há xampu que lave meu corpo imundo.

Anos depois eu estava na mercearia e observava uma menina com cabelos cacheados presos por uma fita rosa. Por instinto olhei suas mãos e vi unhas de esmalte vermelho. Senti náuseas.

No mesmo dia dei-lhe um chocolate recheado de raticida. Foi a segunda estrela.

Fecho a torneira de água fria. A água está pelando. Quero ferver meu corpo para tirar as impurezas.

Houve outros chocolates. Muitos chocolates. Muitas meninas de unhas vermelhas. Aqui, na minha cidade ou em outras. Nem sei quantos chocolates distribuí. Por piedade, nem sei quantas estrelas fiz nascer.

Eu me lavo e continuo impura.

Estou com ânsias.

Hoje vi minha netinha de unhas vermelhas.

22 setembro 2012

O último livro




O último livro

Zoran Živković

Editora Octavo

235 páginas

uns R$ 46,00






É um romance policial que do meio para diante coloca os dois pés numa viagem surreal.

Conta a história da livraria Papyrus onde acontecem sucessivas mortes. Aparentemente de causas naturais. O inspetor Dejan Lukić é designado para investigar o caso. Logo descobrimos que apesar de policial, ele gosta e estudou literatura o que é condição para haver interesses comuns entre a proprietária da livraria Vera Gavrvrilović e o inspetor.

É natural que um homem e uma mulher, de interesses comuns, se atraiam. Estranho é uma mulher que alcançar o sonho de possuir e comandar uma livraria de sucesso não se impressionar com as mortes no estabelecimento, apenas questionar que o movimento pode afugentar clientes e deitar-se com o inspetor como se tudo fosse normal como tomar chá ao final do expediente.

O que eu quero dizer com isso?

É que a ideia da história onde leitores são mortos pelos livros que leem foi atraente para mim. Fiquei muito curioso para saber como isso poderia ocorrer, porquê envenenar leitores, qual o veneno foi empregado. Mas a história se perde em alguns momentos em que a história deixa de ser verossímil em atitudes ou momentos. Em determinado momento desaparecem de cena misteriosamente e inexplicavelmente mais de 30 pessoas das vistas do inspetor e do chefe de polícia secreta. Não há sequer uma tentativa de explicação. A partir desse momento a história afunda num poço de surrealismo.

A conclusão para as mortes não convence.

O que mais me agradou no livro foram os vários personagens leitores da livraria. Clientes assíduos cheios de manias, compulsões e obsessões maravilhosamente incomuns.

Esta foi a minha opinião que não é igual à dos editores, tanto que duas editoras publicaram o livro em português.

Quando finalizei o livro compreendi o comentário, produzido pelo New York Times, anotado na primeira orelha do livro: “Talvez seja prematuro coroar Zoran Živković como o novo Borges, mas sem dúvida o maior candidato.” Não era bem um elogio, mas um aviso que ainda é prematuro coroar o autor.


PS:  Como será que se pronunciam Zes e Ces acentuados?

18 setembro 2012

O arroz de Palma


O arroz de Palma

Francisco Azevedo

Editora Record

366 páginas

Uns R$ 43,00


É uma criativa história de amor. É leitura para quem gosta de refletir e buscar lições sobre os fatos que acontecem na vida familiar. Se o autor fosse rotular o livro empregaria na ficha as palavras da primeira linha da página 337: romance literalmente água com açúcar.

Para alguns isso é ofensa, para outros, elogio. A história em algumas passagens me comoveu. Não cheguei às lágrimas, mas percebi que se os fatos não foram verídicos, foram muito bem narrados e convincentes, eu diria que merecedores de um romance como este que foi escrito por Francisco Azevedo.

Toda a história se desenvolve nas lembranças do narrador enquanto prepara um almoço domingueiro para a família. Por isso mesmo emprega, principalmente no início, metáforas criativas como “família é um prato que emociona”; “temperos exóticos alteram o sabor do parentesco, mas se misturados com delicadeza tornam a família mais colorida interessante e saborosa”; “não existe família à Oswaldo Aranha, Família à Rossini ou Família ao Molho Pardo em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é à Moda da Casa”. Conforme a narrativa se desenvolve o autor relaxa a guarda e em vez de metáforas criativas abusa de clichês, lugares comuns e ditos populares ao ponto de em uma única página (106) cometer “chutar o balde”; “dou tratos à bola”; “mentira deslavada”; “Quem conta um conto aumenta um ponto”. É perdoado por ser o linguajar que se encaixa no perfil do narrador.

Mas há passagens que merecem destaque como na 218:

– Deus também é de extremos.

– Deus?

– Tens tanta certeza assim?

– Tenho. Hoje, por exemplo. Vi um nascer do sol deslumbrante. Van Gogh arrancaria a outra orelha se visse aquelas cores!

– Céus! Deve ter sido mesmo uma maravilha.

– Daí me dei conta de que Deus pôs a beleza do sol nos extremos. Nascendo ou morrendo. O sol do meio-termo, do meio-dia, não é para ser admirado. Nem sequer podemos olhar para ele.

– Digo que o teu dia tem 12 horas e o de Deus tem 24.

– O quê?!

Só então tia Palma pousa o crochê e olha para mim.

– Num dia de 24 horas, o sol dos extremos é o do meio-dia – que é auge –, e o da meia-noite – que é ausência. O sol que está a nascer ou a morrer é o sol das preces. O sol do meio-termo, como dizes.



E também à página 234 em que Palma se queixava de dor na coluna e

... concluiu que a dor que sentia – maior que ela – era bem menor que a dor do mundo. Comparada com todo o sofrimento e aflição que haveria nos quatro cantos da Terra, sua dor se tornava insignificante, portanto, suportável. Brincava.

– Que remédio nos trará a cura? Que farmacêutico virá para passar algodãozinho com álcool, soprar a bunda da Terra e lhe aplicar a injeção que nos aplacará todas as dores?

E ainda uma sensacional descrição de um abraço à página 231:

Papai se levanta. Nos abraçamos tão entregues um ao outro, que tudo em nós se mistura: as lágrimas, os cheiros, os sons, as peles, os panos, as dores, tudo. Ficamos a eternidade assim, ele em mim e eu nele. Nenhum tempo, nenhum espaço. Perdemos a noção. Quando acabar o abraço, teremos que voltar à realidade. Quem é que quer? Não, eu. A iniciativa de separar os corpos não será minha. Não mesmo. Ele é o pai, a instância superior. Ele decidirá o quando e eu me conformarei. Mas o abraço é mais forte que qualquer grau de parentesco, quer continuar para sempre. Isabel vem e se junta a nós, mas sabe até onde pode ir. Apenas nos toca de leve, solidária. Suas mãos em nossos ombros também é aviso de vida, sinal de que ali há outras pessoas que precisam de nós. Papai e eu entendemos aquele novo tato que chega. Nossos corpos se soltam naturalmente e, aos poucos, vão reconhecendo e definindo seus limites.



Quer saber a minha opinião?

– É um prato cheio se você gosta de histórias de amor e costuma citar ditos populares.

30 agosto 2012

Travessuras da menina má


Travessuras da menina má

Autor: Mario Vargas Lhosa

Editora: Ponto de leitura


400 páginas

Uns R$ 23,00

Jamais havia lido Mario Vargas Lhosa. Sabia que fora vencedor recente de um Nobel de Literatura e que é peruano.

Confesso que o tamanho do livro – 400 páginas – não foi nada estimulante para o início da leitura. É que tenho o péssimo costume de ir até o fim em todas as minhas leituras, independentemente se gosto ou não.

Mas já na primeira página o livro atiçou a minha curiosidade. É que eu esperava de um escritor de Prêmio Nobel de Literatura um linguajar austero, de frases longas e palavras cabeludas. Ao contrário, encontrei um contador de histórias amigável como se estivesse sentado no sofá da minha sala.

A história pode ser resumida em: um sujeito se apaixona por uma colega de escola que não lhe dá a menor trela nem esperança. A paixão vira uma espécie de idolatria onde um lambe o chão do outro que ignora solenemente a existência do primeiro. Ele é tradutor enquanto ela é alpinista social. A história começa em Lima, no Peru, avança para Paris da revolução feminista, continua na hippie londrina e termina em Barcelona, sempre com riquíssimas descrições dos cenários, das geografias e dos momentos históricos.

Mas a grande riqueza da história está no entrelaçamento de personagens de riquíssimas biografias. Vai escrever bem , lá longe!

Este livro também foi escolhido pelo nosso Clube de Leitura. Pela primeira vez houve unanimidade. Todos gostaram muito. Todos terminaram de ler e, para minha surpresa, três colegas leram o livro duas vezes.

29 agosto 2012

7 coisas que aprendi por Roberto Klotz


"Em uma iniciativa conjunta* entre os blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, T.K. Pereira e Alexandre Lobão convidam escritores para compartilharem suas experiências com os colegas de profissão, destacando sete coisas que aprenderam até hoje.


Não interessa se você é iniciante ou veterano, se escreve poesias, contos, romances ou biografias, envie sua contribuição para esta série de artigos!

A fim de contribuir, eis as 7 coisas que aprendi com a escrita até hoje e que agora compartilho com vocês:"

http://escribaencapuzado.wordpress.com
https://www.facebook.com/escribaencapuzado


Que para produzir é essencial ter um prazo para finalizar a tarefa. – Estipule prazos sempre que for escrever um conto uma crônica ou um romance. Você se lembra de que era capaz de produzir um texto em 50 minutos quando o professor de português exigia uma redação?
Que é necessária uma boa caminhada com os pensamentos no foco do tema, desenvolver a criatividade, imaginar as ações.  Antes de digitar procure premeditar a ideia, o roteiro e a estrutura.  A partir de um tema, uma palavra, um fechamento, um fato estimule a progressão da ideia com coerência, começo meio e fim.
Que a coerência é fundamental. – Mesmo se o texto for surreal precisa manter coesão.  Antes de sair é preciso estar dentro. Um personagem de boa índole não pode virar assassino de uma hora para outro, no mínimo precisa de uma grande motivação.
Que a pesquisa evita que escrevamos bobagens.  – Consulte livros, pergunte e pesquise na Internet. É mais seguro para criar nomes para personagens, descrever cenários que não conhecemos e até é possível resgatar flahes históricos. Quem sabe, você descubra quantas moedas de ouro descansavam na algibeira de Joaquim Silvério dos Reis enquanto outro Joaquim era esgoelado na praça.
Que ao escrevermos contos ou crônicas devemos manter o tom do início ao fim.  – Se a intenção é provocar pavor, piedade, ódio, simpatia... ou seus contrários, a short storie não permite alteração de tom sob pena de prejudicar  o resultado. Por exemplo, se a intenção é escrever um final cômico para um velório, é necessário dar ao leitor alguma dica prévia que o texto não é sério.

Que o leitor não gosta de mulher bonita. Mostre. O leitor prefere que seja descrita: “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.”

Se você quiser conhecer uma opinião verdadeira sobre seu texto, em vez de perguntar ao amigo se gostou, pergunte do que ele não gostou. Mas ouça e acate (pelo menos no momento) sem se defender, senão jamais ouvirá sinceridade novamente deste leitor.

30 julho 2012

Romanceiro da Inconfidência – Cecília Meireles



Quem diria? Eu lendo poesia!


Lendo, apreciando, aplaudindo e recomendando.

– Assim mesmo, tudo no gerúndio.

A poesia não faz parte das minhas escolhas. Não tenho intimidade com versos e rimas. O livro Romanceiro da Inconfidência foi o escolhido do mês no nosso Clube de Leitura.

A impressão que eu tive é que Cecília Meireles turistou em Ouro Preto, visitou museus, folheou livros antigos, conversou com o povo e tomou café em uma das inúmeras casas coloniais. Lá, em algum momento foi até a cozinha servir-se de mais um pouco de doce caseiro, na volta se perdeu e entrou em uma porta que a levou para um passeio no tempo. Havia uma garrafa sobre a mesa, ela abriu, se serviu e se embriagou de passado.

Depois escreveu maravilhas.

Quando eu li Inocência , do Visconde de Taunay fui levado para outra época por alguém que viveu aquela época. Agora não. Fui levado por Cecília que embora ela não tenha vivenciado a época, conseguiu transmitir até a poeira que se respirava naqueles tempos de revolta contra altos impostos.

Na abertura da obra há um discurso em que ela relata o que a levou a escrever a obra histórica e diz que alguns dos personagens formam versos perfeitos:

Tomás Antonio Gonzaga

Joaquim José da Silva Xavier

Dona Bárbara Heliodora

Vicente Vieira da Mota

Sapateiro de Capanema

Dona Maria Primeira

É lógico que meu ouvido, pouco afeito ao ritmo, nada detectou. Os olhos, porém viram que há versos e poemas de todos os tipos e gostos. Decassílabos, sonetos, redondilhas e outras tantas às quais não fui apresentado formalmente. Entretanto me apaixonei pela declaração : “Somos cada vez mais governados pelos mortos”.

Por não frequentar o mundo da poesia deixei de usufruir todo poder da obra. Li como se fosse prosa. Uma prosa poética riquíssima onde nenhuma palavra é desperdiçada ou está fora do lugar.

Para nos aclimatar no cenário escreve:

Descem fantasmas dos morros,

vêm almas dos cemitérios:
todos pedem ouro e prata,
e estendem punhos severos,
mas vão sendo fabricadas
muitas algemas de prata.

A Chica da Silva dedicou um longo poema do qual só anotei o desfecho:
À Vênus que afaga,
soberba e risonha
as luzentes vagas
do Jequitinhonha.


(À Rainha de Sabá,
num vinhedo de diamantes
poder-se-ia comparar.)


nem Santa Efigênia,
toda em festa acesa,
brilha mais que a negra
na sua riqueza.

Contemplai, branquinhas,
Na sua varanda,
a Chica da Silva,
a Chica que manda!

(Coisa igual nunca se viu.
Dom Quinto, rei famoso,
Não teve mulher assim!)


Quem sou eu para escrever sobre a escrita da mestra? Recortei esses versos mostrando a densidade em que ela coloca o clima de tensão na cidade às vésperas da data programada para o levante:


Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma as teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.


Sobre Joaquim Silvério dos Reis poemou:

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples alferes.
Recebeu trinta dinheiros...
– e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda vida,
perdão para o quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes.


Vale a pena ler e descobrir o que a autora reservou a Tiradentes e como ela contou o momento do enforcamento.

Versejou também para o pessoal da cobiça. Aqueles que queriam ouro, diamantes, pedras preciosas a qualquer custo. Parece que adivinhava o futuro no litígio familiar disputando seu legado. Mas isso já é outra história.

Pop Para – choque - Vlado Lima




Vlado Lima é um escroto.

É um escroto criativo e genial.

Mas escroto.


E o que é um escroto?

É um sujeito politicamente incorreto.


Ou melhor.

Tem humor e pensamentos cortantes politicamente incorretos .


Vlado é genial escroto.

O livro – Pop para choque – foi-me empurrado por um agente cultural fã de Bukowski e que se auto intitula anárquico.


Raras vezes leio o que empurram. Minha goela é estreita.


Abri uma página aleatória e li:



LUPICINICAMENTE BLUES

as paredes do quarto: amarelo melancólico

as cortinas da sala: bege down

os móveis: marrom deprê

o carpete: cinza fossa



(...)



tem dias

que a minha casa cheira a Lupicínio Rodrigues



Como não perceber o soco na boca do estômago?





Livro aberto, sem virar folhas, fui à escancarada página anterior:



MEDO DE MICO

não tem vinho

nem vela

nem aqule versinho do Vinícius

não tem Billie na vitrola

nem ursinho Lionella

muito menos a possibilidade de um mico



tem apenas a chuva da ducha

e o pensamento ereto

Nela

(...)



Não costumo mastigar pedras, mas estas são de chocolate com pimenta recheadas com óleo diesel fervente.

 
O livro empurrado não é meu. Como é que eu vou sublinhar ou dobrar orelhas para marcar porradas?

Então anoto uma passagem da qual ri muito:




“hoje


em noites de feijão roxinho

toco La Cumparsita com minha orquestra de gases





minha mulher diz que sou um fracasso

um fracasso espetacular!”



Recebi outra cacetada com a imagem do verso que diz
“vou para Somália contar costelas”.



Recomendo a leitura se você não se choca com qualquer coisinha e sabe distinguir o autor da obra.

Vlado é genial.

Escrota é a escrita dele.

21 junho 2012

Resultado da Rio+20





Os últimos dias foram uma loucura. A cidade estava tomada por militantes de todas as cores. O Rio estava irreconhecível. Em todas as rodas e todas as rádios, nos cafés, nos jornais e na tevê o assunto era sempre a ecológica Rio+20.

Após o expediente da sexta, fugiu para o sítio em Teresópolis. Esqueceu a chave e resolveu dormir ao relento lembrando a infância.

O pai o ensinara a fazer uma cabana amarrando a ponta de uma árvore flexível no chão. A nostalgia apertou quando pegou o canivete vermelho no porta-luvas.

Logo encontrou um pinheiro com pouco mais que a sua altura. Fincou uma estaca no chão e com uma corda construiu o arco com a destreza de um escoteiro.

Abaixou-se e, de cócoras, passou por baixo do portal. Ouviu um zunido agudo como se atravessasse um túnel do tempo. Do outro lado o esperava um sujeito forte, braços cruzados sobre o peito, quase dois metros de altura, barba branca, olhar penetrante, mas familiar.

– Vovô? – arriscou.

– Não. – Grunhiu o velhinho. – Sou seu bisneto.

– Como assim? O que faz aqui?

– Vim cobrá-lo, você e toda a sua geração. Olha só o que sobrou da fazenda do seu avô?

O homem olhou para o posto de gasolina, para a fábrica de tintas e para o tamanho do parente.

Agachou-se, fingindo rezar, e de gatinhas atravessou a passagem de volta.

Prometeu a si mesmo que não voltaria ao Rio enquanto não terminasse a Conferência Rio+20.

05 junho 2012

Carta ao cacique Seattle


Ao cacique Seattle
 

Goiânia, 1 de dezembro de 2010

Prezado Cacique Seattle,

Sou estudante de comunicação na área de marketing. Nesta semana nosso professor, Mark Anthony, solicitou que escrevêssemos uma carta respondendo a sua carta, de 1855 ao presidente Francis Pierce quando ele apresentou uma proposta de compra do território Suquamish. Um pedacinho de terra onde os civilizados ergueram a cidade com seu nome, lá no Estado de Washington, noroeste americano.

Moro no Brasil desde pequeno. Sou seu descendente, nascido em Takoma, subúrbio de Seattle onde fica o grande aeroporto que atende a cidade. O aeroporto também é o ninho dos aviões da Boing, a maior construtora de aviões do mundo. É lá que as águias prateadas são chocadas para decolar e voar em outras pradarias levando no bico um pouco da grandeza da nossa terra.

Li e reli o que se denominou Carta do Cacique Seattle. Suas palavras são maravilhosas. A mensagem é grandiosa e espetacular. O começo é arrasador:

“Como podeis comprar ou vender o céu, a tepidez do chão? A idéia não tem sentido para nós. Se não possuímos o frescor do ar ou o brilho da água, como podeis querer comprá-los?”

Enxugando lágrimas pensei que nem o melhor anunciante de cervejas produziria uma peça tão brilhante e saí a vasculhar a Internet. Logo encontrei a mesma carta com outra versão cujo começo também é bombástico:

“Mas, como pode comprar ou vender o céu e o calor da terra? Tal idéia é estranha para nós. Se não somos os proprietários da pureza do ar ou do resplendor da água, como podes comprá-los a nós?”

Procurei um pouco mais e encontrei outras versões semelhantes. Percebi que as palavras mudaram, embora o significado fosse o mesmo. Isso me deixou muito curioso. Quer dizer que o homem branco tomou a terra do homem vermelho e mudou suas palavras? Julguei que fosse problema de tradução do inglês para o português. Fiquei abalado e triste ao continuar a busca para, enfim descobrir que sua letra não era bonita, sequer sabia escrever e que a famosa carta jamais existiu.

A verdade se revelou após muita pesquisa. Sei que você não pode responder nem se defender. Nem precisa. Os brancos o endeusaram. Transformaram um gigante em deus.

Em 10 de janeiro de 1854, ao invés de 1855, você discursou na sua língua para o governador do estado destacando a transitoriedade da existência. Expressou seu profundo amor pela natureza mostrando a necessidade de tomar conta da terra e de toda a vida sobre a terra. O discurso só foi traduzido para o inglês e publicado no jornal 33 anos depois, em 1887, quando você já convivia com os seus ancestrais. Suas palavras foram transformadas em letras e voltaram para a sombra das árvores. Permaneceram adormecidas até a década de 1970 quando um roteirista de cinema descobriu o potencial das suas idéias e escreveu uma versão atualizada, bem do agrado dos ambientalistas, que sopraram ao vento versões cada vez mais açucaradas.

Meu querido líder índio, pouco importa qual versão eu leia: seja em Suquamish, inglês ou na propaganda de um sabonete ecológico brasileiro. Importa a mensagem.

Você disse que vivia num lugar onde podia ouvir o farfalhar das folhas na primavera e o zunir das asas de um inseto. Isso acabou. Os tempos se passaram. No mesmo lugar onde você discursou nasceu uma estrela que tocou guitarra como se fosse uma cigarra. Jimmy Hendrix gemeu sons elétricos até morrer intoxicado. Nem esse nem outros insetos zunem, apenas os aviões barulham.

Por aqui termino a minha cartinha. Aprendi a lição de marketing com o homem branco e uma lição de vida com o vermelho.

Um abraço de um cidadão que mora na cidade-irmã de Seattle,

Chicken Foot

Escrito sob o pseudônimo de Pé de Galinha para um Desafio de Escritores do Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados em novembro de 2010.
 
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