21 junho 2012

Resultado da Rio+20





Os últimos dias foram uma loucura. A cidade estava tomada por militantes de todas as cores. O Rio estava irreconhecível. Em todas as rodas e todas as rádios, nos cafés, nos jornais e na tevê o assunto era sempre a ecológica Rio+20.

Após o expediente da sexta, fugiu para o sítio em Teresópolis. Esqueceu a chave e resolveu dormir ao relento lembrando a infância.

O pai o ensinara a fazer uma cabana amarrando a ponta de uma árvore flexível no chão. A nostalgia apertou quando pegou o canivete vermelho no porta-luvas.

Logo encontrou um pinheiro com pouco mais que a sua altura. Fincou uma estaca no chão e com uma corda construiu o arco com a destreza de um escoteiro.

Abaixou-se e, de cócoras, passou por baixo do portal. Ouviu um zunido agudo como se atravessasse um túnel do tempo. Do outro lado o esperava um sujeito forte, braços cruzados sobre o peito, quase dois metros de altura, barba branca, olhar penetrante, mas familiar.

– Vovô? – arriscou.

– Não. – Grunhiu o velhinho. – Sou seu bisneto.

– Como assim? O que faz aqui?

– Vim cobrá-lo, você e toda a sua geração. Olha só o que sobrou da fazenda do seu avô?

O homem olhou para o posto de gasolina, para a fábrica de tintas e para o tamanho do parente.

Agachou-se, fingindo rezar, e de gatinhas atravessou a passagem de volta.

Prometeu a si mesmo que não voltaria ao Rio enquanto não terminasse a Conferência Rio+20.

05 junho 2012

Carta ao cacique Seattle


Ao cacique Seattle
 

Goiânia, 1 de dezembro de 2010

Prezado Cacique Seattle,

Sou estudante de comunicação na área de marketing. Nesta semana nosso professor, Mark Anthony, solicitou que escrevêssemos uma carta respondendo a sua carta, de 1855 ao presidente Francis Pierce quando ele apresentou uma proposta de compra do território Suquamish. Um pedacinho de terra onde os civilizados ergueram a cidade com seu nome, lá no Estado de Washington, noroeste americano.

Moro no Brasil desde pequeno. Sou seu descendente, nascido em Takoma, subúrbio de Seattle onde fica o grande aeroporto que atende a cidade. O aeroporto também é o ninho dos aviões da Boing, a maior construtora de aviões do mundo. É lá que as águias prateadas são chocadas para decolar e voar em outras pradarias levando no bico um pouco da grandeza da nossa terra.

Li e reli o que se denominou Carta do Cacique Seattle. Suas palavras são maravilhosas. A mensagem é grandiosa e espetacular. O começo é arrasador:

“Como podeis comprar ou vender o céu, a tepidez do chão? A idéia não tem sentido para nós. Se não possuímos o frescor do ar ou o brilho da água, como podeis querer comprá-los?”

Enxugando lágrimas pensei que nem o melhor anunciante de cervejas produziria uma peça tão brilhante e saí a vasculhar a Internet. Logo encontrei a mesma carta com outra versão cujo começo também é bombástico:

“Mas, como pode comprar ou vender o céu e o calor da terra? Tal idéia é estranha para nós. Se não somos os proprietários da pureza do ar ou do resplendor da água, como podes comprá-los a nós?”

Procurei um pouco mais e encontrei outras versões semelhantes. Percebi que as palavras mudaram, embora o significado fosse o mesmo. Isso me deixou muito curioso. Quer dizer que o homem branco tomou a terra do homem vermelho e mudou suas palavras? Julguei que fosse problema de tradução do inglês para o português. Fiquei abalado e triste ao continuar a busca para, enfim descobrir que sua letra não era bonita, sequer sabia escrever e que a famosa carta jamais existiu.

A verdade se revelou após muita pesquisa. Sei que você não pode responder nem se defender. Nem precisa. Os brancos o endeusaram. Transformaram um gigante em deus.

Em 10 de janeiro de 1854, ao invés de 1855, você discursou na sua língua para o governador do estado destacando a transitoriedade da existência. Expressou seu profundo amor pela natureza mostrando a necessidade de tomar conta da terra e de toda a vida sobre a terra. O discurso só foi traduzido para o inglês e publicado no jornal 33 anos depois, em 1887, quando você já convivia com os seus ancestrais. Suas palavras foram transformadas em letras e voltaram para a sombra das árvores. Permaneceram adormecidas até a década de 1970 quando um roteirista de cinema descobriu o potencial das suas idéias e escreveu uma versão atualizada, bem do agrado dos ambientalistas, que sopraram ao vento versões cada vez mais açucaradas.

Meu querido líder índio, pouco importa qual versão eu leia: seja em Suquamish, inglês ou na propaganda de um sabonete ecológico brasileiro. Importa a mensagem.

Você disse que vivia num lugar onde podia ouvir o farfalhar das folhas na primavera e o zunir das asas de um inseto. Isso acabou. Os tempos se passaram. No mesmo lugar onde você discursou nasceu uma estrela que tocou guitarra como se fosse uma cigarra. Jimmy Hendrix gemeu sons elétricos até morrer intoxicado. Nem esse nem outros insetos zunem, apenas os aviões barulham.

Por aqui termino a minha cartinha. Aprendi a lição de marketing com o homem branco e uma lição de vida com o vermelho.

Um abraço de um cidadão que mora na cidade-irmã de Seattle,

Chicken Foot

Escrito sob o pseudônimo de Pé de Galinha para um Desafio de Escritores do Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados em novembro de 2010.
 
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