18 dezembro 2008

BOAS FESTAS

Amigos,

Tomara que Papai Noel atenda a todos os pedidos.

E que 2009 seja ainda melhor que 2008.

Com um abraço,

Klotz

15 dezembro 2008

Pipoca


Hoje é sexta-feira, começo do fim de semana. Dia de cinema. Dia de alto astral. Deveres cumpridos e descanso merecido.

Chego em casa com duas comédias trazidas da locadora.

Banho tomado, roupa confortável, pés descalços e telefonema da namorada dizendo-se companhia para o filme e para a pipoca.

Para minha surpresa, vejo que no armário onde deveriam estar os saquinhos de pipoca para microondas, eu encontro apenas um caixa de goiabada.

Não sou quadrado! Eu me viro!

Acho que ela não vai gostar de comer goiabada vendo filme. E se eu colocar no microondas? Acho que também não vai gostar.

Chinelo no , vou à padaria. tem milho para pipoca de panela.

Não tem para microondas?

Me enchi de idéias, comprei um pacote de milho e ainda dois pães franceses.

em casa, procurando por pipoca, nada encontrei, nem no índice do velho livro da Dona Benta.

Como é que não tem nada?

Naqueles tempos nem havia microondas!

Não sou quadrado. Eu me viro!

Cheio de autoconfiança e criatividade, pego o saquinho dos pães franceses e coloco duas xícaras cuidadosamente medidas do milho recém-comprado.

Feliz por me lembrar do óleo, coloco caprichada meia xícara por cima dos milhozinhos. Acho que xícara inteira é demais.

Eu tenho uma boa mão. É o que dizem meus amigos da roda de pôquer.

Resolvo deixar o sal para depois.

Orgulhoso das idéias, grampeio o saco de papel por três vezes.

Apressadamente coloco no microondas, afinal a banca da pia tem óleo demais para o meu gosto. Aproveito para secar o caminho de óleo entre a bancada e o forno.

Ansioso, nem espero a namorada chegar nem o filme começar. Aperto a tecla PIPOCA e providencio uma bebida. Vinho!

Vinho é bom para namorar...

O ruído do forno está diferente!

Espio pela janelinha e vejo que o saco estourou. Abro a porta imediatamente a tempo de levar uma pipoca na testa.

Toca o interfone. A namorada vai subir.

Ela chega e eu, cheio de brios, ofereço vinho e um pão com goiabada.

07 dezembro 2008

Três séculos depois


Cyfa, o habitante de Procyon, se aproxima velozmente do planeta Terra. O painel exibe uma brilhante esfera azul. O explorador galáctico enxerga uma bola de fumaça negra. Diminui a velocidade e consulta os instrumentos de navegação. Tudo confere. As coordenadas estão corretas. É o terceiro planeta mais próximo da pequena estrela denominada Sol. Não há dúvida: a localização do astro está exata. A cor é que difere dos registros.
Seguindo as instruções para averiguação das sucessivas explosões, permanece a uma distância relativamente segura na órbita do satélite natural.
O viajante Cyfa Luc é enorme. Com dois quilômetros de comprimento, ele é gigante para os padrões humanos. A nave espacial é a própria roupa acrescida de um pequeno laboratório preso ao corpo.
Independentemente de a veste ser muito resistente, Cyfa está preocupado com a grande quantidade de lixo que passa zunindo e suja o espaço. Abre uma sacola e recolhe os detritos que encontra.
Não há tempo a perder. Ainda há outros astros a conferir. O cientista lança alguns raios cibernéticos em direção à esfera opaca e, na velocidade da luz, é informado de que a composição dos gases da superfície sofreu mudanças. O monóxido de carbono passou a ser predominante. O odorímetro acusa a presença forte de enxofre. Agora a metade da superfície do astro é de água salgada e outra metade, sólida, é de um composto plástico derivado do petróleo. A temperatura aumentou significativamente desde a última medição. Os instrumentos também indicam que não há mais estranhos seres viventes.
Recolhe mais um minúsculo objeto voador abandonado à própria sorte. É uma garrafa de vidro verde que contém, em seu interior, um papel manuscrito.
Cyfa retira a rolha, desenrola o papel amarelado e reconhece a letra do seu antigo colega que estivera na Terra, 300 anos antes.

Ouvi um sabiá enamorado.
Aspirei o perfume do jasmim.
Chupei uma jabuticaba doce.
Deixei a areia escorrer sobre a pele.
Enxerguei um arco-íris sobre a cachoeira.

O planeta é maravilhoso.

Conheci crianças.
Ingênuas, curiosas, meigas. Ávidas por amigos.

Conversei com adolescentes.
Convictos, ousados, egoístas. Ávidos por vitórias.

Sondei adultos.
Gananciosos, gulosos, mentirosos. Ávidos por poder.

Cuidado! Humanos são venenosos.

27 novembro 2008

E agora, Maria?

Pela primeira vez, em quatro meses, acordara disposto e bem humorado. A grama em Brasília verdejara. Além disso, voltara a trabalhar no meu ofício como corretor, agora em uma grande incorporadora. A vantagem é que ela promovia os lançamentos imobiliários nos jornais e na televisão. Faria mais de uma venda no conjunto de salas recém-lançadas e dirigidas ao segmento médico.

Lembro-me dos acontecimentos daquele dia como se tivessem acontecido agora, há poucos minutos, mesmo após mais de uma década desde aquela segunda-feira, 15 de agosto de 1994. Na época, a minha intuição profetizara que aquele dia seria incomum. Seria um dia fantástico.

Saí de casa exatamente às 9h30, meia hora antes do início de meu expediente e me dirigi ao Setor Hospitalar Sul. No céu azul, o sol mostrava os dentes num enorme sorriso.

Bem próximo ao meu destino, chamou minha atenção uma banca de flores expondo cravos brancos. Foi irresistível. Combinava com o meu humor e completaria a minha auto-estima. Virei à esquerda e estacionei exatamente em frente à banca. Escolhi duas dúzias de flores que foram embrulhadas em papel celofane e presas com uma fita vermelha. Voltei para o carro, depositei o maço florido no banco de passageiros e o observei demoradamente. No mundo machista, em que vivemos, percebi como seria ridículo enfeitar com tantas flores o ambiente de trabalho. No trailer de vendas mal cabiam eu e um cliente, quanto mais duas dúzias de cravos brancos. O supervisor passaria por lá mais tarde. Se ele as visse, e não teria como não ver, espalharia no mesmo dia a notícia para toda a equipe. E eu precisava tanto daquele emprego.

Automaticamente, liguei o carro. Pensava nas flores e na conseqüência da provável falação. Segui em frente ao invés de entrar à direita, rumo ao meu ponto de vendas. Quando me dei conta, cem metros adiante, estava dentro do cemitério. Tudo foi muito rápido ou as minhas reações é que estavam lentas.

Acreditem, fiquei feliz com a solução apontada pelo destino. Decidi me desfazer das flores em algum túmulo. Avancei mais um pouco e estacionei o meu carrinho junto ao meio fio. Peguei o ramalhete e comecei a andar à procura de um jazigo que me fosse simpático, que me agradasse.

Nesses meus quatro meses de Brasília, jamais havia pisado no cemitério. O local plano, muito amplo e com verde para todos os lados, me agradou. Andei por entre várias sepulturas e logo encontrei uma, diferenciada. Uma singela cruz de mármore deitada ao lado da placa de bronze. O espaço era regado pela sombra de um ipê de flores amarelas.

Depositei o ramalhete e li o nome da morta:


Maria Helena dos Santos Abreu

* 13 04 1951

15 08 1993


Meus joelhos dobraram. Caí. Caí em choro compulsivo. Fazia um ano, exatamente um ano, que Helena, minha paixão, falecera.

Eu havia mudado de cidade em busca de Maria Helena. Eu sabia que ela estava morando em Brasília. Era só o que eu sabia. Vim para procurar por Helena. Minha doce Heleninha. Encontrei-a depois de quatro meses. Agarrei-me às flores, agora eu entendia porque escolhera cravos brancos. Eram suas prediletas.

Helena significou alegria na minha vida. Sempre inventava fórmulas para fazer e dizer as coisas de uma forma única, singular. Impossível classificá-la apenas com uma palavra. Helena era paixão, sexo, entusiasmo, imaginação, ousadia e criatividade.

Conhecemos-nos em Belo Horizonte, na ante-sala do dentista, e, antes mesmo da consulta, trocamos o primeiro beijo. O segundo beijo foi muito engraçado, pois nós dois estávamos com as bocas anestesiadas.

Heleninha era um ser especial, pessoa com muita energia. Acordava disposta, irradiava animação o dia inteiro e se deitava com disposição para brincar de montanha-russa.

Uma vez fomos convidados a passar o fim de semana na chácara de um amigo. Depois de duas horas de cerveja, ela me puxou pela mão dizendo-se com vontade de comer mangas colhidas no pé. A mangueira nem estava muito longe. Procurei uma vara para cutucar as frutas e ela argumentou que não se deve bater nem em frutas, que deveríamos subir na árvore e colhê-las com suavidade. Parecia uma macaquinha. Em dois tempos estava no alto com uma fruta avermelhada na mão. Demorei a alcançar o mesmo galho. Chupamos mangas e trocamos beijos. Chupamos beijos e trocamos mangas.

De uma outra vez, numa quarta-feira, ela insistiu em ver o pôr-do-sol no ponto mais alto da cidade, o Conjunto JK. Lá, o enorme relógio brilha a hora certa de dia e de noite. Helena superava todas as barreiras e conseguimos chegar ao topo do edifício, na cobertura, com relativa facilidade. A surpreendente Heleninha tinha razão, a vista fascinante merecia um brinde e por isso trouxera uma garrafa que ainda conservava a temperatura gelada. A rolha do espumante explodiu prédio abaixo. Foi sensual beber champanhe sobre a pele. Foi erótico amar tendo beagá aos nossos pés.

Você não tem idéia o quanto amei essa mulher.

E nem pense que Heleninha só gostava das alturas. Num feriado, na distante Guarapari, depois de comermos moqueca de siri e bolinhos de mandioca, num dos quiosques da praia, fomos nos refrescar. A água transparente permitia que meus olhos vissem a tatuagem que só eu conhecia. Naquele dia o mar ferveu.

Em nossos momentos de reflexão e maturidade sabíamos que juntos não teríamos futuro nem segurança. Escrevemos um pacto, assinamos com letras de paixão e nos casamos. Ela com um rico engenheiro e eu com uma dondoca metida a besta. Nossos encontros diários passaram a ser semanais. Carentes, combinamos um jantar no mesmo restaurante. Ela com o marido e eu com a minha esposa. Naturalmente, em mesas diferentes. Foi muito excitante levantarmos ao mesmo tempo e entrarmos furtivamente no mesmo banheiro.

Foram muitos os encontros. Em outra oportunidade, pedi a um colega, corretor, que me desse as chaves de um apartamento finamente mobiliado para mostrá-lo para um cliente. Fantasiamos uma tarde inesquecível. Ela de enfermeira e eu de caubói.

Tudo se transformou quando Maria Helena e o marido mudaram para Brasília. Alugamos caixas postais para trocarmos correspondências entusiasmadas e libertinas. Após oito meses, de uma hora para outra, inexplicavelmente, Helena despediu-se e sumiu. Parou de escrever. Aguardei alguns meses sem nenhum contato. Entrei em desespero e me propus a encontrá-la. Desfiz meu casamento, larguei meu emprego e peguei a estrada. Eu não tinha o telefone nem o endereço. Apenas o número de uma caixa postal e uma fixação: encontrar a amada.

Como eu iria localizar uma secretária? Procurei pelo marido em todas as construtoras. Vasculhei órgãos públicos e empresas privadas. Até que, diante do túmulo, no dia 15 de agosto, relembrei de todos os fatos, e ainda ajoelhado, voltei a abraçar o maço com a fita vermelha.

Todos devem ter uma Maria Helena na vida.

Para mim, naquele momento, a mensagem da última carta recebida fez sentido.

“Meu amor, eu estou muito bem. Recebi a herança da minha mãe.”

Eu não conheci Dona Diva, a mãe de Maria Helena, soube apenas que era uma pobretona como eu e que faleceu de câncer nos pulmões.

Terminou a carta dizendo que “me chamaria quando estivesse em paz novamente.”

19 novembro 2008

Crianças sempre embaraçam a gente

— Por que eu tenho que colocar roupa?
— Por que o papai tem de trabalhar e você não?
— Por que a sua mão treme?
— Por que suas fotos, quando criança, não são coloridas?
— Por que isso? — Por que aquilo? — Por quê?
— Por que essa menina faz tantas perguntas?
Todo sábado é a mesma coisa. Ainda bem. Filho e nora deixam a netinha aqui em casa e saem para o cinema, vão a algum casamento, se reúnem na casa do Vinícius ou recebem alguém em casa. Eles sempre têm alguma coisa para fazer e deixam a pequena aqui em casa. Fazem isso por eles e por nós, avós corujas.
Ana Beatriz é um doce, muito quietinha. Chega de pijama de flanela, pede colo e uma historinha antes de dormir. Os olhinhos fecham, a cabeça cai e a levo para a cama. Aninha é querida. Não levanta no meio da noite, não faz xixi na cama, nem pede por papai ou mamãe. Apenas dorme profundamente, abraçada ao travesseiro.
Acredito sinceramente que, à noite, um duende verde confunde a menina com um brinquedo e dá corda. De manhã, junto com o canto dos passarinhos, Aninha acorda serelepe, matraca e perguntadeira.
— Vô? — pulando na cama — Posso deitar na sua cama? — cutuca a sola do meu pé com o dedinho — Por que você não tem cócegas no pé? Cadê a vó? Ela tá fazendo pão de queijo?
— Você não ia se deitar na cama? — Pergunto, enquanto estalo um beijo na testa despenteada.
— A gente vai para o zoológico depois do café? — Correndo para o banheiro.
— Vamos ver a girafa, o elefante, o jacaré e os macacos.
Aninha já estava no banheiro espremendo a pasta de dentes.
— A pasta de listrinhas vermelhas já acabou?
— A vovó comprou essa azulzinha especialmente para você.
— É verdade que a vó usa dentadura?
— Não. A vovó não usa dentadura. Ela pode morder a sua bochecha.
— Hoje de manhã ouvi a vó rezando na hora de levantar. Você não reza?
— Algumas pessoas rezam em voz alta e outras rezam baixinho.
— Eu nunca vi você rezar. Você tem um terço?
— Não querida. Eu não tenho terço. Aquele ali é da vó.
— A bisa me ensinou a rezar em alemão. Ich bin klein. Mein Herz ist rein. Soll niemand drin wohnen als Jesus allein*.
— Que bonitinha. Fale de novo, mais devagarzinho, senão o bom Deus não compreende.
— Deus fala alemão ou português?
— Deus entende todas as línguas.
— A tia da escola disse que os índios falavam uma língua que ninguém entendia.
— Os índios falavam uma língua que os portugueses não entendiam.
— A tia disse que os índios não acreditavam em Deus.
— Muitos não acreditam em Deus.
— Por que alguns acreditam em Deus e por que outros não acreditam?
— O deus dos índios é diferente daquele em que nós acreditamos.
— A mãe do Felipe não é índia. E não acredita em Deus.
Fugindo da pressão, segurei a mão da Aninha e a levei para a cozinha.
— Bom-dia querida! Olha só quem eu trouxe! O pão de queijo já está pronto?
Ana agarrou-se ao pescoço da avó e tascou um beijo lambuzado de pasta de dentes.
— Vó, por que alguns acreditam em Deus e outros não?
— Meu anjinho, vista uma roupinha. O pão de queijo está quase pronto. Alfredo, ajude sua neta.
A menina olhou para mim e fez beicinho de quem não recebeu a resposta nem comeu o pão de queijo.
Fui com ela até o quarto onde estava a sacola com a roupa.
— Hoje nós vamos ao zoológico. Você tem medo de lobo mau?
— Eu não. Lobo mau não existe.
— Tem alguma coleguinha que tem medo do lobo mau?
— O Rodrigo tem medo.
— Então, ele acredita em lobo mau?
— A Maria Alice também acredita.
— Então, Aninha, é assim: alguns acreditam e outros não acreditam. Como em Deus.
A menina abriu um enorme sorriso, correu para a cozinha e eu fiquei aliviado.
— Vó, Deus é como um lobo bom. Não é?
Ainda bem que o pão de queijo ficou pronto.

* Versão para a oração infantil:Sou pequenino. Meu coração é puro. Nele mora Jesus menino.

11 novembro 2008

Carta para Machado



São Paulo, 11 de outubro de 2008
Prezado Machado,

Acabei de finalizar o meu primeiro livro. É um livro de crônicas. Consta que o senhor é reconhecido como um dos primeiros cronistas brasileiros. Isso me dá a liberdade de lhe escrever, sem constrangimentos, uma vez que somos colegas de gênero. Como colega, solicito um favor especial: gostaria que escrevesse uma apresentação para colocar na contracapa do meu livro. Seria de enorme honra e grande privilégio, uma vez que já procurei na livraria e não encontrei nenhum livro onde apresenta algum escritor e a respectiva obra. Serei o único.
Quando o leitor entra na loja disposto a adquirir alguma obra, primeiramente é atraído pela capa ou pelo nome do autor. Embora tenha escolhido um nome polêmico, ainda sou desconhecido, então a capa é fundamental, por isso pedi ao editor para criar a capa com um vermelho forte e colocar a palavra sexo bem grande. Dizem que isso vende muito. Evito imagem, pois a palavra em si atrai homens e também mulheres. Depois que o promitente comprador (eu também conheço palavras pouco usadas) for atraído pelo sexo, irá virar o livro e ler a apresentação. É aí que preciso das suas palavras e sua assinatura.
Entendo que a contracapa é um dos principais itens de persuasão na venda ao leitor. Muito mais importante que as orelhas. O senhor poderá guardar e, no futuro, mostrar orgulhosamente aos seus filhos esse livro. Aparecer no verso de um livro conta mais pontos no currículo que um simples recorte de jornal. Sabia?
Embora eu seja um pouco desentrosado com a turma que lê e adora poemas, sei que Machado de Assis é bem conhecido no meio literário, tanto que, recentemente, o seu aniversário, me contaram, foi notícia em programa de televisão. Procurei pelos títulos dos seus livros entre os mais vendidos numa revista semanal, infelizmente não o encontrei entre os primeiros cronistas. É básico apertar a sua editora e cobrar a assessoria de marketing. Sei lá, precisa aparecer no Jô Soares, no Serginho Groisman ou ser entrevistado pelo Faustão. A salvação é que, de acordo com as minhas pesquisas, no prédio onde moro, descobri que quase todos já ouviram falar do seu nome alguma vez. Isso é o que importa. O senhor é famoso por aqui. Isso não é bacana?
Quando for escrever a apresentação não precisa ser prolixo como nos seus romances, basta uma lauda, só há espaço para uma página e ainda precisa deixar lugar para o código de barras. Para o senhor, deve ser muito difícil fazer um texto enxuto, caso se exceda no tamanho, não se preocupe, pedirei ao editor para enxugar e cortar o supérfluo. Acredito que alguns elogios a meu respeito valorizem a obra e atraiam alguns compradores. Fique à vontade para elogiar. Pode inventar. Abuse. Dizem que tem muita criatividade. Mas, se faltar inspiração, sugiro que escreva que o cronista é de origem humilde, que só aprendeu a escrever aos doze anos de idade. Que o autor ganhava dinheiro lavando carros sob o sol quente e que entre um e outro automóvel escrevia à mão, sentado num caixote de madeira. Diga que me descobriu quando perdi meu caderno no seu possante. As pessoas ficam comovidas e compram. Em relação à minha escrita comente que a complexidade da leitura da obra cumpre um papel essencial e acarreta um processo de reformulação nas teorias literárias. Ou: é fundamental ressaltar o novo modelo estrutural aqui preconizado e que nos obriga à análise dos conceitos de formação de novos leitores. Encontrei essas magníficas frases em um manual que ensina oradores a discursar. A lista de frases é extensa, se precisar, posso transcrevê-las. É só pedir.
O editor disse que é importante ser apresentado por alguém renomado, pois agrega valor à obra. Logo pensei em alguns personagens famosos como o Ayrton Senna, Elvis Presley ou mesmo o Ghandi, já ouviu falar, né? Só depois o editor informou que deveria ser alguém da área das letras. Imediatamente lembrei e sugeri o Morse, aquele do código. Foi rejeitado. O editor parece estar perdido. Toda hora quer uma coisa diferente. Finalmente explicou que o ideal seria alguém famoso da área de letras e com vários livros publicados. Pensei no autor do Dom Quixote, mas eliminei Cervantes porque só escreveu esse livro famoso. Depois, sem dúvidas, escrevi uma carta para William Shakespeare (se pronuncia uíliam) solicitando escrever a contracapa. Quando eu estava a caminho para a agência dos correios, encontrei um amigo que alertou que o tal do William não iria responder a carta por não falar português. Desisti do inglês. Só sobrou seu nome.
Ah, antes de finalizar, gostaria que enviasse também uma foto colorida. Suas fotos sempre são muito sérias, procure uma mais alegre, com um sorriso grande em que apareçam os dentes. E, em vez daquela roupa de casamento prefiro que esteja de bermuda para combinar com o meu livro de crônicas descontraídas.
O lançamento será daqui a três meses, no bar do Tião das Codornas. O lugar é ótimo para vender. É muito movimentado. Se quiser, posso pedir para arrumarem uma mesinha onde poderá vender os seus livros. Se não vender nenhum, ao menos tem a chance de sair de lá com uma namorada.
Por favor, responda logo para não atrasar a edição.

Um abraço do seu colega,

Cid Cheldom

04 novembro 2008

Pílulas contra o mau humor



Eram nove horas da manhã quando José Geraldo entrou na sala da repartição. Passou direto pela secretária, por seus dois colegas de trabalho e dirigiu-se à sua mesa.
— A idiota da faxineira esqueceu a garrafa de álcool. Oh mulherzinha avoada!
Pedro, vizinho de mesa, suavizou.
— Bom-dia! Ainda é bom costume cumprimentar. Em vez de ofender a dona Antônia deveria ligar para ela, agradecer por ela ter limpado seu espaço e informar que guardou o produto de limpeza.
— Tá de caso com ela?
— É impressionante como você começa o dia de forma grosseira, desrespeitosa, mal humorada e sem educação.
Ignorando a observação — Já leu o jornal?
— Não, ainda não terminei de ler.
José Geraldo, sem nenhum constrangimento, enfia a mão no meio da leitura de Pedro e puxa o caderno de esportes.
— Peraí! Eu ainda não li este caderno!
— Que egoísmo, você não tem capacidade para ler tudo ao mesmo tempo. Cadê sua generosidade?
— Aposto que sua namorada dormiu de calça jeans.
— Seja criativo. Pare com suas piadinhas repetitivas.
Evitando constrangimentos, Pedro silenciou.
Na ante-sala, a secretária, responsável pelo jornal, murmurou palavrões imaginando a bronca do chefe ao descobrir o jornal bagunçado.
Passados dez minutos, Pedro comenta a nota policial.
— Viu só? O ladrão entrou na casa durante a madrugada, separou a televisão e o micro, depois se encheu de comida da geladeira, esvaziou uma garrafa de uísque e adormeceu no sofá.
— Como é que eu veria? A notícia está na sua mão. Você não quis me dar todo o jornal.
— Apenas comentei, tentando um diálogo.
— Diálogo? Monólogo, isso sim. Como posso dialogar com alguém que não me permite ler o jornal.
Como só acontece em historinhas, o moço do cafezinho surge na hora certa para amenizar o clima de hostilidades.
— Bom-dia.— enquanto distribui os copos descartáveis — O que vai ser hoje? Ovos estrelados, sucrilhos ou omelete com beicon?
— Obrigado Zezinho. Tem antiácido para o Jotagê?
José Geraldo, sem tirar os olhos do caderno de esportes.
— Sirva um copinho de raticida para meu vizinho.
Zezinho caminhou em direção ao ventilador.
— Eitcha ambiente carregado... Vou aumentar a velocidade para o vento levar o mau humor.
José Geraldo olhou com reprovação.
— Aumente não. Já basta o barulho insuportável das cigarras gritando nas árvores.
Como que fugindo de uma nuvem pesada, Zezinho empurrou seu carrinho para a saída ameaçando fechar a porta enquanto Pedro faz cara de quem está curtindo violinos da orquestra sinfônica.
— Isso que você chama de barulho é o canto das cigarras. É a perpetuação da espécie. É o anúncio das chuvas. É a mudança de estação. Já viu como os flamboyants estão floridos?
— Vai se tratar, Pedrinho! – colocando o queixo sobre o ombro e piscando rapidamente os olhos — Isso de gostar de florzinha vermelhinha é pra flamboiólas. Acho que você escorregou nalguma flor cor-de-rosa e caiu na bichice.
— É Jotagê, se você fosse mulher, eu diria que foi mal comida.
— Outra vez você vem com piadinha manjada ansiando gargalhadas. Invente! Só teletube repete a mesma coisa vinte mil vezes e, mesmo assim, para inocentes bebês.
Pedro, mais uma vez bombardeado por José Geraldo, procura por um aliado na conversa e olha na direção do outro colega de trabalho em leitura concentrada.
— E aí Barbosa, o que você me diz? Concorda que está faltando mulher na vida do Jotagê?
— Não sei e não estou preocupado com os problemas dos outros. Sei apenas que daqui a pouco o chefe vai entrar por aquela porta e perguntar o que a gente tá fazendo.
— E o que você, Barbosa, está fazendo de tão importante?
— Estou cuidando do meu humor. Lendo e apreciando as imagens de um tratado sobre a saúde, manutenção e desenvolvimento do bom humor.
— Tudo o que o carrancudo Jotagê precisa na vida. O que é?
Barbosa levantou a Playboy aberta na página central exatamente na hora em que o chefe pisou na sala.

28 outubro 2008

Metamorfose na estrada


Demorei três longos minutos na leitura da placa que dizia Via Anchieta em letras de forma. Eu recém aprendera a ler. Minha mãe ensinou-me ali, no acostamento da estrada, o som do ceagá. O mesmo de chuva, chapéu e chave. Não entendia porque xícara deveria ser diferente. O momento foi de aprendizado, enquanto meu pai trocava o pneu. Os carros zuniam quando passavam por nós descendo a serra. Na outra pista, os fenemês bufavam negra fumaça para subir. Do lado de lá, além do estreito acostamento havia uma parede de rocha molhada vestida de musgo. Do lado de cá, havia um espaço apertado até o guard rail. Depois da barreira metálica o mundo se acabava numa ribanceira de floresta fechada. Ao longe avistávamos o mar e a baixada santista no cinza embaçado do horizonte. Abaixei-me e colhi uma flor. Soprei e ela se desfez em pequenos pára-quedas que o vento levou. Acredito que isso tenha acontecido no mesmo ano em que o Brasil ganhou a copa pela primeira vez.

Inúmeras vezes nossa família desceu a serra aos sábados assim que a aula da escola terminava. O sanduíche com fatias de queijo vinha brilhante no papel laminado. Cantoria e brincadeiras completavam a euforia da expectativa de outro final de semana na praia. Chegando a Santos pegávamos a balsa para atravessar o canal de Bertioga e seguir caminho rumo ao Guarujá.

Corre, brinca, mergulha, joga futebol, puxa arrastão, pega onda, constrói castelo na areia.

Domingo à noite, meu pai baixava o banco traseiro do carro e fazia uma cama para mim e meus irmãos. Dormíamos antes de fechar o portão da casa. Não me lembro do carro serpenteando serra acima.

Já em outras épocas, comecei a compreender a alegria se modificando em tristeza, no retorno a São Paulo. O fim de semana terminara. As férias acabaram. O clima ensolarado esfriou. Ao passarmos por Cubatão, começando a subida, enxergávamos de longe uma labareda no alto de uma chaminé. Várias outras torres imitavam vulcões criando cortinas intoxicadas de doença e morte. Tudo tão triste quanto o furto da Taça Jules Rimet e a eliminação do Brasil na copa dos ingleses.

Ao descer a estrada percebíamos a magia da transformação. Trocávamos obrigações e deveres por direitos e prazeres. As rugas migravam da testa para emoldurar sorrisos. Descer as curvas da estrada de Santos significava liberdade, alegria, descontração, paqueras, beijos, dourado na pele e peladas na praia. O toque final da metamorfose ocorria quando ouvíamos as ondas do mar.

A via Anchieta era larga na altura de São Bernardo. Um gramado e um fosso separavam as duas pistas para ir e as duas para voltar. Na altura do quilometro 23 despontava, do lado direito, a enorme fábrica da Volkswagen. Ali, todos passavam a cem por hora para drasticamente reduzir a velocidade na Polícia Rodoviária. O posto policial também era um depósito de horrores com dezenas de carros inutilizados. Acima da pilha um aviso ameaçava: não corra, não mate, não morra. Tantas foram as vezes que passamos por ali que a intimidação perdera o efeito. Logo adiante começava a descida da serra. A sombra ocupava o lugar do sol. A pista perdia largura e o fosso de separação se transformava em faixa contínua. Era um desafio ultrapassar caminhões desengrenados, quase impossível, nos freqüentes dias de neblina. Quando havia visibilidade para superar um caminhão surgia um carro na outra pista, uma ponte ou outro túnel de luzes amarelas. O visual ajudava a relaxar a tensão. Cascatas de espuma branca pintando rochas negras nas montanhas e ipês amarelos contrastando com o verde no vale. Havia um recuo com uma bica jorrando água numa bacia de pedra sabão onde os motoristas enchiam seus cantis de água gelada. Sempre tive vontade de parar, mas iria atrapalhar o plano dos meus irmãos, que agora pilotavam o carro. Boy que é boy chega no Guarujá em menos de duas horas, incluindo a fila da balsa. Dentro do porta-luvas meu irmão instalou um aparelho para tocar fitas cassete para curtirmos os Beatles.

Num sábado à noite, ah, foi inesquecível. Eu já me sentia capaz. Eu queria ser homem. Só faltava a grande prova. Chegar na praia em menos de duas horas. Meu pai me emprestara o carro para fazer um simulado no cursinho. Saí do teste confiante com meu desempenho. O Brasil tinha sido tricampeão elevando nossa auto-estima. Olhei para o ponteiro de combustível do fusquinha branco e calculei que havia gasolina suficiente para ir e voltar. A tinta da minha carteira de motorista nem havia secado e me desembestei estrada afora. Corri um bocado. Na praia foi bom encontrar um monte de amigos, divertir-me com as ironias do Pasquim, ter orgulho do Emerson, campeão de Fórmula 3, que estreava na Fórmula 1 e principalmente contar vantagem que eu tinha saído do cursinho uma hora e meia antes. Responsável que era, não tomei nenhuma cerveja e às quatro da manhã resolvi que era hora de retornar. Um primo pediu carona. Este sim era um irresponsável. Estimulou o meu pé direito a acelerar fundo. Para não morrer, brequei em muitas ultrapassagens. Graças à estrada vazia retornei em uma hora e vinte. A sorte esteve do meu lado. Jamais voltei a fazer bobagens como aquela. Mas no dia, só faltou bater a mão no peito e dizer: agora sou homem.

Anos mais tarde, morando longe de São Paulo, resolvi levar meus filhos, nas férias, para nadar nas mesmas ondas da minha infância e adolescência.

Fomos de carro até São Paulo e seguimos rumo ao litoral. Cheio de boas lembranças, busquei os sonhos ao meu redor e retornei a trilhar o caminho para a praia.

A estrada, agora, descia rápida em quatro faixas independentes das outras quatro do retorno. Pontes e túneis largos. Sem tensões, ultrapassamos e fomos ultrapassados a 120 por hora. A tecnologia da construção facilitou a vida. Acabaram-se os desafios, sumiram as transformações e expectativas a cada curva. A paisagem passava veloz, impedindo sentimentos passados e emoções maravilhosas percebidas na infância. Apesar da música alegre do cedê eu estava triste. Não encontrara flor para minha filha soprar. Meu filho chorava a perda da copa para os franceses. Enquanto lia rapidamente, em letras de forma, que aquela estrada era a Via dos Imigrantes.

21 outubro 2008

Terça crônica



O programa Terça Crônica é muito legal. O apresentador Jones Schneider começa dramatizando um texto do homenageado e depois o entrevista. Em seguida Alex Souza interpreta uma canção de um músico consagrado.

Onze cronistas foram homenageados: Affonso Romano de Sant’Anna, Luis Fernando Verissimo, Carlos Eduardo Novaes, Fernanda Takai de renome nacional. E ainda Conceição Freitas, Alexandre Ribondi, José Carlos Vieira, Márcio Cotrim, Severino Francisco e Rogério Menezes, escritores brasilienses.

Aí, tchan, tchan, tchan... Com vocês: Robeeeerto Kloooootz.

Fui ao primeiro programa e adorei o aconchego do espaço e a forma intimista na condução. No segundo, levei um caderno de crônicas, na verdade o livro “Quase pisei!” e entreguei ao Jones. Para minha surpresa ele devorou e me convidou de imediato para participar. YES!!!

Tal qual criancinha, enviei um milhão de e-mails para todos os meus amigos (e não amigos) convidando-os para o evento. O teatro é pequeno e em todas as edições apenas pouco da metade das cadeiras foram ocupadas. Eu estava morrendo de medo da casa ficar vazia. Percorri bares divulgando e distribuindo convites – o evento é gratuito – e vendendo fanzines com 7 crônicas.

O Correio Braziliense publicou uma nota no jornal enquanto o mesmo jornal publicou uma entrevista na internet. Chique, né?

A casa encheu! Soube de várias pessoas que ficaram de fora, inclusive a mulher do músico.

As pessoas que estavam ali, eram meus amigos. Não soube de nenhum que era amigo de Caetano Veloso, o outro homenageado.

Infelizmente as crônicas lidas devem ficar inéditas até a publicação do livro.

Recomendei que amigos levassem tomates maduros para o caso de não gostarem dos textos. Ninguém jogou nada. Ainda bem.

Quando a gente não é conhecido, expliquei, temos que solicitar aos famosos que nos apresentem. Então, à respeito do meu livro “Pepino e farofa” eles não disseram:

Ernesto Che Guevara – Hay que ler Pepino e farofa, pero sin perder la ternura jamás.

Neil Armstrong Um pequeno livro para o homem, um grande livro para a humanidade.

Charles de GaullePepino e farofa não é um livro sério.

Dom Pedro de Alcântara Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que leia Pepino e farofa.

Esfinge – Leia Pepino e farofa ou te devoro.

A entrevista foi muito tranqüila. O bom humor foi a marca forte do programa.

Quando o programa terminou foi um óóóóóóóóóóóóóó que pena!

Adorei.

Ficou um gosto de quero mais.

Agora que não estou ao vivo na sua frente, caro leitor, arremesse os tomates maduros e as mensagens podres.

Publicado no Correioweb

http://www.correiobraziliense.com.br/divirtase

Brasília, terça-feira, 14 de outubro de 2008
DIVIRTA-SE
Programe-se

Terça Crônica recebe o escritor Roberto Klotz

Roberto Klotz já esteve no projeto para falar sobre Luis Fernando Veríssimo
Um espectador assíduo vai subir ao palco no encerramento da primeira temporada do Terça Crônica. Roberto Klotz esteve na estréia do projeto e se encantou pela mistura de conversa, leitura e música – marca dos encontros. Agora, suas narrativas é que vão se encontrar com as composições de Caetano Veloso, interpretadas por Alex Souza, às 21h, no Teatro Goldoni, na Casa d’Itália. Com entrada franca, a noite terá também a participação do ator e diretor Jones Schneider, idealizador do projeto. É ele o responsável pela leitura dramática dos textos e pela condução do bate-papo.

Klotz se interessou pelo projeto por envolver crônicas – sua “praia”, como descreve -, e tomou a iniciativa de mostrar a Jones seu livro Quase Pisei - reunindo 50 textos sobre suas caminhadas diárias. Com três livros prontos ainda não publicados, o ex-engenheiro civil decidiu “vencer na vida sendo escritor" e no próximo ano publicará seu livro Pepino e Farofa, contando suas aventuras culinárias, com recursos do Fundo da Arte e da Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do DF. Escritor recente e apaixonado, Roberto indica o texto A Escrita, disponível em seu blog (http://robertoklotz.blogspot.com), como uma referência sobre seu modo de escrever. Crônica é meu jeito de ser", resume.
Esta não é a primeira vez que Klotz sobe ao palco do Terça Crônica: em setembro ele foi convidado para falar sobre o estilo e linguagem de Luis Fernando Veríssimo. Para Jones Schneider, o convidado desta noite "é um escritor inteligente, despretensioso e bem humorado, que representa muito bem o cronista de Brasília". Depois dessa edição, o projeto fará uma pausa e em novembro estará de volta.

11 outubro 2008

Central do Brasil virou Galeão


— Take three, cena five. — disse enquanto mostrava o caderno como se fosse uma claquete. Acendeu a luz do abajur, e gritou numa folha de papel enrolada imitando um megafone: — luzes, câmara, ação!
Saiu do papel de diretor e colocou-se no papel de roteirista.
— O saguão do Galeão, limpinho, cheio de gente bonita, homens de negócios, famílias se despedindo, carrinhos cheios de malas coloridas, um garotão sarado com uma prancha de surfe. Todos, eu disse todos, repentinamente param como se fossem estátuas para ver o desempenho da salvadora heroína arrastando o abandonado órfão perdido no Rio de Janeiro. Aí, eu, Jessielly Stone, com os cabelos soltos, corro em direção ao portão de embarque, arrasto o Stallone pela mão, me viro para trás e digo, em close: — se apresse, vou achar o seu pai, esteja ele onde estiver. — Em seguida revirou os olhos e curvou-se toda, esticando um braço, aguardando os aplausos do único espectador.
Walter bateu palmas sem entusiasmo.
— O que foi querido? Parece que não gostou?
— O roteiro é um pouco diferente. A história começa numa estação da Central do Brasil onde uma senhora escreve cartas para analfabetos...
— A Central do Brasil não está com nada! Só tem gente feia, só tem pobre. É tudo sujo e cinza. Tem que ter cor, vida, alegria. Inicie numa lan house do shopping da Barra, cheio de luzes e juventude. Eu ajudo o Sly, — aposto que você não sabia do apelido do Stallone — e a mãe dele a digitar um e-mail em português, depois os dois saem da loja e olham vitrines. É hora de mostrar as lojas bonitas. Você pode fazer mershandising e ganhar um dinheirinho extra. É a hora de mostrar o Brasil para os estrangeiros. Os nossos tênis são iguaizinhos aos deles. Temos McDonald’s, ninguém passa fome aqui. Tem o elevador panorâmico... tem até uma árvore de Natal. Linda! Na saída você mostra um garoto andando de skate quando eles pegam um táxi. Achei horrível a mãe, no seu roteiro, morrer atropelada, coisa de pobre, é preferível que a mãe dele morra numa tentativa de seqüestro. Muito mais ação, isso prende o telespectador na cadeira, sabe.
Walter, incrédulo, põe a mão no queixo.
— No roteiro é um menino de nove anos, filho de uma retirante, que nunca conheceu o pai.
— Eco. Quem gosta de pobre é assistente social e político na hora das eleições. Esse pessoal estrangeiro quer ver gente bonita, forte. Eu nem gosto do Rambo, mas a galera toda vibra com os filmes dele. Se você colocar o Stallone naquela telona, nossa, vão fazer fila na bilheteria. O Stallone tem o perfil certo para o filme. Não precisa falar e já tem aquele olhar triste e carente de minha Mami morreu. Aliás, falando-se em fala, nesse momento do seqüestro você enche de gente atirando para todos os lados. O Rambo, depois de matar uns quinze, olha bem no fundo do olho daquele que matou a mãe e antes de atirar diz: hasta la vista baby!
— Mas isso foi dito pelo Schwarzenegger em “Exterminador do Futuro”!
— Se liga, Walter, o que você queria que o Rambo dissesse olhando no fundo do olho do bandido? “Eu acho que vi um gatinho?” Me poupe! Ninguém merece! Aí o Stallone me procura e pede que eu o ajude a voltar para os Estados Unidos para encontrar o pai dele que ele nunca conheceu.
— E você fala inglês?
— E você acha que, com um nome como o meu, Jessielly Stone, eu não saberia falar inglês?
— Mas o seu nome não é Jessielly Rocha?
— Era, do verbo já não é mais. Mudei quando li que você iria lançar o filme nos States.
— Ah bom, faz sentido. — o diretor toma um gole de água — Desculpe interromper, continue por favor.
— Aí, a gente viaja por todos as cidades americanas importantes, Chicago, Washington, Orlando, Los Angeles e quando a gente chegar na capital, o filme mostra todos os pontos turísticos de Nova Iorque: Wall Street, Broadway, Empire State, Torre Eiffel...
Walter coçou o queixo, sorriu debochado.
— Como foi que eu não pensei nisso antes.
— Honey, é lógico, tem que mostrar o lado romântico, que a vida é maravilhosa. Você só pode ganhar o Oscar se você mostrar que a vida é bela. Sabe aquela parte em que eles entram num restaurantezinho chulé de beira de estrada?
— Você se refere ao ponto em que ambos são convidados por um motorista de caminhão e que ela aproveita para furtar comida?
— Esse mesmo. Ninguém agüenta história de roubar biscoitinho recheado de goiabada. Americano nem sabe o que é goiabada. Tem que roubar coisa elegante, supérflua, num shopping fino. Aí, você filma dentro de alguma loja, bem chique, da C&A, o Stallone afanando duas gravatas italianas. Então é flagrado e começa o maior quebra dentro da loja. Ele vai preso e eu sou interrogada. No interrogatório eu sento de frente para os policiais, acendo o cigarro, dou uma baforada e cruzo as pernas, lógico que estou sem calcinha e soltam a gente.
— É impressionante como você pensa em tudo!
— Isso é básico. Um filme tem que ter muita ação, romantismo e umas cenas picantes. Eu já te falei, já fiz novelas na Globo. Taí no meu book, numa eu fui lojista no capítulo 53 e na outra o Antônio Bandeira assobia para mim quando atravesso a rua no capítulo 68.
— Estou curioso. Naturalmente, para fazer sentido, você modificou o final onde a mulher, já afeiçoada ao menino, entrega o garoto aos irmãos e retorna solitária enquanto o garoto joga bola com seus irmãos em frente a uma vila de casas populares construídas pelo governo.
— Só melhorei um pouquinho. O Stallone conquista meu coração, eu fico com ele, a gente vai para cama, mas é só sexo técnico, e aí você mostra as mansões da Califórnia numa câmara se abrindo ao por do sol.
— Muito obrigado, Jessielly. Não sei como o mundo seria sem pessoas como você. Por favor, devolva o roteiro antes de sair.
— Não tem de quê, eu não sei escrever direito. Você escreve as alterações e quando terminar você me chama de novo, tá bom? Ah, e o meu nome é com dois eles e ipsilone no final.

06 outubro 2008

O homem sem sentidos

Misteriosa figura de chapéu coco, calada em seu olfato e emudecida no olhar por uma pomba branca. Quem é você? Olho para sua imagem e não tenho respostas, apenas mais perguntas e questões. Por que se esconde atrás do símbolo da paz? Ou foi a paz que o deixou sem sentidos? Você está triste com a rápida passagem da pomba ou alegre por ela ter chegado? O que você oculta? Debocha das minhas dúvidas ou está feliz por encontrar alguém questionador?
Você já se olhou no espelho? Reparou que a sua gravata é de uma cor indefinida? Hoje de manhã você levantou, tomou banhou, barbeou-se, vestiu-se com aprumo e colocou gravata cor de incógnita só para me provocar? Ou faltaram vermelhos ao pintor? Ou será que o artista escolheu um acessório discreto para que todo o impacto do quadro ficasse na pomba? Impacto? Impossível. Não há impacto. A pomba voa livre, nada sugere colisão com a não moldura.
Ao artista você posou imóvel durante horas para que seu retrato ficasse perfeito. A pomba infeliz não posou nem pousou. Talvez devesse sujar seus trajes para você sair ultrajado da posição estática. A sua negra passividade contrasta com a mobilidade branca da pacífica pomba. E daí? Daí, se mexesse, eu poderia vê-lo. Mas não, permanece oculto e continuo sem saber quem é você.
Procuro mundo afora. Reviro canções, vasculho temperos, questiono peixes, apalpo nuvens, farejo um álbum de fotografias. Estranha figura de chapéu coco, eu o encontrei. Você é um brincalhão que olha um ovo e pinta uma ave, vê uma ave e faz um óleo da Eva. Descobriu muito antes dos publicitários que um simples símbolo pode significar uma idéia. Dois dedos em vê podem significar a vitória, uma cruz identifica o cristianismo, uma pomba com um ramo de oliveira expressa a paz e um homem sem rosto e de chapéu coco pode perfeitamente representar René Magritte.
Assim sendo, prezado monsieur Magritte, me engana que eu gosto, uma pomba na frente de um rosto não é a paz à sua frente. É apenas uma tela com uma pomba ocultando o rosto de um homem de chapéu coco.

01 outubro 2008

Sob as ondas do mar



As profundezas do oceano sugerem frio, escuridão, tristeza, silêncio, trevas e claustrofobia. Exatamente o oposto do que acontece na Atlântida. Dentro da enorme bolha submersa vive um povo dançante, iluminado, extrovertido, corajoso e autoconfiante.

A enorme ilha afundou intacta num terremoto de outras eras. Intactos também ficaram a pirâmide, a ciência e a filosofia dos habitantes daquele pedaço de terra afastado do mundo.

Ao naufragar, arrastou consigo uma enorme bolha de oxigênio e quando tocou o fundo do mar desencalhou uma jazida de rocha de fogo. As pedras irradiavam luz e calor. Em pouco tempo os trabalhadores grudaram milhares de fragmentos da rocha na superfície da abóbada que se transformou em céu de lua cheia. Os cientistas desenvolveram sistemas de irrigação e colheita para as terras férteis. Graças à comida fácil e abundante os ilhéus aplicaram o tempo disponível na educação e na cultura. Ampliaram conhecimentos e retiraram energia a partir do movimento do mar. Em algumas gerações de união, perseverança e isolamento construíram uma fabulosa e fantástica vila. Todos moram em casas espaçosas, ventiladas e iluminadas. A pirâmide é reservada ao comandante e aos cientistas, a elite de Atlântida. As máquinas realizam todos os serviços desagradáveis ou que demandam esforço físico. Tudo é meticulosamente organizado e limpo. Tampouco há desperdício. Iluminação, transportes e comunicações funcionam com precisão e pontualidade. Os atlantes têm uma vida confortável.

Os trabalhadores são muito animados. Amam as segundas-feiras, o único dia em que podem sair da bolha, após a ginástica, para colher algas e crustáceos. Dedicam três dias ao desmonte de navios e aviões e à manutenção dos equipamentos da bolha e enquanto os três dias restantes da semana são destinados à música e à dança. Os cientistas preocupados com o bem estar da população temem que alguma revolta por mais espaço e por mais filhos resulte no fim da qualidade de vida. Formularam as leis decretadas pelo comandante. Leis inflexíveis e severas. Todos devem que segui-las à risca de pesados castigos. À distância Atlântida parece ser o Éden. Não é.

O problema de Atlântida é o espaço fisco. Conforme os estudos e a experiência chegaram à conclusão que o limite máximo é de 5.000 habitantes sob pena de perda na qualidade de vida. Sempre que a cifra tétrica é atingida, alguém deve ser sacrificado. E esta escolha é decidida entre as paredes da pirâmide. Os cientistas se preocupam com a melhoria genética. Os escolhidos invariavelmente são portadores de alguma deficiência. No passado, a miopia ou a calvície justificavam a sentença. Devido às inúmeras uniões consangüíneas dentre a pequena população, mais recentemente a situação se agravou com o surgimento de uma misteriosa doença que, paulatinamente, enrijece e enfraquece primeiro pernas e depois braços, além de afetar a postura em geral e, em menor intensidade, a visão e a fala. Todos são alegres, todos dançam, porém os sacrifícios são constantes e ultimamente afetam inúmeros recém-nascidos. A música diminuiu o volume.

A solução, todos sabem, está acima da superfície do mar. Há três séculos capturam navios e mais recentemente fisgam também aeronaves que trafegam na região conhecida por Triângulo das Bermudas. Exceto homens, aproveitam tudo que encontram nas embarcações. Documentos, metais, combustíveis e alimentos. Os navios e aviões invariavelmente têm tripulação masculina o que levou os cientistas, nos últimos 50 anos, a desenvolverem técnicas de retirada de sêmen para inseminação artificial visando à melhoria genética do povo submerso. A solução é paliativa. A única saída para a salvação de Atlântida é o aumento da área. É a conquista de novos territórios.

Com a captura das aeronaves atuais, os cientistas confirmam a evolução muito grande dos terráqueos. Breve, muito breve, eles, os homens da superfície, terão condições de localizar a bolha e descobrir onde são desmontados os jatos. Saberão onde está e quem a habita. Não os deixarão em paz. Enviarão sondas e submarinos. A bolha será furada. Será a destruição. Será o fim.

O comandante, apoiado pelos estudos dos cientistas, reúne a população para, num discurso, informar que é chegada a hora de sair da defensiva e partir para a ofensiva. Confirma o sucesso absoluto do último teste realizado na região da Indonésia onde uma ilhota foi afundada trazendo consigo uma bolha de oxigênio. A ilha pousou suavemente no fundo do oceano exterminando todos os habitantes com a elevada pressão. Cem trabalhadores serão contemplados para fazer a viagem exploratória para conhecer nosso triunfo. Estes felizardos também terão a oportunidade de comprovar como os terráqueos são uma ameaça pelo modo como se refizeram da tsunami e rapidamente repovoarem toda a região afetada.

O comandante continuou o discurso com palavras sobre o futuro. Precisamos abalar profundamente o poder e a força dos seres da superfície além de provocar enormes baixas na população. Confirmo o fim dos testes, comprovamos nossa capacidade de provocar uma bolha do tamanho da nossa necessidade. E, por questões estratégicas planejamos duas novas moradias para o povo atlante. Ao afundarmos as ilhas simultaneamente, provocaremos ondas gigantes para abalar todos os poderosos do planeta. Afundaremos Cuba e Hondo, a maior ilha do Japão.

A contagem regressiva para a nossa expansão começa agora. Viva!


24 setembro 2008

Uma tragédia no terceiro milênio

Face anterior do sarcófago de Fedra. Data: AD 290. Paris, Musée du Louvre. Foto: Marie –Lan Nguyen



Apresentação das personagens


Fedra nasceu em berço de ouro, não era uma suburbana qualquer, tinha árvore genealógica repleta de gente da alta sociedade. Era de linhagem nobre com descendência direta do Rei Sol. Sempre teve tudo o que quis. Bela, exercia grande fascínio sobre os homens. Habituou-se a exercer sua magia para conquistar o que desejava. Caprichosa, passional, fútil, ninfomaníaca. Ainda muito cedo descobriu que o que interessava aos meninos estava um palmo abaixo do seu próprio umbigo. Usou esse conhecimento para obter vantagens e livrar-se dos inimigos. Rumores dão conta de que teria sofrido abuso sexual na primeira infância o que explicaria algumas de suas atitudes adultas. Freud, sem constrangimento, a rotularia de perversa.

Teseu, viúvo, era jogador inveterado. Somou fortuna arrasando seus adversários, tomando-lhes automóveis, casas e mulheres. Compulsivo fumante de charutos cubanos e uísque escocês. Exibia as mulheres mais bonitas do planeta. Gostava da companhia das mulheres, dizia que eram amuletos. Usava-as como um colecionador, mantendo-as intocadas, talvez para não estragá-las. Mantinha uma suíte nupcial especialmente para as suas conquistas. Os empregados diziam que a suíte era freqüentada apenas mensalmente. Freud, certamente diria que Teseu, apesar do sugestivo nome, era impotente.

Hipólito, filho de Teseu e Antíopa. Possuía cachos dourados e um corpo de abalar Atenas. Freqüentava academias de ginástica e dança moderna. Com seus discursos a favor da castidade repelia as investidas femininas. Vaidoso a ponto de gastar horas modelando os cabelos anelados protegidos por uma redinha sempre que saía com a Porshe amarela conversível, presente do pai. Visionário, triunfou como produtor musical, sendo responsável pelo sucesso de grupos como ABBA e Village People. Dizem que foi precursor no uso de anabolizantes e depilação completa para homens.

Breve resumo dos fatos — surge o conflito

Conheceram-se em Nova Iorque numa das noitadas promovidas no Studio 54 por Andy Warhol. Fedra foi ao encontro de Teseu com um Valentino negro, sóbrio, poderoso e colante. Estava arrasadora. Teseu exibiu Fedra durante uma semana antes de se casarem. A lua-de-mel foi inesquecível: a esposa, em casa, na Califórnia e o marido em um cassino no Arizona. Durante uma semana a fogosa e entediada mulher aproveitou para conhecer e explorar toda a mansão levada pela doce mão de Hipólito.

Alegando negócios, Teseu estava sempre ausente de casa. Enquanto isso Fedra ensinava os mistérios da maquiagem ao enteado que retribuia com massagens. Fedra se apaixonou e presenteou Hipólito com uma coleção de barbies.

Apesar da maravilhosa esposa, Teseu visitava o quarto nupcial apenas uma vez por mês, quando não estava viajando, de modo que a única alegria de Fedra era apreciar o corpo bronzeado e escultural de Hipólito na beira da piscina. Não havia mulher que não se apercebesse da fome da paixão nos olhos de Fedra,

Teseu passou o Natal de 2004 na Indonésia e não voltou. Fedra concluiu que a grande tsunami matou Teseu, e se declarou a Hipólito.

O conflito se agrava — anuncia-se a tragédia

Uma noite Fedra entrou silenciosa no quarto de Hipólito. Acendeu uma luz suave ao som do rouco Joe Cocker cantando “You can leave your hat on”. Tirou todas as peças devagar, mordendo os lábios, movendo os quadris em “Nove e meia semanas de amor”. Nenhum homem resistiria àquela boca carnuda implorando desejos. Hipólito jogou-a em cima da cama. Fedra antecipa o prazer imaginando uma longa noite de lascívia selvagem. Entrega-se.

Antes do tapa explodir em seu rosto ouviu-o, aturdida, mandando-a embora e ameaçando contar tudo ao pai.

Epílogo — A tragédia se consuma

A reação de Hipólito lançou-a num mar de medo, rejeição e ódio.

Sentiu-se a mais vil das criaturas, desprezada e repelida como um cão sarnento. A dor da rejeição transformou amor e tesão em medo e ódio mortal.

Assim que Teseu chegou de viagem, Fedra acusou Hipólito de tê-la violado sem chances de defesa.

Furioso, Teseu reuniu amigos que lhe deviam favores e encomendou a morte do filho.

Os jornais do dia seguinte estamparam, na primeira página, fotos da Porshe amarela caída num penhasco. A nota apontava que uma overdose teria sido a causa do acidente, uma vez que a polícia encontrou dois papelotes no porta-luvas e outro no bolso do morto.

Fedra presenciou o enterro com um sorriso misterioso antes de tomar 150 comprimidos de Lexotan ao som do piano de Ravel interpretando “Pavane pour une enfante défunte”.

 
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