01 junho 2008

Letras brancas



A pichação de muros e paredes é uma agressão.
Quando era moleque, lembro que os tapumes de toda São Paulo traziam uma mensagem estranhíssima: CÃO FILA KM 23. Todos os paulistanos em algum momento leram a frase. O enigma foi notícia de rádio e televisão. Todos palpitavam no significado da charada, a voz corrente dizia que era jogada publicitária de vendedor de cachorros.
Em outra época, não lembro se antes ou depois, as paredes amanheceram cobertas de tinta escorrida com palavras de protesto: ABAIXO A DITADURA, ELEIÇÕES DIRETAS, YANKEES GO HOME. Eram tempos sombrios e os militares de plantão julgaram que CELECANTO PROVOCA TERREMOTO, fosse outra provocação. Houve inquéritos e perseguições, mas jamais soubemos o sentido daquele aviso.
Depois do piche veio a tinta. Hoje em dia, raros são os prédios, que escapam dos sprays. As gangues rabiscam os lugares mais inalcançáveis para marcar força, poder e território.
Recentemente, letras vermelhas marcaram o fundo azul de uma banca de jornais: A LIBERDADE VEM EMBALADA EM PLÁSTICO, É COLORIDA E TEM GOSTO DE ISOPOR. Naquele dia, meus quarenta minutos de caminhada foram de muita curiosidade sem resposta. Pareceu-me vir de alguém questionando a sociedade de consumo.
Algum tempo depois, no Eixão, deparei com enormes letras negras escritas no mármore branco de um viaduto: TAMOS DE OVÁRIO CHEIO DE VIOLÊNCIA. Meus pensamentos caminhantes transformaram-se em reflexão e questionamentos.
Andei ontem meu longo percurso até a rodoviária, onde o Eixão se cruza com o Eixo Monumental. Lá fica o Buraco do Tatu, passagem subterrânea, que liga a Asa Sul à Norte. O túnel destinado apenas aos automóveis tem calçadas muito estreitas sob a poluída parede de cerâmica clara. Apenas nos fins de semana, quando o trânsito é fechado, é possível caminhar por ali. Foi uma surpresa muito agradável, pois alguns artistas em vez de picharem, removeram a fuligem e através de contrastes brancos desenharam animais remotos, guerreiros em caça e armas primitivas ressuscitando a arte dos homens nas cavernas. Mesmo nas trevas ainda temos luzes.

6 comentários:

Luci Afonso disse...

Klotz,

Legal como vc observa a cidade com olhos amorosos. Realmente ainda há esperança.
Essas frases curiosas mostram a criatividade do brasileiro e dão ótimas crônicas. Achei ótimo o "cão fila Km 23".

Anabe Lopes disse...

Legal Roberto!!!

Todos somos seres de mistérios e quando tentamos desvendar os mistérios do outro o fazemos com base no que pudemos o buscamos desvendar de nós mesmos, que temos a alma pichada de enigmas de que somos feitos. Escrever é o jeito de emergir de nossos enigmas. Viver é distrair-se: do mundo, dos outros, dos nossos eus "unimúltiplos", enquantos amamos e aprendemos lições do caos que só se organiza em em pensamentos, palavras, poesias e textos!!!

Klotz disse...

Esta crônica foi publicada no Correio Braziliense dia 9 de junho.
Anexo alguns comentários recebidos por e-mail.


Muito boa essa crônica. Acho que uniu todos essas pichações em um fenômeno variado, resumiu essa forma de comunicação, e terminou muito bem. Fiquei curioso sobre o Cão Fila e o Celecanto. (Não sei se você pesquisou; o celecanto é um peixe considerado fóssil vivo)
Parabéns,
Eduardo


Li seu artigo no correio hoje, já vi as inscrições rupestres.
Que bom que você fotografou e disponibilizou pra moçada.
Valeu.
Abraçao, nicolas

Vi sua crônica no CB logo cedo. Brasília precisa desse olhar amoroso.
Parabéns!
Abraço,
Luci


Parabéns....... show de bola.....
Continue caminhando todos os dias, assim exercita a sua imaginação tb...
Bj.
Beatriz

Gostei muito, em especial dos pensamentos caminhantes geradores de tão insólitas descobertas e profícua expressão.
Qualquer dia sai o contrato de uma coluna no Correio!
Beijo,
Alexandra

Klotz disse...

E mais comentários:

vc é muito chique!!!! mas merece muito mais!
beijos
sabrina


Klotz querido, tudo em paz????
Demorei porque estava sem tempo de ler. Não queria apenas parabenizá-lo, mas também prestigiá-lo com a leitura!
Muitos dos grafiteiros são antigos pichadores, que hoje tem mercado internacional! Esses dias estava vendo a reportagem de grafiteiros que foram chamados pra fazer um prédio, acho que em Nova York, entre eles os Gêmeos do Cambuci! Bom que as coisas estejam se transformando!
O que inclui vc em jornal. Espero que essa seja a primeira de muitas publicações nesse jornal. Estarei sempre torcendo por vc, pois te admiro como escritor e como ser humano, o que pra mim tem muito mais valor!
Meu beijo grande pra vc!
Saudades
Barbara

Klotz disse...

E tem mais:

Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei! Parabéns!
Nada como ser amiga de escritor publicado no maior jornal da cidade...
É como eu sempre disse: esse menino (você) vai longe!
Bjus!
Nalu

Adamastor Goldman disse...

Klotz,

também sou fã das inscrições rupestres no buraco do tatu.

O engraçado é que ao lado das inscrições tem um enorme "JESUS TE AMA". Acho um tremendo anti-clímax... falta de criatividade...

Mas faz a gente pensar: será que as inscrições dos tempos das cavernas, aqueles bichinhos e pessoinhas, não queriam dizer, por exemplo, "UGA-UGA É O SENHOR E NADA ME FALTARÁ (NEM BÚFALOS, ANTÍLOPES E AVESTRUZES)?"

Parabéns (atrasado) pela publicação do texto no correio...

 
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