06 outubro 2008

O homem sem sentidos

Misteriosa figura de chapéu coco, calada em seu olfato e emudecida no olhar por uma pomba branca. Quem é você? Olho para sua imagem e não tenho respostas, apenas mais perguntas e questões. Por que se esconde atrás do símbolo da paz? Ou foi a paz que o deixou sem sentidos? Você está triste com a rápida passagem da pomba ou alegre por ela ter chegado? O que você oculta? Debocha das minhas dúvidas ou está feliz por encontrar alguém questionador?
Você já se olhou no espelho? Reparou que a sua gravata é de uma cor indefinida? Hoje de manhã você levantou, tomou banhou, barbeou-se, vestiu-se com aprumo e colocou gravata cor de incógnita só para me provocar? Ou faltaram vermelhos ao pintor? Ou será que o artista escolheu um acessório discreto para que todo o impacto do quadro ficasse na pomba? Impacto? Impossível. Não há impacto. A pomba voa livre, nada sugere colisão com a não moldura.
Ao artista você posou imóvel durante horas para que seu retrato ficasse perfeito. A pomba infeliz não posou nem pousou. Talvez devesse sujar seus trajes para você sair ultrajado da posição estática. A sua negra passividade contrasta com a mobilidade branca da pacífica pomba. E daí? Daí, se mexesse, eu poderia vê-lo. Mas não, permanece oculto e continuo sem saber quem é você.
Procuro mundo afora. Reviro canções, vasculho temperos, questiono peixes, apalpo nuvens, farejo um álbum de fotografias. Estranha figura de chapéu coco, eu o encontrei. Você é um brincalhão que olha um ovo e pinta uma ave, vê uma ave e faz um óleo da Eva. Descobriu muito antes dos publicitários que um simples símbolo pode significar uma idéia. Dois dedos em vê podem significar a vitória, uma cruz identifica o cristianismo, uma pomba com um ramo de oliveira expressa a paz e um homem sem rosto e de chapéu coco pode perfeitamente representar René Magritte.
Assim sendo, prezado monsieur Magritte, me engana que eu gosto, uma pomba na frente de um rosto não é a paz à sua frente. É apenas uma tela com uma pomba ocultando o rosto de um homem de chapéu coco.

Um comentário:

Ricardo Chagas disse...

Bela crônica. Gosto de seu estilo. Fomos concorrentes do último prêmio Cataratas. Gostaria de ler os contos em que você foi premiado nesse concurso, porcurei eles no blog e não achei.Também sou crônista e tenho um blog

http://ricardo-chagaspipocacomcoka.blogspot.com/

 
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