01 janeiro 2009

Ceia de Natal


O ano sempre começa lento. Para chegar o carnaval é uma eternidade. O feriado da Páscoa também demora um pouco. Os dias passam, um por um, até chegar a independência, geralmente num fim de semana, desperdiçando nosso desejado feriado. Dali para a frente, a rapidez do ano vai ladeira abaixo, numa corrida desenfreada até chegar o Natal. Aí, é a loucura da falta de tempo.
Faltam poucos dias para a maior data do calendário cristão.
Enquanto casado, eu não tinha nenhuma preocupação nem responsabilidade. Na data marcada, sentava-me à mesa em companhia dos familiares e festejávamos.
Agora, descasado, fui questionado pela namorada sobre como seria nosso Natal.
– Como assim?
– Seus filhos? Não vai estar com seus filhos? Natal é uma data de confraternização e união familiar.
Fiz uma cara de vaquinha de presépio. Refleti. Ela está certa. E com cara de Papai Noel saindo da chaminé exclamei:
– Farei uma ceia de Natal em casa!
Na mesma hora anotei na agenda as providências:

• GUIRLANDA
• ÁRVORE-DE-NATAL
• CEIA
• BEBIDAS
• MENSAGEM

Em seguida verifiquei no calendário alguma data disponível. Sexta-feira ou sábado antes da data religiosa. Refleti, por alguns segundos, sobre a conveniência de enviar convites formalizando o evento ou se apenas telefonaria para meus filhos. Achei melhor telefonar para minha filha e convidar meu filho mais tarde, pessoalmente. Afinal, ele mora aqui em casa.
Para mim será evento muito importante e realizador. A festa tem de acontecer antes do Natal na casa da ex. Lá meus filhos poderão externar orgulhosamente que o pai deles é capaz de organizar uma confraternização tão bem ou melhor do que a mãe.

GUIRLANDA
Na mesma noite procurei os enfeites da casa. Lembrei-me que a guirlanda que adornava nossa porta ficou com a ex.
– Serei criativo!
Desci ao térreo do edifício com uma tesoura na mão para cortar algumas folhagens e com elas fazer uma coroa. Mal cortei o primeiro ramo e o síndico sugeriu gentilmente que aquele era um bem comum e que, além disso, a poda era proibida depois das 22 horas, principalmente por pessoas que não aprovaram as contas do prédio.
Achei que o síndico tinha cara de rena de Papai Noel, e retornei ao meu apartamento.
Resolvi procurar gravura de alguma guirlanda em revistas. Encontrei uma garota escultural na página central da Playboy. Ela era o próprio presente. Acabei optando por algo mais apropriado: uma gravura da Nossa Senhora dos Natais Familiares.
Recortei e, por não encontrar cartolina, colei direto sobre a porta. Por baixo da gravura grampeei o raminho de planta recém-colhido.

ÁRVORE-DE-NATAL
Quando da separação, na partilha dos bens, tivemos uma longa disputa em relação à árvore-de-natal. Pensamos em dividir a árvore em dois. Aí, a contenda passou para quem ficaria com a parte superior da árvore. O corte longitudinal já havia sido descartado, porque o tronco era muito delicado. Ela acabou ficando com a árvore, as bolas vermelhas e brancas. Fiquei com a estrela da ponta da árvore e com as bolas azuis, verdes e roxas.
Depois da rejeição do síndico, considerei descartada a hipótese de cortar algum galho de árvore para nomeá-lo pinheiro. De imediato, veio à lembrança a frase exaustivamente dita pela namorada:
– A cadeira do seu quarto parece uma árvore-de-natal!
Feliz com a solução encontrada, busquei a cadeira e a coloquei sobre a mesinha do canto. Tirei todas as roupas e a enfeitei com bolinhas azuis, verdes e roxas. No alto do espaldar prendi a estrela com uma fita crepe. Só faltam lâmpadas coloridas piscando a genial idéia.


CEIA
Agora no papel de dona-de-casa, cozinheira e chefe de cerimonial é fundamental escolher o cardápio de acordo com a solenidade. Petiscos, salada, prato principal, acompanhamento, sobremesa e bebidas.
A escolha óbvia para os petiscos são pipocas de microondas enfeitadas com fios de ovos e cerejas. O branco é básico, combina com tudo.
Para facilitar a digestão não há nada como uma boa salada! Uma lata de ervilhas, uma lata de milho, algumas fatias de presunto picadas e um vidro grande de maionese. É só ferver o miojo, esperar esfriar e misturar tudo. Para enfeitar, eu coloco uma azeitona da fatia de pizza que sobrou na geladeira.
Fiz as contas rapidamente e cheguei à conclusão que seremos seis adultos. Felizmente, nenhuma criança para ficar perguntando de cinco em cinco minutos se já pode abrir os presentes. Por isso mesmo, iremos abrir os presentes logo.
Eu lembro que minha mãe, minha avó e também a ex preparavam a ceia na véspera porque o forno era muito pequeno e não comportava o peru ou a leitoa. Não vou assar nenhum dos dois porque não gostaria de comparações do meu peru com outros convencionais. Meu assado será muito melhor, ao menos nos quesitos porta-bandeira, alegoria e samba-enredo. Farei algo bem natalino: lasanha de peito de peru. Não tenho como preparar simultaneamente as seis lasanhas no microondas. De véspera, assarei uma por uma e depois guardarei na geladeira até o grande momento.
Para coroar o banquete, a lasanha deve ter acompanhamento à altura. Farei minha especialidade: pizza. Pizza natalina. Será uma pizza de muçarela com nozes e cerejas. Servirei cortada em forma de estrela.
Nos grandes eventos sempre há doces e frutas para sobremesa. Serei inovador. Farei prato único, unindo doce e frutas. Cada um de nós poderá servir-se da sua fruta preferida. Uva, abacaxi, manga ou limão. Vou oferecer picolés nos diversos sabores.

BEBIDAS
Essa não é minha especialidade. Tenho muita dificuldade para combinar as bebidas com os respectivos pratos. Para acompanhar os petiscos e deixar os convidados bem à vontade para o bate-papo fluir, imagino uísque para os barbados e coquetel de frutas para o departamento feminino. Dizem que uísque com guaraná é cafona. Também acho. Talvez com outro refrigerante fique melhor. De qualquer forma, o uísque já está guardado há bastante tempo: doze anos.
– Será que o prazo de validade já venceu?
O ideal é experimentar.
– Sem gelo é muito ruim. Melhor é servir outra dose e verificar com gelo. Aprovado!
Bom, agora vamos ao coquetel de frutas. Ainda bem que já comprei os picolés. Ponho três no liqüidificador e três copos de vodka. Não preciso colocar açúcar nem gelo. No mesmo copo onde estava o uísque coloco três, melhor quatro, dedos do coquetel. Aprovado!
– O que fai com lasanha? Finho branco, tinto ou cerfeja?
– Efentos importantess tem fários copos e taçasss. Fou tomar só mais um.

MENSAGEM
Axo que é melhor ser brefe!
Faço cara de apresentador de jornal e leio a mensagem: Agradeço a Deus e a todos os Santos, por mais um ano de saúde e por permitir concluir o que me propus fazer. Sou grato pela presença e pelo carinho da família, desejo que todos tenham um Feliz Natal. Peço a Deus que abençoe esta família e perdoe minha terrível ceia.
Amém.

6 comentários:

his disse...

Agora sim......Adorei a cronica natalina. Não sei por que, mas ela me pareceu familiar (rsrsrs)

Klotz disse...

Mesmo passados alguns dias do Natal, cumpri com a minha promessa.

Marta disse...

que legal
me fez voltar ao tempos d´antes vividos,
mto legal essa crônica!
abçs
m

Rafael disse...

Bela crônica, escrita com requinte de um grande!

Parabéns

Mari Ceratti disse...

Klotz, vc tirou foto da sua cadeira enfeitada com motivos natalinos? Eu ri sozinha com a idéia!!! :-)
Beijos! Mari

Klotz disse...

"Acabo de me deliciar com a sua inusitada ceia de Natal. A mais original de todos os tempos. Gargalhei. Amei! O humor é a nossa salvação."
Cíntia

Recebi e-mail com este comentário de uma amiga que eu não vejo nem tenho notícias há um bocado de tempo. Saudades.

 
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