A SOBREMESA COLORIDA
Vovô está aposentado há muito tempo e já não é mais a
mesma pessoa: desenterra as mesmas frases e falas, conta os mesmos episódios dezenas
de vezes. Mesmo assim, a gente dá risada, ou se espanta com as mesmas
histórias, fingindo que estamos ouvindo pela primeira vez, como se tudo fosse
novidade.
Outro dia, quando ele estava saindo para a farmácia,
eu alertei:
— Vô, essa camisa não
combina com a calça do pijama.
— Bobagem, ninguém me conhece na rua. Além disso,
ganhei essa camisa, com as minhas iniciais, da sua vó quando eu fiz cinquenta anos.
Insisti que ele estava indo para a farmácia de sempre,
onde todos o conhecem. Aí, ele se defendeu.
— Lá tem um balcão separando o cliente do vendedor.
Não vão ver as minhas pernas, mas vão elogiar a minha camisa.
Além da farmácia, ele bate ponto no supermercado. É próximo.
Vai a pé. Levando uma cesta. Como vai quase
todo dia, volta com a sacola leve. É muito importante ocupar o velhinho. Fazê-lo
caminhar, vencer a inércia, respirar outros ares.
A gente anota para ele o que comprar. Ele, lembrando
outras épocas, traz sabão de coco em vez de detergente. Uma vez ele me estendeu
a lista de compras reclamando que não entendia patavinas daquela letra. Segurei
o riso ao lembrar que a letra era dele.
Noutro dia surgiu com uma ração para cães.
— Olha aqui — anunciou vitorioso. — Comida para cães
de pequeno porte em promoção.
— Mas, vô... o Balzac morreu há dois anos. Não temos
mais cachorro.
Ele coçou a cabeça, disfarçando.
— É para o
cachorro da vizinha do terceiro. - E mudou de assunto com a agilidade de um
garoto de dez anos.
Todos os dias logo depois do almoço, repete o ritual,
espalha cinco comprimidos coloridos na palma da mão, engole com um gole de água
e decreta:
— Sou o único nesta casa que ganha sobremesa.
Completa com um sorrisinho miúdo, saboreando a piada
como se a tivesse inventado naquela hora.
Quando eu o vejo ele arrastando os chinelos, digo que
ele pode cair, precisa levantar os pés, fazer exercício. Ir à academia.
— Eu fui na quarta-feira.
— Isso foi no mês passado, vô.
Eu insisto no assunto da saúde.
— Precisa se alimentar melhor. Passa o dia comendo
balas, salgadinhos e tomando Coca-Cola.
— Então não comprem essas bobagens. Se tiver em casa,
eu como - Ele me adverte, esperto.
— Mas quem faz as compras é você, vô!
Ele apenas devia o olha com um risinho irônico.
Sabe, o vô é uma figuraça. Dias atrás eu insisti de
que ele deveria sempre colocar a plaquinha de preferencial ao estacionar na
vaga de idoso.
Em vez de assumir esquecimento, alega: - Não preciso
não. Meus cabelos brancos são o documento.
Mas se você não estiver lá, o guarda vai multar.
— Não vai não, o carro também é idoso.
Ao menos o vovô é um idoso bem-humorado. Em um almoço,
quiseram saber qual era a fórmula de tanto vigor, da sua energia, da sua
disposição. Ele, sério, garantiu que o segredo vinha do banho frio às cinco e
meia da manhã.
O homem voltou a perguntar:
— E o senhor faz essa loucura há quanto tempo?
— Eu nunca fiz.
Por isso que estou bem - e gargalhou, gostosamente.
É difícil conviver diariamente com uma pessoa assim,
mas faz parte do nosso caminho, da nossa trajetória. Apesar de tudo amo esse velho,
ainda mais que esse velho sou eu.


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