18 junho 2026

 

A SOBREMESA COLORIDA

 

Vovô está aposentado há muito tempo e já não é mais a mesma pessoa: desenterra as mesmas frases e falas, conta os mesmos episódios dezenas de vezes. Mesmo assim, a gente dá risada, ou se espanta com as mesmas histórias, fingindo que estamos ouvindo pela primeira vez, como se tudo fosse novidade.

Outro dia, quando ele estava saindo para a farmácia, eu alertei:

Vô, essa camisa não combina com a calça do pijama.

— Bobagem, ninguém me conhece na rua. Além disso, ganhei essa camisa, com as minhas iniciais, da sua vó quando eu fiz cinquenta anos.

Insisti que ele estava indo para a farmácia de sempre, onde todos o conhecem. Aí, ele se defendeu.

— Lá tem um balcão separando o cliente do vendedor. Não vão ver as minhas pernas, mas vão elogiar a minha camisa.

Além da farmácia, ele bate ponto no supermercado. É próximo. Vai a pé. Levando uma cesta.  Como vai quase todo dia, volta com a sacola leve. É muito importante ocupar o velhinho. Fazê-lo caminhar, vencer a inércia, respirar outros ares.

A gente anota para ele o que comprar. Ele, lembrando outras épocas, traz sabão de coco em vez de detergente. Uma vez ele me estendeu a lista de compras reclamando que não entendia patavinas daquela letra. Segurei o riso ao lembrar que a letra era dele.  

Noutro dia surgiu com uma ração para cães.

— Olha aqui — anunciou vitorioso. — Comida para cães de pequeno porte em promoção.

— Mas, vô... o Balzac morreu há dois anos. Não temos mais cachorro.

Ele coçou a cabeça, disfarçando.

  É para o cachorro da vizinha do terceiro. - E mudou de assunto com a agilidade de um garoto de dez anos.  

Todos os dias logo depois do almoço, repete o ritual, espalha cinco comprimidos coloridos na palma da mão, engole com um gole de água e decreta:

— Sou o único nesta casa que ganha sobremesa.

Completa com um sorrisinho miúdo, saboreando a piada como se a tivesse inventado naquela hora.

Quando eu o vejo ele arrastando os chinelos, digo que ele pode cair, precisa levantar os pés, fazer exercício. Ir à academia.

— Eu fui na quarta-feira.

— Isso foi no mês passado, vô.

Eu insisto no assunto da saúde.

— Precisa se alimentar melhor. Passa o dia comendo balas, salgadinhos e tomando Coca-Cola. 

— Então não comprem essas bobagens. Se tiver em casa, eu como - Ele me adverte, esperto.

— Mas quem faz as compras é você, vô!

Ele apenas devia o olha com um risinho irônico.

Sabe, o vô é uma figuraça. Dias atrás eu insisti de que ele deveria sempre colocar a plaquinha de preferencial ao estacionar na vaga de idoso.

Em vez de assumir esquecimento, alega: - Não preciso não. Meus cabelos brancos são o documento.

Mas se você não estiver lá, o guarda vai multar.

— Não vai não, o carro também é idoso.

Ao menos o vovô é um idoso bem-humorado. Em um almoço, quiseram saber qual era a fórmula de tanto vigor, da sua energia, da sua disposição. Ele, sério, garantiu que o segredo vinha do banho frio às cinco e meia da manhã.

O homem voltou a perguntar:

— E o senhor faz essa loucura há quanto tempo?

  Eu nunca fiz. Por isso que estou bem - e gargalhou, gostosamente.

É difícil conviver diariamente com uma pessoa assim, mas faz parte do nosso caminho, da nossa trajetória. Apesar de tudo amo esse velho, ainda mais que esse velho sou eu.

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