08 dezembro 2015
Número na cabeça
Publicado no jornal:
Na Estrutural, uma das cidades mais carentes
do Distrito Federal, a inspiração dos jovens ao mudar o visual passa longe das
celebridades dos campos e palcos. Agora, os pedidos mais comuns nas barbearias
da região são artigos do Código Penal, números que representam a incredulidade
– como o 666 –, além de listras que servem para identificá-los como integrantes
de determinados grupos criminosos. CB – Comportamento – 16/01/2011
Por volta das seis horas da tarde de
uma quarta-feira, a viatura encostou no meio-fio ainda com as luzes piscando e
a sirene ligada. Parece que encontraram o grupo que constrange e ameaça com
apologia ao crime. São facilmente identificados pelo corte de cabelo curtíssimo
formando desenhos tribais. Os agentes saltaram empunhando armas e ordenando que
os rapazes, que corriam na calçada, levantassem as mãos.
– Quietos aí. Não se movam! De costas!
Encostem na parede! Mãos pra cima!
– É para não se mover ou levantar as
mãos?
Sob a ameaça da arma de um dos policiais,
os outros dois começaram a revistar os quatro elementos imobilizados.
– Documentos! – Gritou o homem com a
ponto 40 destravada apontando o meliante mais próximo.
Habituado à falta de gentileza, o
garoto de pele parda estava mais calmo que os agentes. – Posso botar a mão no
bolso para pegar o documento?
Sem responder o
policial consentiu gesticulando com arma.
O agente de
polícia observa a cabeça raspada em recortes imitando as tatuagens agressivas e
assustadoras.
– O que é isso na
sua cabeça?
– É a moda.
– O que significa
esse 666?
– Besta.
O policial dá um
safanão na boca do delinquente. – Me respeita!
– 666 é o número do
apocalipse. Da Besta.
– E tu? – Cutucando
com a pistola – Pensa que me assusta com esse 148 recortado no cabeção? Tô
sacando! Código Penal, Artigo 148: Sequestro e cárcere privado.
– Que é isso seu
guarda, tá me estranhando? Sou da paz. Eu moro naquela casa, aí da frente. Pode
olhar: número 148.
– E tu? – Cutucando
o terceiro – Exibindo terror para cima da comunidade? Tô de olho! 155 de um
lado e 121 do outro. Não nasci ontem. Furto e homicídio.
– Sou sangue bom!
Trabalhador. Dou um duro danado para sustentar a minha lôra. Tenho que levantar
às 4 da matina, preparar a matula e pegar o busão às 4 e meia. 155 é o número
da linha na ida. Na volta pego o 121. Tudo lotado.
O quarto elemento
nem se mexia, parecia mais assustado.
– Tira o capacete!
– Que diabos de
números são esses? 4348? Se reponder cavalo e elefante vai levar um catiripapo
no pé do escutador, só para ficar esperto.
– Pega leve. Sou
motobói. Entrego pizzas.
– Agora só falta me
dizer que a pizzaria tem 4.348 opções. – Ou vai me dizer que 4348 é o número da
pizza calabresa tamanho grande?
– Eu estava dizendo
que sou entregador de telepizza e esse é o número do telefone.
– 4348? Tá gozando
com a minha cara?
– São quatro 3 e
quatro 8. 3333-8888.
Os homens
uniformizados se entreolharam, aquele que parecia ser o chefe da operação
ordenou:
– Três três um.
Todos presos por desacato à autoridade.
01 dezembro 2015
Chatô o rei do Brasil
Esta
foi a primeira vez que ousei comentar sobre um livro lido,
a
data acusa 30/01/2005
Chatô
o rei do Brasil
Fernando
Morais
Companhia
das Letras
736
páginas
Não
anotei o valor da compra.
O
polêmico Chatô na escrita de F. Morais
Sempre tive muita curiosidade em
saber dos mistérios de poder do Velho Capitão. Guardava na memória um registro
dele trajando elegante fraque encimado por brilhante cartola. Como paulistano
passei na frente da Casa Amarela várias vezes. Uma vez parei para admirar os
colibris confinados numa enorme gaiola. Ele era um mito. Tive a oportunidade de
vê-lo uma vez.
O que mais aguçava minha
curiosidade, foi ter visto no MASP, ainda na Rua 7 de Abril, uma obra de Manet
com uma nota de agradecimento à família Lundgren pela doação. Fiquei impactado.
Mesmo menino eu sabia quanto valia um quadro de um mestre. Os Lundgren são
parentes e meu pai teve convívio com eles bastante próximo na década de 50. Ao
voltar para casa elogiei o desprendimento na doação desta magnífica obra. Meu
pai protestou. Disse que não se tratara de benemerência e sim de resultado de
chantagem. E que dessa forma Chateubriand teria montado o maior museu do
hemisfério sul. Um dia eu precisava tirar isso a limpo. O livro confirmou as
palavras do meu pai.
Por essas e outras amei conhecer
tanto sobre a figura.
Que aula de história! Chateubriand
conseguia estar presente em todos bastidores dos momentos importantes. Fazia o
mundo girar na velocidade e sentido que lhe interessavam.
Ele, conforme o título do livro era
o rei do Brasil. Era poderoso, sem escrúpulos e dono da opinião na imprensa e
na televisão nascente. Sem constrangimentos, comprava pessoas e anunciava ter
comprado.
Na leitura descobri que ele também foi
um grande incentivador da aviação no Brasil. Percebendo os conflitos
internacionais criou dezenas de aero clubes, inclusive o de Marília onde papai
tirou brevê aos 17 anos.
Fiquei estarrecido com a cara de pau
e estratégias montadas para assistir à coroação da rainha Elisabeth, à qual não
fora convidado.
Além da fantástica biografia,
chamaram-me à atenção no livro o volume da pesquisa, a quantidade de entrevistas
e a profusão de colaboradores. O senso de organização, trabalho e acima de tudo
contatos são destaque merecedores de aplausos. Trabalho complexo de pesquisa e montagem
de equipe tão grande e multidisciplinar em diversos cantos. Destaco ainda o genial
e divertido vocabulário léxico do polêmico Chateubriand que Fernando Morais
resgatou. Nauseabundo, poltrão, sacripanta, celerado, torvo, flibusteiro,
bufarinheiro e frascário foram alguns dos adjetivos nada delicados aplicados
pelo protagonista aos que atrapalhavam seu caminho.
Gosto muito de pesquisa e percebo
neste livro um rico veio de preciosidades.
Meu livro orgulhosamente tem
dedicatória do autor.
Agora, passados dez anos continuo
empolgado para ver o filme.
25 novembro 2015
A guerra do Vietnã não terminou
Ontem durante uma
visita ao amigo Oswaldo, conversávamos sobre descontos malucos oferecidos por
uma companhia aérea. A esposa dele lembrou de um momento recente em que uma
companhia aérea ofereceu passagens de primeira classe para os lugares mais
improváveis a sessenta reais. Ela tentou comprar uma, para qualquer lugar maluco
que fosse. Nova Zelândia, Indonésia, Zimbábue ou Vietnã.
— Bem, como é
mesmo o nome da capital do Vietnã? —
questionou ao Osw.
Nós quatro nos
entreolhamos buscando no ar uma resposta.
Primeiro veio
uma música:
Da sua guitarra o separou,
fora um chamado da América
Stop com Rolling Stones,
Stop com Beatles songs
Chamado foi ao Vietnã,
lutar com vietcongs
Ratatatá-ratatá, tatá-ratatá,
tatá-ratatá, tatá-ratatá
Em seguida o veio
nome. Yessssss! Funcionou!
— A capital do
Vietnã do Sul é Saigon — exclamei entusiasmado.
Meu amigo,
dono de memória e conhecimento louvável discordou. A capital é Ho Chi Min.
—
Não, meu amigo, — repliquei — Ho Chi Min nunca foi capital. Ho Chi Min não é
cidade. Era o nome de um dos líderes da guerra — a memória deu sinal de vida —
a capital do Vietnã do Norte é Hanói.
— Isso foi há
muito tempo. Houve uma reunificação e a capital é Ho Chi Min.
Meu celular
estava sem bateria para confirmar a pendenga, numa consulta ao mestre Google.
A discórdia
sequer alterou o tom da conversa. Aliás, seria ridículo se alterasse. Somente
martelou meu HD interrorelhas. A conversa seguiu alegre.
No outro dia,
logo após o café da manhã, liguei o computador para realimentar meu HD.
De fato, Ho
Chi Min era do norte, foi o líder vencedor da guerra entre os dois países.
Rebatizaram Saigon homenageando-o. Os países foram reunificados em 1976 com o
nome de República Socialista do Vietnã. A capital do país, desde então passou a
ser Hanói.
Eu estou
indignado. Transtornado para valer.
Não se trata
de vencer ou perder o tira-teima com o amigo.
— Absurdo!
Tudo aconteceu há quarenta anos e ninguém me avisou.
A imagem é um pagode de Hanói - Tran Quoc
17 novembro 2015
Rã
Com a fita
métrica na mão
mediu um por
um e anotou autor
e descrição dos quadros. A tarefa era fácil e agradável .
Paisagens , animais
ou figurativos. De vez
em quando
empacava no reconhecimento de alguma flor . Ele
conhecia rosas , hortências e tulipas . Teve que
consultar especialista para reconhecer helicônias. O trabalho ia maravilhosamente
bem até chegar na área dos abstratos . Aquilo
fugia à realidade . Ele
contornou a situação embarcando nos sentimentos
e passou a batizar os quadros
com pomposos
nomes : paixão
alucinada, caminho da verdade ,
andarilho noturno ,
acabou o bolo de chocolate .
Diversão pura .
Após medir
e anotar as dimensões
de mais uma tela
defrontou-se com borrões
acinzentados desconexos . As manchas indefinidas remeteram a um
pesadelo depressivo e agressivo . Ele
se recusava a designar pinturas
com sentimentos
ou nomes
negativistas. Neste caso considerava a tarefa impossível .
Resolveu ouvir a opinião
dos visitantes da exposição para
chegar a alguma solução . Assim rapidamente batizou o quadro
rã .
O dono da galeria
perguntou-lhe o porquê daquela escolha.
Explicou que dois visitantes indagados a opinar
sobre o quadro
em questão
responderam co m outra
pergunta :
— Hã?
05 novembro 2015
O Sol é para todos
Harper Lee
José Olympio
350 páginas
R$ 45,00
É um livro que
recebeu um Pulitzer - prêmio norte-americano concedido pela Universidade de
Columbia a pessoas que realizam trabalhos de excelência na área do jornalismo,
literatura e composição. Além disso, a contracapa informa que foi escolhido
pelo Library Journal como o melhor
romance do século XX e também foi escolhido pelos leitores da Modern Library como um dos cem melhores
romances em língua inglesa desde 1900. Mesmo que haja exageros, o livro deve
ser, no mínimo, visto com reverência.
O título do
livro – O Sol é para todos – é muito
apropriado quando se refere a igualdade racial embora o título em inglês – To kill a mockinbird – seja genial.
Mockinbird vem a ser um pássaro que imita o canto de outros confundindo quem o
escuta. É considerado, por isso, um pássaro gozador, enganador, daí o
metafórico título: para matar um enganador (ou mentiroso).
A história se
passa em Maycomb, uma cidade fictícia do Alabama de 1935. Era uma época em que
não havia televisão nem celulares, a comunidade era pequena, todos se conheciam
e formavam juízo uns dos outros. Tanto que o sobrenome Haverford era sinônimo
de burrice, os Ewell eram marrentos e ignorantes enquanto os Cunningham denotavam
pobreza, não aceitavam doações, mas se aceitassem algum favor faziam questão de
retribuir.
Mas o foco do
romance é um pequeno ramo da família Finch. A protagonista e narradora é Scout,
ou melhor, Jean Louise, como a tia fazia questão de chamar. Scout é uma menina
de oito anos que aprendera a ler antes de ir para a escola. De personalidade
forte, se vestia e brigava como um menino. Jeremy ou Jem, é o irmão quatro anos
mais velho, leitor voraz de livros e jornais, protetor da irmã. O pai viúvo é Atticus
Finch, advogado bem sucedido, extremamente ético e correto que educa os filhos
com o auxilio da cozinheira negra Calpúrnia.
Sempre a partir do universo de Scout que era
restrito à rua e à escola, a primeira metade do livro mostra como eram as
relações entre as pessoas da cidade com seus pequenos problemas. Apesar das travessuras
típicas da idade, Scout tem uma percepção bastante adulta das diferenças
sociais e raciais.
A segunda
metade da narrativa mostra Atticus convocado pelo juiz da comarca a defender um
negro acusado de estuprar a filha de um homem branco. Jem e Scout são
testemunhas da ignorância e preconceito reinantes no sul americano. A tensão é
agravada pela grave crise econômica, a chamada Grande Depressão.
Impossível
ficar indiferente nessa história que aborda questões como a ética, o
preconceito social e, sobretudo o racismo, tanto que o livro é indicado para a
leitura nas escolas americanas.
Li
e recomendo com entusiasmo.
03 novembro 2015
PARIS - ANO 1000
“Qui habet aures audiendi audiat - Quem tem
ouvido para ouvir, ouça.
Patevotrix traduziu as palavras celtas ao latim e agora as gravava a fogo
no couro curtido do cordeiro nada cristão.
Isto foi em Paris a dois meses da virada do primeiro milênio.
Aos treze anos de idade Patevotrix queimou o lado esquerdo da face com
óleo fervente. Foi tratado por três anos por um sacerdote com chás e emulsões.
Agora, aos noventa e cinco anos, com postura ereta e apenas um olho na carne
disforme do rosto, Patevotrix continua nos estudos que o mestre lhe ensinara.
Herdou do druida centenas de vidros com os mais variados líquidos e pós.
Essências, temperos, ácidos, cristais, cascas, folhas, pelos e tudo que a mente
humana puder acondicionar em vidros pequenos, médios ou grandes. Herdou também
duas paredes de estantes de escritos com documentos romanos, gregos, celtas,
bretões e até papiros egípcios. À luz de vela, lia de tudo: filosofia,
medicina, astrologia, botânica, fauna, antropologia...
Entre os manuscritos encontrou a fórmula para a poção da longevidade.
Esta ele não traduziu. Desconfiava que a humanidade ainda não estivesse pronta.
“Na segunda noite da lua nova coloque sete cascos de tartarugas brancas
bem lavadas no interior de uma ânfora de azeite junto com uma ferradura usada,
acrescente pó de raiz de carvalho e um par de olhos de uma coruja da cor do
ébano. Deixe fechado por três dias enrolada num lenço de seda vermelha. No
quarto dia acrescente uma moeda de ouro. Das grandes. Embrulhe de novo no lenço
e guarde sob a terra até a quarta lua cheia. Coe com o lenço vermelho e
acrescente uma pitada de almíscar.”
“Tome duas colheres ao dia enquanto tiver lucidez. A primeira quando o
sol desperta e a segunda quando a noite adormece o sol.”
O recluso velho de barbas brancas passava o dia em um enorme espaço
iluminado por dezenas de tochas. Ele preferia aquele subterrâneo à luz solar.
Assim ele não precisava ver os homens e cachorros sarnentos disputando comida
nas feiras fétidas às margens do esgoto do rio Sena.
Para ele, aqueles eram os primeiros sinais do fim. Das trevas. Quando o
sol e a lua se fundirem num cometa incandescente fagulhando terror.
Patevotrix quase não dormia. Era inquieto e meditabundo. Parecia captar a
linguagem dos deuses sussurrada no crepitar da fogueira.
Paris, centro do mundo, fundada por celtas, invadida por romanos que a
nominaram Lu técia e depois foi
retomada pelos francos e passou a ser Paris. O destino de Paris é ter as ruas
cheias de estrangeiros falando línguas estranhas.
Os sinais estão claros para Patevotrix. O papa reinou apenas três anos e
faleceu. Escolheram um francês, Gerbert d’Aurillac, que, outrora, durante dois
invernos frequentou as estantes e misturou líquidos junto com Patevotrix. Agora
é o Papa Silvestre II. É ele que se entende com o frágil rei dos francos,
Roberto II, o Pio. Roberto II é filho de Hugo Capeto, da dinastia dos
capetinos.
Patevotrix resmungava baixinho: ninguém me engana – ejudus farinae – são
da mesma farinha. Qual deles será o anticristo?
Todos os dias, as palavras encontradas em um manuscrito datado de Lu técia, Anno Domini CCCXIV, martelam seus
pensamentos:
“E assim, com o novo milênio, tudo será anulado. Um dia, uma noite...
Paris será um apenas o resto de uma enorme fogueira.
O vento dará o sinal. Serão dois dias de vento assobiando a música de
satanás. No terceiro dia as árvores serão arrancadas aos céus. O céu as
mastigará e vomitará neve de carvão e alcatrão. O dia será noite. As trevas
darão lugar aos trovões e relâmpagos que, de tão fortes, iluminarão o interior
das casas. Para amainar o frio, a Terra
será rasgada e do ventre brotarão labaredas imensas. No sétimo dia água salgada
com cheiro de enxofre tomará as fendas abertas e apagará o fogo. Quando tudo
estiver acabado, no silêncio absoluto, a peste sairá em busca das almas
sobreviventes. Nem mesmo cadáveres putrefatos escaparão das doenças
purulentas.”
Faltava apenas um mês para o novo milênio. Ao entardecer, Patevotrix,
pela primeira vez, não tomou uma colher de azeite temperada com almíscar.
14 outubro 2015
Hibisco roxo
Chimamanda
Ngozi Adichie
Companhia
das Letras
R$
37,00
324
páginas
10
dias de leitura
Impossível ler Hibisco roxo e permanecer indiferente.
Inúmeros sentimentos nos tocam durante a leitura: estranheza, pena, raiva, dor,
curiosidade, ignorância, incompreensão, identificação.
É a história da adolescente
Kambili cujo pai, Eugene, empresário bem sucedido, impõe o catolicismo e a cultura
inglesa à família e a quem os cerca. Por renegar as fortes tradições regionais
o pai provoca inúmeros conflitos.
Eu queria penetrar de cabeça na
história, por isso, no início da leitura anotei os nomes dos principais
personagens imaginando que teria dificuldades para guardar os nomes africanos,
tão longes da nossa familiaridade: Kambili e o irmão Jaja; o pai Eugene e a mãe
Beatrice; a tia Ifeoma e os três filhos: Amaka, Obiora e Chima; padre Amadi, a
empregada Sisi e o editor Ade Coker. Nem precisava, pois rapidamente assimilei
todos. Mas eu ainda não estava à vontade.
A estranheza é óbvia por
desconhecermos a língua, os costumes, a política, a geografia e o que acontece
na Nigéria. Depois de algumas páginas a curiosidade me cutucou e consultei a Internet
para conhecer um pouco mais sobre o país.
A Nigéria está situada ao norte do Equador,
abaixo do Saara, no Golfo da Guiné. É o
país mais populoso da África com 250 etnias e mais de 500 línguas. A língua
oficial é herança da colonização inglesa até 1960.
Conforme a pesquisa, 50% da
população pratica o islamismo e habita o norte do país enquanto 40% segue o
cristianismo e habita a região sul. Regiões do norte são frequentemente
atacados por guerrilheiros cruéis do grupo fundamentalista religioso Boko
Haram.
A capital, Abuja, não está entre
as dez maiores cidades. A história se desenvolve nas cidades medianas Enugu e
Nsukka localizadas a 600k a oeste de Lagos, maior cidade nigeriana.
A protagonista, Kambili fala
igbo, língua e um dos principais grupos étnicos do país.
E é deste idioma que inúmeras
palavras habitam as páginas do livro, nos inserindo no habitat africano. A
narração em primeira pessoa engrandece e dramatiza ainda mais a história. Mas o
pai determina que em casa se fale inglês. Preferencialmente se pense e sonhe em
inglês também. Exige que os filhos sejam os primeiros nas suas respectivas
salas de aula. Mas o rigorismo é mais acentuado ainda quando o assunto é
religião.
A pressão sobre os filhos é
enorme. Para eles há uma escala de horários para estudar, rezar, refeições, leitura
e família. O diálogo nas refeições é permitido somente aos adultos.
A opressão sobre as crianças é
absurda. Tanto que não é difícil a comparação das crianças com um cachorro
criado numa casa de paredes altas e quintal cimentado. Esse cachorro ao sair do portão pela primeira
vez estranhará pisar na grama, não saberá como reagir ao ver um passarinho, um
gato ou outra pessoa que não as da casa. Repentinamente irá descobrir que há variedades
de cheiros e outras possibilidades além do prato de ração.
A vida dos irmãos sofre uma
mudança quando a tia Ifeoma entra na história.
“Sua risada flutuou até a sala
do segundo andar”. “Tia Ifeoma era tão alta quanto Papa, com um corpo bem-proporcionado.
Andava rápido, como alguém que sabia exatamente aonde ia e o que ia fazer lá. E
falava da mesma maneira que andava, como se quisesse dizer o máximo de palavras
no menor espaço de tempo possível.”
A presença da tia foi como se o
portão da casa fosse aberto ao cachorro. A liberdade estava presa a uma longa
corrente chamada “costume adquirido” durante a vida.
Como no momento em que o avô
pagão estava doente e a filha de Ifeora, Amaka cuidava dele. “Eu quis me
aproximar de Papa-Nnukwu, tocar os tufos de cabelos brancos em que Amaka
passava óleo, alisar a pele enrugada de seu peito. Mas não ousei.”
A mesma prima, Amaka, apresenta
a música nigeriana a Kimbila. Fela, Osadebe e Onyeka tocam ritmos pagãos
proibidos dentro de casa. Eu, como sou curioso, baixei algumas músicas e
continuei a leitura embalado pelo magnético som africano:
Com os portões abertos, conhecemos
junto com a protagonista um pouco da realidade do país e passamos ao sentimento
de identificação: pobreza, corrupção, censura, autoritarismo. Kambili e o irmão descobrem um novo mundo, já
não são mais os mesmos, mas não se atrevem a comentar o que veem. Apenas veem. A
história evolui com a crescente opressão paterna, entretanto nem a mãe nem os
filhos ousam criticar os atos entre si.
Só depois de um longo tempo e
longe de casa, o irmão Jaja descobre que não só pode perguntar como é
encorajado a questionar a vida.
A história é de uma força tão
incrível que não temos vontade de parar a leitura. Apesar do final pouco
decepcionante, recomendo a leitura com entusiasmo.
08 outubro 2015
Antologia
— Ó, von Silva, o que é antologia ?
Mundo, mundo , vasto mundo , se
eu me
chamasse Raimundo não faria essa pergunta . Se eu fosse
o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu
também não
saberia a resposta . O meu nome é von
Silva, não tenho outro
de pia .
Se eu estivesse na repartição seria normal
esse tipo de pergunta .
Estou longe de qualquer
dicionário, porque hoje
é sábado . Essa Rosa
radioativa estúpida
e inválida não
deveria ter feito
esse questionamento.
Perdido, sem lenço
e sem documento ,
nada no bolso
ou nas mãos ,
procuro uma resposta . Desejei me esconder , desejei ir para Minas. Minas não há mais. Quis morrer
no mar , mas
o mar secou. Vou-me embora
pra Pasárgada, lá sou amigo do rei .
Volto para a minha
terra que tem
palmeiras onde
canta o sabiá ,
que tem cadeiras
onde posso sentar e procurar
um desmancha-dúvidas.
Meu reino por
um dicionário !
Queixo-me da Rosa , mas a Rosa não fala , simplesmente perguntou o que é antologia.
“Coleção ou seleção de trechos em prosa e/ou em verso .”
— Obrigado, Aurélio!
Aurélio, garoto esperto , informa também
que intertextualidade é a superposição
de um texto
a outro .
— Mais uma vez ,
obrigado, Aurélio!
Pesquisa
para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto
mundo . Se eu
me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução .”
— O gauche — Carlos
Drummond de Andrade
“João que
amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que
amava Joaquim, que amava Lili.” — Quadrilha —
Carlos Drummond de Andrade
“O meu
nome é Severino. Não
tenho outro de pia .”
— Morte e vida severina — João Cabral de Melo Neto
“Porque
hoje é sábado .”
— O dia da criação — Vinícius de
Moraes
“A rosa
hereditária . A rosa
radioativa estúpida
e inválida .” — A rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes
“Sem lenço e sem documento , nada
no bolso ou
nas mãos .” — Alegria , alegria
— Caetano Veloso
“Quer morrer no mar , mas o mar secou; quer ir
para Minas , Minas não há
mais.” — E agora, José? — Carlos
Drummond de Andrade
“Vou-me embora
pra Pasárgada, lá sou amigo do rei .” —
Vou-me embora pra Pasárgada — Manuel Bandeira
“Minha
terra tem palmeiras ,
onde canta
o sabiá , as aves
que aqui
gorjeiam, não gorjeiam como lá .” — Canção do exílio — Gonçalves Dias
“Meu reino por um cavalo !” —
exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas , conforme
William Shakespeare
“Deus ,
ó Deus , onde
estás que não
respondes?” — Vozes d'África — Castro Alves
“Queixo-me às rosas, mas
que bobagem, as rosas
não falam, simplesmente
as rosas exalam o perfume
que roubam de ti, ai.” — As rosas não falam — Cartola
"Para todas
as coisas : dicionário. Para que fiquem prontas: paciência ."
— Diariamente — Nando Reis
“No meio
do caminho tinha
uma pedra , tinha
uma pedra no meio
do caminho .” — No meio do caminho — Carlos Drummond de Andrade
“Toda pedra no caminho
você pode retirar .” — É preciso
saber viver — Roberto
Carlos e Erasmo Carlos
“De repente ,
não mais
que de repente, fez-se de triste o que se
fez amante.” — Soneto da separação — Vinícius de Moraes
“Se você rouba de um autor , é plágio , se de vários ,
é pesquisa .” — Wilson Mizner.
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