27 junho 2007

Minha tia era um general

O nome da minha tia é Waltraut. Parece um castigo. Aos alemães é um nome para ser ostentado com orgulho. O problema de Waltraut, em relação ao próprio nome, é ter nascido no Brasil e residir no Brasil. Nasceu nos anos 20, do século passado. Filha de alemães imigrantes. Foi para a escola alemã. Freqüentava o clube alemão. O vizinho da frente era alemão. O da esquerda, alemão. O da direita também era alemão. Na mercearia comprava Reis, Bohnen e Zucker. Tudo em alemão. E o Herr Schmidt anotava em alemão a despesa na caderneta para a cobrança mensal.
Antes de prosseguir vamos para uma aula de alemão. A pronúncia do nome da minha tia é Váutraut. Com o último tê mudo. Repita comigo: Váutraut. Nem é tão difícil. Mas a aula não terminou. Reis é pronunciado ráis e significa arroz, Bohnen é pronunciado bônen e significa feijões enquanto Zucker é pronunciado tsúquer e é açúcar. Todas são iniciadas por maiúsculas porque substantivos, em alemão, são iniciados por maiúsculas. Agora podemos voltar à nossa tia. Ou melhor, à minha tia Waltraut.
– Quase esqueço de apresentar o Herr Schmidt. Herr Schmidt, leitor. Leitor, Herr Schmidt. Herr quer dizer senhor e Schmidt é tão comum quanto Silva ou Souza. Pronuncia-se hérr Chmit. Com tê mudo. Voltemos à tia Waltraut.
Ela era bonita, tinha postura ereta e voz firme. Se por um lado era elegante e ingênua por outra era determinada e inflexível. Quase uma caricatura.
Lá nos anos 60 ela pegava no pé dos meus primos, filhos dela. Queria que eles falassem alemão. Era mais do que natural que eles falassem português, como todo mundo. Na escola, no clube. Como o vizinho da frente e o do lado esquerdo. E o da direita também. Todos falavam português. Mas a tia queria que eles falassem alemão entre si. Irmão com irmão. Irmão com irmã. O cinto estalava no ar se um deles respondesse em português uma pergunta alemã. Tem que falar alemão! Dóitch chprehen! A minha tia era um general. E, generais não podem ser contrariados.
– Deutsch sprechen! – Fale alemão! – Ela ordenava em tom ríspido.
A prima mais velha já namorava escondido e ainda ouvia constrangida o ameaçador: – Deutsch sprechen!

O meu primo mais novo que devia ter uns sete anos também ouvia o Deutsch sprechen vinte vezes ao dia. Aquilo era uma lavagem cerebral. Tanto era, que um dia o menino estava brincando e se divertindo com o irmão e, de forma ingênua, perguntou para a mãe:
– Tenho que rir em alemão também?
Foi a libertação. Nunca mais a tia Waltraut ordenou que falassem alemão.
Mas meus primos nunca se libertaram de terem de comer espinafre, berinjela e chuchu. Tudo em alemão. É lógico.

4 comentários:

Sonia Sant'Anna disse...

Não deve ter sido fácil ter uma walkyria guerreira por tia-avó. Ainda bem que tudo terminou em risadas.

Anônimo disse...

Talvez fosse uma forma de não perder origens. Minha sogra fazia a mesma coisa com os filhos. Era austríaca. Daí, quando percebeu que para eles era complicado aprender o alemão, passou a usar o italiano (era casada com italiano). Então eles aprenderam um pouquinho mais. Era austríaca a minha sogra, mas tinha um jogo de cintura bem suingado..influência dos tempos que viveram na áfrica, acho eu! Adorei seu blog, que descobri através da Sonia!
Um abração

Sonia Sant'Anna disse...

Tem coisa nova no Contando Causos.

Muryel De Zôppa disse...

Ótimo!

Tenho que conhece-lo pessoalmente Klotz. Ver se é de verdade mesmo.

 
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