05 fevereiro 2008

Homo brasiliensis

– Cobogó? Que diabos é isso?
Eu não sou de prestar atenção na conversa alheia. Entretanto, às vezes é impossível não ouvir.
Eu estava voltando para Brasília sentado na poltrona do meio. Logo atrás de mim, naquele vôo lotado, estava uma mulher vistosa dos seus trinta anos. Entendi que ela não conhecia Brasília e recebeu convite para trabalhar na capital. Ela queria saber como as pessoas moram em Brasília e encontrou na poltrona vizinha um candango falante que deve ter sido guia turístico. Ambos falavam alto, o que tirou a atenção da minha leitura.
A primeira frase que ouvi foi dele.
– Os ricos, moram no lago. Os bem ricos, numa ponta de picolé.
– Como é? – Indagou a mulher formando rima.
– As pessoas mais endinheiradas moram próximas do lago e os terrenos enormes que ficam nas margens são chamados pontas de picolé. Somente esses têm o privilégio do acesso à água. Acredito que o melhor lugar para morar é no Plano.
– As margens do lago são muito íngremes?
– Não. Por que?
– Você disse que preferia morar em lugar plano.
O vizinho, imagino, deu um sorriso, explicou que se referia ao Plano Piloto e falou das asas Sul e Norte arrematando que as melhores quadras eram as cem e as trezentos.
Naturalmente ela deve ter feito cara de dúvida, pois ele tornou a explicar que as quadras cem e trezentos ficavam a oeste do Eixão.
Continuei sentado no meu lugar, preso ao cinto de segurança, mas com uma enorme vontade de olhar para trás para ver a cara de interrogação da mulher.
– Eixão?
O avião deu uma chacoalhada de modo que perdi aquela explicação. Ouvi outra, já pela metade.
– ... os melhores apartamentos são os mais antigos, são amplos e vazados.
– E o que é um apartamento vazado?
O candango chegou a ser irritante com sua longa e apaixonada explicação.
– Os prédios, conhecidos por blocos, ficam deitados. São compridos em vez de altos. O que faz com que haja maior número de apartamentos no mesmo andar e provoca menos áreas externas, logo há muitos apartamentos com apenas uma frente. Os antigos têm frente e fundo do lado oposto. São os vazados. Todos os apês antigos têm cobogó.
– Cobogó? Que diabos é isso?
Adoro essa palavra formada pela primeira sílaba de três engenheiros que criaram uma parede de tijolos decorativos que permite ventilação e entrada de luz natural. De modo que só ouvi o final da frase do vizinho falante.
– ... além do que, são impressões digitais da cidade.
Daí, ela perguntou qual era o prato típico da cidade.
E ele foi muito criativo na resposta.
– Não há nenhum prato típico porque os moradores têm origens em todas as regiões brasileiras. Na cidade encontramos todos os temperos. Não há prato nem forma comum de preparar alguma iguaria. È usual a reunião das pessoas em torno de uma churrasqueira. Cada um preparando a carne, ou peixe, por que não, a seu modo. Quase todas as casas do Lago têm churrasqueiras. Quase todos os clubes têm churrasqueiras e também há muitas espalhadas nos parques públicos. O churrasco agrega as pessoas. O brasiliense aprendeu que para sobreviver ali deve unir-se com os outros, respeitando e ultrapassando barreiras regionais.
– Uau! Falou bonito! Só ouço as pessoas falarem mal de Brasília, que é onde todos os corruptos se reúnem para roubar o resto dos brasileiros...
Nesse momento a forasteira acertou o fígado de todos os brasilienses com um poderoso golpe direto.
– Pois é, esse lamentável rótulo pertencia ao Rio, enquanto capital. Mineiros pão-duros, baianos preguiçosos, paulistas trabalhadores. Rótulos servem apenas para garrafas. A corrupção está espalhada por todos os cantos do nosso país. Não se salva nenhum enquanto permanecer a impunidade. A diferença é que em Brasília as somas são maiores e a mídia está mais atenta.
A mulher percebeu que cometeu uma gafe ao falar mal de Brasília a um brasiliense. E procurou mudar de assunto:
– Faz muito tempo que você mora em Brasília?
Aliviado, o candango respondeu:
– Agora você já está falando como uma brasiliense legítima...
– Não entendi...
– Quando duas pessoas se conhecem, a primeira pergunta é: há quanto tempo mora na cidade? e a segunda, invariavelmente, é: de onde você veio? Agora, com o passar do tempo e o nascimento de uma geração de nascidos na capital, a coisa mudou um pouco. De qualquer forma, as perguntas sempre são bem-vindas para o início de uma conversa.
– E, há quanto tempo, afinal, você mora na cidade?
– Fui para lá no início da década de 70. No tempo em que a lenda dizia que quem se mudava para Brasília passava pelo estágio dos três dês. Deslumbramento, decepção e desespero. Deslumbramento com as largas avenidas, arquitetura monumental e proximidade com o poder. Decepção ao perceber que morar próximo ao poder não os transforma em nobres. Desespero por não se adaptar à cidade e querer ir embora.
– Era tão ruim assim?
– É uma cidade de gente guerreira. Os perdedores sempre reclamam. O tempo incorporou outro dê. O dê da demência.
– Como assim? Não entendi...
– É quando as pessoas se acostumam, se entrosam e passam a amar Brasília.
– Interessante essa lenda...
– Particularmente, adotei ainda os dês da devoção e defesa da cidade que tão bem me acolheu.
Nesse momento a conversa dos dois foi interrompida pelo forte barulho do retrocesso das turbinas no pouso do avião.
O avião taxiou e estacionou.
Abri a porta do compartimento acima da cabeça, peguei minha sacola e olhei para os que me proporcionaram um vôo mais agradável.Ainda pensei em falar ao conterrâneo que as sílabas de cobogó foram formadas a partir dos nomes de Coimbra, Boekmann e Góis, mas apenas me despedi com um gesto de cabeça.


*Foto de Carlos Vieira

12 comentários:

Nalu Nogueira, a maior (literalmente, no momento) disse...

Trocentos anos e muitas e muitas perguntas (em vao) depois, finalmente compreendo a origem do famoso "cobogó" candango...
Muito obrigada, herr Klotz!

Anônimo disse...

Brasília pra mim é vermelha, seca e quente. Capaz de me tirar sangue do nariz e do coração. No nariz literalmente. No coração, de tristeza pela nossa política. Tomara mude um dia! Pelo menos no coração, que pra sangue saindo do nariz a cura é mais fácil, né?
abração

maray
www.gardenal.org/checaribe

Adamastor Goldman disse...

Desculpe-me, Klotz, mas preciso corrigir-lhe.

Eis uma das muitas verdadeiras origens do termo cobogó (ver GOLDMAN, Adamastor, As Origens do Cobogó, Rococó e Cocoricó, Ed. Ática, SP, 1978).

As cobogov (pronuncia-se cobógov) eram pequenas habitações siberianas de paredes vazadas que retinham calor no inverno e frescor e umidade no verão.

No princípio, foram concebidas como abrigo dos povos nômades daquelas terras. Depois, com o endurecimento e enrijecimento (ao mesmo tempo) do regime comunista, se transformaram em prisões políticas.

Notória a associação de Lúcio Costa e Niemeyer com tudo o que soava remotamente russo/soviético.

Pois bem, eles introduziram as cobogov na vastidão de Brasília, de modo que os blocos conservariam boas propriedades ambientais diante das condições adversas do planalto; ou, vá lá, no mínimo serviriam de boas prisões para os cariocas que foram obrigados a se mudar para a nova capital.

Claro, quando os dois gênios tentaram explicar o que fazer ao pedreiro maranhense que iria levantar o prédio, obtiveram uma pergunta como resposta:

- O quê, doutô? Cobogó?

E assim se tornou célebre o termo, no mundo inteiro. No mundo inteiro de Brasília, quero dizer.

Klotz disse...

Estimado Homem D’ouro, agradeço sua pertinente explicação histórico-político-geográfica. Imagino que a história tenha sido apagada naquele período de ditadura militar de caça aos comunistas comedores de criancinhas.
Acrescento que nos primórdios da construção da cidade, cobogó e fofoca eram sinônimos por ambos serem elementos vazados.

Gigio disse...

a foto do cobogó é ótima para ilustrar a idéia.


o blog tá ótimo, klotz.

Klotz disse...

Comentários na Comunidade do Bar dos Escritores do Orkut em 3/2/2008

Vinicius
Hum... Lembrou-me passar por Goiânia e perguntar algo na rua, escutando alguém dizer: Passe o primeiro queijin e dobre à direita...
Bom conto de viagem.
Lido. ^^

paulinho
Apreciadíssimo!
Gostei muito da forma como foi conduzido o diálogo e a narração.

Sirlei
gostei dos "dês", imagino que muitos nordestinos passaram pelos três.
agora os últimos "dês" só um Homo brasiliensis pode responder de fato.
Abraços!

Robertón
Os crônistas também amam!
Belezura Klotz! Gostosa forma de comentar o cotidiano de uma cidade que aos poucos vai construindo sua identidade, seu regionalismo.

Flá
boa crônica.

Klotz disse...

Comentários em 4 e 5/2/2008
Klotz
É gratificante ter ao menos meia dúzia de leitores para um texto tão extenso (para os padrões orkutianos).

Paulinho – Que bom que você gostou dos diálogos. Acho difícil (estou treinando) a construção de diálogos que sejam verossímeis.

Glauber
Belo texto, flui com tranqüilidade.

Aproveitando a oportunidade, Brasília não foi construída tendo como modelo um avião, mas uma borboleta. Quem disse é o próprio Lúcio Costa (urbanista da cidade) em uma entrevista realizada na década de 90.

Darwin
eu tb me atrapalhei outro dia quando escrevi verossímel, ao invés de verosímil, o plural então nem sei. Acho tarefa de doido tentar criar algo que pareça verosímil, parabéns pela coragem Klotz.

Érica Cristiane♥
muito bom.

Giovani
klotz, seu sumido, que ótima crônica. despretensiosa porém cheia de conceitos! é do jeitinho que eu gosto.
já mandou pro correio braziliense?

Klotz
Thank's for reading. Mura, CC, Glauber, Darwin, Érica e presidente.

Darwin: eu não me atrapalhei não escrever "verossímeis". É o plural correto de acordo com Aurélio. No singular é sem vergonha e pode ser escrito com um ou dois esses.

O texto surgiu de uma conversa quando um turista julgou que o brasiliense não possuía personalidade ou característica própria. É lógico que contestei.
Maravilhoso foi demonstrar as diversas origens do candango. Chamei o garçom e perguntei para qual time torcia. Cruzeiro foi a resposta. O outro garçom respondeu Flamengo e um terceiro Grêmio.
Atendendo sugestão, acabo de enviar para o caderno Cidades.

Fernando A.
Boa crônica e até deu para aprender algo sobre a cidade, lido e gostado.

Klotz disse...

Comentários em 6/2/2008
liz
mto gostosa a crônica....

(hj eu tava pensando nisso, q BSB deve ser um bom lugar pra se morar. Isso pra alguém q, como eu, detesta umidade. Qdo todos estão reclamando do ar seco em SP, de maio a setembro, tou feliz da vida, me sinto "no meu elemento".... E qdo todos acham q o nível de umidade do ar tá confortável, aí é q me sinto sufocada...)

trabalhei com arquitetura de interiores durante 26 anos e não sabia dessa história da fábrica, de Coimbra et al.... adorei a explicação!!!
(Na minha casa tenho esses coisos na lavanderia, tou querendo tirar, dá mto trabalho manter limpo. Junta poeira...)
---------------------------
pesquisei, encontrei isto aqui:

"RESGATE HISTÓRICO
Os elementos vazados já eram utilizados em edificações pelos indianos, árabes e romanos. No Brasil, esses componentes têm sido empregados desde 1930, quando os arquitetos Amadeu Coimbra, Ernest Boekman e Antônio de Góis os utilizaram em uma construção em Olinda, Pernambuco. A propósito, os nomes cobogós e combogós são termos criados a partir da primeira sílaba dos nomes dos seus criadores."

No entanto, em alguns sites de arquitetura tem gente dizendo q se não fosse o Brasil isso não exisitiria.... mas a gente vê esses elementos vazados em construções árabes antigas!

pesquisando mais:

"OBS: Há uma diversidade no registro da palavra que designa as peças de cerâmica ou cimento vazadas, comumente usadas como vedação nas construções brasileiras, notadamente no nordeste, onde o calor excessivo tornou este elemento bastante utilizado no controle da temperatura interna dos edifícios.

Combogé, combogó, combomgó, cobomgó e cobogó são palavras sinônimas. O Prof. Gomes informa que esta palavra é formada pela junção das iniciais dos nomes dos sócios da fábrica que produzia os referidos tijolos: co de Coimbra, mestre de obras português, bo de Boekmann, ferreiro alemão, e go de Antônio de Góis, engenheiro que viria a ser prefeito do Recife, versão esta encontrada também no dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Embora não duvidemos destas informações, desconhecemos a fonte primária correspondente. Por uma questão fonética, achamos a forma combogó mais adequada."

Vi tb um post num forum em q o postante dizia q o arquiteto q projetou a casa dele escreveu 'cobongó'. Ele disse isso como se estivesse dando a entender q o arquiteto não sabia escrever..

Klotz disse...

Klotz
Liz, obrigado por ter apontado dois erros de português. Não precisava ser tão discreta e delicada de notificar por depoimento. Penso que estamos aqui para nos ajudar mutuamente, sem constrangimentos, e crescer na escrita. No original sapequei a vírgula e separei o porque. Obrigado, again.

Mudei-me para Brasília no início da década de 70, vindo de SP. Naquela época o número de prédios que tinham cobogó era proporcionalmente muito maior que hoje. E a palavra, para mim, desde o primeiro dia foi muito impactante e sonora. Eu expressava combogó e julgava que fosse uma palavra de origem na gíria nordestina trazida pelos operários da construção civil. Não errei quanto ao lugar de origem.

Outra palavra que ainda vai merecer uma crônica é fogoió (De cabelo cor de fogo) ou frogoió (que não está no Houaiss nem no Aurélio). Faz parte dos deliciosos regionalismos com que temos o prazer de conviver com tantas pessoas de origens diferentes.

Quando vier a Brasília terei prazer em recebê-la

Klotz disse...

Muryel
Li sem tropeçar, cronista dos bons.

Mr. Ze
Interessante crônica sobre as peculiaridades do jeito brasiliense de ser. Se falassem em cobogó para mim imaginaria se tratar de um dizer nordestino. Vivendo e aprendendo.

O texto está de um coloquilidade cativante. Uma legítima conversa pescada por ouvidos atentos. Senti-me dentro do avião.

Beleza pura.

Klotz
Grato, Mura e Lama.

ükma
Bacana, coisas que a gente não sabe.

Cristiano
Gostei no Blog e aqui também. Reitero, crônica das boas.
ficanapaz, Mestre.

Eliel
Bem...
Por coincidência eu conheci e entrei nessa comunidade hoje, mas já me sinto em casa. Logo fiquei com uma vontade imensa de participar e, lógico, entrar na fogueira santa junto aos outros membros. E confesso... Leio textos e poemas realmente dignos de uma menção honrosa... E falar de Brasília e do povo brasiliense, é falar da pátria mãe, da sua história, das diferenças regionais que nos afigura ao belo... Meus parabéns pelo lindíssimo texto apresentado e agora eu sei que ainda tenho muito a aprender... Hehehehehehehehe!!! Um grande abraço...
Conde Eliel.

Klotz disse...

Comentários de 10 e 12/2/2008

Carlos Cruz
comentei antes, mas se bem me lembro, o pc travou, deu bug, algo assim.

uma crônica muito bem elaborada feita por um escritor super observador. escrever é isso: observar as situações do cotidiano e ter visão para identificar aquelas que podem resultar em bons textos.

e eu tbm desconhecia o tal borogodó.


éff
muito foda!!!!
ótimo texto... prende o leitor e ainda possui informações preciosas e regionais...

Klotz
Obrigado. Sou adepto da cultura inútil e fico feliz ao saber que muitos freqüentam a mesma igeja.

Sübma - tem muitas coisas que a gente não sabe. Eu não sei escrever seu nome.

Lobo Deveras - Reitero agradecimentos.

Eliel - Seja bem vindo. Esteja em casa. Fique à vontade. Tire os sapatos. Só não pode vomitar no tapete.

CC - Aos trinta anos você desconhecia borogodó?
(Aurélio>> Borogodó = Atrativo físico muito peculiar, especialíssimo.)

Luis Fernando
Poxa Klotz, te agradeço o texto. Morei lá e, quando já estava no quarto "D", tive de voltar. Infelizmente a patroa estancou no terceiro, não se adaptou.
Adorei o texto, o relato do Candango foi como um city tour nostálgico.
Há, etambém admirava os Cobogós!!!

Pri Almeida disse...

Ola Klotz, bela cronica!
Adorei o blog.

Um abraco,
Priscila Almeida.

 
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