16 fevereiro 2008

Achados e perdidos

Quando abri a cortina para olhar o tempo, vi a minha vizinha andando e gesticulando muito. Tomei o café, li o jornal e coloquei minha bermuda caminhante. Iniciei meus exercícios diários descendo os cinco andares pela escada.
A vizinha, agora com as duas mãos na cabeça, continuava a caminhar agitada no calçamento entre verdes gramados.
Segui meu caminho solitário. Ainda olhei para trás por duas vezes. A mulher andava para lá e para cá no mesmo trecho, nos mesmos cem metros. Parecia desolada, balançando a cabeça de forma negativa.
A vizinha é uma senhora que já passou dos setenta anos, magrinha, magrinha. Cabelos brancos amarrados em coque. Blusinha abotoada até o pescoço e nenhuma maquiagem para disfarçar as olheiras profundas. Viúva. Mora sozinha, sem gato ou cachorro. A filha mora em algum país da América Central. Confidenciou-me o síndico que rareiam os seus alunos de piano e que ela está em débito com o condomínio por cinco meses. Contou também que a solitária professora deve estar com algum outro trabalho, uma vez que passa as tardes fora de casa ao contrário dos últimos dez anos. Pela falta de luz nos olhos parecia ser daquelas pessoas que foram esquecidas pela Dona Morte.
Enquanto eu seguia o meu caminho a Dona Ernestina, esse era o nome dela, balançava seu coque branco e os meus pensamentos.
– O que será que Dona Ernestina perdeu? Algum brinco ou broche familiar? Talvez alguma pulseira que a ligasse ao amado marido?
De longe, vejo a viúva de cabeça baixa procurando na calçada e na grama. A dor também aperta o meu peito. Uma vez perdi uma abotoadura com monograma que herdei do meu avô. Nenhuma outra jóia substitui o ouro e o brilho das pessoas amadas.
A angústia tomou-me o corpo e fui em direção ao desespero personificado naquela mulher.
Ela precisa de ajuda. Quem sabe se eu chamar o pessoal do prédio para auxiliar na busca? Com a ajuda do zelador e mais três faxineiros rapidamente encontraremos a jóia sumida no passeio público.
Dona Ernestina sentou-se no banco.
Aproximei-me e sentei-me ao seu lado. O rosto da Dona Ernestina estava molhado de lágrimas. Peguei suas mãos, tomei fôlego e perguntei:
– O que a senhora perdeu?
– O piano.
Eu me senti um idiota. Perde-se uma carteira, um guarda-chuva, um cachorro ou até um amante. Mas perder um piano?
– Acho que não entendi. A senhora perdeu um piano?
– Perdi o meu piano de trinta anos. Era um Steinway.
Olhei para a grama à esquerda, olhei para a grama à direita como se estivesse procurando o objeto perdido.
– Onde a senhora perdeu o seu piano?
– No bingo. No bingo, meu filho.
Desisti de pedir o auxílio aos funcionários do prédio.A Dona Ernestina perdeu as notas, ficou sem dó.

3 comentários:

safira disse...

lindo, lindo texto...
o seu sobrenome me é familiar. Você é algum escritor famoso? rs.

Anônimo disse...

O bingo é o crack dos velhinhos. Uma pena. Minha avó, de outro século, era viciada em tombola, que é mais ou menos igual. Mas só jogava a feijão. Assim, perder mesmo, só a feijoada do sábado :)

maray
www.gardenal.org/checaribe

safira disse...

Era ficção. Adoro ficção, quando é mais estranho que ficção, adoro mais ainda, rs.
Me fale mais sobre a sua carreira de escritor... eu ainda estou me decidindo sobre que em que curso investir no vestibular, queria Direito, queria construir um mundo melhor, mas daí descobrir que pra construir alguma coisa eu tinha que ser engenheira... uahuahua
E ao mesmo tempo eu tenho essa fascinação por palavras... Malditas palavras, que me confundem toda e me dão tanta alegria.
Obrigada pelos elogios, fico feliz que alguém que escreve tão bem tenha gostado do meu texto.
Falando em textos, os seus me hipnotizam.

 
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