19 novembro 2008

Crianças sempre embaraçam a gente

— Por que eu tenho que colocar roupa?
— Por que o papai tem de trabalhar e você não?
— Por que a sua mão treme?
— Por que suas fotos, quando criança, não são coloridas?
— Por que isso? — Por que aquilo? — Por quê?
— Por que essa menina faz tantas perguntas?
Todo sábado é a mesma coisa. Ainda bem. Filho e nora deixam a netinha aqui em casa e saem para o cinema, vão a algum casamento, se reúnem na casa do Vinícius ou recebem alguém em casa. Eles sempre têm alguma coisa para fazer e deixam a pequena aqui em casa. Fazem isso por eles e por nós, avós corujas.
Ana Beatriz é um doce, muito quietinha. Chega de pijama de flanela, pede colo e uma historinha antes de dormir. Os olhinhos fecham, a cabeça cai e a levo para a cama. Aninha é querida. Não levanta no meio da noite, não faz xixi na cama, nem pede por papai ou mamãe. Apenas dorme profundamente, abraçada ao travesseiro.
Acredito sinceramente que, à noite, um duende verde confunde a menina com um brinquedo e dá corda. De manhã, junto com o canto dos passarinhos, Aninha acorda serelepe, matraca e perguntadeira.
— Vô? — pulando na cama — Posso deitar na sua cama? — cutuca a sola do meu pé com o dedinho — Por que você não tem cócegas no pé? Cadê a vó? Ela tá fazendo pão de queijo?
— Você não ia se deitar na cama? — Pergunto, enquanto estalo um beijo na testa despenteada.
— A gente vai para o zoológico depois do café? — Correndo para o banheiro.
— Vamos ver a girafa, o elefante, o jacaré e os macacos.
Aninha já estava no banheiro espremendo a pasta de dentes.
— A pasta de listrinhas vermelhas já acabou?
— A vovó comprou essa azulzinha especialmente para você.
— É verdade que a vó usa dentadura?
— Não. A vovó não usa dentadura. Ela pode morder a sua bochecha.
— Hoje de manhã ouvi a vó rezando na hora de levantar. Você não reza?
— Algumas pessoas rezam em voz alta e outras rezam baixinho.
— Eu nunca vi você rezar. Você tem um terço?
— Não querida. Eu não tenho terço. Aquele ali é da vó.
— A bisa me ensinou a rezar em alemão. Ich bin klein. Mein Herz ist rein. Soll niemand drin wohnen als Jesus allein*.
— Que bonitinha. Fale de novo, mais devagarzinho, senão o bom Deus não compreende.
— Deus fala alemão ou português?
— Deus entende todas as línguas.
— A tia da escola disse que os índios falavam uma língua que ninguém entendia.
— Os índios falavam uma língua que os portugueses não entendiam.
— A tia disse que os índios não acreditavam em Deus.
— Muitos não acreditam em Deus.
— Por que alguns acreditam em Deus e por que outros não acreditam?
— O deus dos índios é diferente daquele em que nós acreditamos.
— A mãe do Felipe não é índia. E não acredita em Deus.
Fugindo da pressão, segurei a mão da Aninha e a levei para a cozinha.
— Bom-dia querida! Olha só quem eu trouxe! O pão de queijo já está pronto?
Ana agarrou-se ao pescoço da avó e tascou um beijo lambuzado de pasta de dentes.
— Vó, por que alguns acreditam em Deus e outros não?
— Meu anjinho, vista uma roupinha. O pão de queijo está quase pronto. Alfredo, ajude sua neta.
A menina olhou para mim e fez beicinho de quem não recebeu a resposta nem comeu o pão de queijo.
Fui com ela até o quarto onde estava a sacola com a roupa.
— Hoje nós vamos ao zoológico. Você tem medo de lobo mau?
— Eu não. Lobo mau não existe.
— Tem alguma coleguinha que tem medo do lobo mau?
— O Rodrigo tem medo.
— Então, ele acredita em lobo mau?
— A Maria Alice também acredita.
— Então, Aninha, é assim: alguns acreditam e outros não acreditam. Como em Deus.
A menina abriu um enorme sorriso, correu para a cozinha e eu fiquei aliviado.
— Vó, Deus é como um lobo bom. Não é?
Ainda bem que o pão de queijo ficou pronto.

* Versão para a oração infantil:Sou pequenino. Meu coração é puro. Nele mora Jesus menino.

8 comentários:

Klotz disse...

Estes são os comentários escritos, para o texto acima, pelos freqüentadores do BDE — Bar do Escritor, comunidade do Orkut


Juliano Guerra

Muito bom


Larissa

o Klotz é incontestável. e quebra todas as barreiras quando lê!
faz a gente rir muito!


Klotz

Participo do Desafio dos Escritores promovido pelo Núcleo Cultural da Câmara dos Deputados.
No início éramos 30 participantes. Toda semana são eliminados alguns concorrentes. Após 12 semanas, orgulhosamente apresento:
“Crianças sempre embaraçam a gente” que me possibilitou estar entre os três finalistas.
O tema da semana era: SEU OBJETIVO É EXPLICAR NUMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS PORQUE ALGUNS ACREDITAM EM DEUS E PORQUE OUTROS NÃO ACREDITAM
O desafio pode ser acompanhado em Textos do Desafio 2 no site:
http://literaturadecamara.sites.uol.com.br


Zeca

Sucesso!!!
isso aí, klotz.


Cristiano

Grande Klotz... Já havia lido o conto lá na página do concurso, antes de postarem os nomes; a oração em alemão deu a dica de quem era o autor. Muito bom o conto, sucesso aê na parada.
ficanapaz, Mestre.


Klotz

Obrigado pela torcida. Sempre é bom contar com a leitura dos amigos.
O Cristiano é leitor atento e esperto como um lobo. Escrever em alemão foi tão natural que eu não me dei conta que poderiam me identificar como você identificou.


Barbara Leite

Boa sorte querido!
O texto está uma delícia!


Pagu

a torcida é para que consiga o prêmio maior!
mas saiba que já é nosso, no sentido de que ler-te é um prazer!


Glauber

O texto realmente é uma delícia, igual pão de queijo de vó.
A parte do duende verde foi hilária!


Muryel

Lírico.


Don

RS
Que coisa...

Klotz disse...


Jairo_Alt

ótimo!


Don

Já expliquei, até com alguns detalhes, a reprodução humana (Claro, sem palavras toscas como pinto, buceta...) para um garoto.
Ele até entendeu rápido pra caramba.


David

Muito bem escrito. Diálogos ágeis e envolventes. Demonstra bem a incapacidade adulta de responder certas questões embaraçosas a uma criança.


Lanoia

txt adorável, klotz


Giovani

klotz, as perguntas iniciais me confundiram, eu não sabia do que se tratava.


Klotz

Caramba, estou tão ausente e os leitores amigos não me faltam. Thank’s. De sobra ainda recebi a leitura de gente que eu pouco conheço. Legal.
Em tempos, no texto homenageei minha neta Ana Beatriz, nascida há um mês.


Cristiano

Ich win ich bin, Mestre, rs


Klotz

"Ich win ich bin"
Não entendi.
Ich = eu
win = ?
bin = sou


Cristiano

Um ditado antigo, segundo uma tia-avó. "Sou como sou", o que para nós brazucas, seria mais ou menos como o antigo "eu sou mais eu" ou então o novíssimo "I so fucking good"...
Mas claro que isso tudo é brincadeira. Foi para ver se conseguia desenferrujar a frase, rs.
Aê, dia 27 tem o sarau da Fravinha e tô confabulando com os astros para baixar aí pelos lados do Congresso...
ficanapaz


Cristiano

E ainda escrevi errado: Era algo como "Ich bin wich bin"... Pois é. A gente desenterra uns lances tem hora só para passar vergonha, rs.


Klotz

"Ich bin wie ich bin."
Agora faz sentido.
Eu sou como eu sou.

Klotz disse...


Zeca

Aliás, a resposta correta é "pq sim, oras"! rsrs


Rita Medusa

Grande texto! Parabéns pelo mérito já alcançado Klotz e boa sorte nas finais...


Klotz

Obrigado garota. Vou precisar muito mais que sorte. Os outros dois são extremamente talentosos, escrevem maravilhosamente bem.


Jairo_Alt

um deles sou eu, o outro é meu pseudônimo.


Cristiano

Mas é aqui que mora o xis, Klotz; tu também não fica atrás.
Briga boa é assim mesmo, sobra porrada pra tudo quanto é lado. No caso específico, ainda produz textos maneiros para os leitores se esbaldarem com o "duelo" literário.

ficanapaz


NIETICHE

Achei simples, e na simplicidade uma estória muito bem criada.



Jarbas

A crônica, além da inteligência no trato, ressalta valores.


Fabio

Desnecessário continuar comentando... O texto é maravilhoso. Espero um dia escrever assim.

Lisa disse...

yey! adoro essa idade dos porquês... tenho 4 sobrinhos nela (2 meninas e 2 meninos).
adorei o conto!
beijinhos,
Lisa

Eduardo Martins disse...

Bom conto! Pena que quando crescemos, algumas pessoas, deixam de perguntar para aceitar uma verdade imposta. Ou para somente não ser indesejável...
Parabéns pelo conto

Klotz disse...

As perguntas são importantes, Lisa e Eduardo, no mínimo, permitem o início de um diálogo.

Layana Lossë disse...

Demais! Adoro diálogos com crianças. Elas acabam ensinando um monte de coisa que a gente desaprende, né?

Rosa Cardoso disse...

Tão docemente escrito que quase esquecemos o quanto é dificil escrever bem assim. Você faz parecer fácil.

 
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