18 setembro 2012

O arroz de Palma


O arroz de Palma

Francisco Azevedo

Editora Record

366 páginas

Uns R$ 43,00


É uma criativa história de amor. É leitura para quem gosta de refletir e buscar lições sobre os fatos que acontecem na vida familiar. Se o autor fosse rotular o livro empregaria na ficha as palavras da primeira linha da página 337: romance literalmente água com açúcar.

Para alguns isso é ofensa, para outros, elogio. A história em algumas passagens me comoveu. Não cheguei às lágrimas, mas percebi que se os fatos não foram verídicos, foram muito bem narrados e convincentes, eu diria que merecedores de um romance como este que foi escrito por Francisco Azevedo.

Toda a história se desenvolve nas lembranças do narrador enquanto prepara um almoço domingueiro para a família. Por isso mesmo emprega, principalmente no início, metáforas criativas como “família é um prato que emociona”; “temperos exóticos alteram o sabor do parentesco, mas se misturados com delicadeza tornam a família mais colorida interessante e saborosa”; “não existe família à Oswaldo Aranha, Família à Rossini ou Família ao Molho Pardo em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é à Moda da Casa”. Conforme a narrativa se desenvolve o autor relaxa a guarda e em vez de metáforas criativas abusa de clichês, lugares comuns e ditos populares ao ponto de em uma única página (106) cometer “chutar o balde”; “dou tratos à bola”; “mentira deslavada”; “Quem conta um conto aumenta um ponto”. É perdoado por ser o linguajar que se encaixa no perfil do narrador.

Mas há passagens que merecem destaque como na 218:

– Deus também é de extremos.

– Deus?

– Tens tanta certeza assim?

– Tenho. Hoje, por exemplo. Vi um nascer do sol deslumbrante. Van Gogh arrancaria a outra orelha se visse aquelas cores!

– Céus! Deve ter sido mesmo uma maravilha.

– Daí me dei conta de que Deus pôs a beleza do sol nos extremos. Nascendo ou morrendo. O sol do meio-termo, do meio-dia, não é para ser admirado. Nem sequer podemos olhar para ele.

– Digo que o teu dia tem 12 horas e o de Deus tem 24.

– O quê?!

Só então tia Palma pousa o crochê e olha para mim.

– Num dia de 24 horas, o sol dos extremos é o do meio-dia – que é auge –, e o da meia-noite – que é ausência. O sol que está a nascer ou a morrer é o sol das preces. O sol do meio-termo, como dizes.



E também à página 234 em que Palma se queixava de dor na coluna e

... concluiu que a dor que sentia – maior que ela – era bem menor que a dor do mundo. Comparada com todo o sofrimento e aflição que haveria nos quatro cantos da Terra, sua dor se tornava insignificante, portanto, suportável. Brincava.

– Que remédio nos trará a cura? Que farmacêutico virá para passar algodãozinho com álcool, soprar a bunda da Terra e lhe aplicar a injeção que nos aplacará todas as dores?

E ainda uma sensacional descrição de um abraço à página 231:

Papai se levanta. Nos abraçamos tão entregues um ao outro, que tudo em nós se mistura: as lágrimas, os cheiros, os sons, as peles, os panos, as dores, tudo. Ficamos a eternidade assim, ele em mim e eu nele. Nenhum tempo, nenhum espaço. Perdemos a noção. Quando acabar o abraço, teremos que voltar à realidade. Quem é que quer? Não, eu. A iniciativa de separar os corpos não será minha. Não mesmo. Ele é o pai, a instância superior. Ele decidirá o quando e eu me conformarei. Mas o abraço é mais forte que qualquer grau de parentesco, quer continuar para sempre. Isabel vem e se junta a nós, mas sabe até onde pode ir. Apenas nos toca de leve, solidária. Suas mãos em nossos ombros também é aviso de vida, sinal de que ali há outras pessoas que precisam de nós. Papai e eu entendemos aquele novo tato que chega. Nossos corpos se soltam naturalmente e, aos poucos, vão reconhecendo e definindo seus limites.



Quer saber a minha opinião?

– É um prato cheio se você gosta de histórias de amor e costuma citar ditos populares.

4 comentários:

Indira Nóbrega disse...

Adorei seu blog e a dica do livro. Sou apaixonada por leitura e pretendo visitar seu blog outras vezes mais ^^

Parabéns!

http://indiranobrega.blogspot.com.br/

Klotz disse...

Obrigado pela visita. Espero que eu tenha ajudado na sua escolha por algum livro.
Abraços.

Angela Ottoni Delgado disse...

Bom-dia!
Li, no ano passado "O Arroz de Palma" e gostei muito. Quanto ao "Quase pisei", estou dando gargalhadas com ele. Parabéns! Fiquei com pena de não ter incluído "Pepino e farofa" no escambo. Mas, tenho mais dois livros...

Anônimo disse...

Concordo com seu comentário, que só destacou o que de fato é destaque. A maior parte da obra é rica em clichês e previsível. A leitura é um pouco cansativa, pois o que é relevante para o narrador não é para mim. Confesso, a partir da metade do livro, tive que me esforçar para terminar o livro.

 
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