30 abril 2013
Dulce Maria Cardoso
Editora Tinta da China
Capa dura e 272 páginas
R$ 37,90
A contracapa informa que este foi o livro do ano em Portugal com o Prêmio Especial da Crítica em 2011. “Que em 1975, um ano após a Revolução dos Cravos, Portugal perde suas colônias. Em poucos meses, o país recebe mais de meio milhão de retornados, que de uma
hora para outra precisam abandonar suas casas.” E é nesse contexto que o adolescente e narrador nascido em Luanda, capital de Angola conta sua trajetória pessoal.
Não é a primeira vez que encaro um texto com português de Portugal. Aluguer é aluguel. Connosco é conosco. Mota é motocicleta. Bazar é vazar no sentido de sair. Nada que assuste. São palavras bastante óbvias que não merecem nem uma pequena parada de estranhamento. Este livro é um pouco diferente por somar o lusitano angolano e o narrador introduz dizeres do quimbundo – língua nativa de Angola. Matabicho é desjejum. Geleira é geladeira. Machimbombo que em Portugal é autocarro para nós é simplesmente carro. A expressão “vai dar maca” significa que “vai dar problema”. O estranhamento passa logo e a leitura flui com naturalidade. A linguagem é simples e acessiva. Não há metáforas, figuras de linguagem ou rebuscamentos para tornar a linguagem literária. É uma história contada por Rui, uma pessoa do povo.
Rui é um adolescente quase alienado ao que acontece em torno de si. Talvez alienado não seja a palavra correta. Ele é um adolescente que percebe e vive as transformações típicas de qualquer adolescente: as transformações hormonais. Nesse contexto e convivência percebemos que as grandes transformações históricas e políticas e acontecem em torno dele. Um país negro colonizado e oprimido por portugueses brancos pega em armas para expulsar os invasores.
Ainda no começo da história em vez de descrever o cenário, Rui mostra sem nenhuma sutileza como se relaciona e pensa. “Com o Gegé e com o Lee é diferente, passávamos horas a falar de como seria fazer ginga ginga com raparigas brancas, sabíamos que não era a mesma coisa do que fazer com as pretas que nem cuecas usam e fazem aquilo com qualquer um e se quisermos até fazem com dois ou três em seguida, a Fortunata uma vez fez com sete, uns a seguir dos outros, até fizemos fila como na cantina do liceu. O Gegé é o único que já fez ginga ginga com uma branca, a Anita.” Poucas páginas adiante Rui informa que as raparigas brancas já não se atreviam a sair de casa e que “se um branco na rua é uma provocação, uma rapariga branca é uma provocação ainda maior. Até o preto que durante cinco anos engraxava os sapatos ao domingo de manhã avisou a minha irmã numa das últimas vezes que o vimos, cuidado menina que ainda te fazem o mesmo que os brancos fizeram às nossas mulheres.” Percebe-se a tensão aumentando, várias famílias fogem da revolta iminente enquanto a família do protagonista se apega à casa e valores construídos enquanto moravam em Luanda até que o pai de Rui é preso pelos revoltosos e a família acéfala desesperada foge para Portugal. A história ganha ainda mais dramaticidade no abrigo improvisado onde desconhecem o destino e questionam se o chefe da família está vivo ou morto.
É um romance morno e bastante repetitivo acontecendo num cenário e momento histórico efervescente. A autora não tomou partido nem se envolveu em questões políticas de modo que os portugueses puderam identificar a si ou pessoas do seu relacionamento tornando o livro um sucesso retumbante no país onde foi escrito. Para nós, brasileiros carece pesquisa para contextualizar a história.
A autora tem estilo e o livro somou conhecimento histórico.
01 abril 2013
Primeiro de abril
1.o de abril
Prezado Chefe,
Peço demissão em caráter irrevogável. Tenho sido sabotado sistematicamente por colegas de trabalho. Não tenho mais condições de trabalhar aqui na repartição que foi a minha casa nestes últimos 35 anos.
Atenciosamente,
... von Silva
Meu chefe recebeu o bilhete com um sorriso no rosto. Meu chefe é bem humorado.
Ele carimbou aprovado, datou e disse que nunca imaginou que seria tão fácil se livrar de mim.
Texto não publicado no livro Cara de crachá, cujo protagonista é von Silva.
25 março 2013
Lavoura acaica
Companhia das letras
quase R$ 40,00
194 páginas
1 semana de leitura
O substantivo do título do livro remete a um cenário de uma fazenda enquanto o adjetivo coloca o cenário no passado. É o que acontece com André que cedo na vida, foge da vida na lavoura para uma cidade interiorana. Ele se afasta da severidade paterna e do sufoco de carinhos maternos. O irmão, Pedro, vai ao seu encontro provocando as lembranças de André.
É um livro denso, sufocante, que deixa você sem fôlego. O protagonista, André, penetra num fluxo de consciência onde esmiúça a memória e a história familiar. Para deixar o leitor sem ar, o autor usa o artifício de escrever capítulos em vez de parágrafos. O primeiro parágrafo e também diálogo só acontece quando já avançamos a 75% da sufocante leitura.
No encontro com o irmão percebe que “ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira.” E segue com “eu estava era escuro por dentro, não conseguia sair da carne dos meus sentimentos.” Na mesma linha de pensamento ainda segue quase a externar um grito de incitação: “não se constranja, meu irmão, encontre logo a voz solene que você, uma voz potente de reprimenda, pergunte sem demora o que acontece comigo desde sempre, componha gestos, me desconforme depressa a cara, me quebre contra os olhos a velha louça lá de casa.”
O pensamento de André é uma inspeção a todos os lados do prisma. Enxerga e opina tudo a partir de todos os ângulos possíveis como no momento em que rememora o pai: “digo que não há lugar para a blasfêmia em nossa casa, nem pelo dia feliz que custa a vir, nem pelo dia funesto que súbito se precipita, nem pelas chuvas que tardam mas sempre vêm, nem pelas secas bravas que incendeiam nossas colheitas; não haverá blasfêmia por ocasião de outros reveses, se as crias não vingam, se a rês definha, se os ovos goram, se os frutos mirram, se a terra lerda, se a semente não germina, se as espigas não embucham, se o cacho tomba, se o milho não grana, se os grãos caruncham, se a lavoura pragueja, se se fazem pecas as plantações, se desabam sobre os campos as nuvens vorazes dos gafanhotos, se raiva a tempestade devastadora sobre o trabalho da família;”. Fiz do ponto e vírgula o encerramento da frase, frase que só recebe um ponto uma página e meia depois.
Após muita reflexão, conclui que “não tive o meu contento, o mundo não terá de mim a misericórdia ; amar e ser amado era tudo o que eu queria, mas fui jogado à margem sem consulta, fui amputado, já faço parte da escória, vou me entregar de corpo e alma à doce vertigem de quem se considera, na primeira força da idade, um homem simplesmente acabado.” E segue com amargura “pertenço como nunca desde agora a essa insólita confraria dos enjeitados, dos proibidos, dos recusados pelo afeto, dos sem sossego, dos intranquilos, dos inquietos, dos que se contorcem, dos aleijões com cara de assassino que descendem de Caim.”
Finalmente, como uma peça que faltava num quebra-cabeças, volta com o irmão para recompor a família. Entretanto estraçalha todos os preceitos secularmente estabelecidos.
Particularmente, prefiro linguagem mais dinâmica, mais ágil e contemporânea e uma estrutura que permita ao leitor concluir por conta própria, mas Lavoura arcaica tem tantos méritos que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras; recebeu o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e ainda foi escolhido Revelação pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Em 2001 recebeu uma premiadíssima adaptação cinematográfica.
19 março 2013
Por favor, qual meu nome?
Tudo aconteceu muito rapidamente. Eu e todos os outros milhares de vocábulos estávamos bem acomodados no nosso livro. Era um modelo importado de 1935. Objeto elegante, delicado, acabamento esmerado. Além de nós, havia seis mil gravuras e ainda 90 mapas. Na capa dura lia-se Diccionário prático illustrado. Dicionário com dois cês e ilustrado com dois eles. Era como se nossas poltronas estivessem numeradas. Cada termo estava assentado em lugar certo. E o conjunto estava de pé numa prateleira ao lado dos colegas, Português-Inglês / Inglês Português, Novo dicionário básico da língua portuguesa, Novíssima enciclopédia, Dicionário de sinônimos e antônimos.
Foi aí que um descuidado puxou o compêndio pela lombada e o derrubou ao chão. Várias páginas se soltaram e voaram assustadas com o sopro do ventilador. Eu, uma palavrinha azarada, bati a cabeça e perdi a memória. Esqueci meu nome. Em vez de me levarem a um médico, levaram-me a um lexicógrafo.
Essa figura de nome esquisito ajeitou os óculos de lente grossa sentou-se à minha frente, ordenou as minhas cinco letras e chamou-me de chusma. Ele afirmou que eu era uma chusma. Retruquei que não era esse o meu nome. Ele então me chamou de ruma, que dava na mesma. Eu disse que exigia respeito, e que sem querer ofender ninguém, meu nome era muito mais bonito.
O doutor ergueu uma das sobrancelhas e afirmou que eu era uma pessoa muito irritadiça, nervosa.
– Doutor, sei das suas boas intenções em tentar me ajudar a recuperar o meu nome, mas as suas tentativas foram vãs até agora. Meu nome não significa nada para ninguém?
– Seu nome também é o de um jogo de cartas.
– Poquer, trinca, paciência, buraco, truco, blackjack? - indaguei curioso.
– Muito bom. Gosto quando você se esforça para recordar. Mas são apenas cinco letras. Infelizmente essa dica foi fraca: é um jogo pouco comum, – o lexicógrafo faz uma pausa, mexe com os olhos para cima como se buscasse a memória, e continua – seu nome também é um verbo. O mesmo que saqueia, furta ou surrupia. Lembrou?
Eu neguei com a cabeça. – Eu sou do bem – respondi. – Será que não há nada melhor para dizer do meu nome?
– Há sim. Vou dar uma última chance.
– Qual é a dica?
– Você também é um sistema que transforma energia química em energia elétrica. Lembrou do seu nome?
Pense.
Lembrou?
Isso não é piada, nem pilhéria.
Se você pensou em pilha, acertou.
12 março 2013
05 março 2013
O vrum que me levou ao passado
O sol ainda estava sob as cobertas, mas eu, madrugador que sou, já estava de pé na frente da geladeira pegando um pacote plástico com pão de forma. Ouvi, do quinto andar, o barulho da moto do entregador de jornal. – VRUM.
No mesmo instante, como um flash, lembrei tempos antigos. Salivei pão francês e leite fresco.
Eu explico: o padeiro, no alvorecer do meu passado, pilotava uma lambreta verde com um baú de madeira. Parava na frente de quase todas as casas. Sabia de cabeça quantos filões, pãezinhos, roscas e litros de leite deveria entregar em cada casa. Entrava, deixava as garrafas de vidro e tampa de alumínio ao lado dos saquinhos de papel e retornava apressado.
Os sons que eu ouvia da minha cama, na infância, ainda reverberam na memória.
Primeiro ouvíamos ao longe o liga e desliga da lambreta se aproximando até chegar sob a nossa janela. Depois de embrulhar os pães mornos ouvíamos a tampa fechando barulhos no baú. – POW! Em seguida os passos corridos – TOCTOCTOCTOC – ecoando no quintal até a caixa protegida do tempo. Dois segundos depois retornava de mãos vazias, com os mesmos passos sonoros – TOCTOCTOTOC. Batia o portão de ferro – CLANC – e ligava a moto se afastando alguns metros até o próximo vizinho. – VRUM.
Hoje, devolvi o pão de forma à geladeira e caminhei silencioso até a padaria em busca de um sonho.
21 fevereiro 2013
Mastigando comportamentos
Inacreditável o que presenciamos.
Fui com minha mulher a uma pizzaria terminar o domingo. Logo depois que o garçom saiu com o nosso pedido observamos o casal que estava sentado à nossa frente. Impossível não observar. Ele falava alto. Tão alto que podíamos ouvir tudo sem nenhum esforço.
Eu e minha mulher nos entreolhamos pela falta de educação do moço. Ele estava monologando sobre o grupo de adolescentes que estava sentado razoavelmente próximo, noutra mesa.
– Nunca vi uma coisa assim. Elas não falam entre si. Cada uma tem um aparelhinho na mão e digitam mensagens.
– Uma coisa incrível. Às vezes digitam e cutucam a vizinha para mostrar o que digitaram. Ou cutucam para mostrar o torpedo que receberam.
– Seguem sem trocar palavras. Riem, gargalham e digitam. Não duvido, pela troca de olhares, que uma esteja falando mal da outra que está na frente e não pode ler o que está na telinha.
Ele até pareceu elevar o tom de voz para dar um recado à mesa das meninas:
– O mundo está perdido com esse avanço da tecnologia. Ninguém mais se comunica nas formas convencionais?
Elas estavam tão entretidas e desacostumadas a ouvir que continuaram o bate-papo virtual alegremente.
O moço criticou as meninas durante dez longos minutos até ser interrompido pela comida que chegara à sua mesa.
Finalmente desligou o celular e se atracou na pizza para iniciar conversa, de boca cheia, com a moça que o acompanhava.
14 fevereiro 2013
Formigas
Astrogildo, 46 anos, casado, pai de 2 filhos, funcionário público, no domingo fez longa caminhada ecológica em fazenda ambiental. Ao fim do dia, na volta, resolveu urinar na mesma árvore que havia marcado na saída. Para sua surpresa, o tronco, no local regado anteriormente, estava repleto de formigas. A princípio achou engraçado e curioso. Depois considerou ser possível conseqüência de açúcar na urina.
O pai era diabético, o avô também.
Marcou consulta e realizou todos os exames.
Na apresentação dos resultados perguntou ao médico:
– Doutor Fernando, estou com diabete?
– Não Astrogildo, sua doença é muito mais grave. Você está com diabetes associada com problemas de língua.
– Como assim?
– Consulte o dicionário. Diabetes sempre tem esse no final.
07 fevereiro 2013
O amuleto
Nevara na noite anterior. Apesar do sol mostrando os dentes, fazia frio. Muito frio. Andar na calçada congelada era dançar equilibrismo. Só muita necessidade ou ignorância faria alguém andar no comércio da Heimatstasse naquela manhã. Ele percebeu que era observado através do vidro da vitrine. Maurício só não engatinhava para não perder a dignidade de vez.
Abanou sem graça para as mulheres que formavam uma plateia do lado de dentro da janelona. Se arrastou mais três minutos até chegar ao trinco da porta da loja. Sentiu-se um náufrago alcançando uma boia flutuante.
Ao pisar no capacho recompôs a postura, ajeitou a mochila e abriu a porta. Entrou na loja de armarinhos interrompendo uma aula de tricô deixando um rastro de pegadas.
Uma senhora que parecia ser a dona da loja tomou a frente:
– Fühlen sie sich wohl? – O senhor está se sentindo bem?
Maurício ergueu os ombros, inclinou a cabeça par o lado e abriu as mãos espalmadas numa interrogação mímica. Ele não falava alemão. Nem francês nem inglês.
A mulher apontou para uma porta.
– Möchten sie einen Handtuch? – O senhor quer uma toalha?
Ele repetiu o gesto. Estava constrangido. Era mochileiro, viajante. Escolheu a época errada para viajar. Não falava a língua. Parecia mijado de calças tão molhadas. Sentia frio. Estava sem dinheiro num ambiente requintado e feminino. De velhas. O que fazia ali?
Maurício era de Araçatuba, interior de São Paulo. Desde que ganhara uma moeda de prata sentia-se o maior felizardo do mundo. Faturou uma grana na loteria. Comprou carro usado, catou a namorada e saiu para viajar o mundo. Inglaterra, França, Espanha, Itália, Alemanha. Foi roubado. Sobrou apenas a mochila. A mulher o trocou por um turco.
Tentava caminhar até o consulado brasileiro quando parou na loja de armarinhos fazendo o papel de um animal exótico num jardim zoológico.
Uma senhora maquiadíssima foi até ele com uma enorme toalha.
Se aconchegando, murmurou obrigado.
A mulher respondeu “bitte schön” – de nada – numa voz masculina.
Maurício teve certeza. A sorte o abandonara.
Em pagamento, ofereceu a moeda de prata.
25 janeiro 2013
O fio das missangas
Mia Couto
38 contos para 29 cônicas e contos
Companhia das Letras
152 páginas
5 dias de prazer
Hoje é domingo. Manhã de nuvens espraiando gotículas de preguiça. A mulher me chama para um alegre (e barulhento) encontro familiar. Eu já havia lavado a xícara de café e levantava a ponta do lençol para reaconchegar meus pés frios.
– Vamos embora?
– Obrigado, querida. Hoje eu renuncio. Quero sozinhar.
– Como assim? Que diabos é isso? Agora deu de inventar palavras?
– A palavra sempre existiu. O mundo está cheio de palavras virgens, desejosas de estreia. Só depois de caírem na boca do povo é que são dicionarizadas. – bocejei – Sozinhar estava no ar, perfumada e louca para estrear no mundo. Fui lá e a tomei para mim. Agora, pós inauguração, divido com quem quiser.
– É melhor mesmo ficar em casa. Você deve estar delirando com esse livro.
Eu sempre sou influenciado pelos livros que leio. Este foi o segundo do Mia Couto que velou algumas noites do meu sono, deitado no criado-mudo sob meus óculos.
Esse multipremiado moçambicano é um poeta que escreve em prosa. Da mesma forma que inventa palavras, cria histórias geniais. Mia Couto transforma improbalidades em contos e crônicas verdadeiramente maravilhosas. O banzo e a tristeza são expressos com melancoliosa singularidade.
Costumo dobrar as orelhas das primeiras páginas dos textos mais apreciados. Marquei quase todos. Destaco As três irmãs, Os olhos dos mortos e a Infância fiadeira além daquele que dá título ao livro.
É sensato não copiar um texto inteiro, entretanto alguns parágrafos merecem reverências:
À página 27 está: “No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra.”
À página 29 a protagonista, no falecimento da mãe, pós-parto anotou: “minha mãe nunca soletrou meu nome. Ela se calou no meu primeiro choro, tragada pelo silêncio.”
À página 51, um neologismo delicioso: “Eu era nova, dezanovinha.”
No mesmo conto, duas páginas adiante: “Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro.”
À página 99 lança um pensamento: “Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é feito para o futuro e o de outro é rabiscado para sobrevivência.”
Na crônica Os machos lacrimosos, página 107 temos: “ Eles se encontravam por causa de alegrias. No bar de Matakuane, os homens anedotavam, fabricando risadas.”
Um tequinho adiante, na mesma história: “Mas o choroso todaviou-se. E foi crescendo de choraminguado para carpideiro. Entre soluços, soltava os fios da fúnebre narrativa. Já nem se percebia palavra. Tal maneira as falas vinham envoltas em babas. Na sala surgiu um lenço e rodou de mão em mão, coletando excessos. Tarde de mais, as chamas da tristeza já haviam devorado o coração de Kapa-Kapa.”
Terminei o livro a tempo de me reunir com a família e sugerir a leitura.
Minha mulher respondeu de pronto:
– Vou ler quando estiver com euzinha.
38 contos para 29 cônicas e contos
Companhia das Letras
152 páginas
5 dias de prazer
Hoje é domingo. Manhã de nuvens espraiando gotículas de preguiça. A mulher me chama para um alegre (e barulhento) encontro familiar. Eu já havia lavado a xícara de café e levantava a ponta do lençol para reaconchegar meus pés frios.
– Vamos embora?
– Obrigado, querida. Hoje eu renuncio. Quero sozinhar.
– Como assim? Que diabos é isso? Agora deu de inventar palavras?
– A palavra sempre existiu. O mundo está cheio de palavras virgens, desejosas de estreia. Só depois de caírem na boca do povo é que são dicionarizadas. – bocejei – Sozinhar estava no ar, perfumada e louca para estrear no mundo. Fui lá e a tomei para mim. Agora, pós inauguração, divido com quem quiser.
– É melhor mesmo ficar em casa. Você deve estar delirando com esse livro.
Eu sempre sou influenciado pelos livros que leio. Este foi o segundo do Mia Couto que velou algumas noites do meu sono, deitado no criado-mudo sob meus óculos.
Esse multipremiado moçambicano é um poeta que escreve em prosa. Da mesma forma que inventa palavras, cria histórias geniais. Mia Couto transforma improbalidades em contos e crônicas verdadeiramente maravilhosas. O banzo e a tristeza são expressos com melancoliosa singularidade.
Costumo dobrar as orelhas das primeiras páginas dos textos mais apreciados. Marquei quase todos. Destaco As três irmãs, Os olhos dos mortos e a Infância fiadeira além daquele que dá título ao livro.
É sensato não copiar um texto inteiro, entretanto alguns parágrafos merecem reverências:
À página 27 está: “No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra.”
À página 29 a protagonista, no falecimento da mãe, pós-parto anotou: “minha mãe nunca soletrou meu nome. Ela se calou no meu primeiro choro, tragada pelo silêncio.”
À página 51, um neologismo delicioso: “Eu era nova, dezanovinha.”
No mesmo conto, duas páginas adiante: “Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro.”
À página 99 lança um pensamento: “Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é feito para o futuro e o de outro é rabiscado para sobrevivência.”
Na crônica Os machos lacrimosos, página 107 temos: “ Eles se encontravam por causa de alegrias. No bar de Matakuane, os homens anedotavam, fabricando risadas.”
Um tequinho adiante, na mesma história: “Mas o choroso todaviou-se. E foi crescendo de choraminguado para carpideiro. Entre soluços, soltava os fios da fúnebre narrativa. Já nem se percebia palavra. Tal maneira as falas vinham envoltas em babas. Na sala surgiu um lenço e rodou de mão em mão, coletando excessos. Tarde de mais, as chamas da tristeza já haviam devorado o coração de Kapa-Kapa.”
Terminei o livro a tempo de me reunir com a família e sugerir a leitura.
Minha mulher respondeu de pronto:
– Vou ler quando estiver com euzinha.
23 janeiro 2013
Atitude
Depois do aroma do alecrim que enfeitava e temperava o faisão, se acomodaram nas poltronas da sala esperando o café e os licores. As fragrâncias de Chanel, Jean Patou voltaram a tomar conta do ambiente.
Compararam o atendimento nos hotéis de Atenas, Dubai e Saint-Tropez. Reproduziram diálogos que tiveram com Obama, Bento XVI e Saramago. Este último introduziu Proust, Brecht e Dostoiévski na conversa.
Depois de receber o aval de todos, Felipe Alberto sentou-se próximo à janela, acendeu um charuto e, provocativo, perguntou a Joanalva se algum livro teria mudado sua vida.
Joanalva estava retraída, silenciosa, enojada com cheiro de soberba que infestava o ambiente.
– Sim, Guerra e Paz do Tolstói.
– Mas é um livro enorme. Você leu tudo?
– Subi em cima. Fiquei cinco centímetros mais alta que você.
20 janeiro 2013
Cartas de um sedutor
Hilda Hilst
Editora Globo
200 páginas
Agora que todas as mulheres vão para a cama com 50 tons de cinza resolvi que eu também deveria ler. Por outro lado os críticos a amarraram escritora num pau de arara para dar porrada. E, dá-lhe porrada.
15 janeiro 2013
Diálogos impossíveis
Gastei 33 reais
176 páginas
Comprei o livro após degustar uma crônica – Albert Speer fala com as flores – na livraria. Genial! No dia em que Verissimo escreveu o texto estava inspiradíssimo.
Livro comprado.
Reparei a capa? Voltei e olhei as duas latas amarradas pelos fundos com um longo barbante formando o infantil brinquedo do telefone com fio. O barbante sempre precisa estar esticado, não é o que acontece com o desenho da capa, impossibilitando diálogos.
Ler Luis Fernando Verissimo sempre é muito bom. Sou fã dele há muito tempo. Tanto insisti que tenho o privilégio de uma orelha escrita por ele no meu livro Cara de crachá.
Ainda me lembro de meu Outras do analista de Bagé de capa amarela que eu li várias e várias vezes na década de 70. Apesar de maravilhoso, dentro do livro havia muitas histórias, embora boas, que não eram do Analista. Aquilo me incomodava. Eu queria do protagonista, não outras. Embora o título dissesse outras.
Da mesma forma que em Ed Mort, e Analista de Bagé, em Diálogos impossíveis acontece a mesma coisa. Há histórias que não “fecham” com o título do livro. Há vários diálogos. Muitos maravilhosos, mas são outros. Outros diálogos. Outros diálogos que nada tem de impossíveis. Talvez imprevistos, bem humorados, irônicos ou inesperados. Ótimos. Mas outros.
Porque eu estou pegando no pé do Veríssimo, meu ídolo e mestre? Talvez seja a idade. Não a dele. A minha idade. Devo estar ranzinza.
O primeiro conto chama-se A diferença. Não foi a toa que os editores o escolheram para a abertura. A genialidade do autor está presente com o humor, com a criatividade, com a leveza, com a escolha das palavras, com a rica percepção que tem do que nos cerca e com o final inesperado. Dez!
Os editores também capricharam na escolha do segundo e terceiro conto. Valeram os muitos reais da aquisição. No quarto conto não há diálogos. A história é muito engraçada, impossível, mas foge do título.
Neste livro eu percebi um Verissimo doce capaz de suplantar qualquer poeta quando Don Juan procura seduzir a Dona Morte:
“– E com você não precisei usar nenhum dos meus truques. Nem meu olhar de desatar espartilhos, nem os versos que orvalham o portal do amor antes mesmo do primeiro toque...”
Será que é preciso dizer mais alguma coisa?
Ok. Direi.
– Vá. Compre e leia logo. É imperdível.
03 janeiro 2013
Ressaca do réveillon
O ano recém começara e nos encontramos num barzinho para reabastecer o tanque que já estava na reserva.
Nós éramos em cinco embora Lúcio afirmasse sermos nove e Toninha apostar no número sete.
– Então vamos contar de novo. – sugeri. – Neco, Paulinha, Lúcio, eu, Zé e Toninha.
Lúcio bateu a mão na mesa. – Eu num falei! Somos sete!
– Peraí! Pediu a Toninha. – Exijo recontagem. A gente começa com a Paulinha para não contar duas vezes.
O Lúcio apontou para a Paulinha e depois foi seguindo o dedo para o lado e todos, em coro, contaram.
– Um , dois, três , quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze...
Neco interrompeu a contagem.
– Para. Para. Para. –Tu apontou para o pessoal da outra mesa.
– Tão sentados na outra mesa. Mas quem não conhece a Lili, o Paulão e a Fê e os outros quatro que estão com eles?
Interrompi com autoridade: – Aquela não é a Fê. A Fê tem uma boquinha carnuda deliciosa. Essa á a irmã dela. Ainda não sei se a boca carnuda é deliciosa. E tem mais, além da Lili, do Paulão e da irmã da Fê são só mais dois e não mais quatro.
– Bora contá de novo – sugeriu Neco.
Vamos não, – cortou Toninha. – hoje é dia de prometer, comprometer, de se engajar nas promessas. Assumir responsabilidades. Esquecer medos. Anunciar um projeto para melhorar o mundo.
Lúcio ergueu o copo num brinde às palavras da Toninha e perguntou qual era a sua resolução salvadora para o ano nascente.
– Vou pintar meu cabelo. Serei loira. Serei a loira mais gostosa do planeta.
Lúcio sem desmentir a gostosura da Toninha: – Mas o seu cabelo já é loiro.
– É que eu prometo retocar de 15 em 15 dias. E tu Lúcio, o que vai ser?
– Caraca, nem pensei. Acho que eu tenho que terminar a faculdade.
O garçom, de passagem, pensou que deveria cobrar os dez por cento antes de o pessoal começar a beber.
A Lili, sem ser perguntada, ajeitou os peitões no decote e disse que a sua resolução era não mais usar calcinha quando estivesse de vestido.
Paulão, lá da outra mesa, levantou-se com olhar vermelho e sedento:
– Eu prometo solenemente, para quem quiser registrar em cartório, que neste ano, semana a semana comprarei uma saia para a nossa querida Lili.
A irmã da Fê beliscou o Paulão na barriga.
Paulinha cutucou o Neco que já estava com o tanque cheio.
– Eu prometo que vou começar a procurá emprego.
– Essa é velha. Não pode. Mande outra.
– Tá bem. Prometo bebê menos.
O garçom palpitou que o Neco poderia ao menos prometê pagar suas contas.
Olhei em volta. Todos os cinco, ou sete ou nove já haviam externado decisões para o novo ano. Era a minha vez.
Eu já estava tomando água há duas horas. Disse que tomara a resolução firme e forte, encantava a vida ou desencantava a morte. Iria acabar com meus cabelos brancos, extinguir a barriga, eliminar as rugas da face. Minha decisão é irreversível: vou rejuvenescer.
28 dezembro 2012
Trem noturno para Lisboa
Autor: Pascal Mercier
Editora Record
460 páginas que levei 20 dias para ler
50 pratas nas melhores casas do ramo
O livro conta a história de Raimund Gregorius um convencional e ortodoxo professor de grego, hebraico e latim que aos 57 anos, de um estalo, resolve mudar tudo em sua vida. Abandona os alunos da escola no meio de uma aula em Berna, na Suiça, e pega um trem para Lisboa motivado pela sonoridade da palavra “português”. Tem a curiosidade aguçada pela descoberta do livro Um Ourives das Palavras escrito por Amadeu Inácio de Almeida Prado. Gregorius, na procura de remontar a biografia do autor encontra muitas reflexões sobre a vida e a morte.
O autor foi muito feliz na escolha das metáforas. Um trem para transportar o personagem para uma nova paisagem e vida. Na nova cidade, por um incidente é obrigado a trocar os óculos que permitem que enxergue novas realidades. Os cenários escolhidos, Berna e Lisboa são opostos entre si. Uma incrustrada nos sufocantes e gelados Alpes enquanto a outra ao nível do mar tem clima quase tropical. Por fim troca dois idiomas: grego e hebraico com sons e grafias diferentes do português com o alfabeto romano.
As palavras são o elo da cadeia filosófica que transporta o personagem na história.
Por exemplo, em relação a aneurisma escreveu à página 99: “Qualquer instante pode ser o último. Sem o mínimo pressentimento, no mais completo desconhecimento, vou transpor uma parede invisível atrás da qual não existe nada, nem sequer a escuridão. O meu próximo passo pode muito bem ser o passo através dessa parede. Não seria ilógico sentir medo disso, uma vez que nem vou vivenciar esse súbito apagar e sabendo de antemão que tudo é assim mesmo?” Ou para as sombras da alma escreveu à página 152: “As histórias que os outros contam sobre nós e as histórias que nós mesmos contamos – quais delas se aproximam mais da verdade?” Para medo anotou: “medo se tem de algo que ainda está por acontecer, que ainda temos que enfrentar.” E ainda à página 327 meditou: “Cheguei a pensar que o espírito de Amadeus era, antes de mais nada, linguagem, – que a sua alma era feita de palavras.”
Há frases dignas de registro: “Um ruído alto, que parecia vir de uma distância medieval.” (página 112); “silencioso como um navio sepultado no fundo do mar.” (página 176); “na escuridão, o ranger da porta parecia bem mais ruidoso do que durante o dia, mais ruídoso e mais proibitivo.” (página 177);
De todo modo, acho que a algumas consultas à Internet são importantes para a melhor compreensão de algumas passagens:
Cartão postal com a ponte Kirchenfeld e os Alpes ao fundo, em Berna na Suíça
Cartão postal com a ponte Kirchenfeld, Hotel Bellevue, Palácio Nacional e cassino
Tarrafal: É um presídio de segurança máxima construído nas Ilhas de Cabo Verde. Para lá foram enviados os presos políticos da era Salazar. Pelo menos 37 deles morreram sob tortura.
Biblioteca Joanina de Coimbra, maravilhosa na aparência e na descrição à página 401.
E, para finalizar as consultas à Internet, confirmo que o livro Um Ourives das Palavras e o autor Amadeu Inácio de Almeida Prado são ficção.
Não sei como o tradutor, o revisor e o editor deixaram passar seis “ele” em cinco linhas à página 41. Por falar em estranhezas, o verbo recender aparece quase uma dúzia de vezes. Estranheza por ser uma palavra nada usual, pelo menos no meu vocabulário.
Se eu gostei? É de difícil digestão, mas gostei. Gostei e recomendo.
12 dezembro 2012
Casamento em crise
Aurélio estava no banheiro, com o rosto coberto de espuma de barba e com uma toalha na cintura, quando a esposa, furiosa, escancarou a porta da privacidade.
– Aurélio! O que é isso no seu pijama?
Essa foi a primeira investida irada de Ana Maria enquanto quase esfregava a mancha da calça do pijama na cara do marido. Antes mesmo da resposta desferiu perguntas como uma metralhadora.
– Você agora deu para sair com vagabundas? Essa coisa molhada não é seu gozo, que eu conheço. O que é isso? Você não me respeita mais não? Sai com piranhas e depois vem deitar na minha cama, ao meu lado, com essa coisa pingando? Eu vou te capar! Não pense você que eu não sabia do seu caso com a Juliana! Ela até é bonitinha, chego a ter simpatia por ela, mas agora você passou dos limites. Você arrumou mais outra! Está se deitando com mulher ordinária, com pistoleira, com mulher da zona. Você, meu querido Aurélio, está trocando cetim por lençóis impregnados de sujeira, de piolhos, de vermes da escória. Onde você foi parar? Que decadência, Aurélio. Que decadência!
O marido segurava o aparelho de barbear com a mão direita enquanto com a esquerda tentava fechar a porta para interromper a represália que ninguém mais ousava.
– Olhe-se no espelho. Cadê aquele Aurélio cheio de orgulho? De dignidade? De poder? Você nunca foi homem de rastejar na sarjeta dos ratos. Seu lugar é na ponta da mesa, onde o coloquei. E, largue o trinco desta porta que eu ainda não disse tudo que eu tinha para dizer.
Ele, constrangido, tira a mão do trinco da porta e ajeita a toalha que ameaça a cair junto com a vergonha.
– Isso mesmo, segure esta toalha, junte com o pijama e a cueca melada para levar para a lavanderia. – fez uma pequena pausa – ou queime se preferir. Só não me espalhe essa doença suburbana na casa da sua família. – jogou o pijama nos pés do marido e virou-lhe as costas.
Eles já estavam casados há 22 anos. Com os filhos na universidade e vida estabilizada. Uma casa em condomínio fechado e outra casa na praia. Ele diretor numa empresa de transportes de carga e ela dona-de-casa.
Ana Maria é aquilo que os invejosos chamam de dondoca. Levanta depois das nove. Joga tênis duas vezes por semana e vai para a academia nos outros dias. À tarde tem uma rotina árdua. Nas segundas-feiras vai ao supermercado, nas terças e quintas joga pife, às quartas-feiras tem aula de pintura e nas sextas-feiras é dia de massagem e cabeleireiro. Aos sábados, enquanto o esposo joga golfe, ela visita lojas de moda e calçados. Desde pequena foi acostumada ao conforto pelo pai, dono da transportadora.
A esposa sempre soube do caso do marido com Juliana. Era impossível ignorar uma sombra. A amante era uns dez anos mais nova. O que tinha de bonita , tinha de insegura. Tão insegura que procurava imitar Ana Maria em tudo. Frequentava o mesmo cabeleireiro, ia às mesmas lojas, jogava tênis, estudava piano em vez da pintura. Adicionou silicone aos peitos e era paciente do mesmo ginecologista. Tudo bancado pela mesmo homem.
Ele já se encantara por mulheres mais novas outras duas vezes. Ana Maria, sempre segura e autoconfiante, soube dos casos. Eram apenas casos, duraram semanas, talvez alguns meses. Aurélio cansava e sossegava, retornando à vida caseira e familiar. Agora era diferente, sentia-se ameaçada pela ambiciosa concorrente. O caso já durava dois anos e Aurélio sequer disfarçava inventando viagens. Tanto que fora visto com a rival ocupando a mesa de canto no restaurante antes ocupado em família. Não se incomodava em ouvir comentários maldosos.
A preocupação de Ana Maria consistia em perder um casamento confortável. Uma escolha calculada na adolescência. Ele era um rapaz atraente, esforçado, inteligente, culto e refinado embora de classe mediana. Nada que um bom emprego não resolvesse. O rapaz transformou-se em senhor, depois em doutor, trabalhou muito e chegou merecidamente a diretor na firma do sogro.
Ana Maria soube que Juliana inocentemente perguntara a um lojista o preço de um vestido de noiva. Começou a respirar o ar da separação. Esse foi o limite. Mesmo transtornada não seria capaz de se vingar deitando-se com outro homem. Ficou tentada. Aurélio não suportaria ser passado para trás, jamais conseguiria tolerar a traição, seria um tiro no orgulho. Mesmo cobiçada, jamais dividiu cobertas com outro homem, não seria agora, por vingança. Mas estava decidida a vencer a noivinha inexperiente.
Desnecessário dizer que Aurélio sentiu-se traído por Juliana, comprou um pijama novo e retornou para as cobertas de cetim.
30 novembro 2012
Jogo de palavras
Um dia me explicarm um jogo com vários participantes, ao redor de uma mesa, em que alguém com o auxílio de um dicionário escolhe uma palavra e anota o seu significado.
Todos são instados a sugerir o significado da palavra escolhida.
Aquele que chegar mais perto ganha um certo número de pontos. Se nenhum acertar, ganha alguns pontos aquele que sugerir o significado mais criativo.
Independentemente de estarmos sentados ao redor da mesa, ou na frente de um teclado, selecionei nove palavras e sugeri alguns significados. Será que você acerta? Só uma resposta é verdadeira.
Diga quantas acertou. Sugira um significado criativo.Ou proponha outras palavras.
bródio
a) Refeição alegre
b) Irmão
c) Bolinho de arroz com espinafre.
d) Espécie de tecido fino de algodão
e) Que perdeu a razão, alienado
chibante
a) Porção de um todo
b) Valentão
c) Aquele que sela a montaria
d) Rédea muito curta; rédea chibante
e) Chute dado com o lado de fora da chuteira
colubrina
a) Instrumento musical de sopro
b) Construção circular
c) Antiga espada
d) Amásia, amante
e) Dançarina de bordel – Portugal
farândola
a) Designação comum a insetos como o cupim e a traça
b) Talo de capim seco
c) grupo de maltrapilhos
d) Aranha australiana
e) Corante obtido de insetos vermelhos
férula
a) Volúpia, lascívia
b) Secreção oleosa de palmáceas
c) Parte exterior, casca, crosta
d) Odor característico dos felinos
e) Palmatória
marau
a) Caverna, gruta
b) malandro, patife
c) Gordo, obeso
d) Navegador
e) Pequeno machado
mofatra
a) Eixo da roda de moinho
b) Disputa, peleja
c) Moldura de ornato de janela ou porta
d) logro
e) Utensílio do minerador de diamantes
patranhas
a) História mentirosa
b) Indivíduo mal intencionado
c) Conjunto de casas destinados aos escravos
d) Tira gosto à base de alho
e) Pessoa sem poderes
púcaro
a) Pessoa de mau caráter
b) Penhasco
c) Nuvem que antecede tufões
d) Órgão sensorial olfativo
e) Pequeno vaso com asa
Não vale olhar a resposta antes de tentar...
bródio - Refeição alegre; comezaina: Pândega, bagunça, barulho. Opíparo bródio
chibante - brigão, valentão; Orgulhoso, altivo, soberbo. Pessoa chibante. Ex: crioulo chibante
colubrina - Antiga espada; (colubrina sem raia = espada sem fio)
farândola - grupo de maltrapilhos; farandolagem; bando de indivíduos de má fama
férula - Palmatória (por semelhança a um de gênero de plantas)
marau - Mariola, malandro, patife; Indivíduo espertalhão, astucioso, finório, que não se deixa enganar.
mofatra - logro
patranhas - História mentirosa; história; patranhada: "Ele põe-se lá a inventar patranhas”
púcaro - Pequeno vaso com asa; qualquer vaso pequeno com asa; caneca
25 novembro 2012
Os enamoramentos
Editora Companhia das Letras – 2011
344 páginas
Paguei: R$ 50,00
Observação: a editora colocou dois livros dentro de uma sobrecapa.
É muito comum que o autor de um romance cite, mencione ou até escreva um capítulo se referindo a algum outro livro. Geralmente o livro mencionado é de alguma história que todos conhecem. Neste caso, a referência é a um livro de um grande autor e cuja história foi filmada pelo menos duas vezes. Mas não é de domínio público. O autor de Os enamoramentos não apenas citou, porém fez do conteúdo de Coronel Chabert um personagem importante para a história. Logo, se você pretende ler Os enamoramentos, deve, antes, ler o fabuloso texto de Honoré de Balzac.
O título e a capa sugerem que seja um romance açucarado. Já passado da metade da história, explica que o termo enamoramento em espanhol tem uma conotação inexistente em outras línguas, que difere de amor. Pode até suplantá-lo. Que embora se confundam, não são a mesma coisa. “O que é muito raro é sentir um fraco, verdadeiro fraco por alguém, e que esse alguém produza em nós essa fraqueza, que nos torne fracos. Isso é o determinante, que nos impeça de ser objetivos e nos desarme perpetuamente e nos leve a nos render em todas as contendas.” Em um clichê, o amor cega e por um amor desses somos capazes de qualquer sacrifício. Até morrer ou matar.
Mariá Dolz é a protagonista e narradora da história de pouquíssimos personagens. Involuntariamente conhece um casal que desjejua no mesmo café e que ela, durante muito tempo, costumava observar com admiração. Ou melhor, ela conhece apenas a mulher do casal. Ele foi brutalmente assassinado alguns dias antes.
A história se desenvolve de tal maneira que Mariá, novamente sem intenções, conhece toda a história por trás do homicídio. E, numa citação de um advogado do livro de Balzac “Sempre foi assim. O número de crimes impunes supera largamente o dos punidos; e não falemos dos ignorados e ocultos, por força deve ser infinitamente maior que o dos conhecidos e registrados.”
Eu gostei do livro. Mas com restrições, pois o autor é prolixo e repete e revive e remói e reconta a mesma passagem sob os mais diversos ângulos. Tanto que em determinado capítulo uma personagem leva oito páginas à porta para se apresentar e convidar o visitante a entrar na sala.
Para quem gosta de uma discussão de relacionamento, daquelas em que a mulher fala ininterruptamente, é um prato cheio.
Em tempo, o autor, conforme a orelha, publicou mais de 30 livros, foi traduzido para mais de 40 idiomas (acredito que queriam dizer vendido em mais de 40 países) e vendeu mais de 6 milhões de exemplares.
23 novembro 2012
Ainda quero almoçar com Veríssimo muitos domingos
Fui dormir triste e acordei ainda triste. O noticiário noturno informou que Luis Fernando Verissimo está internado em estado grave. Suspeita-se que virose alimentar tenha provocado infecção generalizada.
Alguém desconhece Verissimo?
Para ajudar quem é de outro planeta, ele disse, por exemplo, que “Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet.” E também escreveu O Analista de Bagé, Comédias da Vida Privada, As mentiras que os homens contam.
Nas imagens sempre o vemos com uma camisa social clara, às vezes com um paletó. O rosto redondo, as sobrancelhas espessas e ligeiramente caídas nas laterais, os óculos de aros transparentes, a testa grande, a fala pausada e gestos comedidos nos remetem a um tio querido. Uma pessoa que gostaríamos de ter à mesa nos almoços domingueiros.
Como sempre numa churrascaria.
Ele se serviria da salada. Regaria com azeite (do bom), salpicaria um pouco de sal, moeria uma pimenta-do-reino para temperar alguma reflexão. Ficaria em silêncio até o minuto anterior ao gole na taça do tinto seco.
– Saúde! –- Num olhar cúmplice para a esposa.
Depois do brinde voltaria ao silêncio ou às palavras discretas, inaudíveis aos comensais mais afastados da ponta.
Talvez fizesse alguma observação sobre comida antes essencial e agora proibida por organizações médicas. Talvez comentasse uma letra de Lupicínio. Só falaria de futebol se nenhum colorado tivesse sido convocado para a seleção. De Charlie Parker reverenciaria os improvisos. Jamais faria piadas ou trocadilhos, somente observações originais.
Fiel à família, vai à churrascaria pela companhia. O médico o proibiu as carnes vermelhas.
É comedido na hora de servir do bufê. Gosta dos tomates cereja, mas evita as frases longas. Repele as cacofonias e se serve de dois talos de aspargos. Rejeita a cumbuca de lugares comuns, torce o nariz para a travessa de ideias clichê e escolhe três cogumelos cozidos, uma colherada de ervilhas e num único momento se permite ao óbvio: dois pedaços de frango grelhado. Por cima de tudo, uma generosa colherada de bom humor.
Já sentado com o guardanapo no colo, mastiga devagar. Os olhinhos pequenos se movem com rapidez. Enxergam tudo. Observam o desenho da mancha da toalha da mesa, leem a marca do teclado do músico cego, apreciam a transparência do vestido da mulher que passa em frente da porta aberta. Enquanto isso as orelhas são grandes antenas que captam o chiado da carne assada, escutam cochichos à mesa vizinha e ouvem um natureba contar até 32 enquanto mastiga.
Tudo isso pode virar uma crônica. Ou não. Assim como o psicanalista não analisa todas as conversas de que participa, o escritor não escreve tudo o que acontece à sua volta.
O almoço só termina com a sobremesa. Diabético que é, rejeita o pudim de leite, o queijo com goiabada e a ambrosia. Nem pensa duas vezes, vai direto no prato com fechamento inusitado..
Fique bom logo, querido mestre, ainda quero almoçar com você muitos domingos.
15 novembro 2012
O coronel Chabert
De Honoré de Balzac
Em 83 páginas impressas pela Companhia das Letras
Paguei R$ 50 porque vinha embrulhado numa sobrecapa junto com o livro Os enamoramentos.
Honoré de Balzac é um dos grandes nomes da literatura mundial. É um daqueles para os quais os “cult” estufam o peito antes de reverenciar o nome. Li no Wikipédia que ele teria escrito 88 romances, novelas e contos. Até aí nenhuma vantagem. Somando apenas os contos e crônicas dos meus três livros já tenho uns 150. A diferença (ligeiríssima diferença) é que o moço com o nome francês é considerado o fundador do Realismo na literatura moderna. Entre outros vários, escreveu a Comédia humana, um dos cem melhores livros incluído em todas as listas dos melhores da literatura universal. Que é muito mais que os cem melhores da literatura mundial. O cara influenciou gente da grandeza de Proust, Zolá, Dickens, Dostô, Flaubert e até do nosso mestre Machado. Ah sim, os tais 88 romances, novelas e contos estão contidos na Comédia humana que é um verdadeiro estudo de costumes e filosóficos a partir da observação do homem no seu tempo e esse estudo foi eitado pela Globo resultando em 17 volumes.
Eu não li os 17 volumes, nem algum dos outros vários livros publicaos, mas agora já posso estufar o peito, revenciar o nome de Balzac e exlclamar: eu li e gostei.
Eu li apenas um livrinho de 83 páginas que acompanhou a edição de Os enamoramentos de Javier Marías.
Livrinho no tamnho, enorme no conteúdo. Balzac, escreve muito!
Trata do reaparecimento de um coronel que foi dado como morto numa batalha napoleônica. Sua viúva herdou uma grande bolada, casou de novo e não quer mais saber dele. Ele procura um advogado para reaver a sua grana, identidade e lugar na sociedade. O drama esmiúça o caráter de cada um dos personagens com profundidade, elegância e revelações que todos preferiam deixar sepultas no fundo da alma. Sobra para todo mundo. Pois afirma que “em Paris, muitas mulheres vivem com um monstro moral desconhecido ou estão à beira de um abismo; elas criam um calo no lugar da sua dor e conseguem continuar a rir e se divertir.”
Terminei de ler o livro às 5h59. Exatamente um minuto antes de o despertador tocar dizendo que eu precisava levantar.
Mais ou menos na metade da novela assinalei alguns trechos fortes sobre as características da viúva do Coronel Chabert imaginando que seriam peças fundamentais para o desenlace. Quebrei a cara. A história não tem um fechamento espetacular. É muito mais que isso. Mostra, numa espácie de lição de moral, a grandeza interna do coronel.
Passei o dia com sono, mas maravilhado com o livro.
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