15 julho 2014

Batata-doce



Bom mesmo é variar o menu. Um dia pizza, no outro miojo, no terceiro dia vem a lasanha congelada, tudo acompanhado de uma deliciosa e saudável Coca-Cola. , o que você faz? Varia o cardápio. Num dia lasanha congelada, noutro dia pizza e depois o miojo. Acompanhados de saudável guaraná. Sempre tem alguém, além da sua consciência, para sugerir que sua alimentação não é saudável e que precisa variar. O que você faz? Vai ao supermercado e compra pizza de calabresa em vez de muçarela, lasanha de frango em vez de quatro queijos e miojo de carne no lugar de miojo de frango. E o que mais? Passeia com o carrinho entre frutas e verduras e resolve extrapolar ao ver a gôndola cheia de batatas-doces.
Como escolher batata-doce? Este é o primeiro dilema. Aborde quem estiver selecionando mais criteriosamente. A abordagem deve ser de acordo com quem estiver escolhendo. Se mulher mocreia, diga que sua esposa mandou você comprar, para ficar claro que aquela é apenas uma abordagem para aquisição de batatas e nada mais do que isso. Se mulher maravilha, diga que sabe declamar poesia, fazer massagem nos pés e escolher um bom restaurante, mas que não tem a menor ideia de como selecionar batata-doce. Se for homem, não aborde, ele provavelmente irá sugerir alguma coisa indecorosa. Para uma dieta balanceada some uns bifes ao carrinho.
É lógico que as batatas vão ficar uma semana envelhecendo, porque sempre é mais fácil colocar uma lasanha no micro-ondas a descobrir alguma receita para preparar as saudáveis batatas-doces.
Você olhou para as batatas e elas olharam para você. O desafio foi lançado. Lixo e arrependimento ou panela e orgulho?
O que fazer com as batatas-doces? Geleia?
Rapidamente consulte a internet e descubra que você vai ter de se virar sozinho. Ninguém diz como fazer para fritar batata-doce. Mil receitas de doces e até de glacês. A única que achei sugeria batata-doce frita em rodelas ou palito.
Dúvidas. Mil dúvidas. Tem de cozinhar antes ou não? Tem de descascar antes ou não? Põe sal ou põe na panela de pressão? Açúcar ou frigideira?
Lasanha.
Nesse momento temos de ser fortes. Não podemos fraquejar à frente de simples batatas. Vamos à luta sem regras. não vale golpe abaixo da cintura. Peguei uma faca e sem medo me atraquei com as batatas. Descasquei todas as duas. Observei que as doces são mais duras e consistentes do que as inglesas. Pelo menos as batatas. Para fritar vão demorar muito, muito mais. Eu não vou ficar uma hora na frente da frigideira fritando estas saudáveis e doces batatas. Minha frigideira não comporta nem metade dessas rodelas.
Então, vou fritar durante duas horas? Sem chances.
Pego uma assadeira de alumínio, faço uma base milimétrica de óleo e taco no forno. Forno de fogo alto. Ainda pensei em colocar sal. Deixo para colocar depois de fritoIsto é, assado. Tá na cara que vai demorar. Dá tempo de fritar uns bifes.
Devo dizer que as batatas levaram uns noventa minutos para ficar bronzeadas e crocantes. Devo dizer também que ficaram deliciosas. Melhor do que espetar com o garfo foi pegar com a mão. Acompanhou uma cervejinha gelada.

Agora atenção, muita atenção, nenhum livro de receitas informa que batatas-doces não devem ser servidas em eventos prolongados ou com intenções amorosas.
Batatas-doces são alimento para machos: provocam aerofagia.


09 julho 2014

Batismo

Sempre achei interessante o carma, o peso, a responsabilidade e os significados que um nome carrega. Em certo período remexi listas de vestibulares, resultados de concursos, relações de atletas nos campeonatos de futebol, lista de funcionários e qualquer referência em que houvesse a possibilidade de encontrar algum nome marcante. Com certeza não sou o primeiro a escrever sobre este polêmico assunto e tampouco serei o último. Aliás, considero este tema tão forte que recorro a ele sempre que surge a oportunidade. O estudo sério ou curioso tem até nome: antroponímia.

Um dos nomes que me instigou a curiosidade foi João Né. Operário em uma obra. Tive a oportunidade de conhecê-lo e perguntar a origem do curioso sobrenome. Juro, pelo que há de mais sagrado, a resposta foi que, ao ser registrado, o funcionário do cartório teria perguntado qual o nome da criança, ao que o pai mineiro teria respondido é João, né. Para o azar do garoto.
Outro caso curioso aconteceu durante a Segunda Grande Guerra. Naquele período era proibido falar alemão. O pai tentou registrar o filho Hans Jordan. O escrevente argumentou que se era proibido falar alemão, muito mais grave seria registrar com nome alemão. O pai não se fez de rogado e pipocou o brasileiríssimo nome de Hans Caramuru Jordan.
O melhor amigo de papai era Darcy, nome de gênero dúbio: masculino e feminino, Darcy Pinto da Rocha Campos. Ao se apresentar gracejava que o Pinto era da mãe. E não é o único caso. O artista Picasso, aliás, Pablo Diego Jose Francisco de la Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trindade Ruiz y Picasso, era Picasso por parte de mãe.
Ainda tem uma conhecida que ao casar não quis o sobrenome dele. Motivo pelo qual até hoje não tem filhos. Ela não quis o Pinto do marido. Mas isso é outra história.
Conheci uma infeliz que foi batizada Maria do Rego Virgem Santos e não tive a ousadia de perguntar porquê o pai dela escolheu aquele nome. Seria alguma vingança contra a mãe da infeliz? Ou desejo para o futuro da filha?
Outro dia, no programa do Jô, um cuidador de carros disse que nomeu o filho Hilux em homenagem à caminhonete do mesmo modelo, que achava linda.
Há famosos da literatura de relação de nomes estranhos: Maria Prostituta do Brasil, Rodo Metálico e Cafiaspirina.
O Congresso Nacional cooperou com algumas curiosidades: Um Dois Três de Oliveira Quatro, Pinga Fogo, Onaireves  (Severiano ao contrário) de Moura, Lavoisier Maia, Inocêncio (que de inocente nada tem) Oliveira, Íris Resende e esposa Íris Resende, Dr. Rosinha, Ursicino Queiroz, Ronivon Santigo.
Se lhe perguntarem qual dos irmãos bíblicos matou o outro, a resposta é facílima. Você conhece alguém homenageando Caim?
Freqüentes também são os nomes que trazem homenagem a personagens famosos: Confúcio, Hitler, Lincoln, Maicon (sic Jackson), Rommel, Gutenberg, Temístocles, Jesus, Joana D’Arc, Lenine, Mozart. Existe até um esdrúxulo Jatoperi, ou algo assim, numa homenagem de um inglês ao ataque da Seleção Brasileira da Copa do Mundo em 1970: Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino.
O sobrenome representa a continuidade familiar. O filho, às vezes, tem a vida facilitada, outras vezes, nem tanto.
Considero um fardo a escolha impensada. Na dúvida não ultrapasse. Consulte. 
Somente pais com mente perversa, irresponsável ou absolutamente ingênua escolhem nomes como Cornélio, Florindo, Florêncio, Modesto. Existem aqueles que invariavelmente levam a gracinhas repetitivas: ao Humberto sempre perguntam se o irmão dele é o Doisberto; O Tadeu sempre ouvirá pergunta se forma dupla com Tadando; ao Wilmar sempre informam que vi o céu; a infeliz Raimunda é sempre associada à rima nada profunda.
Outras vezes os pais realmente não tem mérito nenhum e os filhos são abençoados com nomes que aparecem em canções maravilhosas. Luíza do Tom Jobim para ficar no exemplo. O problema é quando acontece o inverso. Quando a Aids surgiu o governo encampou propaganda onde os homens deveriam proteger o Bráulio. Chico Buarque depois de difundir e propagar Carolinas jogou pedras em todas as Genis da face Terra. Houve música da década de 70 em que depois de muita insinuação de opção sexual encerrava com o refrão e o nome dele é Waldemar. Todos os Aurélios em algum momento são chamados de pai dos burros. E até hoje todos os Zezés sofrem com a pergunta será que ele é? será que ele é?
No mínimo é curioso quando os pais resolvem homenagear alguma nação: Ítalo, Germano, Israel, Franco.
Nosso país é fantástico, temos liberdade de expressão. E, por direito adquirido, os pais resolveram criar moda juntando e criando novos e originais nomes. Pega a primeira sílaba do nome dele, junta com a última sílaba do nome dela, uma pitadinha do nome dos sogros e pronto está criado mais um mágico e singular prenome: Auricélia, Raimurildo, Josicléia, Edylcea, Loresmar, Marconeisson, Rosialva, Rosineide, Derlopidas, Altomires, Jaminsom, Jorzely, Flavamario, Sonijardo, Eilovir e o tudo mais que a imaginação puder criar.
A outra moda é estrangeirar usando e abusando ipsilones, kas e dabliús, além de trocar a grafia de acordo com a temperatura ou qualquer parâmentro ou nenhum parâmentro. Antigamente ficávamos apenas com meia dúzia de combinações de Terezas e Heloísas. É sempre desagradável ter que explicar:
 – Olha, é Denise com , viu!
Numa reportagem recente, li que um zeloso escrivão disponibilizou um cardápio com dezoito grafias diferentes para Washington. Por favor, gostaria do número nove combinado com o sete de Roosevelt .
Nos países nórdicos, ao escolherem nomes para os filhos eles não acrescentam Filho nem Júnior, justapõe filho na língua deles: son. Daí Johnsson, Davidson, Cristianson e Williamson. Entretanto Emerson, Wilson e Creysson não tem nada a ver com isso.
Na França há um livro com todos os nomes e ninguém pode ser registrado por outro além daqueles. Por isso que todo francês é Pierre, Jean Marie ou François. Este último serve para homens ou mulheres. Melhor que em Portugal que tem dois nomes: Joaquim e Manuel.
Em Nova Iorque havia um sujeito que queria que seu filho fosse o primeiro da lista telefônica e pagou ao escrevente um extra e batizou o filho com o sobrenome Aaabrahan issso meeesmo com treees aaas. Será o primeiro até que sobrevenha algum Aaaabraham. 
Recentemente li que os norte-americanos também usufruem a liberdade de criação no batismo dos new americans. Estou louco para conhecer algum Iemanjá Lee ou Tucunaré Jones.
Aliás, nossa herança indígena legou vários nomes bonitos e significativos, pena estarem em desuso: Ubiratan, Ubirajara, Ibaté, Jurandir, Jandira, Iraci, Iracema, a virgem dos lábios de mel, Capitu do Machado de Assis, Moacir, Irajá, Jussara, Murici, Sinara, Tabajara, Itupi, Moema, Oberdan, Gilmar, Valdeci, Guaraci, Jacira, Juvenal, Peri, Ceci e Iara.

Meu nome é tão comum, Roberto, origem latina, nenhum significado especial. Será? Após longos e tediosos estudos descobri o enigma que carrego. Meu nome foi gerado algum tempo após o assim denominado eixo, Itália, Alemanha e Japão guerrearem contra o resto do mundo. O meu nome foi composto pela primeira sílaba de cada uma das capitais daqueles países: Roma, Berlim e Tóquio.

10 maio 2014

Carência de mãe

Eu estava em uma roda de amigos quando o tema da comida dos naturalistas e vegetarianos surgiu. Houve um ataque violento desferido contra as carnes vermelhas. Elevam a pressão arterial, aumentam a taxa de ácido úrico e engrandecem a taxa de colesterol, além de representar o sacrifício de milhares de animais indefesos. A defesa dos carnistas foi imediata e veemente, afinal, as milhares de plantinhas indefesas também não escapam do sacrifício. Sem a carne não estaríamos reunidos aqui em torno da churrasqueira e não estaríamos discutindo o futuro da humanidade.
No começo da noite cheguei em casa, solitário, e ainda com aquela conversa da comida saudável martelando na cabeça.
Vinho é bom para o coração. Chá de boldo e de carqueja aliviam os trabalhos do fígado. Chá de erva-doce é digestivo e evita gases. Berinjela combate o colesterol. Amendoim com casca é afrodisíaco. Alho afasta a gripe e vampiros. Chá de folha de nabo é indicado para aliviar as hemorroidas enquanto o nabo inteiro as prejudica. Acredito que a aguardente é fantástica para arrumar emprego. É muito comum o alcoólatra chegar em casa dizendo que estava procurando emprego. A lista é enorme. Não estou pensando em nada que resolva problemas como espinhela caída ou unha encravada. Meu problema é carência.
Não é o que você está pensando! Tenho namorada e namoramos ontem à noite, depois do cinema. Refiro-me à carência de mãe. Do afeto maternal. Aquela coisa de colo, de cafuné na cabeça e palavras ditas bem baixinho.
Qual será a comida que combate ausência de mãe? Minha mãe está muito distante, um telefonema é muito pouco. E não enche barriga nem coração.
Pizza, miojo e lasanha resolvem problemas imediatos de falta de cozinheira. Nossa Senhora dos Solitários Abandonados, além de não ser erva medicinal, não tem o calor da nossa mãe.
Preciso descobrir urgente qual é a comida terapêutica para carência maternal. Não é menino que sente falta do aconchego da mãe.
Na cozinha, abro armários e potes. Olho caixas e pacotes. Procuro aqui. Procuro acolá.
Açúcar? Humm. Isso lembra infância. Doces da mamãe, geleias e bolos.
Na geladeira vejo alface e lembro dela dizer que “tem de comer, é bom para os intestinos”.
A respeito do café, minha mãe sempre dizia que eu não deveria tomar à noite, senão eu não dormiria.
Volto para o armário e continuo procurando. Chocolate em , salsichas, sardinhas, sabão em , aspargos.
Sabão em ? O que esta caixa está fazendo aqui?
Sopa de ervilhas, macarrão, goiabada, pipoca de micro-ondas, arroz, maisena, outro pacote de macarrão, batata palha, leite condensado, creme de leite.
Volta ! Achei! É isso, maisenaMingau de maisena!
Mingau de maisena é mãe servida em prato de sopa!




Extraído de “Pepino e farofa” – Aventuras culinárias resultantes de 50 anos de inexperiência no comando de um fogão.

29 março 2014

A máquina de fazer espanhóis

A máquina de fazer espanhóis


Valter Hugo Mãe

Editora Cosac Naify

256 páginas

R$ 39,00

             A máquina de fazer espanhóis é a história de Antonio Jorge da Silva no período que se inicia pouco antes da esposa falecer, passa durante a internação num asilo de idosos em Portugal – Feliz Idade – e termina com a inevitável finitude. As pessoas são levadas a viver no asilo, só que lá não são esperadas grandes ações e os únicos projetos de vida são as queixas da morte. Assim a história se arrasta na velocidade de um octogenário estimulado por uma bengala tétrica.      
Eu poderia resumir o livro em duas palavras: triste, tristíssimo. Entretanto o romance tem inquestionáveis qualidades literárias e mais do que isso, traz uma história de subjugação de um povo na metáfora de um asilo de velhos. O jogo de ideias é espetacular, tornando inevitáveis as comparações.
Na pele do texto está o retiro dos velhinhos com suas doenças, dores e fraquezas enquanto que nas rugas estão incrustrados símbolos pátrios como Fernando Pessoa, Lusíadas, Lisboa, Eusébio, Amália Rodrigues, Salazar, Almada Negreiros e o Benfica. E instalada na carne está o amargor de algumas décadas de opressão.
Como quando diz que “Salazar foi como uma visita que recebemos em casa de bom grado, que começou por nos ajudar, mas que depois não quis mais ir-se embora e que nos fez sentir visita sua, até que nos tirou das mãos tudo quanto pôde e nos apreciou amaciados pela exaustão. A maioria silenciosa terá de emergir um dia, tudo era para que não praticássemos cidadania nenhuma e nos portássemos como uma engrenagem de uma máquina a passar por cima dos nossos ombros, complexa e grande demais para lhe percebermos o início, o fim e o fito de cultivar a soberba de um só homem.”
Quando eu leio um livro, gosto de sublinhar palavras, frases, anotar nas beiradas, dobrar orelhas. Já que eu cometi essas maldades com o meu exemplar eu gostaria de compartilhar o que destaquei.
“Eu sou daqueles que a vida doeu.”
Sobre a consequência da morte da esposa amada: “Vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.”
Sobre o internamento: “Meus filhos se haviam antecipado no tempo de me arquivarem.”
Ainda sobre o internamento: “Um problema com o ser velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento.”
Sobre o asilo: “O Lar da Feliz Idade, assim se chama o matadouro para onde fui metido.”
Sobre as caminhadas diárias: “Escoltado por alguém a levar-me como um cachorro a passeio.”
            Sobre desprezo com os ícones da igreja, em relação à imagem da Nossa Senhora de Fátima: “Coitada da rapariga, que até lhe põem uma expressão com vontade, mas depois não reage, fica como se a casa de banho estivesse ocupada.”
            Ao se comparar como cidadão submisso: “considerei depois que fui um hóspede bem fácil de dominar.”
Sobre o fascismo: “Queria que a política não fosse um assunto lá em casa. Haveríamos de apreciar a poesia, o folclore e uns fados, haveríamos de ter passeios aos domingos e brincar com os miúdos a crescerem e era assim a nossa vida, sem beliscar os tubarões que nos podiam ferrar.”
Sobre a rotatividade: “O lar da Feliz Idade estava sempre de luto, como um lar de idosos foi feito para estar.”
Num raro momento de humor considerou que uma das internas “ficou com expressão de quem comia chocolates sozinha.”
Ainda sobre a ditadura: “Somos um país de cidadãos não praticantes.”
À respeito do momento econômico: “Somos estuporados por todo o lado, pagamos o mesmo que a Europa paga por qualquer coisa, mas ganhamos três vezes menos, temos salário de rato. Salário de humanos de segunda.”
Aqui a metáfora é quase óbvia: “Seguramente alegravam-se os dois por o tolo do velho estar mais amansado como convinha para não levantar problemas nem criar angústias grandes a quem tem ainda uma vida, não podia parar de o odiar um pouco e saber que algum mal se mantinha no meu íntimo.”
Comparou o regime: “a morte era, afinal, a mais organizada das instituições. Cheia de afazeres e detalhes, mas muito competente e certeira.”
Sobre a opressão: “Enquanto houver um Salazar em cada família, estamos entregues ao inimigo.”
Francamente eu não gostaria de digitar tantas passagens, mas o autor, como pensador merece os registros e muito outros mais como: “Inventamos Deus porque temos de nos policiar uns aos outros, é verdade. É tão mais fácil gerir os vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo que atravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. É tão mais fácil se esta ideia for vendida a cada pessoa com a agravante de se lhe dizer que, um dia, quando morrer, esse mesmo sinistro ser virá ao seu encontro para punir ou premiar pelo comportamento que houver tido em todo o tempo que gastou.” E ainda: “Quanto menos acreditarmos uns nos outros, mais solicitamos o policiamento, e se o policiamento divino entra em crise, porque as mentes se libertam e o jugo glutão da igreja já não funciona, é preciso que se solicite do estado esse policiamento.”
            Em determinado momento o livro me puxou para baixo, me derrubou na lata da tristeza. Eu parei e procurei analisar o que o escritor fez. Sublinhei à página 76: 17 vezes a palavra não, além de dois nada, quatro conjugações de chorar, duas lágrimas e duas velho. Risquei quatro variações de morte e observei que o autor abriu um dicionário com cheiro de velório ao empregar: dor, coisa, nem, coitada, secar, abdicar, secar o corpo à fome, suportar, maldição, ridiculamente, escuro, afundando-se, tristes, insondáveis, desrespeito e inferno. Quase parei a leitura. Mas o esforço de superação valeu a pena.
Cada povo sofre, sofreu ou sofrerá com o poder dos governantes.
Entre brasileiros e portugueses há muito mais semelhanças que diferenças. Mudo de assunto, mas faço disso o gancho para dizer que por sermos brasileiros imaginamos que teremos alguma dificuldade em entender a escrita do autor pelas diferenças das línguas faladas no Brasil e em Portugal. Mas a maior diferença que há entre as duas línguas está na pronúncia e no sotaque. Na linguagem escrita é tudo muito próximo. Às vezes nos deparamos com alguma ou outra palavra que causa ligeira estranheza, mas nada mais que isso. Anotei subtileza, carácteres, acto inaceitável, higiénico, parvo em vez de idiota, húmido, fita-cola, gelado e a curiosa paneleiro que entendemos perfeitamente o sentido no contexto.

Ah, sim, eu já ia me esquecendo. O autor opta por não utilizar recuos de parágrafos nem utilizar letras maiúsculas, nem travessões para os diálogos. Não é nada que impeça a leitura, mas torna a leitura mais lenta e atrapalhada. É como instalar usar trilhos de trenó num carro. O carro vai se locomover, porém mais lento e desengonçado. As normas da escrita não são opções literárias. Eles foram desenvolvidas para agilizar a leitura.
E também quase ia me esquecendo de elogiar mais um belíssimo trabalho gráfico da Editora.
Concluo que os prêmios literários foram merecidos pelo autor. O romance é ótimo, mas exige muito sacrifício para a leitura.

17 março 2014

Sob os escombros

SOB OS ESCOMBROS

Cinthia Kriemler

Editora Patuá

140 páginas contidas numa capa dura

R$ 35,-


Meu primeiro comentário à autora na noite do lançamento foi: “Parabéns. Me deu uma invejinha dessa capa maravilhosa. Há tempos eu não via um livro tão poderoso.”
Muitos leitores não gostam de contos, crônicas e textos curtos porque quando chegam ao prazer, a leitura termina. Consideram as histórias como sexo sem preliminares e de ejaculação precoce. Discordo com veemência.  Comparo a leitura de uma boa coletânea de contos como esta, com sexo de orgasmos múltiplos.
Agradeço à Cinthia, por recuperar em mim o prazer da leitura. Foi o que pensei após ler “Monólogos em desencontro”. Leio muito, mas em grande parte não sou eu que faço as escolhas, é quase como sexo pago.
Eu já conhecia o talento e qualidade da amiga vencedora de tantos troféus literários, mas atendi ao lobo, impresso na requintada capa dura, que uivou exigindo início imediato.
Depois de ler “Filho” pensei com a danada consegue isso? Mistura açúcar e limão com realidade num copo de liquidificador e prepara um suco de pimenta triste?
Em “Vem também”, a autora, num jogo de imagens arremessa o leitor contra a realidade.
O tom confessional impressiona em “De uma casa velha a inquilinos novos”.
Senti vontade de avançar páginas e conhecer mais e mais surpresas, entretanto, ao contrário do sugerido, pela apresentadora Rosana Banharoli, precisei parar para tomar fôlego em “Último clarão”. Caramba!
Em “Eu padre” há suspense, drama, sexo, igreja, mistério, assassinato. Todos os ingredientes são conhecidos , mas Cinthia reuniu-os numa uma obra-prima que provavelmente até Tchekov gostaria de ter assinado.
Respiro fundo para continuar a leitura, certo que não poderia haver nada melhor no livro. Ledo engano. “Dona Antonia” é maravilhoso. Cinthia se supera a cada novo conto.
Em “O rato” confesso que li como um escritor. Prestei atenção na construção e credenciamento do personagem. Observei que o narrador tem o foco apenas no protagonista. O rato é apenas um coadjuvante secundário. A escritora conduz o leitor a questionar qual doença o rato poderá transmitir, porém finaliza a história transformando o personagem central num animal e humanizando o rato. Muito bom.
Eu já estava bem adiantado na leitura do livro. Nem vou externar o conto que eu terminara de ler. Peguei o celular e sapequei uma mensagem para a autora: “Estou evoluindo lerdamente nos seus “Escombros”. Não resisti. Preciso dizer agora: Você é foda. Beijo.”
A apresentadora, com experiência de especialista, garimpou exemplos de frases que demonstram que autora além de contista é também frasista. Acrescento que algumas delas separadas do contexto poderiam tranquilamente ser consideradas minicontos e em outras é forte o sotaque de Moçambique.
Sublinhei:
“Deitei fora, sem remorso, as almas que teimavam em germinar dentro de mim.”
“Um vento doce de outono engravidou minhas cortinas, deixando à mostra, pelos vidros meio sujos, um tapete de folhas arrancadas que convida os pés a um passeio. Mas não são os pés de memória que me carregam para bem longe de casa, para outro outono.”
“Mulheres que amam errado aprendem a enganar a si mesmas.”
Nos dias que vieram, as garrafas não cumpriram o prometido de me fazer esquecer o vazio.”
“Lembrança é vida soterrada.”
“Achou-a tão linda que, ainda no cumprimento, sentiu-se tomado por um abobamento incontrolável.”
“Ouvir os murmúrios dos destroços.”
“Não permitiria que a solidão o encontrasse distraído.”
“O caos é feito de estilhaços. E cada um deles atinge o imprevisível.”
“Estancar o sangue nos pulsos frios numa noite de navalha cega.”
“Excesso de desinteresse”
Quando digo que gosto muito de histórias curtas é porque sou curioso. Como foi que o autor construiu o conto? Como ele conduziu o leitor? Quais artifícios utilizou? Como credenciou os personagens? Quais as pistas que o autor deitou durante a história? Como foi a abertura? E o fechamento? Num romance, ao contrário de textos enxutos, é quase impossível você reler e encontrar as respostas.

Infelizmente foram impressos apenas 100 exemplares desta maravilhosa coletânea que também é um manual que utiliza todos os recursos para compor ótimas histórias.

21 novembro 2013

Divórcio



Divórcio
Ricardo Lísias
Alfaguara
237 páginas
5 dias de leitura
R$ 39,90



Ouvi falar de Ricardo Lísias por ter um texto publicado na revista Granta como um dos novos melhores nomes da literatura brasileira.  Provavelmente esse foi o motivo de ter sido indicado para leitura por uma colega do nosso grupo de leitura.
Fiquei super bem impressionado com o texto.  Achei de uma criatividade ímpar. Todo escrito e narrado na primeira pessoa. Trata-se da história de um escritor que depois de quatro meses de casado descobre o diário da esposa. Ali, descobre que ela o chama de patético e retardado. Revela que viajou na lua de mel sem estar apaixonada. Se diz a maior jornalista cultural do Brasil. Reclama que o marido não oferece nenhuma aventura. Relaciona quase uma dezena de defeitos para finalmente expor que o traiu pouco depois do casamento para uma noite de luxo onde seduziu um jurado para saber com antecedência o resultado de um festival de cinema.
Em vários momentos o autor afirma ser um personagem no meio de um conto apesar de descrever fatos e histórias familiares com enorme verossimilhança. No meio da leitura imaginei que a mensagem do livro seria um questionamento sobre a ética dos jornalistas, a busca desmedida para conseguir informações privilegiadas, a falta de confirmação da veracidade da notícia (ou fofoca) antes da publicação.
Mas a narrativa segue em ritmo acelerado onde cada capítulo é um quilômetro do percurso de uma São Silvestre. E a cada metro percorrido mais conhecemos sobre a origem da família do autor. Ele inclui imagens dos avós, dos pais e de quando era criança de onde nos conduz a concluir que a ficção não é ficção. Tudo é real.
Já na reta final da minha leitura busquei informações sobre o autor e obra na Internet para me situar. Encontrei uma fonte com nome e sobrenome - Daniel Benevides - que escreveu: “De fato, a vida da ex-mulher de Lísias, uma conhecida jornalista de cultura, teria sido bastante prejudicada e muitos de seus amigos e conhecidos estariam indignados.”
Na continuação da entrevista o autor responde que “basicamente, o livro diz que, se uma imprensa ultrapassa todos os limites possíveis, eu vou ultrapassar também e agora nós vamos ver quem vai sobreviver, quem vai chegar ao final da corrida. Essa é a ideia.”
E prossegue dizendo: “Ficar ofendido por ser um personagem de um livro? É uma ficção! Fui perguntado se eu tinha medo de ser processado, eu falei que ele devia estar brincando. Quer dizer, como eu vou ser processado por causa de um personagem de ficção? Tanto que um advogado fez uma pesquisa para mim e isso não existe, eu vou inaugurar a jurisdição. Mesmo as pessoas citadas nominalmente, como o meu psicanalista e tal, quando entram no livro não são mais aquela pessoa, são personagens de ficção. Aí, me perguntaram: “E se escreverem uma resposta a seu livro?”. Eu vou ler, vou achar engraçado, não vejo problema algum.”
Terminei de ler o livro, mas foi impossível parar a mente. Surgiram mil perguntas e questões.
 A primeira é que considero o Ricardo Lísias é um provocador. Já na capa temos a imagem de uma pessoa que parece ser sufocada por um saco plástico, semelhante àquelas imagens antitabagistas nos maços de cigarro. Depois questiona a ética jornalística, cutuca a lei das biografias. Induz o leitor a fazer contas para descobrir quem seria o Secretário de Cultura com quem a ex-mulher teria um caso. Questiono qual será o projeto estético a que o autor se propõe?  O autor dá um recado para quem sonha escrever: saber de antemão que não vale a pena escrever “ficção que não incomoda”. Ou será que o livro não é nada provocativo, sendo apenas uma vingança passional contra a transtornada?
Gostei das inquietações provocadas e certamente será um dos livros com maiores discussões na reunião do nosso gruo de leitura.

14 novembro 2013

Paixões

POEMAS DE
Paixões
E COISAS PARECIDAS

José Carlos Vieira
Editora Geração
R$ 30 com autógrafo
100 páginas

Para se apresentar Zé Vieira escreveu
     Certidão
não sou poeta
de letras perfumadas
não quero sê-lo
prefiro palavras
que cortam pulsos
mordem línguas
sangram lábios...

Para escrever este poema e todos os outros Zé Vieira preparou um drinque especial chacoalhado em coqueteleira contendo vodca, vinho, Kerouac, Bukowski, Baudelaire, Bandeira, raspas de Behr, carvão em brasa, uma pimenta dedo de moça e umas gotas de suor, acendeu um havana e desandou a escrever palavras que mordem, que cortam, que mastigam, que podem soprar às vezes mas não cospem.
O resultado veio com o lançamento na época da mudança dos tempos.

Estação
ouvi uma cigarra
romper a primavera
e eu ainda com essa cara
de inverno.


Que essa coqueteleira ainda produza muitos porres. 

29 outubro 2013

Atração fatal


 Atração fatal



A cigarra se posiciona visível no tronco da árvore. 

Louca por sexo, grita seu canto mais estridente.


Ouvida em todo quarteirão, atraiu uma chinelada e foi ao chão.

27 outubro 2013

Otimista



– Caramba, você não vai caminhar nesse sol de meio-dia, vai?



– Se eu não posso ter uma Ferrari ao menos terei a cor.

07 outubro 2013

Os últimos quartetos de Beethoven

Os últimos quartetos de Beethoven

Luis Fernando Verissimo
168 páginas
Editora Objetiva
Não sei do preço porque tomei emprestado

Gosto muito do Verissimo. Até nenhuma novidade para quem tem escrito best sellers a décadas. Li e reli inúmeras vezes o Analista de Bagé e Outras do Analista de Bagé. Tantas foram as vezes que eu quase decorei os dois livros. Um deles sumiu misteriosamente depois de tantos elogios enquanto o outro já está se desmilinguindo na estante ao lado do Banquete com os deuses, As cobras, Os espiões, Diálogos impossíveis, As mentiras que os homens contam e Ed Mort.

Este livro foi recomendado na oficina de literatura da última sexta-feira.  Fizemos a leitura e comentamos os dois primeiros deliciosos contos.  O tema do dia foi o humor. Antes do término da aula o professor precisou sair. Então com uma gentileza toda especial, já que o livro ficou esquecido sobre a mesa, peguei-o “emprestado”.

LFV esteve hospitalizado, ficou um tempo na UTI, mas de volta à escrita mostra como se constroem cenas e personagens em surpreendentes situações de conflito salientando o humor inteligente.
No primeiro, um casal recebe para jantar o chefe do marido que ansia por uma promoção num emprego público. Os momentos que antecedem a chegada são hilariantes quando discutem se devem ou não ocultar objetos icônicos que denotam tendências políticas que talvez fossem discordantes dos ideais do convidado.

O segundo conto é a respeito de uma moça despirocada que exerce uma liderança de fascínio sobre cinco adolescentes. A idolatria se desfaz com o tempo, apesar do pacto de sangue. Passado um grande período a turma resolve se reunir e lembrar histórias. O autor com muito humor trilha caminhos da filosofia.

No conto A mancha, Verissimo mistura suavemente lembranças de um torturado dos tempos da ditadura com situações inusitadas de vivência atuais. Mais uma vez torna verossímeis, com classe e estilo, todas as improbabilidades.

Apesar de dois outros contos um pouco cansativos, li o livro num rompante até chegar ao gran finale: A mulher que caiu do céu. É um conto espetacular. Mais uma vez com diálogos de quem é mestre na arte dos diálogos.


A única tristeza do livro é que terminei muito rápido, ao menos posso devolvê-lo antes mesmo que o professor registre queixa na delegacia mais próxima.
 
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