09 julho 2010

O carteiro, o poeta e eu


Milhares de pessoas, todos os dias, alugam filmes para ver em casa. Preparam algum petisco para comer, se abastecem de alguma bebida, acomodam-se na poltrona, sofá ou cama, escurecem o ambiente e curtem as imagens sonoras em movimento.
Ontem, apesar das semelhanças, tudo foi diferente. Alugamos um filme, estouramos o milho, nos servimos de dois copos de Coca-Cola gelada, nos deitamos no sofá, apagamos a luz, escolhemos o áudio original e legendas em português. Iniciamos a nossa sessão de domingo à tarde.
Até aí foi tudo muito igual ao que acontece em outras casas e com outras platéias. A diferença estava nos meus sentimentos.
Ainda nas primeiras imagens sobrepostas aos nomes dos principais artistas uma imensa alegria invadiu meus sentimentos. Percebi o calor do seu corpo colado ao meu. Captei desejo sussurrado com hálito de hortelã. Ofereceu-me uma pipoca explosiva e com o aconchego nos meus braços percebi que formamos um casal. Nosso filme também começou.

29 junho 2010

Elas batem um bolão


No gramado, debaixo do meu prédio, vi uma menina jogar bola, futebol. Isso já não me espanta mais. As mulheres já estão ocupando todos os espaços que eram de exclusividade masculina. Eu nunca dediquei meu tempo para observar a habilidade das mulheres no trato com a bola. Mas aquela garota merecia um olhar de admiração pela beleza e suavidade. Já a conhecia de alguns encontros dentro do elevador.
Sou do tempo em que futebol era jogo de homem. Jogo duro, muito corpo a corpo. Muita brutalidade. A bola de couro era mais pesada que hoje. Para cabecear bola molhada tinha que ser macho. Coisa comum eram as brigas em campo. As mocinhas somente iam ver alguma partida ou pelada quando havia algum namorado que estivesse jogando. Nenhum interesse no jogo. Esporte absolutamente masculino.
Os adolescentes estão misturados, meninos e meninas estão jogando juntos! A primeira coisa que me chamou a atenção foi que, da mesma forma como os garotos, ela usava um calção grande e deselegante. Naquela brincadeira de fazer gol por entre as árvores, observei que ela chutava com os dois pés e igualmente bem. Qualidade rara até entre garotos bons de bola.
Quando algum garoto chutava a bola longe do gol e a bola rolava indo parar debaixo do carro estacionado, nenhum dos rapazes se prontificava, num gesto cavalheiro, a buscar a bola. Mudança de tempos.
Fiquei boquiaberto quando em determinado momento ela pegou a bola e começou a fazer embaixadas. Eu não contei, foram mais de cinqüenta. Bola no pé, no joelho, de calcanhar, de cabeça, matada no peito. Essa menina leva jeito! Sabe tudo.
A brincadeira continuava e a vi dividindo a bola como homem. E para meu espanto, xingando como homem. É, essas mulheres definitivamente estão tomando nosso lugar, até no futebol. Pensei que já tivesse visto tudo, mas não, ela cuspiu – raichput – como um bom moleque cospe.
Agora só falta as mulheres aprenderem a coçar o saco como nós.

25 junho 2010

Apolo também girou



Sou robusto quando comparado aos meus colegas de trabalho. Não costumo tomar iniciativa, mas quando me dão pilha vibro com o meu ofício.
Passo os dias trancado no escuro da segunda gaveta do criado-mudo. É um lugar privilegiado para escutar o que acontece na cama ao lado. Apesar da minha origem chinesa, ouço e entendo tudo. Às vezes falo, como agora.
— O casal gay até que se entende bem para um casamento de interesses. Ele é um industriário bem sucedido e acredita que perderia o respeito se a diretoria soubesse das suas preferências sexuais. Enquanto isso, ela é descompromissada com as aparências. Tanto que, naquele dia fatídico, para atender a uma fantasia sexual da vizinha, a encontraria no banco vestindo uma ridícula roupa de faxineira. Sorte a minha fazer parte do ménage à trois. Eu estava escondido na sacola de compras.
Respiro fundo para continuar a história.
— Aquilo foi muito constrangedor. A porta giratória travou e ela teve que mostrar o que trazia na sacola. Ao contrário das outras vezes, senti a mão insegura me levantando. Ela explicou que eu era um simples massageador. Nunca fui tão humilhado! Quando estamos em momentos íntimos ela me alisa, acaricia, beija com prazer. A própria vizinha, também tão carinhosa, percebendo a falta de consideração comigo, se escondeu atrás do pilar. E o marido, aquele abobalhado, viu tudo e não me defendeu. Logo ele que me idolatra e me chama de deus grego.


Apolo era o deus da beleza, da perfeição, da harmonia do equilíbro e da razão.
Apólogo é uma narrativa em que figuram seres inanimados, dotados de palavra.

23 junho 2010

Empáfia giratória



Faltavam cinco minutos para a agência bancária fechar as portas quando a mulher curvilínea ficou presa na porta giratória.
Estava visivelmente constrangida.
Apesar do par de brincos de pérolas, da calça elegante e do nariz empinado, vestia uma blusa puída e um par de chinelos de dedo. O ridículo pano amarrado na cabeça sugeria que estivesse no meio da faxina quando lembrou de pagar o aluguel na última hora do último dia. Vestiu a primeira calça à vista e catou a cesta para uma compra depois de resolver o pagamento.
Independentemente dos sentimentos da mulher, o guarda solicitou em voz alta que a mulher mostrasse o conteúdo da sacola. Com um olhar implorou discrição. Não foi atendida. Desejou ficar invisível. Instada a mostrar o conteúdo da sacola levantou timidamente um vibrador. O vigia, muito alienado, perguntou a serventia do objeto. Uma vizinha, testemunha do fato, um tanto constrangida, esconde-se atrás de um pilar. O guarda não conseguia entender os gestos da mulher nem ouvi-la. A mulher, ainda presa na porta giratória, com o pênis elétrico na mão, teve que gritar explicações enquanto o marido saia pela outra porta giratória fingindo desconhecimento.

21 junho 2010

Pânico giratório



Antonio Carlos era sargento do exército, especialista em desarme de artefatos, bombas e explosivos. Ganhava um dinheiro extra como vigilante armado em agência bancária. Nos últimos meses estava excepcionalmente tenso devido aos três atentados à bomba em assaltos a bancos.
Aquela terça-feira era dia de pagamento. A agência estava abarrotada de clientes. Qualquer uma daquelas pessoas podia ser um assaltante. Todos eram suspeitos. Em movimentos rápidos, os olhos controlavam todas as bolsas, mochilas e pastas executivas.
A mão direita segurava o coldre do revólver desengatilhado. Um capacete de motoqueiro abandonado ao lado da garrafa térmica era mais um motivo de preocupação.
Ouviu um clique.
Virou-se assustado para a porta de entrada e viu uma mulher mal vestida, presa na porta giratória.
O detector de metais travou a mulher. A sacola na mão era duvidosa. A grife estampada não era condizente com as roupas faxineiras. Apontou a arma para a porta, recuou dois passos para se posicionar estrategicamente. Gritou para todos se deitarem no chão. Acionou o alarme estridente. Esticou o braço horizontalmente mirando a testa da mulher apavorada. A mulher levantou os dois braços e começou a chorar e soluçar em pânico.
Com a arma gesticulava pedindo para ver o conteúdo da sacola.
Ela soluçava em desespero, mas negava.
Uma cliente curiosa reconheceu a mulher como sendo sua vizinha. Com medo, se arrastou para trás de um pilar.
O militar insistiu para que a mulher mostrasse o que trazia na sacola. Com voz firme avisou que iria atirar quando a contagem chegasse ao três.
– Um!
Uma velha deitada em frente do balcão dos caixas começou a orar.
– Dois!
A mulher, num movimento lento se agachou e enfiou a mão dentro da sacola.
O sargento voltou a esticar o braço com a arma.
A mulher, tremendo, levantou um vibrador ligado.
O tiro acertou o alto da porta.
Entre gritos e cacos de vidro surgiu o marido da mulher. Tomou-lhe o pênis elétrico da mão arremessando-o ao chão detonando outra guerra.

08 junho 2010

Em frente ao Teatro Municipal


Eu estava lá, Praça Ramos de Azevedo, uma terça-feira, perto do final da tarde. Vi quando Maca chegou. Sentou-se tranquila e despreocupada na murada do chafariz. Mergulhou a mão esquerda na água dando as costas para um garoto que se aproximava empunhando um estilete. Vi tudo, mas estava longe. Ela virou-se lentamente enquanto o moleque gesticulava agitado. Maca acalmou o menino que se acomodou ao lado dela. Ela afagou a cabeça do pivete e, fazendo pente da mão, ajeitou-lhe os cabelos depois dividiu um pedaço de pão.
Não fui para encontrar Macabéa, ela simplesmente chamou a minha atenção pela postura ereta. Parecia que a moça do casaquinho preto aconchegava Deus.
Enquanto isso, um cantor famoso e lindo, desconhecido para ela. Dedilhava um violão. Quando terminou a exibição ofereceu cem reais a quem acertasse a música até a sétima nota tocada. Uma jovem sem dentes, uma barriguda de nove meses, um pretinho chapado, um office boy de gravata. Muitas tentativas frustradas.
Quando o cantor desistiu Macabéa começou a cantar. A multidão parou. Os ônibus silenciaram. Até a fumaça se abriu para as notas da moça.
Com o dinheiro na mão, procurou o garoto. O menino sumiu. Maca chorou. Eu também.

27 maio 2010

Unidos para sempre


Faltam três dias para o casamento. O neon vermelho pisca frenesi do lado de fora. Do lado de dentro, no quarto, penumbra, música suave e lençóis amassados. Dois corpos suados conversam sobre o futuro.
Com os olhos brilhantes, Ana Maria encara Cassiano.
– Eu te amarei por toda a minha vida. Serei fiel até a hora da minha morte.
Cassiano, sorrindo feliz, beija delicadamente os lábios de Ana Maria.
Ela puxa a mão do amado para o seio entumecido.
– Quero estar na sua vida e nos seus sonhos.
Ele se aconchega mais um pouquinho, apertando a mão.
Ela descobre parte do coprpo. – Você poderá me amar todos os dias que você quiser.
Se conheceram há seis anos. Se desentenderam e voltaram dezenas de vezes. Ela gosta de cachoeiras. Ele prefere jogar xadrez. Na cama são insaciáveis. Mais que o perfume, as palavras atiçam Cassiano.
Ana Maria cochicha no ouvido, encostando a língua provocativa.
– Sempre estarei pronta e desejosa.
Gestos assossiados a palavras excitam Cassiano.
A língua desceu até os lábios. – Sempre serei sua.
A volúpia chegou. As frases calaram. Vieram sussuros. Aconteceram gemidos. E finalmente o silêncio com um abraço apertado.
Dormiram algumas horas. O sol ofuscou o neon vermelho.
Já no carro, Cassiano perguntou para onde ela queria ir. Para o trabalho ou para a casa do noivo.

19 maio 2010

Adeus censura

O sexo está liberado no cinema. O lanterninha é que impede os casais gemerem.
Imagem: Marlon Brando e Maria Schneider em O último tango em Paris.

13 maio 2010

O poste literato


Trabalhamos na mesma repartição há pelo menos três anos. Cumprimentamos-nos no elevador. Às vezes trocamos frases maiores que “bom-dia” ou “até amanhã”. Algumas vezes, conversamos sobre o tempo ao buscar um cafezinho na copa. O dela sem açúcar. Engorda. O meu com muita fé. Crença de que não engorda. Aprendi o nome dela em uma das várias reuniões mensais.
Eu gostaria imensamente de descrevê-la em detalhes. É impossível. Poste não tem detalhes. Às vezes, alguns cartazes colados: Faço tudo – eletricista, bombeiro e pedreiro. Resultado do jogo do bicho. Ou, conheça seu futuro nos búzios da Mãe Laura. Como os cartazes nos postes, os acessórios, na roupa feminina, são fundamentais. Não tenho a menor idéia do que se passa no alto da cabeça da Mônica. Se cabos de telefone ou muita energia. Tampouco reparei se no alto há transformador ou uma lâmpada luminosa. Não vi se os cabos estão organizados, ou encaracolados.
Todas as mulheres no meu trabalho são postes. Faço questão de enxergá-las assim. A minha solteirice está convencida que se empregar com amigas do trabalho resulta em demissão por justa causa. Da mesma forma que se envolver com amigas da ex-mulher significa entrar no inferno pela porta da frente. A minha longa experiência de vida sugere que as colegas de trabalho podem ser de concreto, madeira ou metal. Jamais de carne e osso. Filé mignon, nem no melhor dos devaneios.
Tenho um amigo boêmio que tem a mesma teoria que eu. Outro dia fomos a um boteco e tomamos uísque para mais de meio metro. Na saída, trôpego, o amigo esqueceu todos os preceitos para fazer juras de amor a um poste público.
Para contar a minha história achei muito importante descrever detalhadamente quem era a personagem e qual o interesse que ela representava para mim até que, sempre existe um até que.
No final do ano, como em todas as repartições houve uma festa de confraternização. Sentamos um do lado do outro. Ela separada e eu divorciado. Tudo a favor para resultar em diálogos sedutores. Descobrimos que tínhamos as mesmas afinidades que pode ter um elefante com uma agulha. Ela contou-me que tiraria o recesso viajando com todos os parentes. Eu disse que ficaria na cidade, seria o responsável pela seção. Os olhos dela brilharam. — Jura que vai ficar em Brasília? Enchi o peito e respondi que sou muito responsável. Falei, e no exato momento em que terminei a frase, percebi que eu havia falado demais. — Que bom, encontrei alguém para regar as minhas plantinhas. Antes de me refazer do susto, ela se levantou dizendo que ligaria para mim, combinando os detalhes da minha responsabilidade.
Dois dias depois, recebo um telefonema em que ela me informou que saiu correndo de casa, já estava no aeroporto e que a chave do apê estava sob o capacho. Eu deveria regar as plantinhas ainda hoje.
Foi muito constrangedor virar a chave. Para quem eu pediria licença antes de entrar? Penetrei no apartamento. Em vez de violar, eu estava sendo violado.
Constrangido, tive olhos apenas para procurar plantas e vasos. Encontrei um papel sobre a mesa da sala com as instruções detalhadas para cada espécime a cada dois dias. Finalizava com agradecimentos e um endereço eletrônico.
Fui até a cozinha peguei uma panela e enchi de água. Segui todas as instruções detalhadamente, inclusive bombando o spray sobre elas. Confesso que tomei liberdade não concedida: verifiquei se a torneirinha do gás estava fechada. Maldito juízo.
Por causa de uma planta não relacionada enviei um e-mail perguntando se a planta entre a mesa da sala de jantar e a cozinha — aquela que parece um capim comprido verde escuro sobre umas pedras brancas — deveria e ser regada.
Ela respondeu-me que a planta que mencionada é fake... kkkkkk...é de plástico. Amore, mude as lentes dos óculos.
Quem gosta de verde é quadrúpede ruminante. Prefiro e convivo com dois quadrúpedes latidores.
Só voltei a enviar outro e-mail após a segunda rega.
“Estive em sua casa. Ao contrário da outra vez, hoje suas plantinhas nem latiram muito quando cheguei. A violeta chegou a abanar a folhinha. E a orquídea pulou no meu colo. Muito bacana. Já se afeiçoaram a mim. Aquela do pescoço comprido, perto da violeta, está muito saudosa. Chorou perguntando por você. Dei um biscoito e ela se acalmou. Before que eu esqueça, aquela planta que você chamou de fake ficou ofendidíssima. Disse que fake é a sua mãe. E até me mostrou a carteira de identidade e o CPF.”
Na minha quarta missão regadeira, eu continuava tão constrangido de entrar no apartamento alheio como se fosse a primeira vez.
Aliás, na minha primeira ida ao apartamento fiquei bem impressionado com uma planta que parecia árvore de natal, de tantas frutinhas vermelhas. Agora estava triste, cabisbaixa e com a pele amarelada. Deve ter sido a inveja de alguma das outras coleguinhas. Lançaram um olhar de seca pimenteira.
Acabei por enviar outro e-mail informando que a de brinquinhos vermelhos estava moribunda enquanto outra verde clara insistia em escalar as minhas pernas.
Ela respondeu que a pimenteira já estava batendo as botas quando saiu. Logo a substituiria por outra. Disse estranhar o comportamento da planta assanhada, uma vez que não havia nenhuma trepadeira no apartamento. Informou que já estava fechando as malas para retornar.
O dia seguinte amanheceu ventoso ameaçando tempestades. Voltei para a missão derradeira com o objetivo de verificar se havia alguma a janela aberta.
Não passou pela minha cabeça entra no dormitório. Autorizei-me a entrar no escritório. Mãos às costas, avancei sorrateiro como se estivesse abrindo correspondência alheia. Sem olhar para os lados fui direto à janela. Estava fechada. Quando me virei, meu coração acelerou subitamente ao reparar a enorme estante de livros. Um tesouro. A minha curiosidade se manifestou e desandei a ler lombadas e avançando na intimidade e conhecendo o perfil psicológico de um poste através de suas preferências literárias. Jorge Amado, Guimarães Rosa, Maquiavel, Lacan, Sarte, João Ubaldo, Carlos Eduardo Novaes, Carlos Eduardo Novaes, Carlos Eduardo Novaes, êpa! Uma coleção inteira do Novaes! Meu cronista predileto! Nunca vi algo parecido.
Na adolescência comprava o jornal só por causa das crônicas. Senti ímpetos de tocá-los, de pegá-los, de levá-los. Eu queria os livros para mim. Eu precisava possuí-los. Mônica sempre fora um poste. Agora a percebo como um semáforo que acendeu a luz verde.
Quer casar comigo?

22 abril 2010

Etiqueta

Etiqueta é uma ética menor?



Etiqueta é a ética metida a besta?



Etiqueta será a ética dos grã-finos?

Placar


No jogo da vida só ganhamos quando tiramos os pontos após a cirurgia.

Cowboy




Sem rodeios, o peão montou na vaca.

01 abril 2010

Preciso de ajuda


Procurei por toda parte. Nem o Google encontrou. Você sabe onde está o cortador de unhas?

Rápido, por favor. Minhas unhas continuam a crescer velozes.

29 março 2010

Ilha de Caras

Charles Darwin não se importava em usar meias furadas.
Marlyn Monroe comprovadamente, enquanto filmava nua na piscina, soltou um pum.
Antoine de Saint-Exupéry respirava sem a ajuda de aparelhos.
Salvador Dali esporadicamente, após as refeições, palitava os dentes.
Vinícius de Moraes cortava as unhas semanalmente.
Cecília Meireles fechava os olhos enquanto beijava.
Alberto Santos Dumont se molhava todo na hora do banho.
Léon Tolstói foi alfabetizado em russo.
Joe Nobody é josé ninguém.
Antonio Banderas olha o relógio quando quer saber as horas.
Jesus Cristo nunca andou de bicicleta.
Nelson Rockfeller, apesar de bilionário, jamais comprou uma tevê de 40 polegadas.
Derci Gonçalves, pouco antes de morrer, confidenciou que, para escovar os dentes, usava uma pasta dental de cor branca.
Roberto Carlos quando desabotoa as camisas azuis usa as duas mãos.
Gisele Bündchen geme quando se depila com cera quente.
e que Rui Barbosa, quando escrevia, só quando escrevia, abusava da letra A.

11 março 2010

Crônica - um pouco de teoria

Foi dito por aí:

Crônica é tudo o que o autor chamar de crônica. – Fernando Sabino

A crônica é o relato de um flash.

Ser cronista é viver em voz alta. – Manuel Bandeira

Crônica é a literatura de bermuda. – Joaquim Ferreira dos Santos

A crônica é um vício. Quando gostamos do modo de escrever de algum cronista, assumimos uma parceria com ele. – José Maria

Quando não é aguda, é crônica. – Rubem Braga.


A crônica é uma narração do tempo, do cotidiano versando sobre acontecimentos reais, fatos ou idéias de teor artístico, político, esportivo etc ou relativos à vida quotidiana. Apesar de ser divulgado em jornal costuma ter valor literário. Enquanto o jornalismo tem no fato seu objetivo, seu fim, para a crônica o fato só vale, nas vezes em que ela o utiliza, como meio ou pretexto, de que o artista retira o máximo partido, com as virtuosidades de seu estilo, de seu espírito, de sua graça, de suas faculdades inventivas. A crônica é na essência uma forma de arte, arte da palavra, a que se liga forte dose de lirismo. É um gênero altamente pessoal, uma reação individual, íntima, ante ao espetáculo da vida, as coisas, os seres. O cronista é solitário com ânsia de comunicar-se.
Nada mais literário do que a crônica, que não pretende informar, ensinar, orientar. Apesar da publicação nos periódicos, não é indissoluvelmente ligada ao jornal, e o prazer da sua leitura decorre mesmo em livro, construindo ‘uma vida além notícia’.


O conto é breve narrativa, devendo contar unidade dramática, concentrando-se a ação num único ponto de interesse. O conto deve ter um só conflito, uma só ação. Deve ser narrado em terceira pessoa e ter epílogo surpreendente, boa trama linear. O diálogo é imprescindível no conto. E deve ter objetividade de ação, de lugar e de tempo.


Crônica – características
• Narrativa curta – os cronistas normalmente têm um espaço fixo numa coluna de jornal. Nem mais, nem menos.
• É um relato do cotidiano.
• Narrado em primeira pessoa.
• Opinião e interferência do autor sobre a observação. (o jornalista não deve opinar)
• Não contém diálogos (LFVerissimo adora cronicar usando diálogos)
• Normalmente com bom humor – o autor procura cativar o leitor para outras leituras.
• É a narrativa a partir de um flash. Um artigo no jornal, uma conversa, um fato, uma particularidade.
• Identificação com o leitor. O cronista, no fundo, deseja que seu leitor seja um co-autor.
• Dizem que a grande inspiração do cronista é o prazo do editor.
• A crônica abre uma discussão, uma polêmica, um questionamento.
• Normalmente o suporte é o jornal.
• Finais surpreendentes.

Conto – características
• Narrativa curta. Menor que a novela e muito menor que o romance.
• Narrada em terceira pessoa.
• Um só conflito.
• Contém diálogos
• Tem final surpreendente ou moral. Diferentemente de um artigo jornalístico, por exemplo.
• O conto fecha uma questão, uma história, uma polêmica, um questionamento.
• Quase sempre nos livros.


Não há regras fixas – estas são apenas diretrizes para ajudar a diferenciar os tipos de prosa.


Primeira crônica brasileira – A carta de Pero Vaz de Caminha.
Opinou: em se plantando tudo dá. (ele não plantou para saber), As índias expunham suas vergonhas (isso é opinião), ainda pediu emprego para o sobrinho.
Rubem Braga. entra para a história literária exclusivamente como cronista.
A coluna do jornal é um complemento salarial cobiçado. Livros não rendem dinheiro aos autores. Por isso quase todos os grandes escritores foram ou são também cronistas.

Cronistas: Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Rezende, Machado de Assis, Clarice Lispector, João do Rio, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Danuza Leão, Caio Fernando de Abreu, Conceição Freitas, Rubem Braga, Carlos Eduardo Novaes, Artur da Távola, entre outros.

03 março 2010

Perguntas de soslaio

Ajeito-me na cadeira. Puxo o teclado para mais perto. O monitor exibe uma tela com o Maracanã lotado de bandeiras tricolores. Sobre o estádio estão vários ícones, não do futebol, mas dos meus programas de maior uso. O meu predileto, a minha ferramenta mais freqüente, fica no canto inferior direito com o singelo nome de Paz. Ninguém da face da terra vai imaginar que sob aquele ícone travam-se as mais ferrenhas batalhas entre o computador e eu. Basta clicar e a máquina me desafia para mais uma disputa de pesos desproporcionais. Sete montinhos de cartas se perfilam para outra contenda de paciência.
Era exatamente isso, deitando um cinco de paus sobre um seis de copas, que eu estava fazendo, no meio da tarde, quando atendo ao telefone.
— Repartição, boa tarde.
— É você von Silva?
— À sua disposição...
— Você se lembra de mim?
Ser interrompido numa empolgante partida de paciência é ruim. Mais grave é quando uma pergunta constrangedora interrompe nosso raciocínio exigindo concentração e reflexos rápidos alternando instantaneamente para jogo de adivinhação.
— Você me pegou de surpresa! Você cortou o cabelo não foi? Mas lembro muito bem da sua voz. — Respondi oferecendo uma oportunidade à interlocutora de revelar seu nome.
Ao invés de desvendar o mistério, ela opta por oferecer uma pista.
— Não está me reconhecendo, von Silva? Nós nos falamos há menos de um mês.
Essa mulher quer complicar a minha vida! Preciso fazer com que ela fale um pouco mais. — É que o meu aparelho está chiando muito, e não consigo ver você direito! — Brinco procurando ganhar tempo.
— Puxa, von Silva, imaginei que eu fosse uma pessoa mais importante para você.
Nesse momento me senti acuado. A fala foi muito curta, não percebi qualquer sotaque. Chamou-me de você, nem doutor nem senhor, tampouco pelo prenome. A voz doce e sensual fala com intimidade. Como posso ser grosseiro com alguém que fala com voz de lábios vermelhos carnudos? E se for uma amiga ou sobrinha da madame? Deus me livre! Que fria!
— Quem sabe você diz só o primeiro nome?
— Você foi tão encantador... me chamou de mocinha.
Era só o que me faltava, encantei alguém por chamá-la mocinha. Chamo todas as mulheres de mocinha ou menina, é só um jeito de falar, moças ou velhas cambaleantes, todas gostam e não preciso guardar nomes. Desconfio que a mocinha seja um trubufu solitário sem desconfiômetro. — Agora que já sei com quem estou falando ficou mais fácil, mocinha. Em que posso ajudá-la?
— Você está muito ocupado?
Não, não pode ser! Isso é uma brincadeira de mau gosto! Ninguém merece. Nem para a minha consciência eu admitiria estar na quarta partida. Tenho que tomar cuidado com as minhas palavras e preciso descobrir quem é essa poderosa jararaca cabeluda. Será que ela precisa de alguma consultoria? Será que quer apenas que eu a chame de mocinha novamente? Será que precisa que eu descubra o destino de algum processo na repartição? Será que quer testar meus nervos? E se for alguém da auditoria? — Estou analisando essa pilha de processos que está na minha frente. Tenho muito trabalho. — E se a jararaca for apenas uma cobrinha risonha? — Mas, posso fazer uma pausa.
— Será que pode me ajudar?
Isso é um novo tipo de tortura! Um interrogatório onde o algoz coloca a vítima em um pau de arara, venda os olhos e queima o prisioneiro com pontas de cigarro primeiro nos braços e pernas indo até a genitália. Não posso me entregar! Não vou delatar meus companheiros de repartição. Somos inocentes! Estou nas mãos da inquiridora. Serei simpático antes que me corte a língua: — Posso ajudar sim, contanto que não seja nada de ilegal.
— Hahahahaha (foi a risada mais satânica que já ouvi). Bem que o Zé diz que você sempre está bem humorado.
Ufa! Afinal uma abertura. — De qual Zé você está falando?
— Do meu marido.
Que maravilha, passei da posição de interrogado para interrogador. Na primeira oportunidade me vingarei dessa víbora peçonhenta. Farei um cinto de pele de cascavel e o meu telefone em vez de tocar vai chacoalhar guizos. — Aposto que só você o chama de Zé. — Arrisquei.
— É verdade. Aí na repartição todos só o chamam pelo sobrenome ou simplesmente de chefinho.
Filhada mãe! Então é a senhora, dona Altamira? Espero que ela não tenha percebido a minha dúvida. Baixei a guarda. E fui quase subserviente. — Afinal, no que posso ajudá-la?
— Eu quero saber onde você comprou para a madame aquele vestido com flores azuis e também que você vai fazer no sábado?
De novo não! Socorro. Vai começar outra seção de tortura!
— Desculpe mocinha, a secretária me avisou que devo descer imediatamente para falar com o diretor. — E, desliguei.

27 fevereiro 2010

Elogio do Moacyr Scliar


Enviada em: sáb 27/02/2010 10:08

Meu caro Roberto, só umas linhas para te dizer que estou terminando teu livro e que gostei muito de tuas crônicas, vivas, bem humoradas, bem escritas. Recebe os parabens e o abraço do Moacyr Scliar


Na quinta-feira o Scliar esteve aqui em Brasília para uma palestra no T-Bone. Busquei uma dedicatória para um livro recém adquirido. Eu já havia trocado breves e-mails com ele. Conversamos ligeiramente. Presentei-o com Quase pisei!.
Hoje recebi o retorno estufa ego.

Moacyr Scliar - 80 livros publicados; 3 prêmios Jabuti; escreve para vários jornais; É da Academia Brasileira de Letras.


Tem escritores que escrevem para burro. Scliar escreve para Jabuti.

15 fevereiro 2010

Nostradamus

Estávamos arrumando a cama quando ela falou.
– Que horror estou perdendo muitos cabelos!
– Isso é só o começo! Respondi incisivo.
– Como assim?
– Hoje cabelos. Amanhã orelhas, braços, pernas...

A entrega por amor

Sentou-se no alto do penhasco tendo a noite, o mar e o vento frio por companhia. Olhou o infinito de estrelas oferecidas piscando sorrisos, requebrando brilhos ou ostentando poderosos decotes como estrelas holiúdianas. Elas sempre estiveram tão próximas que podia pegá-las com a mão. O alforje acumulava constelações de perdidas. Ele só queria um amor. A lua espiou no horizonte, cresceu no seu desejo, tomou-o de paixão. Por amor, jogou-se ao mar, nadando esforços, para possuí-la.

13 fevereiro 2010

Espetáculo em unico ato.



Eram exatas oito horas. Horário em que ela chegava do trabalho e se preparava para o banho. Ansioso, diariamente eu esperava o momento com o binóculo na mão. Nesta terça-feira o marido entrou no quarto e a esbofrteou antes de atirar no rosto a um metro de distância. Em seguida puxou a cortina.
 
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