14 fevereiro 2007

A escrita

Escrever é um prazer. Ter a quem escrever, mais prazeroso ainda. Ser correspondido é o orgasmo.
Mudei de cidade no começo dos anos setenta. Deixei para trás amigos, parentes, paqueras, e muita saudade da adolescência. Jamais gostei de ficar ao telefone. Passei a escrever. Escrevia até vinte cartas semanais. Quase todos retornavam. Com um amigo iniciei uma partida de xadrez por carta, era época de Mequinho e Bobby Fisher, todos jogavam xadrez assim como todos hoje sabem tudo sobre tênis. Meu pretexto era escrever.
Sempre fui sonhador e romântico. Meus temas sempre foram uma espécie de crônica com humor. Acho delicioso brincar com as palavras. Palavras escritas. Estas podemos garimpar, peneirar, escolher. Namoro as letras, busco o tom da palavra. O som da palavra. O teor mais adequado. As ditas podem ser aveludadas, ácidas, carinhosas, odiosas, sensuais, vingativas, informativas, casuais, irônicas, adjetivas ou substantivas.
Ao escrever temos o tempo do mundo para refletir, mensurar cada letra. Apagar e reescrever. Podemos ir à prateleira e nos socorrermos de um livro, da enciclopédia, de um guia, de um manual ou do pai-dos-burros. Na estante sempre há um desmancha-dúvidas a nos servir de bengala.
Tenho orgulho da minha cultura geral. Ela nem sempre está disponível na linguagem falada. Demora... e as pessoas procuram outro interlocutor. A oratória não é minha praia. È no texto que tenho a oportunidade de externar minha cultura inútil. A quem importa saber que dracma é a moeda da Grécia? A quem importa saber que a frase “um pequeno passo para o homem e um grande passo para a humanidade” foi bolada pelo pessoal de marketing para Neil Armstrong dizer ao pisar na Lua? Que o Japão é formado basicamente por quatro ilhas e que a maior chama-se Hondo? Que nasdróvia é o que russos e poloneses brindam ao tomar vodka? Quem se importa em saber que foi Pedro Américo que pintou o famoso quadro da Independência do Brasil? Estas e outras filigranas, só têm graça e poder na tinta sobre o papel.
Alguém em sã consciência empregaria a palavra filigrana ao invés de detalhe? Perceba que delícia, em vez de empregar escrita novamente, empreguei alguma coisa criada neste segundo: tinta sobre o papel. Quando falamos não temos a preocupação em evitar a repetição de vocábulos. No papel está tudo registrado, usamos dos sinônimos e criatividade. É nossa obrigação. É no papel que temos a oportunidade de mostrar erudição, cultura e educação sem sermos petulantes ou arrogantes. O texto é lúdico.
Na escrita pensamos e externamos sem sermos interrompidos, possibilitando iniciar, desenvolver e fechar determinado assunto. Colocamos a nossa opinião por inteiro e com os nossos argumentos por completo. Outra grande vantagem, ao menos para mim, é conseguir externar os mais profundos sentimentos, coisa que olho-no-olho jamais faria. E jamais fiz. No papel não temos as sobrancelhas para mostrar o tom da palavra, não adianta sorrir, ninguém percebe, se estamos indignados temos que usar as palavras. Os internautas resolveram de uma forma bastante interessante colocando entre parênteses suas percepções. Sorrindo, gargalhando, nervoso, apaixonado...Penso ser uma alternativa genial. Entretanto acredito que ainda podemos sussurrar doces palavras gentilmente no ouvido de quem nos quer ler. Viu só como toquei no ponto?
Minha dificuldade é a digitação. Uso dois dedos apenas e tenho que olhar o teclado. No oral sinto-me pessoa sem comunicação. Tenho dificuldades em iniciar uma conversa. Prefiro o silêncio a tomar a iniciativa. Não sou de falar alto e comandar uma boa roda de pate-papo. Sou o tête-à-tête. Prefiro aquela conversa particular. Mais intimista e menos balaqueira (termo gaúcho que se refere às pessoas que contam vantagens e de preferência em voz alta).
Abandonei o hábito de escrever por falta de tempo e de interlocutores. Ao menos não parei de ler. Não com a intensidade e qualidade que gostaria. Agora, trinta anos depois, ao estar desempregado e ocioso, resolvi buscar uma paquera pela internet. Não sei se vou encontrar o que busco, mas com certeza encontrei a quem escrever.
E tenho dito! Ou melhor: e tenho escrito!
※ ※ ※ ※ ※
Retrato de Erasmo de Rotterdam por Quentyn Metsys em 1517

2 comentários:

rebellis disse...

Percebi um leve tom de melancolia nas tuas palavras, como se o vocábulos morressem a cada geração. Sabe, eu sempre senti-me velho por gostar de escrever, por ler muito. Não, a literatura não é coisa de velho, nunca diria isso. Por outro lado temo dizer que, assim como os ossos do cemitério viram cinzas, cada geração leva embora um parte do texto histórico deixando aos demais meia-dúzia de palavras para escrever o mundo. Assim morre a poesia, morrem o verbos, morre o texto. Resta à vida a conversa sem nexo, o desabafo monotônico e respostas dissilábicas. Uma pena!

Eduardo Borges

Larissa Marques disse...

Meu caro, nem sonhava que tinha blog. Veja como são as coisas! Adorei o espaço, vou linkar!

 
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