04 janeiro 2008

O dia em que a banheira transbordou

Relaxar na água calma e morna da banheira é tornar ao útero. É muito melhor do que sentar no chão duro e frio com as pernas cruzadas zen pensar.
Foi nisso que pensei quando levantei da cama.
Escovei os dentes, penteei a juba e liguei toda a água quente e um tequinho da fria. Enfiei um calção, uma camiseta e meu pisante de atleta. Não tenho paciência para ficar deitado numa banheira, prefiro um rápido chuveiro. Entretanto, uma vez por outra, quando estou tenso, faço como fazem com as batatas: deito na água fervente até me desfazer.
Tranquei a porta meti a chave do apê no bolso esquerdo e desci as escadas. Cinco andares.
Faço minha caminhada em quarenta minutos e a banheira leva cinqüenta para encher. Quando agitado, tenso ou preocupado costumo ir a passos mais velozes e retorno do percurso em tempo menor.
Estava muito ansioso. Havia recebido oferta de trabalho, tentadora, fora de Brasília. Sempre é bom ser reconhecido e ser valorizado. Porém, as mudanças tiram-nos de uma situação de conforto e acomodação. São desafiadoras e misteriosas. Já tinha feito tantas mudanças. Mudei de carro, de casa, mudei de penteado e mudei de namorada. Este, na verdade era meu problema. Trocar de namorada. Nunca fico satisfeito. O mundo está cheio de mulheres maravilhosas. Só encontro as erradas. Quando são bonitas, não sabem conversar. Quando sabem conversar não sabem parar de falar. Quando param de falar não são liberadas no amor. Quando são ótimas no amor não sabem fritar um ovo.
Eu estava namorando com a Cláudia, uma mulher que podia ser capa ou a página do meio da Playboy. Deliciosamente culta que argumentava Freud, almoçava Sartre, bordava Machado de Assis, dormia Nelson Rodrigues e cozinhava Neruda. Porém, sempre há um porém, ela era altamente invasiva. Quando eu menos esperava, lá estava ela, metendo o nariz onde não foi chamada. Mas isso já é outra história.
Para mim, importava caminhar enquanto ponderava sobre o convite de trabalho e todas as suas conseqüências, boas e ruins enquanto a banheira enchia para o arremate de uma reflexão.
Pensava no salário, no aluguel de imóvel, na realização profissional e no distanciamento dos filhos quando sem mais nem menos surgiu a figura do síndico que bloqueou meus passos e pensamentos.
Falou-me da reforma da portaria, de taxas extras, do eterno problema do vizinho do 207 que toca saxofone às duas da manhã. Encheu meus ouvidos com o caso do garoto do 405 que belisca todas as empregadas. Auto-elogiou sua administração com a redução de despesas e solicitou meu voto para a reeleição próxima.
A conversa mole me incomodou e procurei uma desculpa para me desvencilhar do maçante síndico. Quando me lembrei da banheira.
Em pânico levei as duas mãos à cabeça e gritei:
– Meu Deus! Deixei a banheira enchendo! – e saí correndo.
Cheguei em cinco minutos e logo vi que a sala, ao menos, continuava seca.
O corredor também estava seco. E nem havia água sob a porta do banheiro.
Que diabos? – pensei – meu filho está viajando e eu deixei a porta aberta...
Abri a porta e espantado vi Cláudia na banheira de espuma.
– Como você entrou aqui?
– Pedi a chave ao seu filho.
Apesar do alívio por não encontrar enchente e apesar da beldade na minha banheira desisti do banho irritado com a invasão da minha privacidade.
Fui para o quarto, sentei no chão duro, assumi posição de ioga e contei até mil antes de fazer amor.

5 comentários:

Adamastor Goldman disse...

Para os anais: muito boa essa, Dr. Roberto Klotz.

Cumpre informar que a minha falsa pessoa virtual visita suas plagas blogais com alguma freqüência. Se aparecer o endereço IP da Jordânia (via conexão pirata do Virtua de Bsb) lhe visitando, este sou eu.

Retribuo os votos de um 2008 com muito sexo, de preferência aquele que fazemos com outra pessoa, e de preferência aquele que fazemos com outra pessoa do sexo oposto.

Abraços!

Nat disse...

Klotz, clica na foto da Marilyn que é o link para as fotos das capas da Playboy ;- )

Klotz disse...

Misterioso Adamastor, óbvias, porém sábias palavras. Sexo com outra pessoa do sexo oposto! Yes!
Obrigado!

Nat, já fiz muita coisa em termos de sexo, jamais havia clicado numa mulher. Gostei, sabia? È surpreendente e delicioso clicar em cima da mocinha peladinha.

ohomem disse...

Adorei seus contos e crônicos, exatamente como eu quero escrever quando crescer! O seu blog é o primeiro - por enquanto único, sem expectativa de mudança - que relacionei no meu. Parabéns!

Klotz disse...

Obrigado, ohomem, fico honrado com suas gentis palavras.

Sem rodeios, ducacete, valeu!

 
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