19 janeiro 2008

Taturana detalhada

Eu me abaixei na calçada para amarrar o tênis e vi uma taturana.

Não era uma taturana qualquer. Era uma bichinha cheia de detalhes.

Tinha sete centímetros de comprimento e um centímetro de diâmetro. Era gordinha, bem rechonchuda. Era um roliço colar de contas alternados em verde e preto cobertos por enormes pelos negros. Na frente: duas antenas. Embaixo, dos dois lados, uma série de perninhas cabeludas escuras. O rabinho terminava em ponta enquanto a cabeça era redonda e com um par de olhos amendoados.

Vi todos esses pormenores na lagarta que começava a atravessar a rua na faixa de pedestres.

Ela estava na faixa branca quando um carro passou zunindo tirando um fininho da sua orelha.

Levantei a vista e vi outro carro se aproximando veloz. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, os pneus do carro tiraram outro fino da lagarta que prosseguia corajosamente seu rumo ao outro lado da rua.

Olhei novamente para a taturana. A rua tem nove metros de largura. A faixa tem doze listras brancas e outras tantas negras. Calculo que na velocidade em que ela segue o caminho deverá levar oito minutos até chegar do outro lado. È muito tempo. Mais de trinta carros vão passar ali antes que ela chegue do outro lado.

Agora seis carros se aproximam. Tenho que tomar alguma providência para alterar o destino da taturana.

Em Brasília os carros param na faixa de pedestres.

Tomo a única decisão possível naquela fração de segundos.

Aceno com a mão direita a minha intenção de atravessar a rua na faixa destinada aos pedestres e os carros respeitosamente param, um atrás do outro. A minha angústia é maior que a da taturana.Vou em direção à lagarta e a esmago impiedosamente.


Moral da fábula: Detalhes podem encurtar a história.

5 comentários:

Klotz disse...

No dia 20 de janeiro, um domingo, coloquei este texto no Orkut, na comunidade Bar dos Escritores. O pessoal, de lá, é animado e encheu de comentários:

paulinho
Putz!
Já salvei uma taturana de morrer queimada no asfalto quente de São Paulo!

Rita Medusa
rs Ia justamente falar da riqueza de detalhes...gostado Klotz e o final me pegou mesmo.

Wilson R.
Eh, eh.
Boa, muito boa.
Abraços.

Ele, O PAULADA!
Legal...
Ontem ví reportagem sobre a revista Recreio...essa caberia lá! Mas...claro, com outro final! Um final de salvação...
as crianças iriam adorar! Manda lá...rs...
Ele,\=/...

paulinho
BORBOLETAS!

Robertón
Klotz, tu é mesmo foderozo e esse texto demonstra isso com todos os predicados, um show de hipocrisia humana!
Conduz o leitor a ir contextualisando um final, faz ir por um caminho, de repente faz uma curva fechada e corta, curto e grosso pro inesperado!
Muito bom!!!!!!!!

Klotz
Ontem participei de aula em oficina literária onde uma colega leu uma crônica onde relatou seu pavor em relação às lagartas. Foram longas 4 páginas em espaço simples esmiuçando todas as relações dela com uma lagarta. Ao fim da primeira página eu já queria matar as danadas, lagarta e leitora.
No próximo encontro farei a minha leitura mortífera.

Sabrina
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk gostei muito...rs

Klotz disse...

Ana Luísa
Pôxa... e eu achei que você ia salvar a lagarta...
Adoro textos com finais surpreendentes! Parabéns!

Muryel
rsrsrs... muito bom. o final matou!
literatura de primeira.

ükma
Minha nossa! rsssss

Flá
sacanagem pô!!!
pensei que vc ia salvá-la...sacanagem!!!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

paulinho
Também pensei que ele salvaria a danadinha, mas... Ploft! Kkkkkk

Muryel
São finais assim que me servem.

Klotz
Puxa, quanta gente boa comentando e até recomentando!
Foderoso? Isso é foda!
Só há comentários à respeito do final. Prometo escrever texto apenas com final.
A lagarta está onomatopeicamente morta: Ploft!
Eco!

paulinho
Aqui em Sampa se eu levantar as mãos pros motorista pararem os carros, eles erguem as deles com o dedo apontado pro alto de forma obscena, rsrsrsr
Fiasdaputa!

Barbara
hahahahahaha
Muito bom Klots querido! Rico em detalhes!

Yzzy Daniel
Adorei...bem ao meu estilo....esboça um lado negro da raça...surpreendente...

éfe
ahahahahah
super foda!!!!!!!

Klotz disse...

o sacerdote
SABE, Q JA LI UM A CRONICA SOBRE O MESMO FATO ESCRITA PELO MIGUEL CHATOBELA OCORRIDA NA LAGOA/RJ
BEIJOCAS

Klotz
Sassá, querida, fui até o Google que respondeu:
Sua pesquisa - "MIGUEL CHATOBELA" - não encontrou nenhum documento correspondente.
Só aí é que caiu a minha ficha: Miguel Falabella.
Perdi o interesse em procurar.
Aposto que meu final foi muito mais Ploft.

Flávia
eu, volta e meia escrevo sobre baratas. Meu caso mal resolvido é com elas, apesar de já ter sido queimada impiedosamente por uma bela lagarta laranja peluda.
Bem, mas vamos ao que interessa: adorei o texto, Klotz! Fiquei com pena da lagarta...

Flá
a lagarta está centopeicamente morta.

Carlos Cruz
o sacrifício da pobre lagarta não foi em vão.
sacrificou-se em prol da boa literatura.

Mr. Ze
Gostei da descrição da lagarta
Surpreende o final. Esperava um pouco mais de compaixão com a pobre lagarta perdida nesse selvagem mundo urbano de Brasília onde os motoristas respeitam os pedestre. Eis aí a dualidade do homem....rs

Klotz
Ôba! Mais quatro comentários. Só gente querida.
Não entendi nada. Todos pediram compaixão. Foi exatamente o que fiz.
Misericórdia.

Véio China‡
Eu gostei.
A narrativa (surpreendente) me enganou ( completamente)
Mas, sei lá! Acharia mais romântico deixá-la por conta dos Goodyear, Pirelli, Firestone, e taus e taus.
hehehehe!

Nat disse...

Klotz querido, maravillhoso!!! Adorei, parabéns!

Leandro Rodrigues disse...

Muito boa.
Gostei muito.
Não seria nossa vida um caminhar entre as faixas e nós a esforçada taturana?

 
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