11 abril 2011

Cordilheira – Daniel Galera - crítica


Li o livro em três dias, bem a tempo de escrever meus comentários visando a primeira reunião do Grupo de Leitura.

Não entendi a intenção o design da capa.

Ao contrário dos best-sellers americanos, o livro não tem uma estrutura com um roteiro pré-definido. Certamente foi conduzido a partir de uma idéia pré-elaborada, mas levado pela protagonista.

Desconheço outros escritos do autor para comparar, entretanto a linguagem utilizada é convincente ao ser colocada na voz de uma protagonista feminina. A protagonista se envolve em reflexões e revolve sentimentos como uma eterna discussão de relacionamentos, coisa tipicamente feminina.

A ambientação em Buenos Aires foi atendida. O autor descreve cores, cheiros, luzes, paladares e sons convencendo-nos do cenário da história.

Os personagens são convincentes quanto à caracterização e personalidade. Consigo me imaginar conversando com cada um deles numa mesa de bar como se os conhecesse de longa data.

Houve momentos em que me irritei ao ler descrições ou pensamentos super-hiper-mega detalhados. Eu procurava relativizar: trata-se de uma mulher. Mulheres são assim, (ó santo machismo!) e para tentar compreendê-las é necessário ouvi-las.

O título do livro certamente foi inspirado em “Le gustaba mucho mirar la cordillera”. ─ “Me veio à mente Duisa, a esposa daquele pioneiro da Terra do Fogo, trazida para viver nessa região na primeira metade do século anterior, fitando as montanhas numa estância isolada de tudo e de todos, em silêncio permanente, sob a observação secreta e carinhosa do marido que décadas depois lembraria dela exatamente por essa tendência à demorada contemplação da cordilheira. A imagem dessa mulher na minha cabeça sempre trazia uma profunda melancolia, a ponto de me dar um nó na garganta. Eu queria ser como ela”

Muitos já escreveram e desenvolveram romances a partir da questão do envolvimento da realidade do autor com a ficção das suas histórias. A grandeza do livro é que o autor explora ao extremo o drama de todo escritor: onde começa a ficção e onde termina a realidade. De modo que um grupo de escritores subverte a lógica e passa a vivenciar os personagens das suas obras. A protagonista do livro, também escritora, sequer se identificava no próprio livro e passou a questionar-se ligando ficção à realidade após o envolvimento com o grupo. Fernando Pessoa abordou a questão com o famoso verso: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”.

Galera não se cansa de mostrar o que o motivou a escrever Cordilheira. Ainda no começo da história a protagonista fala sobre sua mãe que faleceu no parto. “Minha mãe, um ser fictício que eu não cansava de imaginar e desenvolver”. “Minha mãe foi o meu primeiro personagem.” Passada a metade do livro, Escreve: “Não há como escrever honestamente sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos. Um escritor pode tentar maquiar esse fato com todas as suas forças, mas nunca escapará dele.”

Nas últimas páginas está a confirmação da intenção do autor que se utiliza da protagonista escritora para escrever: “Eu a inventei justamente para nunca precisar ser como ela, para exorcizar uma Anita que detestaria me tornar.”

Enfim, apesar do detalhismo nas descrições e aprofundamento das reflexões, gostei da história. O autor conseguiu me surpreender. Recomendo.

Um comentário:

Rodrigo Toso disse...

A santidade do machismo é construída nas costas de demônios.

 
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