07 novembro 2017
Pílulas contra o mau humor
Eu estava na sala dos estagiários. Eram nove horas da manhã quando José
Geraldo entrou. Passou direto pela secretária, por seus dois colegas de
trabalho e dirigiu-se à sua mesa.
— A idiota da faxineira esqueceu a garrafa de álcool na minha mesa. Ó,
mulherzinha avoada!
Pedro, vizinho de mesa, suavizou.
— Bom dia! Ainda é bom costume cumprimentar. Em vez de ofender a dona
Antônia, deveria ligar para ela, agradecer por ela ter limpado seu espaço e
informar que guardou o produto de limpeza.
— Tá de caso com ela?
— É impressionante como você começa o dia de forma grosseira,
desrespeitosa, mal-humorada e sem educação.
José Geraldo, ignorando a observação: — Já leu o jornal?
Pedro vira a página. — Não, ainda não terminei de ler.
José Geraldo, sem nenhum constrangimento, enfia a mão no meio da leitura
de Pedro e puxa o caderno de esportes.
— Peraí! Eu ainda não li esse caderno!
— Que egoísmo, você é incapaz de ler tudo ao mesmo tempo. Cadê sua
generosidade?
— Aposto que sua namorada dormiu de calça jeans.
— Seja criativo. Pare com suas piadinhas repetitivas. Todo dia você diz
a mesma coisa!
Evitando conflito, Pedro silenciou.
Na antessala, a secretária, responsável pelo jornal, murmura palavrões
imaginando a bronca do chefe ao descobrir o jornal bagunçado.
Passados dez minutos, Pedro comenta a nota policial.
— Viu só? O ladrão entrou na casa durante a madrugada, separou a
televisão e o micro, depois se encheu de comida da geladeira, esvaziou uma
garrafa de uísque e adormeceu no sofá.
— Como é que eu veria? A notícia está na sua mão. Você não quis me dar
todo o jornal.
— Apenas comentei, tentando um diálogo.
— Diálogo? — Resmungou feito velha — Como posso dialogar com alguém que toda
hora atrapalha a leitura?
Como só acontece em novelas, o figurante com a bandeja surge na hora exata
para amenizar o clima de hostilidades.
— Bom-dia — diz, enquanto distribui os copos descartáveis. — O que vai
ser hoje? Ovos estrelados, sucrilhos ou omelete com bacon?
— Obrigado, seu Zezinho. Tem antiácido para o Jotagê?
José Geraldo, sem tirar os olhos do caderno de esportes:
— Sirva um copo de raticida para meu colega.
Seu Zezinho caminhou em direção ao ventilador.
— Eitcha ambiente carregado... Vou aumentar a velocidade para o vento
levar o mau humor.
José Geraldo olha com reprovação.
— Aumente não. Já basta o barulho insuportável das cigarras gritando nas
árvores.
Como que fugindo de uma nuvem pesada, seu Zezinho empurra o carrinho
para a saída. Fecha a porta, enquanto Pedro faz cara de quem está curtindo
violinos da orquestra sinfônica.
— Isso que você chama de barulho é o canto das cigarras. É a perpetuação
da espécie. É o anúncio das chuvas. É a mudança de estação. Já viu como os flamboyants estão floridos?
— Vai se tratar, Pedrinho! — diz, colocando o queixo sobre o ombro e
piscando rapidamente os olhos. — Isso de gostar de florzinha vermelhinha é pra
flamboiólas. Acho que você escorregou nalguma flor cor-de-rosa e caiu na
bichice.
— É, Jotagê, se você fosse mulher, eu diria que foi mal comida.
— Outra vez você vem com piadinha manjada querendo gargalhadas. Invente!
Só teletube repete a mesma bobagem
vinte mil vezes e, mesmo assim, para bebês que não conseguem mudar o canal.
Pedro, mais uma vez bombardeado por José Geraldo, procura por um aliado
na conversa, olha na minha direção, interrompe minha leitura concentrada.
— E aí von Silva, o que você me diz? Concorda que está faltando mulher
na vida do Jotagê?
— Sei lá! Não sei e não estou preocupado com os problemas dos outros.
Sei apenas que daqui a pouco o chefe vai entrar por aquela porta e perguntar o
que a gente tá fazendo.
— E o que você, von Silva, está fazendo de tão importante?
— Estou cuidando do meu humor. Lendo e apreciando as imagens de um
tratado sobre a saúde, manutenção e desenvolvimento do bom humor. São minhas
pílulas contra o mau humor.
— Tudo o que o carrancudo Jotagê precisa na vida. O que é?
Para o meu azar, levantei a Playboy,
aberta na página central, exatamente na hora em que o chefe pisou na sala.
31 outubro 2017
Exercícios literários
1 – Poderia
dizer janelas, mas a falta de dentes aos 40 anos não era poesia.
2 – A camisa no chão estava suja de infidelidade.
3 – Ia trazer flores quando me lembrei de que seu vaso já
estava enfeitado.
4 – Rotineiramente acendia velas e virava o Santo Antônio, no
entanto chegara o inverno.
5 – Nasceu meu neto. Seria rei de todos, se um cometa
soubesse.
6 – Todos no enterro queriam discursar elogios e valeu o meu
silêncio.
7 – Todos festejavam o casamento. Eu já ia longe e só.
8 – Silêncio sobre a mesa. Um copo com
gotas de cianeto sorria mudo.
9 – Quantas alegrias na fronteira, mas sem passaporte voltava
para a depressão.
10 – A louca gritava na esquina da esperança, mas a luz do
poste avivava a morte.
A - Os ponteiros do relógio do alto da
igreja indicavam sempre as mesmas quatro horas e vinte minutos. Pássaros mudos
desaprenderam a voar. Os cachorros congelados continuam no mesmo lugar apesar
da sombra ter desaparecido. O vento estava amordaçado. Crianças gritam para
dentro. Ninguém quer sobreviver a este fim de tarde.
B - A mulher chegou à cozinha com ímpetos
de assassina. Esbravejou pelo presunto cortado em cubinhos em vez de tirinhas.
Excomungou o uso de ervilhas frescas. Ajeitou o chapéu de chef de cuisine,
provou uma garfada. Foi transportada para a primeira fila do Moulin Rouge, recebeu
um sorriso da Monalisa, ouviu La vie em rose e, para disfarçar, fez caretas ao
dizer que a omelete saiu razoável.
C - Nunca será segunda-feira. Trago
cerveja, faço carinho. Danço zumba três vezes por semana, emagrecei 32 quilos e
o Zé Luiz não dá a mínima. Agora aplaudir com entusiasmo as bundas na Dança das
famosas é demais. Nosso amor termina com a música do Fantástico.
27 outubro 2017
Bullying político
Bullying
é um termo importado do inglês. Bull significa touro. Bully sugere valentia. Em
inglês, bullying designa formas de violência verbal, física ou psicológica
intencional e repetitiva praticada por um indivíduo ou por um conjunto de
indivíduos. A agressão é provocada numa relação desigual de poder. A
intimidação, o deboche, o ataque causam dor, angústia sem possibilidade de
defesa. Destroem a autoestima da vítima.
Os
praticantes do bullying sistematicamente negam que o praticam e minimizam seus
atos de brutalidades.
Se
você pensa que isso só acontece nas escolas e locais de trabalho, enganou-se.
Você,
eu e todos os brasileiros estamos sofrendo o bullying e não nos damos conta.
Chama-se
bullying político.
Diariamente
você é chamado de bobo, idiota, pamonha, tolinho, panaca, babaca. Os políticos
sugerem que você é mais insignificante que filhote de lombriga.
Todos
se dizem inocentes e inventam mentiras e desculpas que nem meu neto
recém-nascido acredita.
"Eu
sou inocente e vou provar minha inocência. Não existe nenhuma prova contra mim.
As acusações são inconsistentes."
"Nunca
tratei de doações eleitorais. Esse depoimento, realizado em processo de delação
premiada, causa profunda estranheza. Ressalto que todas as doações que o
partido recebe são feitas na forma da lei e declaradas à Justiça."
"Pessoalmente,
gostaria de transmitir, a bem da verdade, que os ‘fatos’ apontados jamais
ocorreram. Jamais conheci esse senhor que mente para aliviar sua pena.”
“Meu
nome foi incluído nessa falsa lista por contrariar os interesses.”
“O
Ministério Público, poderia ter evitado equívocos me ouvindo preliminarmente.”
“Nego haver razões objetivas para que eu seja
impedido de atuar nesses casos.”
“Se
tem uma coisa que eu me orgulho, neste País, é que não tem uma viva alma mais
honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, nem dentro do Ministério
Público, nem dentro da igreja católica, nem dentro da igreja evangélica. Pode
ter igual, mas eu duvido.”
Quando
dizem: “Farei de tudo para provar minha inocência.” Parece que dizem em coro:
Indicarei nomes para compor CPIs, colocarei verbas nos projetos de deputados e
senadores, atrapalharei investigações, pagarei os melhores advogados, mudarei a
lei, comprarei juízes e trabalharei mais duro ainda para destruir essa
conspiração que deseja sujar meu nome.
Os
políticos com espertos advogados e dinheiro, desmontam peças jurídicas sem
desmentir o conteúdo.
E o
bullying político insiste.
“Sou,
vítima de uma ardilosa armação, uma criminosa armação perpetrada por
empresários inescrupulosos que se enriqueceram às custas do dinheiro público e
não tiveram qualquer constrangimento em acusar pessoas de bem na busca dos
benefícios de uma inaceitável delação.”
“O
pessoal da Lava Jato contaram mentiras a meu respeito, a Polícia Federal da
Lava Jato mentiu, o Ministério Público mentiu e o juiz aceitou as mentiras e tá
me condenando por coisas que ele próprio diz que eu não fiz. Então são eles que
estão com problemas de explicar para a opinião pública, sabe que eu não cometi
o crime que eles gostariam que eu tivesse cometido. Tá, eu já provei a minha
inocência. Agora cabe a eles terem coragem de pedir desculpas pra mim.”
Você
está cansado de ouvir e de ler, mas o bullying persiste.
“O
PSDB reafirma seu compromisso contra a impunidade, defendendo a ampla
investigação de toda e qualquer denúncia devidamente fundamentada contra quem
quer que seja, inclusive membros do partido.”
Não temos
autoridade para dizer: “Vossa Excelência está na mídia destruindo a
credibilidade do Judiciário brasileiro” ou “Por qué no te callas?”.
Enquanto
isso: “Dinheiro continua circulando em malas anos depois do início da
Lava-Jato. Regras são gestadas no Congresso Nacional para beneficiar políticos.
Ministros do Supremo soltam e ressoltam corruptos poderosos.”
O
povo brasileiro sofre bullying político em silêncio.
Até
quando?
Em
1789 os franceses tomaram a Bastilha.
Em
1969 os militares fecharam o Congresso brasileiro.
Em
2013 os black bloc’s brasileiros manifestaram a fúria questionando a ordem
vigente.
Em
2018 ...
24 outubro 2017
A foto que não tirei
Assim que começou o novo governo do Distrito
Federal foram tomadas várias atitudes: exoneração de 17 mil funcionários em cargos
comissionados e de confiança, devolução de 144 imóveis alugados, devolução de
700 automóveis, redução de 30% nos contratos de prestação de serviços, retomada
de diversas áreas invadidas, remoção de placas de propaganda e implosão de três
prédios inacabados.
Nada me afetou diretamente a não ser a
curiosidade em ver ao vivo uma implosão.
A primeira implosão foi num hotel de uns
vinte andares às margens do lago. Eu estava com febre alta e fui proibido pelo
médico de sair de casa. Vi a destruição pela televisão no exato momento em que
o fato ocorria.
A segunda implosão foi em um shopping center
abandonado no centro da cidade. Para evitar prejuízos na área comercial a
implosão foi programada para um domingo. Naquele domingo, sim justamente
naquele domingo, naquela hora, eu tive que buscar minha filha que estava
chegando de viagem. Vi a destruição pela televisão. Em replay.
A terceira implosão estava com dia e hora
marcada. Nada impediria que eu fosse ao local para ver a implosão de outro
shopping abandonado. Esperto, fui ao local com bastante antecedência.
Estacionei longe para não ter problemas com congestionamento na hora de ir
embora. Posicionei-me junto da fita de isolamento, sol pelas costas e montei o
tripé para a máquina fotográfica. Bati meia dúzia de fotos. Com objetiva, sem
objetiva. Maravilha. Quem sabe ainda ganho uns cobres com minhas fotos?
O sol estava forte. Faltavam só uns noventa
minutos. Uma hora antes da explosão, conforme anunciado, tocou uma sirene
alertando a população. Outra sirene tocou quando faltava meia hora. A explosão
seria às dez. Agüentei firme no calor. As pessoas empurrando para se aproximar
do limite imposto pela segurança. E eu ali firme com meu tripé. Comentei com um
fotógrafo profissional, que estava do meu lado, que o vento estava forte e que
a poeira da explosão viria rapidamente em nossa direção.
Virei-me para trás para perguntar as horas
quando ouvi o barulho de uma dezena de explosões. Liguei rapidamente a máquina,
a objetiva se moveu lentamente para frente. Dez segundos depois apertei o
obturador. Fotografei a poeira. Poeira que me cobriu antes da segunda foto.
Odioso novo governador. Bem que poderia ter
me telefonado avisando dez segundos antes da implosão. Minha foto virou pó.
17 outubro 2017
MEGASSENA
Com este conto conquistei o meu primeiro troféu literário.
Hoje é quinta-feira. Começo o dia cedo, como todos os outros. Levanto, faço a barba, tomo banho, me visto e escolho uma gravata para combinar com o dia.
Enquanto o café esquenta na velha chaleira, divido uma laranja com Bruna. Do pão francês fico com a parte de baixo. Ela escolheu a parte de cima há vinte e dois anos. Na metade superior, uma fatia de queijo, na inferior manteiga e geléia de uva. Cada um com sua xícara azul.
Escovo os dentes. Laceio a gravata em movimentos rápidos e automáticos.
Trocamos um beijo de hortelã.
– Vai com Deus!
– Fica com Deus!
Desço elevador. Ligo carro. Saio da garagem. Ouço noticiário. Estaciono no trabalho. Subo elevador.
– Bom-dia, Neuza! Bom-dia, José!
– Bom-dia, doutor Eduardo! – respondem os dois juntos com o office-boy.
Leio manchetes. Política, nacional, internacional, será que o Fluminense ganhou? Loterias, megassena: 06, 07, 09, 20, 27, 53. De novo: 06, 07, 09, 20, 27, 53. Será? Seis, sete, nove, vinte, vinte e sete, cinqüenta e três! Calma! Autocontrole! Fique na sua!
– Neuza, já tem café?
Meu Deus! Acumulada!
Abro a carteira e checo os números cuidadosamente mais uma vez. O número do concurso também é o mesmo. Dez, quinze anos, os mesmos números. Acaricio o papelzinho sentindo a euforia na ponta dos dedos. Parece que todos estão olhando para mim. Meu coração entra em ritmo de Marquês de Sapucaí, o sangue corre mais do que o Ayrton Senna. Descubro o que significa delirium tremens. Não é falta de álcool. Sinto falta de ar, de chão. Tudo internamente. Mantenho a fisionomia impassível, tal monge tibetano.
– Duas colheres, por favor. Pode levar o jornal.
Enquanto o café esquenta na velha chaleira, divido uma laranja com Bruna. Do pão francês fico com a parte de baixo. Ela escolheu a parte de cima há vinte e dois anos. Na metade superior, uma fatia de queijo, na inferior manteiga e geléia de uva. Cada um com sua xícara azul.
Escovo os dentes. Laceio a gravata em movimentos rápidos e automáticos.
Trocamos um beijo de hortelã.
– Vai com Deus!
– Fica com Deus!
Desço elevador. Ligo carro. Saio da garagem. Ouço noticiário. Estaciono no trabalho. Subo elevador.
– Bom-dia, Neuza! Bom-dia, José!
– Bom-dia, doutor Eduardo! – respondem os dois juntos com o office-boy.
Leio manchetes. Política, nacional, internacional, será que o Fluminense ganhou? Loterias, megassena: 06, 07, 09, 20, 27, 53. De novo: 06, 07, 09, 20, 27, 53. Será? Seis, sete, nove, vinte, vinte e sete, cinqüenta e três! Calma! Autocontrole! Fique na sua!
– Neuza, já tem café?
Meu Deus! Acumulada!
Abro a carteira e checo os números cuidadosamente mais uma vez. O número do concurso também é o mesmo. Dez, quinze anos, os mesmos números. Acaricio o papelzinho sentindo a euforia na ponta dos dedos. Parece que todos estão olhando para mim. Meu coração entra em ritmo de Marquês de Sapucaí, o sangue corre mais do que o Ayrton Senna. Descubro o que significa delirium tremens. Não é falta de álcool. Sinto falta de ar, de chão. Tudo internamente. Mantenho a fisionomia impassível, tal monge tibetano.
– Duas colheres, por favor. Pode levar o jornal.
No catálogo telefônico busco a Caixa Econômica Federal. Anoto meia dúzia de telefones e guardo no bolso da camisa. A manhã está improdutiva. Junto todas as forças para não declarar minha explosão interna e, ao mesmo tempo, me conter, aguardando o número de ganhadores com os quais terei que dividir dezessete, dezessete, dezessete maravilhosos, gostosos, vistosos, cheirosos milhões de reais. Oito milhões de dólares. Isso é dinheiro que só o cão! Isso é dinheiro em qualquer lugar do mundo!
Na hora do almoço, nem saio do estacionamento. Alucinadamente procuro nas estações do rádio a notícia com o número de vencedores. Nada! Angustiado parto em busca de uma lotérica.
– Me dá um volante da esportiva? É verdade que teve vencedor da Mega Sena daqui de Brasília?
– Sozinho! Cara rabudo! Se fosse eu largava emprego e mulher ao mesmo tempo. Ainda falava umas boas para cada um!
– Me dá um volante da esportiva? É verdade que teve vencedor da Mega Sena daqui de Brasília?
– Sozinho! Cara rabudo! Se fosse eu largava emprego e mulher ao mesmo tempo. Ainda falava umas boas para cada um!
Dirijo até a Caixa Econômica e do estacionamento, com o celular, ligo para o primeiro número guardado no bolso da camisa.
– Por favor, uma informação: acertei algumas quinas da megassena e gostaria de saber com quem devo conversar para retirar o dinheiro?
– Senhor, estamos na hora do almoço. Telefone mais tarde.
– Obrigado.
Ligo para o segundo número.
Para a mesma pergunta recebo a informação que devo conversar com o gerente Robson a partir das quatorze e trinta. Quinto andar.
– Por favor, uma informação: acertei algumas quinas da megassena e gostaria de saber com quem devo conversar para retirar o dinheiro?
– Senhor, estamos na hora do almoço. Telefone mais tarde.
– Obrigado.
Ligo para o segundo número.
Para a mesma pergunta recebo a informação que devo conversar com o gerente Robson a partir das quatorze e trinta. Quinto andar.
A pé, busco nas proximidades algum restaurante simples. Comida a peso. Vai manso, por enquanto você só tem um papelzinho amassado no bolso da calça. A consciência sempre mantém o diálogo aberto. Muita salada, frango grelhado e algumas verduras. A fome está presente, entretanto é difícil de engolir nesta tensão. Suco de maracujá para acalmar os nervos. Sento-me à mesa. Tenho a impressão de que todos estão olhando para mim. Será que está tão claro que sou o mais novo felizardo do planeta? Pago oito reais e setenta centavos. Exijo troco. Como sempre fiz.
Quatorze e trinta e cinco.
– O seu Robson se encontra?
– Pois não, em que posso ajudá-lo?
Meu coração lateja, sacode, pula.
– Acertei umas quinas da megassena e quero saber como sacar o dinheiro?
– Parabéns! Vamos abrir uma conta, senhor... como é mesmo seu nome?
– O seu Robson se encontra?
– Pois não, em que posso ajudá-lo?
Meu coração lateja, sacode, pula.
– Acertei umas quinas da megassena e quero saber como sacar o dinheiro?
– Parabéns! Vamos abrir uma conta, senhor... como é mesmo seu nome?
Debêntures, open market, IPC, IGP-M, impostos sobre aplicações financeiras, factoring, commercial papers, fundos de investimentos, mercados futuros, carteira de ativos... e três horas de aula foram suficientes para acreditar no profissionalismo do seu Robson.
Exatos dez por cento em aplicação de seis meses. Novecentos mil em outra aplicação de médio prazo. Cinqüenta mil em curto prazo. Disponibilizo aproximadamente trinta mil reais e o restante – já estou pirado – chamando quatorze milhões e oitocentos mil de restante, investidos em várias opções.
Exatos dez por cento em aplicação de seis meses. Novecentos mil em outra aplicação de médio prazo. Cinqüenta mil em curto prazo. Disponibilizo aproximadamente trinta mil reais e o restante – já estou pirado – chamando quatorze milhões e oitocentos mil de restante, investidos em várias opções.
Retorno tarde ao trabalho. Ninguém pergunta o porquê do meu atraso. É comum ter que visitar clientes após o almoço. Acho ótimo. Parece que o resto da tarde será absolutamente tranqüilo. Eu preciso acender uma vela e agradecer a Santo Expedito. Mentalmente começo a procurar a melhor forma de ajudar garotos carentes a se profissionalizarem. Não darei nada a eles, ensinarei. O quê, quem, aonde, como, são perguntas cujas respostas têm 10% e prazo de seis meses de aplicação.
À noite, o hábito. Jantamos e vimos mais um capítulo da novela. Após o noticiário, Bruna conversou longamente ao telefone enquanto o forno entrava em ação mais uma vez. Deliciosos pãezinhos de queijo para o futebol e a cerveja gelada. Bruna não desconfia de nada. Nem olha para mim.
Na sexta-feira não altero a rotina.
Barba, banho, gravata para combinar com o dia. Café, chaleira, laranja, Bruna, queijo, geléia de uva, xícara azul.
Elevador, garagem, noticiário, estacionamento, elevador.
– Bom-dia, Neuza! Bom-dia, José!
– Bom-dia, doutor Eduardo! – Responde o trio, incluído o office-boy.
Leio as manchetes. Política, nacional, internacional, esportes.
– Neuza, já tem café?
Duas diferenças imperceptíveis estavam presentes. Um talão de cheques recheado e a cabeça em convulsão. Ninguém estava mais olhando para mim. Estou disfarçando bem! Estou orgulhoso da minha estratégia.
Minha mesa tem poucos papéis. Telefono para a matriz em São Paulo e resolvo uma das três pendências. Com José troco algumas idéias e passo todas as informações a respeito da grande licitação da qual a empresa participará em quinze dias. Numa folha de papel rascunho o roteiro e listo as pessoas envolvidas no processo do projeto de lei que interessa à empresa. O resto é apenas o resto. Vou cuidar da minha vida.
Eu havia observado uma construção nova na Asa Norte, bairro nobre do Plano Piloto. Construtora séria, cumpridora de prazos, bons acabamentos. Alguns telefonemas depois descubro que o lançamento das unidades, apartamentos de três quartos, só deverá acontecer em duas ou três semanas. Agendo uma visita ao canteiro de obras com a finalidade de conhecer o projeto e os acabamentos. O engenheiro é obrigado a disponibilizar o memorial descritivo. Do corretor quero apenas conhecer as condições de compra e financiamento.
Após o expediente procuro Aninha. Minha doce e querida Aninha. Ela mora numa pequena quitinete. Eram conhecidos por apartamentos JK. Janela e Kuarto. Na cabeceira, um porta-retratos com uma foto onde aparecemos abraçados. Ao fundo o Pão de Açúcar. Quando completou vinte anos a levei para conhecer o Rio de Janeiro. Lá se vão outros dois anos. Debaixo do porta-retratos está o boleto para o aluguel da kit. Aninha fica muito constrangida e eu também não gosto do assunto. Deixo o dinheiro junto do porta-retratos e ninguém fala disso. Aninha é esforçada, durante o dia trabalha em escritório e à noite estuda. Forma-se no fim do ano em administração de empresas. O dinheiro está muito curto. Apesar da insistência de Aninha, saio para não aborrecer Bruna.
O jantar e a novela me aguardam.
Barba, banho, gravata para combinar com o dia. Café, chaleira, laranja, Bruna, queijo, geléia de uva, xícara azul.
Elevador, garagem, noticiário, estacionamento, elevador.
– Bom-dia, Neuza! Bom-dia, José!
– Bom-dia, doutor Eduardo! – Responde o trio, incluído o office-boy.
Leio as manchetes. Política, nacional, internacional, esportes.
– Neuza, já tem café?
Duas diferenças imperceptíveis estavam presentes. Um talão de cheques recheado e a cabeça em convulsão. Ninguém estava mais olhando para mim. Estou disfarçando bem! Estou orgulhoso da minha estratégia.
Minha mesa tem poucos papéis. Telefono para a matriz em São Paulo e resolvo uma das três pendências. Com José troco algumas idéias e passo todas as informações a respeito da grande licitação da qual a empresa participará em quinze dias. Numa folha de papel rascunho o roteiro e listo as pessoas envolvidas no processo do projeto de lei que interessa à empresa. O resto é apenas o resto. Vou cuidar da minha vida.
Eu havia observado uma construção nova na Asa Norte, bairro nobre do Plano Piloto. Construtora séria, cumpridora de prazos, bons acabamentos. Alguns telefonemas depois descubro que o lançamento das unidades, apartamentos de três quartos, só deverá acontecer em duas ou três semanas. Agendo uma visita ao canteiro de obras com a finalidade de conhecer o projeto e os acabamentos. O engenheiro é obrigado a disponibilizar o memorial descritivo. Do corretor quero apenas conhecer as condições de compra e financiamento.
Após o expediente procuro Aninha. Minha doce e querida Aninha. Ela mora numa pequena quitinete. Eram conhecidos por apartamentos JK. Janela e Kuarto. Na cabeceira, um porta-retratos com uma foto onde aparecemos abraçados. Ao fundo o Pão de Açúcar. Quando completou vinte anos a levei para conhecer o Rio de Janeiro. Lá se vão outros dois anos. Debaixo do porta-retratos está o boleto para o aluguel da kit. Aninha fica muito constrangida e eu também não gosto do assunto. Deixo o dinheiro junto do porta-retratos e ninguém fala disso. Aninha é esforçada, durante o dia trabalha em escritório e à noite estuda. Forma-se no fim do ano em administração de empresas. O dinheiro está muito curto. Apesar da insistência de Aninha, saio para não aborrecer Bruna.
O jantar e a novela me aguardam.
Sábado é dia de levar a roupa à lavanderia, fazer compras no supermercado, lavar o carro, mandar consertar novamente o liqüidificador... Faço tudo com enorme rapidez. Sobrou um pouco de tempo para passar em uma agência de turismo e pegar alguns folders de turismo. Roteiros na terra de Monet, Cézanne e Toulouse-Lautrec. Escondo tudo num envelope pardo. No porta-malas.
O encontro para a sagrada feijoada dos sábados tem hora certa para começar. Terminar, só quando o dia virar noite. Entupidos de alegria, feijoada e cerveja.
Domingo é dia de preguiçar. Sempre foi. Sempre será. Preguiça de levantar, preguiça de fazer a barba, preguiça de ler o jornal, preguiça de tirar o pijama, preguiça de mudar de canal... Não pode ter preguiça de fazer o almoço nem de dormir depois do almoço. O dia acabou depois do futebol e o dos fantásticos gols. E o segredo não foi revelado, nem descoberto.
Barba, banho, gravata para combinar com o dia. Café, chaleira, laranja, Bruna, queijo, geléia de uva, xícara azul.
Elevador, garagem, noticiário, estacionamento, elevador.
– Bom-dia, Neuza! Bom-dia, José!
– Bom-dia, doutor Eduardo! – Respondeu o grupo, incluindo o office-boy.
Leio as manchetes. Política, nacional, internacional, loterias, megassena. Prêmio do vencedor: novecentos e sessenta mil reais.
Seu Robson acertou em cheio: o valor do prêmio do vencedor seria em torno de novecentos e cinqüenta mil reais.
– Neuza, por favor, providencie uma passagem para São Paulo, amanhã no primeiro horário, com volta prevista ao fim do dia.
Tenho sorte mais uma vez. Somente um ganhador. Meu álibi está pronto. Escrevo a carta de demissão em caráter irrevogável, por razões pessoais. Preparo um breve relatório das minhas atividades e esboço um mapa para futuras intervenções da empresa em terras e gabinetes candangos. Elogios para José que já está em condições de pegar no timão e comandar a nau brasiliense.
À tarde visito o canteiro da obra. Certifico-me da posição solar. Sala em forma de ele, suíte e banheiro social, pisos em granito. Vista para o lago. Varanda na sala. Aninha terá uma varanda para colocar suas plantas e eu terei espaço para dormir na rede após um delicioso almoço. Aninha tem muitos predicados. A cozinha é um deles. Eu ainda terei que comprar os móveis. Aninha é exigente e tem muito bom gosto.
Com o corretor a conversa é fácil. Quinto andar, de canto. Ele quer vender e eu comprar. Consigo um contrato diferenciado. Cinqüenta por cento de entrada, trinta por cento na entrega das chaves e o restante assim que não houver nenhuma pendência construtiva no imóvel. Ainda escolho a melhor vaga da garagem. Guardo num envelope com timbre da Construtora.
Chego cedo em casa. Bruna me recebe alegre dizendo que fez uma canja de galinha especial, do jeitinho que eu gostava. Se fosse por ela, teríamos faisão. Eu só estava pensando naquela dinheirama toda. No meu segredo e no apartamento que comprei à tarde.
– Deliciosa canja! – Murmurei, ao servir-me pela segunda vez. – Terei que viajar para São Paulo amanhã. Retorno à noite.
– O que você tem, Edu? Está tão quieto! Alguma coisa no trabalho?
– Apenas cansado. Tem café?
Eu não quero conversar. Poderei externar meus sentimentos e o meu segredo. Bruna vai saber na hora certa. Da forma que merece! Não agora.
Durante a novela Bruna ainda pergunta, mais uma vez, se está tudo bem. E mais uma vez respondo que estou um pouco cansado. Levanto e vou dormir.
O encontro para a sagrada feijoada dos sábados tem hora certa para começar. Terminar, só quando o dia virar noite. Entupidos de alegria, feijoada e cerveja.
Domingo é dia de preguiçar. Sempre foi. Sempre será. Preguiça de levantar, preguiça de fazer a barba, preguiça de ler o jornal, preguiça de tirar o pijama, preguiça de mudar de canal... Não pode ter preguiça de fazer o almoço nem de dormir depois do almoço. O dia acabou depois do futebol e o dos fantásticos gols. E o segredo não foi revelado, nem descoberto.
Barba, banho, gravata para combinar com o dia. Café, chaleira, laranja, Bruna, queijo, geléia de uva, xícara azul.
Elevador, garagem, noticiário, estacionamento, elevador.
– Bom-dia, Neuza! Bom-dia, José!
– Bom-dia, doutor Eduardo! – Respondeu o grupo, incluindo o office-boy.
Leio as manchetes. Política, nacional, internacional, loterias, megassena. Prêmio do vencedor: novecentos e sessenta mil reais.
Seu Robson acertou em cheio: o valor do prêmio do vencedor seria em torno de novecentos e cinqüenta mil reais.
– Neuza, por favor, providencie uma passagem para São Paulo, amanhã no primeiro horário, com volta prevista ao fim do dia.
Tenho sorte mais uma vez. Somente um ganhador. Meu álibi está pronto. Escrevo a carta de demissão em caráter irrevogável, por razões pessoais. Preparo um breve relatório das minhas atividades e esboço um mapa para futuras intervenções da empresa em terras e gabinetes candangos. Elogios para José que já está em condições de pegar no timão e comandar a nau brasiliense.
À tarde visito o canteiro da obra. Certifico-me da posição solar. Sala em forma de ele, suíte e banheiro social, pisos em granito. Vista para o lago. Varanda na sala. Aninha terá uma varanda para colocar suas plantas e eu terei espaço para dormir na rede após um delicioso almoço. Aninha tem muitos predicados. A cozinha é um deles. Eu ainda terei que comprar os móveis. Aninha é exigente e tem muito bom gosto.
Com o corretor a conversa é fácil. Quinto andar, de canto. Ele quer vender e eu comprar. Consigo um contrato diferenciado. Cinqüenta por cento de entrada, trinta por cento na entrega das chaves e o restante assim que não houver nenhuma pendência construtiva no imóvel. Ainda escolho a melhor vaga da garagem. Guardo num envelope com timbre da Construtora.
Chego cedo em casa. Bruna me recebe alegre dizendo que fez uma canja de galinha especial, do jeitinho que eu gostava. Se fosse por ela, teríamos faisão. Eu só estava pensando naquela dinheirama toda. No meu segredo e no apartamento que comprei à tarde.
– Deliciosa canja! – Murmurei, ao servir-me pela segunda vez. – Terei que viajar para São Paulo amanhã. Retorno à noite.
– O que você tem, Edu? Está tão quieto! Alguma coisa no trabalho?
– Apenas cansado. Tem café?
Eu não quero conversar. Poderei externar meus sentimentos e o meu segredo. Bruna vai saber na hora certa. Da forma que merece! Não agora.
Durante a novela Bruna ainda pergunta, mais uma vez, se está tudo bem. E mais uma vez respondo que estou um pouco cansado. Levanto e vou dormir.
No avião abro o envelope pardo e estudo as possibilidades francesas.
Às nove horas em ponto estou na matriz. Sou logo recebido pelo Dr. Rubens. Com o café ainda na xícara entrego a minha demissão e o planejamento para as futuras ações da empresa em Brasília.
Dr. Rubens sempre que tem um problema fica silencioso por um longo minuto esfregando o lóbulo da orelha esquerda entre o polegar e o indicador.
– Ok, Eduardo. Entendi e respeito sua posição. Agora, cá entre nós, qual é o verdadeiro motivo?
Pergunto se ele ainda se lembrava da história daquela tia querida que morava seis meses em Paris e seis meses no Rio de Janeiro. Logo após a afirmativa explico que ela faleceu algum tempo atrás e que no espólio fiquei como herdeiro único. Terei que viajar em breve para a França para resolver algumas questões burocráticas.
Dr. Rubens sempre foi muito prático. Aproveitou minha presença e questionou sobre a capacidade do José, o quanto estava a par dos interesses da empresa, se conhecia nossos clientes, se eu poderia indicar alguém para a atual função de José e todas aquelas coisas que se perguntam num momento destes. Declinei do convite para almoçarmos juntos. Ainda queria aproveitar a tarde para resolver mais uma coisinha.
Saio a pé. Necessito caminhar um pouco para aliviar minha tensão de blefador. No centro da cidade não sinto segurança. Entro no metrô, troco de linha na estação Paraíso e desembarco em frente ao MASP. Caminho uma quadra e faço um lanche rápido. Encontro uma agência de turismo de gente graúda.
Eu sei o que quero. Um mês na França, ou mais. Dez dias em Paris. Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Louvre, Sena, Notre Dame, Moullin Rouge, Sorbonne, Maxim´s, Place Vendôme, Museu Baccarat, Ópera de Paris, Basílica Sacré-Coeur, Folies Pigalle. Meu Deus, quantas opções! Bordeaux, Montpellier, Marseille, St.Tropez, Toulon, Nice, Cannes, Lyon. Quantos roteiros! Quantas possibilidades! Vualá!
A experiência da agente foi fundamental. Preparou um pacote para turistas de primeira viagem. Pacote embrulhado com laço de fitas, para presente!
Antes do terceiro cafezinho estava com as duas passagens na mão. Guardo as passagens e os roteiros em envelope branco.
Em dez dias embarcaremos e ela conhecerá um pouco mais do que o Rio de Janeiro.
Ainda na agência de turismo ligo para Aninha.
– Aninha, vou falar rápido porque estou quase sem bateria! Sei que você tem aula, entretanto me espere às oito, lá no Beirute. Tenho que conversar com você! Chame também sua mãe. Vou desligar. Estou falando de São Paulo. Beijos, até daqui a pouco.
Às nove horas em ponto estou na matriz. Sou logo recebido pelo Dr. Rubens. Com o café ainda na xícara entrego a minha demissão e o planejamento para as futuras ações da empresa em Brasília.
Dr. Rubens sempre que tem um problema fica silencioso por um longo minuto esfregando o lóbulo da orelha esquerda entre o polegar e o indicador.
– Ok, Eduardo. Entendi e respeito sua posição. Agora, cá entre nós, qual é o verdadeiro motivo?
Pergunto se ele ainda se lembrava da história daquela tia querida que morava seis meses em Paris e seis meses no Rio de Janeiro. Logo após a afirmativa explico que ela faleceu algum tempo atrás e que no espólio fiquei como herdeiro único. Terei que viajar em breve para a França para resolver algumas questões burocráticas.
Dr. Rubens sempre foi muito prático. Aproveitou minha presença e questionou sobre a capacidade do José, o quanto estava a par dos interesses da empresa, se conhecia nossos clientes, se eu poderia indicar alguém para a atual função de José e todas aquelas coisas que se perguntam num momento destes. Declinei do convite para almoçarmos juntos. Ainda queria aproveitar a tarde para resolver mais uma coisinha.
Saio a pé. Necessito caminhar um pouco para aliviar minha tensão de blefador. No centro da cidade não sinto segurança. Entro no metrô, troco de linha na estação Paraíso e desembarco em frente ao MASP. Caminho uma quadra e faço um lanche rápido. Encontro uma agência de turismo de gente graúda.
Eu sei o que quero. Um mês na França, ou mais. Dez dias em Paris. Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Louvre, Sena, Notre Dame, Moullin Rouge, Sorbonne, Maxim´s, Place Vendôme, Museu Baccarat, Ópera de Paris, Basílica Sacré-Coeur, Folies Pigalle. Meu Deus, quantas opções! Bordeaux, Montpellier, Marseille, St.Tropez, Toulon, Nice, Cannes, Lyon. Quantos roteiros! Quantas possibilidades! Vualá!
A experiência da agente foi fundamental. Preparou um pacote para turistas de primeira viagem. Pacote embrulhado com laço de fitas, para presente!
Antes do terceiro cafezinho estava com as duas passagens na mão. Guardo as passagens e os roteiros em envelope branco.
Em dez dias embarcaremos e ela conhecerá um pouco mais do que o Rio de Janeiro.
Ainda na agência de turismo ligo para Aninha.
– Aninha, vou falar rápido porque estou quase sem bateria! Sei que você tem aula, entretanto me espere às oito, lá no Beirute. Tenho que conversar com você! Chame também sua mãe. Vou desligar. Estou falando de São Paulo. Beijos, até daqui a pouco.
O momento é especial. Chego um pouco antes, solicito um prato de quibes e peço uma cerveja. Minha cabeça está novamente acelerada.
– Garçom, por favor, dê uma olhada na minha mesa. Vou até o carro e já volto.
Retorno rapidamente com o envelope branco.
Aninha chegou esbaforida e quase de forma mal-educada perguntou o que é que havia de tão urgente?
Estou muito ansioso. Guardando segredos e fazendo mistérios, pedindo demissão – tanto dinheiro... Resolvo entrar em erupção.
Estendo o envelope com o timbre da construtora.
– Não estou entendendo direito. Você comprou um enorme apartamento? ... você... eu... está no meu nome...
Aninha pulou da cadeira e me abraçou como criancinha, e como criancinha sentou no meu colo. Não parava de rir e de me abraçar.
Neste exato momento, Bruna aparece.
E grita de longe.
– Que bagunça é essa?
Todos olham para mim.
– Mãe, papai comprou um apartamento para mim!
Bruna sempre foi muito esbanjadora e ciumenta e logo perguntou de onde veio o dinheiro para isso.
– Antes de responder, gostaria que abrisse este envelope. Estendo a mão com envelope branco, o das passagens e o roteiro.
Será que a cadeira aguenta? Somos três figuras abraçadas pulando loucamente de alegria.
– Garçom, por favor, dê uma olhada na minha mesa. Vou até o carro e já volto.
Retorno rapidamente com o envelope branco.
Aninha chegou esbaforida e quase de forma mal-educada perguntou o que é que havia de tão urgente?
Estou muito ansioso. Guardando segredos e fazendo mistérios, pedindo demissão – tanto dinheiro... Resolvo entrar em erupção.
Estendo o envelope com o timbre da construtora.
– Não estou entendendo direito. Você comprou um enorme apartamento? ... você... eu... está no meu nome...
Aninha pulou da cadeira e me abraçou como criancinha, e como criancinha sentou no meu colo. Não parava de rir e de me abraçar.
Neste exato momento, Bruna aparece.
E grita de longe.
– Que bagunça é essa?
Todos olham para mim.
– Mãe, papai comprou um apartamento para mim!
Bruna sempre foi muito esbanjadora e ciumenta e logo perguntou de onde veio o dinheiro para isso.
– Antes de responder, gostaria que abrisse este envelope. Estendo a mão com envelope branco, o das passagens e o roteiro.
Será que a cadeira aguenta? Somos três figuras abraçadas pulando loucamente de alegria.
05 outubro 2017
Mulheres que mordem
mulheres que mordem
BEATRIZ
LEAL
Ímã Editoral
120 páginas
R$ 45,00
Há diversas
formas de começar um livro.
A minha,
costumeiramente, é pela capa. A imagem é de sensualidade quase explícita. Mas o título não corresponde ao desenho.
Então fui impactado pela segunda vez com uma questão mentalmente não resolvida.
A dica do
enigma veio na contracapa falando em quatro mulheres, quatro mordidas. Aí
percebi a genial simbiose da ilustração com o título. Sou leigo em botânica. Mulheres
são representadas pelas flores enquanto a mordida é símbolo da agressividade,
da pessoa guerreira então nada melhor que uma planta carnívora. A percepção sexual
fica para a cabeça pervertida deste leitor.
Particularmente
desgosto de resgate de histórias — tão na moda — dos tempos da ditadura. Seja
de um lado ou de outro.
Este tem
alguns diferenciais. Foi finalista do Jabuti, é de autora jovem que não
vivenciou aqueles tempos, é brasiliense, foi indicada pelo clube de leitura e
me entregou o livro com uma dedicatória.
Imagino que
tenha sido tarefa difícil escrever sobre a ditadura argentina que a autora não
vivenciou.
Em cada
capítulo conhecemos pedaços de histórias de personagens.
Em inteligente
combinação, o nome dos personagens – em negrito – inicia capítulos quando não
são os visivelmente reconhecíveis relatórios ou as cartas – em itálico – de
Rosa.
Os personagens
foram bem trabalhados de modo que cada um tivesse “voz” e personalidade
diferenciada.
A narradora apresenta Elena como obsessiva
esposa de militar, que “só teria de aprender a conviver com a disciplina que já
tinha contaminado os passos de Ramiro.”... “Ela se ocupava contando quantas
mastigadas havia dado no frango, movimentando a arcada dentária inferior em
direção à superior no ritmo da música que tocava”... “Elena só não contava
mastigadas quando ouvia de longe os passos fortes de Ramiro. Cinco anos depois,
ela sabia que ele precisava invariavelmente de 59 passos para chegar do quarto
á cozinha, de manhã, após acordar.”.
Laura, a arredia filha adotada, é apresentada
em época diferente. Já adulta. “tomando cuidado para não tropeçar nas raízes
protuberantes de árvores”... “E sente um leve prazer quando tropeça, mapeando
qual foi o pensamento responsável por fazê-la parar de prestar atenção no chão.”...
“Criou um tipo de intimidade com a cidade que ninguém mais tira. No entanto, há
dias em que ainda sente uma peça vazia.”.
Por meio das
cartas sabemos que Rosa é mãe da militante Clara.
Conhecemos o
torturador por meio do relatório de entrevista na imigração.
À pergunta “—
E por que ela foi mantida viva tanto tempo?” Respondeu: “Quando ela chegou,
logo descobriram que estava grávida, e de pouco tempo ainda. Então
mantiveram-na, até o bebê nascer, em regime especial. Para que não abortasse
espontaneamente, a gente tinha limite nas metodologias que podíamos aplicar.
Tínhamos que conseguir alguma
informação, mas os limites para mulheres grávidas eram mais estabelecidos. Era
como se os bebês dessem a elas um pouco de chance a mais. Não entendo por quê,
se a ideia era que todo mundo morresse mesmo. “.
Os conflitos
aos poucos se fecham em torno de um final não previsível, mas quase feliz,
porque não há felicidade possível na opressão.
03 outubro 2017
TODOS OS ABISMOS CONVIDAM PARA UM MERGULHO
TODOS
OS ABISMOS CONVIDAM PARA UM MERGULHO
Cinthia Kriemler
Editora Patuá
272 páginas
R$ 45 no site da editora
O título do
livro é um indicativo da leitura que nos espera. Se você é do tipo mimimi,
gosta de poesia lírica, rosas perfumadas e sedutores príncipes encantados
procure a sua turma. Este livro é para os que sabem a diferença entre amor e
sexo. E que também sabem que mortos, muito além das qualidades enumeradas pelo
padre na beira do túmulo, fedem.
A autora não
faz pacto com o leitor propondo histórias terríveis e solicitando o obséquio para
o leito acreditar. Tudo é verossímil. Narrado em primeira pessoa, tudo é real e
verdadeiro. Quando a luz se vai, a escuridão penetra.
Trata-se de
uma assistente social depressiva que atende fragilizados na violência
doméstica. A escolha da profissão não é opção masoquista para ouvir e intervir
em dramas familiares. A protagonista vivenciou o terror com o pai, mãe e filha.
Ela é forte. Objetiva minimizar o sofrimento de quem é subjugado.
Beatriz
precisa entrevistar um pai. “Tenho que ouvir o depoimento desse lixo sem me
alterar. Não posso apertar os lábios, nem franzir a testa, nem arquear as
sobrancelhas, nem balançar o pé, nem fazer ironia, nem respirar com força. Nem,
nem, nem, nem. Nenhum antagonismo. Imparcialidade, Beatriz, imparcialidade.
Somos pessoas muito civilizada, nós que ouvimos sobre incestos, estupros,
porradas, queimaduras, facadas, estrangulamentos, afogamentos, tiros,
overdoses, suicídios. Que buscamos em cada abusador — pai, mãe, tio, irmão,
namorado, colega, professor — um indício de arrependimento por seus crimes.
Mesmo sabendo que isso nunca acontece.”.
E prossegue
mais adiante: “Dentro de alguns dias entrego um laudo ao juiz. Que vai juntá-lo
ao de um psicólogo. Ambos servirão para determinar o seu destino. No meu lado
vai estar escrito que você representa uma ameaça à usa companheira, ao seu
filho e à sociedade. Que você é um pedófilo desgraçado que pratica incesto. Uma
aberração. Mas tudo dito de maneira civilizada. Baseado em depoimentos, fatos,
provas. Como se não houvesse dentro de mim uma besta capaz de morder. Eu mordo.
Forte. Se eu pudesse dizer o que penso, diria aos seus algozes na cadeia para
não matar você logo. Pediria que o mantivessem vivo, sendo humilhado, estuprado
por um, por dois, por dez homens, apanhando até ficar roxo. Só não quero que
você morra. É tão pouco.“.
Não
é à toa que ela se chama Beatriz: aquela que faz ou procura fazer os outros
felizes; que a psicóloga se chama Clarice: a que brilha, a que traz luz e que a
filha Laura é aquela que se deixa dominar por sentimentos contrários, que se
preocupa com a opinião dos outros.
A narrativa
tem palavras de fácil compreensão, dispensa dicionários. O dicionário não é o
instrumento para mensurar a escrita. O conteúdo pesado necessita de balança.
Sou
fã da escrita de Cinthia Kriemler, entretanto esta leitura não é recomendada
após as refeições tampouco antes de dormir.
21 setembro 2017
A RESISTÊNCIA
A RESISTÊNCIA
Julián Fuks
144 páginas
Companhia das Letras
R$ 30,00
Poucos foram
os livros que li duas vezes. Este, li uma quase seguida da outra.
O romance é
ótimo. Tanto que recebeu merecidamente o Jabuti de melhor romance e segundo
colocado no Prêmio Oceanos de Literatura. Fuks também foi eleito um dos
melhores jovens escritores em 2012 além de ter sido finalista do Jabuti e do
Brasil Telecom em outras duas ocasiões. Tive a oportunidade de conhecê-lo num
bate-papo promovido pelo CCBB em Brasília. O cara é fera.
A mim, além da
história interessou-me a forma de contar. O livro é uma aula. É uma oficina
para quem se dispuser a ler como um escritor.
Narrado em
primeira pessoa, é autoficcional, inicia impactante na primeira frase: “Meu
irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.“.
Fala sobre a desimportância
da necessidade dos laços sanguíneos para haver fraternidade. Relata inúmeros
casos que poderiam ter acontecido com qualquer filho de qualquer família,
adotado ou não. Só que o irmão adotado se descobre neto das Avós da Praça de Maio.
Em vez de
tentar fazer uma sinopse, passo a palavra ao autor no Capítulo 18.
O narrador em
busca do apartamento em que os pais moraram em Buenos Aires, ainda nos anos de
chumbo, sem discurso prévio, cria um interlocutor porteiro. “Procuro um casal
que morou aqui há muito tempo”. “Tiveram que partir de súbito”. Percebo a incompreensão. “Pero usted no sabe sus nombres?” “ Sim, eu sei, eles são meus pais,
o bebê é meu irmão, eu sei onde estão, eles não desapareceram”. “Só queria
conhecer o apartamento onde viveram porque estou escrevendo um livro a respeito”
e segue adiante “Um livro sobre meu irmão, sobre dores e vivências de infância,
mas também sobre perseguição e resistência, sobre terror, tortura e desaparecimentos.”.
Fuks toca a sensibilidade
do leitor sem ser piegas.
Há inúmeras resenhas
e aplausos na Internet. O meu foco vai para a escrita.
Fuks é mestre
nas aberturas de capítulos. O sétimo se inicia com “Isto não é uma história.
Isto é história.”. No vigésimo terceiro, assusta: “Hoje sonhei com a morte do
meu irmão.”.
No terceiro
capítulo, o narrador sabe da importância de um episódio, mas tem ciência da impossibilidade
de recordar os fatos exatamente como aconteceram. Então constrói o cenário.
“Ele é adotado
disse a uma prima”. ... “eu devia ter uns cinco anos” ... “Estávamos num carro”
... “Fez-se um silêncio imediato” ... “Posso ter levado um cutucão discreto da
minha irmã” ... “Tão contundente foi aquele silêncio que dele me lembro até
hoje.”.
“Na minha
lembrança os olhos do meu irmão estavam lacrimosos, mas desconfio que essa seja
uma nuance inventada, acrescida nas primeiras vezes que rememorei o episódio,
turvado já por algum remorso. Ele estava sentado no banco da frente. Se chorava,
decerto continha qualquer soluço e escondia as lágrimas com as mãos ou; ou
voltava o rosto para a janela, extraviava a vista em presumíveis pedestres. O
caso é que não me olharia, não viraria para trás. Talvez fossem os meus, os
olhos lacrimosos.”
Da mesma forma,
confira as cenas do jantar em que os convidados não apareceram ou quando os
pais participaram de uma convocação da resistência portenha em São Paulo.
Gosto
das reflexões e pensamentos do narrador, sobretudo porque não diz, não narra.
Mostra ou apresenta os fluxos de consciência nas cenas.
Ao
contrário de tantas biografias, este autor, sem constrangimentos, mostra as
ferramentas de escritor ao externar “vejo ou invento meu irmão” (capítulo 8) ou
outras como “especulo como meus avós reagiram”, “transito na imaginação”, “visito
o museu da memória”(pág 93), “um truque alternativo, a vontade de forjar
sentidos que a vida se recusa a dar.” (pág 95).
Na penúltima
linha do penúltimo capítulo, o narrador apresenta o seu nome: Sebastián. Com
acento no último “a” como Julián. Confessadamente um alterego do autor ou
heterônimo como preferem alguns poetas.
Finalizo
os comentários dizendo que recomendo a leitura com entusiasmo. Tanto que indiquei
ao grupo de leitura a que pertenço proporcionando-me a releitura.
Roberto Klotz
21 de setembro de 2017
22 agosto 2017
Ciúme é o bicho
Bem de noitezinha sái para comprar um descongestionante
nasal para a minha esposa.
Ao retornar, estacionei na garage e, na porta do
elevador, esperei um pouco pela manobra do vizinho do terceiro.
— A farra foi boa, hem? —exclamei sorrindo solidário.
— Cacete! Até você! Não bastasse a minha mulher para
pegar no meu pé!
— Então dá uma ajeitada no cabelo e arrume os botões da
camisa que estão de casas trocadas.
Sacando a camisa da calça e desabotoando tudo. — Tirei a camisa para limpar o caldo de
feijão. Depois de meia dúzia de chopes,
um caldinho é bom para recuperar as forças.
— Depois de dormir no sofá, eu nunca mais limpei molhos
de tomate da camisa.
— Mulher ciumenta é o bicho.
— Nem me fale.
— Teve uma vez que a minha mulher encontrou um papelzinho
no bolso da minha calça na inspeção antes de ir para a máquina de lavar. Disse o
vizinho enquanto abotoava a camisa.
— E ai?
— Tava anotado o número do CREA. Mas ruminou bobagens o
dia inteiro antes que eu chegasse em casa para ouvir o mundo se acabar em trovoadas.
Não queria acreditar que a gostosa da Crea era Conselho Regional de Engenharia
e Agronomia. Parece que vive noutro planeta!
—
A minha vive em outro planeta. Nem tem perfil no Facebook.
O vizinho ainda deu mais uma ajeitada no cabelo antes de
apertar o 3.
— A minha também não tem Face. Imagine que noutro dia,
enquanto eu estava no banho, chegou alguma mensagem no celular e ela foi ver.
No segundo seguinte berrou no banheiro: — Quem é essa vagaba que quer saber o
que você está pensando?
O elevador chegou ao terceiro. Ele desceu e desejou-me boa-noite.
Eu desejei-lhe boa
sorte.
15 agosto 2017
Semana alienada
Eu me perdi de
mim mesmo. Vaguei sem rumo durante uma semana.
O espelho não
me informava o nome. Não dizia se eu era macho reprodutor, fêmea aposentada ou
criança curiosa. Não havia indícios de cabelos brancos, sobrancelhas
desenhadas, furos nas orelhas ou dentes de leite.
Não chorei
porque esqueci como se chora.
Não reclamei
porque não sabia se deveria reclamar em português, chinês, russo ou na língua
do pê.
Se eu soubesse
quem eram meus pais eu gritaria:
— Socorro
mamãe. — Socorro papai.
A minha
memória não foi afetada. Guardava fatos fundamentais como os nomes das luas de
Marte: Fobos e Deimos. Que Marilyn Monroe era canhota. E que aquele dia, em que
uma alma caridosa me ajudou, era uma quinta-feira.
Ela se disse
casada comigo. Sugeriu que eu fizesse exercícios. Que fosse caminhar como
sempre. Que o sol produziria milagres.
Minha mulher é
sábia.
O milagre
aconteceu quando coloquei o meu calção caminhante e encontrei a minha RG no
bolso.
01 agosto 2017
Sacola de supermercado
Não sou rico, não tenho carro do
ano, mas sou um privilegiado. A minha vizinha é um colosso. Só de vê-la, o sol
ilumina e aquece o hall de elevadores que não tem uma janelinha sequer.
O hall dos elevadores é o nosso
local de encontros secretos. Tão secretos que ela nem sabe que são encontros.
Fiz a assinatura do jornal só pelo
pretexto de pegá-lo bem cedinho na porta de casa e deparar com ela, casualmente,
quase todos os dias, quando sai vestida para a academia.
Embora ela nem sempre responda
aos meus bons dias, tenho certeza que se perfuma só para me enlouquecer ainda
mais.
Já fiz uma série de exercícios
mentais para tentar saber por que me ignora nesses três anos em que
praticamente vivemos sob o mesmo teto. Descartei os fatos de que sou casado, 30
anos mais velho e escritor sem Nobel de Literatura.
Ontem tudo foi diferente. Minhas
preces foram atendidas. Na hora do almoço, encontramo-nos na garagem e entramos
juntos no elevador. Eu segurava duas sacolas de compras de supermercado. Enquanto
ela pressionava o botão do nosso andar perguntou se eu cozinhava.
Em milissegundos enumerei
algumas possibilidades para a resposta:
a)
Ela vai me convidar para jantar;
b)
Ela vai me chamar para ver um programa culinário
na TV;
c)
Ela vai
me ensinar a fazer bolinhos de chuva.
Respondi
que gosto de cozinhar.
— Que bom. Lá na rua do açougue,
aos sábados pela manhã, tem uma feirinha. Tudo natural. Tudo fresquinho. Mais
barato que supermercado. Vai lá!
Quando chegamos ao nosso andar,
nem o sol apareceu.
18 julho 2017
Grande circular
Meus
pensamentos estão envoltos em neblina. Uma cerração de fim de tarde esconde
tudo à esquerda e à direita. Impossível saber se estou no campo ou na cidade. Nenhuma
música, buzina ou latido para me orientar nas brumas do silêncio. Não sei se
estou parado aqui, sozinho, no vazio, há um minuto ou há um dia.
Um
ônibus, sem emitir um único ruído, para à minha frente. A porta dianteira se
abre num convite para a luz e o calor. Subo lentamente os três degraus.
Parece-me mais frio do que do lado de fora. A luz púrpura e o cheiro de éter se
espalham no ônibus. Estranho a poltrona desocupada do motorista.
Na
primeira cadeira um homem pálido, ereto, estático, de pupilas dilatadas, não se
move com a minha presença. A vizinha de cadeira é uma mulher de rosto coberto
com véu rendado. Suas mãos alvas e enrijecidas seguram um terço. Ela também não
se mexe.
Do outro lado
do corredor, também na primeira fila, um sujeito horripilante. Apenas em calças
de pijama expõe as próprias vísceras num enorme corte na barriga. Ao lado dele
há um lugar vazio, como que reservado para mim.
Não quero
sentar ali. Nem mais para trás onde só vislumbro silêncio e rostos cadavéricos.
Pensando em
sair, recuo um passo quando a porta se fecha. Desesperado, procuro outra saída.
O ônibus se coloca em movimento. A cadeira do motorista continua vazia.
— Quero
descer! Grito numa voz muda.
Não há
cordinha para sinalizar minha necessidade de parar.
Preciso frear
o ônibus.
Jogo-me atrás
do volante do motorista, piso o freio com violência. Instintivamente olho no
espelho retrovisor.
Vejo uma
imagem terrível. Meu rosto está rasgado, disforme, ensanguentado.
Compreendi
tudo.
Sou um deles.
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