03 novembro 2014
Monstros à meia-noite
Comer feijoada, leitão
à pururuca ou dois pratos de lasanha à bolonhesa à noite provocam azia, mal
estar, enjoo e perturbam o sono. Nenhuma novidade.
Ler histórias de
fantasmas, monstros, lobos ou dragões à noite também podem causar mal estar e
insônia.
Foi o que ocorreu
comigo esta noite.
Deitei-me e o medo
começou a rondar meus pensamentos. Não consegui dormir. Virei-me para um lado e
para o outro lado. Comecei a contar carneirinhos pulando a cerca e
repentinamente muitos carneirinhos saltaram de uma vez fugindo do lobo mau.
– Quem é que consegue
dormir com um lobo mau no quarto?
Acendi a luz da
cabeceira e os carneirinhos e o lobo desapareceram. O sono começou a apertar e
tornei a apagar a luz.
Ouvi um barulho
estranhíssimo. Arranhava a porta do armário. O monstro com pele de cobra,
chifres azuis e olhos vermelhos estava lixando as pontas das poderosas garras
das patas. Esse monstro era pior que o lobo. Liguei a televisão para distrair o
pensamento.
As notícias mostraram
ataques com bombas no Oriente. Casas destruídas. Gente morrendo. Choro e
tristeza. Desliguei a TV.
A tela preta
transformou-se numa boca escancarada devoradora de gente. Encolhi-me todo sem
tirar o olho da tela e reparei a pequena luz vermelha que se mexia lentamente
na minha direção. Era um pequeno disco voador se aproximando. Homenzinhos
verdes queriam que eu fechasse os olhos para me levar para outro planeta.
Isso não podia estar
acontecendo. Sem fechar os olhos, virei-me de lado na direção da janela.
Percebi uma brisa aliviando meus suores. Até sorri feliz com a minha opção
esperta. O ventinho começou manso. Depois o assobio se transformou em uivo ao
passar pelas frestas da janela. As cortinas brancas levantaram voos fantasmas como
se estivessem saindo do calabouço de um castelo da velha Escócia.
Foi o meu limite.
Nunca mais leio
histórias de monstro antes de dormir.
Levantei para pegar
um copo d’água na cozinha e ver se o netinho estava dormindo bem.
30 outubro 2014
Neblina
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Neblina
Cesar
Veneziani
Editora
Patuá
R$
25,00 no site da editora
148
páginas
Recebi o livro pelo correio e de imediato, mesmo sem conhecer o conteúdo, me apaixonei pelo exemplar.
A
capa maravilhosamente produzida com uma identificação visual muito própria da
editora Patuá. A cor acinzentada, turva,
embaçada, enevoada envolvendo um homem claramente angustiado remete ao título
Neblina. Perfeito. Impactou-me a escolha do papel e as negras páginas pares com
os títulos contrastantes de cada poema.
De
cara topei com o poema concreto Duas
dedicado ao filho
foi assim
duas rodas
u
m
p
o
s
t
e
e duas asas
o levaram de mim.
|
Com
o polegar da mão esquerda segurando a contracapa, os outros dedos na capa e a
mão direita segurando a lombada virei as páginas do livro como se fosse uma
baralho na mão de um experiente croupier.
Os títulos brancos no fundo escuro produziram um delicioso sentimento como se visse
um filme de poemas. No terceiro
movimento, mais lento, observei as páginas ímpares e percebi que as manchas de
poesia em cada página adquiriam formatos diferentes assegurando que o poeta, no
seu segundo livro, mostra-se maduro e confiante ao transitar em diversos
gêneros da poesia.
Foi
o bastante para instigar a leitura.
Nos
sonetos ou poemas livres de rótulos há muito ritmo, cadência e sonoridade como
em Beijo especial em que o movimento fonético
sugere uma leve lânguida lambida. Mais do que melodia, a poesia de Cesar
Veneziani revela saudade amorosa, no meio da névoa descortina frustrações e
resgata a tristeza de momentos nebulosos – “a melancolia de ver, dia após dia,
nada se perpetuar ante os sonhos”.
Dizendo
que “não quero a rima fácil de outro lábio” compôs um livro para ficar em destaque
na estante de livros. Assentei a poesia lá no alto e ela com todo o direito ”me
olhava de cima, toda se achando”.
29 outubro 2014
Justiça com as próprias mãos – artigo 345
Era uma quarta-feira. A
papeleta ao lado da porta da Terceira Vara de Execuções Penais indicava uma audiência
a cada 45 minutos. O juiz, doutor Telles Fagundes, fazia questão de
pontualidade absoluta. Por isso, naquele dia, deixara de almoçar para não
atrasar a agenda.
Durante a audiência das
16h fora avisado pela assessora que o réu da audiência seguinte não viria.
Quando terminou o
julgamento sabia da sua escassez de tempo para sair, almoçar e retornar.
Correu até a Praça de
Alimentação do Shopping próximo e pediu o mais comum dos sanduíches para agilizar
o pedido.
Quase com um glutão,
devorou a refeição em três vigorosas mordidas.
Precisou ir ao banheiro
para limpar a maionese das mãos e da boca.
Pensando no retorno,
apalpou os bolsos à procura da chave do carro e sentiu falta do celular. Tateou
e sondou todos os bolsos da calça e do paletó.
“Que droga” – pensou – deixei o celular em
cima da mesa.
Encaminhou-se para o
grande espaço onde estavam as mesas das lanchonetes. A sua estava ocupada por
um homem enorme que falava ao celular.
Indignou-se com a
desfaçatez do ladrão.
Diminui o passo e
raciocinou que enquanto chamaria a segurança do shopping o meliante teria se
evadido. Se chamasse a polícia demoraria mais ainda. Se discutisse com o
transgressor, chamaria a atenção e poderia virar matéria de jornal e mesmo
assim um inquérito seria instaurado e levaria meses, talvez anos, para
recuperar o celular S5 recém-adquirido. Recordou que aquele celular dispunha de
dois chips de memória de tão grande que era a sua agenda de telefones.
Estava a quinze metros
do ladrão. Precisava agir rápido. A próxima audiência começaria a 17 minutos.
Pediu licença. Sentou-se
ao lado do pilantra e mostrou a Taurus 38 que estava no coldre sob o paletó.
– Me dê o celular, por
favor.
O homenzarrão não
esboçou qualquer reação, apenas estendeu o aparelho.
No segundo seguinte o
juiz levantou-se e voltou às pressas para o tribunal.
Chegou no minuto exato
para a próxima audiência.
Puxou a cadeira e
observou sobre a mesa o seu celular tinindo de novo.
22 outubro 2014
28 agosto 2014
Inverno
Como todos os dias, levanto e olho o tempo pela janela. Nestes últimos
dias de agosto, não existe possibilidade de chuva no Planalto Central. Ao
contrário, em casa colocamos umidificadores para amainar a seca. Na falta,
espalhamos bacias e toalhas molhadas. Crianças são as que mais sofrem.
Pertinho, verde grama irrigada. Mais à frente, suave névoa escondendo
águas adormecidas do Paranoá. Ao fundo o horizonte vermelho.
Troco o pijama por uma camiseta e meias de lã por meias esportivas.
Espreguiço-me e vou caminhar. Na porta de saída do bloco, recebo o impacto do
frio no peito. Aceno para o empacotado porteiro e, em vez de esquerda, escolho
a direita. Às vezes, temos que sair da rotina e mudar os nossos trajetos e
rumos diários. Resolvi trocar calçada decorada com cocô de cachorro de madame
por calçada marginal, no mato ralo, em superquadra ainda não construída.
Ando cem metros e ultrapasso a linha de alcance dos aspersores. A grama
mudou de cor para sem cor. Mais adiante, formigas cruzam a calçada numa trilha
de cavacos marrons desrespeitando o caminho urbanamente civilizado.
Prosseguindo, levanto a vista para o céu sereno e desmaiado. Abro os braços com
as palmas abertas para captar energia. A força vem tão forte que posso senti-la
pousando nas mãos. Emocionado e incrédulo, eu quero ver para crer. Vejo
partículas pretas. Apuro o olhar e constato fuligem. Para muito além da névoa
seca, o fogo pinta o horizonte de vermelho. Na lonjura, a dor é suave e não
dói.
É cedo. O dia acordou preguiçoso, não levantou. Está quase silencioso,
ouço cachorros latirem distantes. Devem ser vira-latas, cachorros escovados
latem mais tarde.
As árvores nativas são feias. Os galhos são tortos e retorcidos. São
errados. Os troncos parrudos têm uma couraça de jacaré para sobreviver nas
queimadas. E nesta época do ano, além de feias, estão nuas mostrando esqueletos
de campos de concentração. Sem conhecê-las, não damos valor.
A cabeça antenada, recém-despertada, capta, sem chiados e sem interferências,
o que me acerca. Passarinho não chia. Passarinho pia. O pio do sabiá está muito
próximo.
Olha lá! Olha lá! Ouça, preste atenção! Faça da boca um assobio e repita.
Repita assobiando: piedade sinhô... piedade...
tem dó de nós... piedade... sinhô. Não é bonito? É apaixonante.
Continuo meu passo na quadra litigiosamente abandonada e vejo uma
fumacinha. Ali não há muito mato para ser queimado. Entretanto o instinto de
preservação, nesta época de seca, sugere que eu apague o fogo, enquanto estiver
baixo. Sigo na direção da fumaça. Nem preciso caminhar muito. Em volta do fogo,
vejo quatro boquinhas escancaradas de fome, dor, frio e morte. O pai oferece o
desjejum caçado nas caçambas peçonhentas. Adiante da fogueira, há uma tenda de
lona preta sob uma árvore de casca dura.
A única luz que há para aqueles miseráveis urbanos é o amarelo solar das
flores do ipê.
Piedade sinhô...
piedade...
tendo de nós...
piedade...
sinhô...
21 agosto 2014
Philip Roth
Companhia das Letras
172 páginas
R$ 35,00
O livro veio parar na minha estante porque, sendo escritor, vez por outra procuro ler um pouco de “teoria” literária. A atraente proposta da capa é um escritor entrevistando outros escritores sobre o ofício da escrita.
Já havia lido
dois outros livros de Roth: A humilhação
e A marca humana. Sei que ele conquistou
o Pulitzer Prize e um monte de outros prêmios de prestígio. É o único escritor
vivo cuja obra está sendo publicada pela Liberary of America. Este exemplar
mostra uma outra face do autor a de entrevistador e crítico literário.
Já na orelha
li, para a minha surpresa, que os temas predominantes em vez de serem técnicas
literárias ou a literatura propriamente dita, o autor questiona a relação entre
a vida e a literatura. Um tema muito mais abrangente do que aquele que eu
esperava. Para a minha surpresa sete dos dez autores tem origem judia.
Para mim, o
judaísmo é uma questão mal resolvida internamente. Tenho um problema de identificação
pessoal. Fui criado numa comunidade alemã – onde o assunto era tratado de forma
velada ou sublimado. Falavam mal dos judeus pelas costas como se pertencessem a
uma seita ultrassecreta e guardavam um misterioso segredo. Desde sempre
questionei essa postura. E entrando na maturidade descobri que o meu sobrenome
tinha grandes probabilidades de ter origem judaica. Obviamente jamais
resolverei a questão, entretanto quanto mais informações eu tiver melhor
saberei lidar com as minhas contradições.
O livro tem
como base o cenário em que cada autor cresce e vive e como essas circunstâncias
influenciam a obra. É certo que é muito mais fácil e verossímil escrever sobre
aquilo que se conhece ou vivencia do que optar a escrever sobre cenários e
épocas estranhas. É preciso ser Júlio Verne para embarcar no Nautilus e
mergulhar em fantásticas viagens ao fundo do mar a vinte mil léguas submarinas.
Grifei o
comentário “A realidade é sempre mais forte do que a imaginação humana, Além
disso, a realidade pode se dar ao luxo de ser inacreditável, inexplicável,
desproporcional. A obra criada infelizmente, não tem esse direito.” – Seria
louco o autor que criasse uma história baseada em Nova Iorque onde dois aviões
se chocassem com dois prédios quase simultaneamente. Seria insano o autor que tivesse
descrito em detalhes um robô pousando e tirando fotografias “selfie” na
superfície de um cometa. Evento previsto para novembro de 2014. Mas o assunto
não são torres gêmeas nem robôs cavalgando um asteroide. Trata-se da realidade
do Holocausto que transcendeu qualquer imaginação.
Mais adiante
um dos entrevistados afirma que “O que me preocupava, e até hoje me perturba, é
esse antissemitismo do próprio judeu, um velho mal judaico que em tempos
modernos vem assumindo manifestações diversas. Fui criado num lar judaico
assimilado em que o alemão era valorizado. O alemão era considerado não apenas
uma língua, mas também uma cultura, e a atitude em relação à cultura alemã era
quase religiosa. Vivíamos cercados de judeus que falavam iídiche, mas na nossa
casa o iídiche era terminantemente proibido. Cresci sentindo que tudo que era
judeu era estigmatizado. Desde a minha primeira infância, meu olhar se voltava
para a beleza dos não-judeus. Eles eram altos e louros e se comportavam de modo
natural. Eram cultos e, quando não se comportavam como pessoas cultas, pelo
menos agiam com naturalidade.”
Essa situação
foi acentuada, imagino, pelo ministro da propaganda Joseph Goebbels que
enaltecia as qualidades germânicas e provocava
bullying oficialmente contra a
comunidade judia.
O entrevistado
continua “os judeus também me pareciam estranhos. Levei anos para compreender
até que ponto meus pais haviam internalizado todo mal que atribuíam aos judeus,
e que, através deles, eu também internalizava. Havia uma repulsa implacável
dento de cada um de nós.”
Ainda grifei
muitas outras respostas dos escritores sempre sob o mesmo foco.
Posso afirmar
que Philip Roth foi um ótimo entrevistador. Um perguntador profissional.
Conseguiu extrair depoimentos fortíssimos dos seus entrevistados.
O livro, sob a
ótica da aquisição – imaginei literatura ou técnicas literárias – foi uma
decepção. Entretanto sob o prisma proposto pelo autor – reflexão sobre as
origens – foi absolutamente prefeito. Senti
uma vontade enorme de colocar no papel todos os meus dilemas, questionamentos,
respostas e dilemas pessoais á respeito do tema proposto por Philip Roth.
14 agosto 2014
Carlos Castelo
Global Editora
156 páginas
R$ 31,00
Passar a manhã
sentado na antessala do ortopedista só não é estressante se você estiver bem
acompanhado. Eu estava mal acomodado entre duas senhoras gordas. Segurava a
minha agenda, um livro e um enorme envelope contendo as imagens da ressonância
magnética dos meus joelhos. A televisão barulhenta parecia mostrar São Paulo no
verão, tantos eram os chuviscos. O lugar apinhado de pacientes era comprido e
estreito. Às vezes eu precisava recolher os meus pés para não ser pisoteado por
alguma muleta. Tudo seria terrível se eu não estivesse acompanhado de Damas
turcas. Um livro policial com cenário paulistano.
Fazer um
resumo da história é muito fácil: após um assassinato brutal um investigador levanta
pistas e suspeitos inusitados para chegar ao criminoso. Em nenhum lugar do livro diz em que escola o
investigador estudou, mas acredito que tenha colado grau na mesma instituição
de Ed Mort e de Xangô, de Baker Street.
Todos os
personagens são figuras atípicas para não dizer bizarras. O investigador da
polícia, um japonês do interior de São Paulo, está sempre acompanhado do seu
cachorro Preto, um improvável e dócil poodle branco. Por sentir o cargo
ameaçado resolve convidar um amigo para ajudar nas investigações. O amigo, um
publicitário aposentado, não entende patavinas de crimes, mas resolve levantar
pistas e suspeitos aplicando o mesmo método infalível para desenvolver
comerciais.
O publicitário
sofre de TOC – transtorno obsessivo compulsivo – e lava as mãos e escova os
dentes mais vezes que eu preciso recolher os pés na antessala do doutor. Ele é casado com uma mulher bipolar que
quando deprimida dorme e quando eufórica compra. O ajudante do investigador é
um sujeito religioso que costuma saltar de paraquedas para sentir a presença de
Deus.
Em vez de um
crime, outros claramente relacionados se sucedem.
E, é claro,
que as vítimas e os suspeitos também são figuras nada convencionais, entretanto
o herói consegue desvendar o crime graças à inteligência, ao bom conhecimento
cultural, à dedução e à astúcia.
Tenho vontade
de contar algumas passagens engraçadas como aquela em que... mas não conto
porque é falta de respeito com o autor. Mas a coceira na língua, que me
desculpe o autor, eu não vou resistir. Ri de montão no momento em que o
investigador, conduzido na maca por dois policiais, chega à cena do crime e dá
voz de prisão.
Eu precisava
contar para justificar que apesar das horas passadas na antessala do
ortopedista eu ainda encontrava motivos para rir.
08 agosto 2014
Polar
POLAR
Autor: Renato
Fino
Editora:
Siglaviva
Preço: imagino
ser de uns R$ 30,00
Encontrável
no Senhoritas Café, na 408N de Brasília
Páginas:
136
Ganhei o livro
do Renato Fino. Foi para a prateleira dos que eu quero, gostaria, preciso ler. Lá
estão outros 97, contados, necessitados de leitura. Às vezes um ou outro fura a
fila. Polar nem pegou muito pó, talvez
uns seis meses. Eu saí de um livro parrudo de páginas e conteúdo e queria algo
leve e rápido. Leitura suave (me enganei).
Imaginei um
romance que eu abandonaria numa lanchonete, porque santo de casa não faz
milagres. Embora eu não canse de rezar e prestigiar os santos da casa.
Sentei-me com a intenção de apenas ler o
prefácio, a apresentação e as orelhas do livro. Mas só havia um curto
parágrafo arrebatador no verso.
“Creio que foi
na infância que ergui as minhas descrenças todas. A família, sem meu pai, me
parecia uma ave a qual faltasse uma asa e que, por isso, não poderia alçar voo
jamais. A escola sempre me pareceu um campo de refugiados para onde as crianças
eram encaminhadas por não terem outro caminho a seguir. O governo fazia o papel
de um deus tirano, enquanto as religiões se perdiam de Deus”.
Um bom indicativo sobre o estilo e conteúdo. Orelhas
limpas de letras. Observei o nome da editora. Chequei o número de
páginas. Avaliei que em uma semana terminaria o livro. Sem apresentação nem prefácio. Um lembrete informa que
foi a história que o autor diz que não queria ter escrito. Então me pus a ler
como quem tira os sapatos para molhar os pés na beira-mar. “Só tenho olhos para
o meu abandono. A vida é feita de abandonos e a minha vida não poderia ser diferente”.
Poucas páginas depois de molhada a bainha da calça, a água salgada foi aos joelhos.
“Soube que meu pai era, então, um jovem forte e bem disposto, com implacável
saúde, mas por dentro um morto à procura de outra vida. Fazia parte da
tripulação de um navio prestes a mergulhar na guerra já iniciada, quando
desertou da morte e saltou para o mar, sem rumo certo, desesperado como um urso
polar que não conseguiu alimento às vésperas do inverno”. E, sem perceber fui
tragado por uma onda de páginas marinhas: “me pus a observá-la mais
profundamente, porque agora eu tentava adivinhar não o que sua carne me dizia,
mas o que seus olhos me confessavam”. Encharquei-me de Polar e disposto a me
afogar no livro.
Com linguagem
acessível, informa que é uma história de abandonos. Logo descobrimos que é mais
do que isso, Renato Fino criou metáforas inteligentes para colocar em paralelo
a vida de renúncia dos personagens e a vida de abandonos dos ursos polares.
O tema é tão
pesado quando pode ser um iceberg, mas há pedras de gelo lúdicas quando traz
uma série de informações sobre os nomes de todos os personagens. Magna “é forte
e poderosa”. Bárbara “uma estrangeira, uma forasteira uma estranha em minha
vida”. Amanda “era amante dos livros”. Em determinado momento da ficção o autor
se lança num realismo fantástico e transforma-se em personagem e analisa também
seu nome Renato/Renê que significa renascido e é o que tem vivido desde que
veio ao mundo, um eterno renascimento.
Particularmente
leio livros como um escritor e não apenas como um leitor. Por isso abro a minha
lupa à procura de contradições e pontos criticáveis. Renato Fino passou com
nota altíssima no meu crivo, só não ficou com a nota máxima por um detalhe que
considero estímulo para que seu próximo livro seja ainda melhor. Entendo que
mesmo a ficção deve ser verossímil nos detalhes. Em determinado momento é citado
um posto de estudo científico de ursos polares em Murmansk na região polar da
Rússia. Verifiquei que a “vila” tem mais de 300 mil habitantes e que lá só vivem
ursos pardos.
15 julho 2014
Batata-doce
Bom mesmo é variar
o menu . Um
dia pizza ,
no outro miojo, no terceiro
dia vem a lasanha
congelada, tudo acompanhado de uma deliciosa e saudável
Coca-Cola. Aí , o que
você faz? Varia o cardápio .
Num dia lasanha
congelada, noutro dia pizza e depois
o miojo. Acompanhados de saudável guaraná . Sempre
tem alguém , além
da sua consciência ,
para sugerir que sua alimentação não
é saudável e que
precisa variar .
O que você
faz? Vai ao supermercado e compra pizza de
calabresa em vez
de muçarela, lasanha de frango em vez de quatro queijos e miojo de carne
no lugar de miojo de frango . E o que
mais ? Passeia
com o carrinho
entre frutas
e verduras e resolve extrapolar
ao ver a gôndola
cheia de batatas-doces.
Como escolher batata-doce ?
Este é o primeiro
dilema . Aborde quem
estiver selecionando mais criteriosamente . A abordagem
deve ser de acordo
com quem
estiver escolhendo. Se mulher mocreia,
diga que sua
esposa mandou você
comprar , para ficar claro que aquela é apenas
uma abordagem para
aquisição de batatas
e nada mais
do que isso .
Se mulher maravilha ,
diga que sabe declamar
poesia , fazer
massagem nos
pés e escolher
um bom
restaurante , mas
que não
tem a menor ideia de como selecionar batata-doce . Se for homem ,
não aborde, ele
provavelmente irá sugerir alguma coisa
indecorosa . Para
uma dieta balanceada
some uns bifes ao carrinho.
É lógico que
as batatas vão
ficar uma semana
envelhecendo, porque sempre é mais fácil colocar uma lasanha no micro-ondas a descobrir
alguma receita para
preparar as saudáveis
batatas-doces.
Você olhou para as batatas
e elas olharam para
você . O desafio foi
lançado. Lixo e arrependimento
ou panela
e orgulho?
O que fazer
com as batatas-doces? Geleia?
Rapidamente consulte a internet e
descubra que você
vai ter de se virar sozinho . Ninguém
diz como fazer
para fritar batata-doce . Mil
receitas de doces
e até de glacês .
A única que
achei sugeria batata-doce frita em rodelas ou palito .
Dúvidas. Mil dúvidas .
Tem de cozinhar antes ou não ? Tem de descascar antes ou não ? Põe sal ou põe na panela de pressão ? Açúcar ou
frigideira?
Lasanha.
Nesse momento temos de ser fortes . Não podemos fraquejar à frente de simples
batatas . Vamos à luta
sem regras .
Só não
vale golpe abaixo da cintura .
Peguei uma faca e sem
medo me
atraquei com as batatas .
Descasquei todas as duas. Observei que
as doces são
mais duras e consistentes do que as
inglesas. Pelo menos
as batatas . Para
fritar vão demorar muito , muito mais . Eu não vou ficar uma hora na frente da frigideira
fritando estas saudáveis e doces batatas . Minha frigideira
não comporta
nem metade
dessas rodelas .
– Então , vou fritar durante duas horas ? Sem chances .
Pego uma assadeira de alumínio , faço uma base
milimétrica de óleo e taco no forno . Forno de fogo alto . Ainda
pensei em colocar sal . Deixo para
colocar depois
de frito . Isto
é, assado . Tá na cara
que vai demorar .
Dá tempo de fritar
uns bifes.
Devo dizer que
as batatas levaram uns noventa minutos para ficar
bronzeadas e crocantes. Devo dizer também que
ficaram deliciosas. Me lhor
do que espetar
com o garfo
foi pegar com
a mão . Acompanhou uma cervejinha gelada.
Agora atenção , muita atenção , nenhum livro de
receitas informa que
batatas-doces não devem ser servidas em
eventos prolongados ou
com intenções
amorosas.
Batatas-doces 09 julho 2014
Batismo
Sempre achei interessante o carma ,
o peso , a responsabilidade
e os significados que
um nome
carrega. Em certo
período remexi listas
de vestibulares , resultados
de concursos , relações
de atletas nos
campeonatos de futebol ,
lista de funcionários
e qualquer referência
em que
houvesse a possibilidade de encontrar algum
nome marcante .
Com certeza
não sou o primeiro
a escrever sobre
este polêmico assunto
e tampouco serei o último .
Aliás , considero este
tema tão
forte que
recorro a ele sempre
que surge a oportunidade .
O estudo sério
ou curioso
tem até nome :
antroponímia .
Um dos nomes que
me instigou a curiosidade
foi João Né. Operário em
uma obra . Tive a oportunidade
de conhecê-lo e perguntar a origem do curioso sobrenome .
Juro, pelo que
há de mais sagrado ,
a resposta foi que, ao ser registrado, o funcionário
do cartório teria perguntado qual o nome da criança , ao que
o pai mineiro
teria respondido é João, né. Para o azar
do garoto .
Outro caso curioso
aconteceu durante a Segunda
Grande Guerra .
Naquele período era
proibido falar
alemão . O pai
tentou registrar o filho Hans Jordan. O escrevente argumentou que
se era proibido
falar alemão , muito mais grave seria registrar com
nome alemão .
O pai não
se fez de rogado e pipocou o brasileiríssimo nome de Hans Caramuru Jordan.
O melhor amigo
de papai era
Darcy, nome de gênero dúbio: masculino e feminino, Darcy
Pinto da Rocha
Campos . Ao se apresentar
gracejava que o Pinto
era da mãe .
E não é o único
caso . O artista
Picasso, aliás , Pablo Diego Jose
Francisco de la
Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trindade Ruiz y Picasso, era Picasso por
parte de mãe.
Ainda tem uma conhecida que ao casar não quis o sobrenome
dele. Motivo pelo
qual até
hoje não
tem filhos . Ela
não quis o Pinto
do marido . Mas
isso já
é outra história .
Conheci uma infeliz que foi batizada
Maria do Rego Virgem Santos e não
tive a ousadia de perguntar porquê o pai dela escolheu aquele
nome . Seria alguma vingança
contra a mãe
da infeliz ? Ou
desejo para o
futuro da filha ?
Outro dia , no programa
do Jô, um cuidador de carros disse que
nomeu o filho Hilux em
homenagem à caminhonete do mesmo
modelo , que
achava linda .
Há famosos da literatura de relação de nomes
estranhos : Maria Prostituta
do Brasil, Rodo Metálico
e Cafiaspirina.
O Congresso Nacional
cooperou com algumas curiosidades : Um
Dois Três de Oliveira Quatro ,
Pinga Fogo ,
Onaireves (Severiano ao contrário ) de Moura ,
Lavoisier Maia , Inocêncio (que de inocente
nada tem) Oliveira ,
Íris Resende e esposa
Íris Resende, Dr. Rosinha, Ursicino
Queiroz, Ronivon Santigo.
Se lhe perguntarem qual dos irmãos
bíblicos matou o outro , a resposta é facílima. Você
conhece alguém homenageando Caim?
Freqüentes também são os nomes que trazem homenagem a personagens famosos :
Confúcio, Hitler, Lincoln, Maicon (sic Jackson), Rommel, Gutenberg,
Temístocles, Jesus, Joana D’Arc, Lenine, Mozart. Existe até um esdrúxulo
Jatoperi, ou algo
assim , numa homenagem
de um inglês
ao ataque da Seleção
Brasileira da Copa
do Mundo em
1970: Jairzinho, Tostão , Pelé e Rivelino.
O sobrenome representa a
continuidade familiar . O filho , às vezes ,
tem a vida facilitada, outras vezes , nem
tanto.
Considero um fardo
a escolha impensada .
Na dúvida não
ultrapasse. Consulte.
Outras vezes os pais realmente não tem mérito nenhum e os filhos
são abençoados com
nomes que
aparecem em canções
maravilhosas. Lu íza do Tom Jobim para ficar no exemplo . O problema é quando
acontece o inverso. Quando a Aids surgiu o governo
encampou propaganda onde
os homens deveriam proteger
o Bráulio. Chico Buarque depois de difundir e propagar Carol inas jogou pedras
em todas as Genis da face Terra . Houve música da década
de 70 em que
depois de muita
insinuação de opção
sexual encerrava com
o refrão e o nome
dele é Waldemar. Todos os Aurélios em algum momento são
chamados de pai dos burros .
E até hoje
todos os Zezés sofrem com a pergunta será que ele é? será
que ele
é?
No mínimo é curioso
quando os pais
resolvem homenagear alguma nação :
Ítalo, Germano , Israel, Franco.
Nosso país é fantástico ,
temos liberdade de expressão .
E, por direito
adquirido, os pais resolveram criar moda juntando e criando novos
e originais nomes .
Pega a primeira
sílaba do nome
dele, junta com
a última sílaba
do nome dela, uma pitadinha do nome dos sogros
e pronto está criado
mais um
mágico e singular
prenome : Auricélia, Raimurildo,
Josicléia, Edylcea, Loresmar, Marconeisson, Rosialva, Rosineide, Derlopidas,
Altomires, Jaminsom, Jorzely, Flavamario, Sonijardo, Eilovir e o tudo mais que a imaginação
puder criar.
A outra moda
é estrangeirar usando e abusando ipsilones, kas e dabliús, além
de trocar a grafia
de acordo com
a temperatura ou
qualquer parâmentro ou
nenhum parâmentro. Antigamente
ficávamos apenas com
meia dúzia
de combinações de Terezas e Heloísas. É sempre desagradável ter que explicar :
– Olha ,
é Denise com zê ,
viu!
Numa reportagem recente , li que um
zeloso escrivão
disponibilizou um cardápio
com dezoito grafias
diferentes para
Washington. Por favor ,
gostaria do número nove
combinado com o sete
de Roosevelt .
Na França há um livro com todos os nomes
e ninguém pode ser
registrado por outro
além daqueles. Por
isso que
todo francês
é Pierre, Jean Marie ou François. Este último serve para homens ou mulheres . Melhor que em Portugal que
só tem dois nomes : Joaquim e Manuel.
Aliás, nossa herança
indígena legou vários
nomes bonitos
e significativos , pena
estarem em desuso: Ubiratan, Ubirajara,
Ibaté, Jurandir, Jandira, Iraci, Iracema, a virgem
dos lábios de mel ,
Capitu do Machado de Assis, Moacir,
Irajá, Jussara, Murici , Sinara, Tabajara , Itupi, Moema, Oberdan, Gilmar, Valdeci,
Guaraci, Jacira, Juvenal, Peri, Ceci e Iara .
Meu nome é tão
comum , Roberto, origem
latina , nenhum
significado especial .
Será? Após longos
e tediosos estudos
descobri o enigma que
carrego. Meu nome
foi gerado algum tempo
após o assim
denominado eixo , Itália, Alemanha e
Japão guerrearem contra o resto do mundo .
O meu nome
foi composto pela
primeira sílaba
de cada uma das capitais
daqueles países: Roma, Berlim e Tóquio.
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