19 julho 2007

Ausência


Sou a secretária eletrônica do blog do Klotz.

Ele viajou e só retorna em agosto.

Por favor, deixe seu comentário, elogio ou esculhambação.






Cu acentuado


Sou orkutiano e naquelas bandas participo de uma comunidade Bar dos Escritores. Há vários participantes que realmente dominam o riscado. Entretanto há outros que escrevem uns testos ezquizitos. Vários escrevem palavrões e consideram questão de postura, de atitude. Ou contestação.

Cu deixou de ser obsceno há duas décadas ou mais. Só é obsceno quando é acentuado.
Depois de ler outra obscenidade escrevi este besteirol.

"Esta comunidade já teve homéricas discussões à respeito do cu acentuado.
Um amigo falou do cu rosado e do cu sujo. Se fosse acentuado seria cúpreo.
Só o mulo leva acento no cu. Isto, quando o cu vai na frente. É o cúmulo.
A alta casta da igreja também é a favor do cu acentuado. É a cúria.
Quem tem dado sabe que cu gosta de acento. É o cúbico.
Quem está de acordo em levar acento no cu é cúmplice.
Há pessoas que não concordam e acham que cu deve receber acento sim. E ficam decúbito.
Mesmo sem acento, pode-se, com o cu, tomar assento."

15 julho 2007

Mulher dura na queda

Dei flores perfumadas,
abri portas,
puxei cadeiras aveludadas.
Ofereci chocolate quente.
Preparei banquete.
Fiz poesia, declamei.
Negativou com a cabeça.
Deixou-me sem sentidos.
Apelei.
Cochichei que o deputado foi processado.
Que o governador foi obrigado a devolver o dinheiro.
Que o presidente demitiu seis ministros.
E renunciou.
Fui beijado, na boca.
Faz sentido.
※ ※ ※ ※ ※
Quadro “A diva no divã” de Rosiane

12 julho 2007

Manchete

Bandido estupra e mata anciã. Traficante vende, não entrega e esfaqueia. Parou no sinal e perdeu o carro. Pivete chapado mata por um relógio quebrado. Pedreiro faz sexo com nenê da vizinha. Mais uma rebelião no presídio. São manchetes diárias dos nossos jornais. Na verdade não são manchetes, são apenas chamativos das páginas internas do jornal. Às primeiras páginas cabem as verdadeiras notícias de destaque: política, economia e esporte. Os fatos corriqueiros de morte e violência, de tão comuns ficam com as páginas centrais. Os acontecimentos só recebem relevo quando o algoz ou a vítima são pessoas de notório destaque. Se o seqüestrado for apenas rico não receberá sequer uma linha dos jornais.
É a banalização da morte, a vulgarização do crime. É o cotidiano. Ninguém mais se importa.
Os presídios estão superlotados, os policiais não têm formação, os processos percorrem um lento e burocrático caminho, as leis estão obsoletas e se contradizem, sempre há mais uma instância a ser recorrida, a corrupção atinge até juízes. As estatísticas informam que menos de 20% dos criminosos acabam condenados e destes, menos de 15% cumprem toda a pena.
O bandido tem a certeza da impunidade. Ao cidadão cabe esperar apenas pela justiça divina. Ao perceber à sua volta um rastro de terrores ela passa a desejar a morte do malfeitor. A morte preferencialmente em julgamento sumário e execução em praça pública.
Se não houver uma reviravolta em todo sistema, breve tornaremos à Idade Média e teremos como manchete: Povo brasileiro exige pena de morte.

04 julho 2007

Girafa barulhenta


Caminhar sempre é bom. Acompanhado é melhor. E quando a companhia é agradável, é o máximo. Tenho uma vizinha que gosta de caminhar comigo.
Infelizmente a velocidade dela é devagarzinho. Bem devagarzinho, para poder
falar bastante. Ela é muito alegre, extrovertida e perguntadeira. Bem típico da idade. Eu que não tenho nenhum neto, a princípio fiquei incomodado com esse negócio de me chamar de Vô. Mas é uma menina muito fofinha. Demorei a me acostumar, agora até gosto de ser chamado vovô. Quando ganho beijo lambuzado nem reclamo.
Hoje ela me contou que já sabe o que o irmãozinho vai ganhar de aniversário, mas que não vai me contar porque a mãe disse que era segredo.
Depois ela cantou a musiquinha da escola.
Meu lanchinho, meu lanchinho
vou comer, vou comer
pra ficar fortinho, pra ficar fortinho
e crescer e crescer.
E aí, sem mais nem menos ela perguntou se era verdade que as girafas não faziam barulho.
Eu não sabia se aquilo era uma piada, pegadinha ou era uma demonstração de conhecimento.
– Quem te disse isso?
– A tia. Ela disse que os cachorros latem, que os gatos miam, que os passarinhos piam, mas que as girafas não falam. As coitadas não fazem nenhum barulho.
Percebi os olhos tristes da menina com pena da girafa.
– As girafas fazem barulho sim. Você precisa ouvir como é alto o pum da girafa.
A menina deu uma risada e eu continuei.
– Silenciosas são as borboletas. Ou você já ouviu as borboletas batendo papo e fazendo algazarra?
Antes que ela respondesse continuei:
– Fale para sua tia que o único bicho que não fala é o criado-mudo.
Ganhei um delicioso beijo e ela saiu correndo.

27 junho 2007

Minha tia era um general

O nome da minha tia é Waltraut. Parece um castigo. Aos alemães é um nome para ser ostentado com orgulho. O problema de Waltraut, em relação ao próprio nome, é ter nascido no Brasil e residir no Brasil. Nasceu nos anos 20, do século passado. Filha de alemães imigrantes. Foi para a escola alemã. Freqüentava o clube alemão. O vizinho da frente era alemão. O da esquerda, alemão. O da direita também era alemão. Na mercearia comprava Reis, Bohnen e Zucker. Tudo em alemão. E o Herr Schmidt anotava em alemão a despesa na caderneta para a cobrança mensal.
Antes de prosseguir vamos para uma aula de alemão. A pronúncia do nome da minha tia é Váutraut. Com o último tê mudo. Repita comigo: Váutraut. Nem é tão difícil. Mas a aula não terminou. Reis é pronunciado ráis e significa arroz, Bohnen é pronunciado bônen e significa feijões enquanto Zucker é pronunciado tsúquer e é açúcar. Todas são iniciadas por maiúsculas porque substantivos, em alemão, são iniciados por maiúsculas. Agora podemos voltar à nossa tia. Ou melhor, à minha tia Waltraut.
– Quase esqueço de apresentar o Herr Schmidt. Herr Schmidt, leitor. Leitor, Herr Schmidt. Herr quer dizer senhor e Schmidt é tão comum quanto Silva ou Souza. Pronuncia-se hérr Chmit. Com tê mudo. Voltemos à tia Waltraut.
Ela era bonita, tinha postura ereta e voz firme. Se por um lado era elegante e ingênua por outra era determinada e inflexível. Quase uma caricatura.
Lá nos anos 60 ela pegava no pé dos meus primos, filhos dela. Queria que eles falassem alemão. Era mais do que natural que eles falassem português, como todo mundo. Na escola, no clube. Como o vizinho da frente e o do lado esquerdo. E o da direita também. Todos falavam português. Mas a tia queria que eles falassem alemão entre si. Irmão com irmão. Irmão com irmã. O cinto estalava no ar se um deles respondesse em português uma pergunta alemã. Tem que falar alemão! Dóitch chprehen! A minha tia era um general. E, generais não podem ser contrariados.
– Deutsch sprechen! – Fale alemão! – Ela ordenava em tom ríspido.
A prima mais velha já namorava escondido e ainda ouvia constrangida o ameaçador: – Deutsch sprechen!

O meu primo mais novo que devia ter uns sete anos também ouvia o Deutsch sprechen vinte vezes ao dia. Aquilo era uma lavagem cerebral. Tanto era, que um dia o menino estava brincando e se divertindo com o irmão e, de forma ingênua, perguntou para a mãe:
– Tenho que rir em alemão também?
Foi a libertação. Nunca mais a tia Waltraut ordenou que falassem alemão.
Mas meus primos nunca se libertaram de terem de comer espinafre, berinjela e chuchu. Tudo em alemão. É lógico.

12 junho 2007

Acordei


Acordei pensando e ejaculando vontades.
Você virou-me as costas.
Era tudo o que eu queria.

07 junho 2007

Mesa na calçada

Domingo ensolarado. Hora do almoço. Restaurante cheio. Guarda-sóis protegendo narizes empinados.
Papai Ivo, mamãe Tereza, avó Lucrécia, Pedro com a cara cheia de espinhas e Juninho com a chupeta.
Sobre a toalha engordurada uma travessa com um pouco de batatas fritas. Uma travessa cheia de alface, tomates e palmito. Uma travessa com resto de cebolas com molho. Outra travessa com arroz. Uma lata de cerveja e várias de guaraná.
Uma menina e um cachorro se aproximam.
Vovó vê longos cabelos desgrenhados, unhas sujas e pés descalços.
Pedro se delicia com olhos verdes e peitinhos desabrochando.
Mami se retrai com os vira-latas piolhentos.
Ivo vira a cara.
Juninho estende a sobra de bife mastigado.
A menina rasga a carne ao meio e oferta metade ao fiel amigo.
Juninho quer saber o nome da menina e seu cão.
Papi, Mami e Vó respondem juntos:– Bárbaros não têm nome!

28 maio 2007

Fora de medida

Chego em casa depois de mais um estafante dia de trabalho e a confusão está instalada: madame chorando na frente do fogão.
Sempre a tratei muito bem. Quase não lhe falta nada. Como sempre, acordei-a com um delicado beijo na testa, preparei o café e ainda coloquei colherinha e meia de açúcar. Beijei-a na saída. Melhor dizendo, beijei-a na boca, ao sair. Senti saudades e retornei direto para casa ao fim do dia.
Vejo que há uma série de xícaras diferentes espalhadas pela mesa da cozinha, um pacote de massa para bolo, um termômetro, a calculadora, alguns ovos de codorna, várias colheres de tamanhos diferentes, a jarra de leite, o pote de margarina derretida e o velho despertador barulhento.
Tomo-a em meus braços e pergunto o que foi que aconteceu.
Soluçando, responde que desejava preparar uma festinha só para nós dois, mas a receita do pacote estava por demais complicada:

BOLO DE CHOCOLATE
Ingredientes:
1 pacote de massa de bolo de chocolate
¾ de xícara de leite
3 ovos
2 colheres de margarina à temperatura ambiente

Misture tudo até formar massa homogênea; Unte e enfarinhe uma forma redonda com furo no meio; preaqueça o forno em temperatura média por quinze minutos; Não abra o forno antes de 30 minutos; após esfriar por 15 minutos, desenforme e sirva.
– Veja só quantas xícaras diferentes nós temos aqui: a do seu café, aquela outra de plástico, a do jogo de porcelana que ganhamos no nosso casamento... e todas têm tamanhos diferentes, – Ovos podem ser de codorna, de pata, de galinha, caipira, brancos, médios e... Enxugando as lágrimas. Qual dessas colheres? Uso a do diário ou devo usar a do faqueiro de prata?
Segurei-a pela mão, arrastando-a até a sala. Acomodei-a no sofá. E fui buscar dois cálices. Enquanto servia um porto, protestei:
– A culpa é da impunidade! Neste país as pessoas fazem o que querem e ninguém é responsabilizado por nada. Passam nos sinais vermelhos, assaltam, não fecham as pastas de dentes... Todos esses calhordas deveriam ser exemplarmente punidos! Para que serve o Instituto Nacional de Pesos e Medidas? Vou entrar com medida cautelar, seja lá o que isso queira dizer!
Irado, continuo meu protesto:
– Cientistas do mundo inteiro se reúnem, estudam e definem que quilograma é a massa do protótipo internacional constituído por um cilindro de platina e 10% de irídio depositado no Bureau Internacional de Pesos e Medidas, e ainda que o metro é igual ao comprimento do trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299 792 458 de segundo e... que diabos!
Virei o cálice de vinho para lubrificar a garganta e continuei:
– Estes fazedores de receitas culinárias estão nos cozinhando! Como vamos definir o que é uma pitada? Quantas gramas? Uma colher rasa de farinha? Então, além das colheres de chá, sopa e sobremesa, ainda podem ser cheias, bem cheias e rasas? Aí, ainda tem a história de meia xícara, três quartos de xícara ao invés de dizerem que se trata de tantos mililitros. Tenham a santa paciência! Forno à temperatura média. Vai te danar!
Sirvo-me de outro cálice de porto, viro o cálice de um só gole e continuo no meu discurso:
– A falta de uniformização das medidas é um retrocesso para a nossa nação. Sucrilhos, macarrão instantâneo, molho de tomate, geléia, coco ralado, sapatos... Nada está padronizado. Estamos a léguas de distância dos povos desenvolvidos!
Resolvi respirar e dar um dedo de prosa:
– Querida, você sempre soube preparar comidas maravilhosas. O que foi que houve? De verdade?
– Bom, eu só tinha ovos de codorna. Então quis saber quantos ovos de codorna seriam equivalentes a um de galinha. E principalmente queria saber onde você havia escondido a garrafa de vinho do porto.

※ ※ ※ ※ ※
Este texto foi extraído de “von Silva” – livro que aguarda publicação

22 maio 2007

Panapaná

Curioso? Também fiquei. Eu tinha um dicionário à mão. Talvez você não tenha. Se tiver, não precisa buscar, até o final do texto desvendaremos esta charada.
Panapaná não tem prefixo nem sufixo. E nem crucifixo para quem não souber o significado.
Existe um jogo com centenas de palavras, cada uma associada a cinco possibilidades, apenas uma verdadeira. Os jogadores devem tentar descobrir o significado se não souberem a resposta certa. Este não é um jogo, apenas um breve exercício mental.
Panapaná não tem origem grega nem latina. Não provém do francês, nem do inglês. É produto nacional, do bom. Ascendência tupi. Desta língua aprendemos e guardamos pouco. Ita é pedra. Pira é peixe. Boi é cobra e açu é grande. Só conhece quem se aventura por palavras cruzadas.
Com estas dicas já podemos deduzir que panapaná não é nome de palavra para invento do homem nem de coisa relacionada a modernidades. É coisa da natureza ou de sentimento.
Panapaná apesar de coletivo não se encontra nas cidades. Não é coletivo de transportar pessoas, é coletivo de transportar sonhos.
Panapaná não é uma borboleta, é um conjunto delas refletindo a alegria do sol em devaneios coloridos.

15 maio 2007

Dona Clotilde na farmácia


Canapé, garabulha, janota e trabuzana.
A mim, pareciam palavrões dos mais ofensivos. Para Dona Clotilde significavam sofá, confusão, mauricinho e tempestade.
Disseram-me que era professora do gymnásio. Maquiadíssima, ela usava um vestido preto com broche na lapela, um coque no cabelo roxo e sapatos com um salto de tacão. O conjunto devia ter uns 150 anos de idade. Ou mais.
Tratava-se de uma vetusta senhora. Velha era pouco. Dona Clotilde era muito velha.
Eu vi quando aquela ortodoxa figura entrou na farmácia. Reparei que escolheu escova de dentes e um creme que devia ser hidratante. Foi ao fundo da loja e retornou. Pegou um sabonete e tornou a ir ao fundo da farmácia onde separou um vidro de sei lá o quê.
Percebendo que a senhora estava desconfortável o atendente perguntou se poderia ajudá-la.
Eu estava muito longe e não ouvi o pedido. Apenas ouvi o balconista perguntar se ela estava rouca.
Vi a senhora matusalém contestar e mexer os lábios novamente.
O rapazola franziu a testa como quem não entendeu.
– A senhora está com dores nas costas?
A miúda anciã negou com a cabeça de coque roxo e discretamente resmungou alguma coisa.
– A senhora está com furúnculo?
A idosa mulher, quase se escondendo, fez que não. Chamou o farmacêutico mais para perto e cochichou alguma coisa.
Julgando a professora com problemas de audição, o moço com o jaleco branco perguntou:
– A senhora não consegue se sentar?
A antiqüíssima e frágil mulher se encolheu toda, fez que sim com os olhos. E, com o indicador em cruz sobre os lábios pediu discrição ao atendente e disse mais alguma coisa.
Vi quando o vendedor respondeu alguma coisa e a senhora consentiu com um discretíssimo sorriso.
Antes da série de bengaladas eu vi quando o balconista gritou para o colega:
– João, pega aí uma caixa de supositório para hemorróidas.

10 maio 2007

Narciso

Narciso era auto apaixonado. Seus pais eram o deus-rio Cefiso e a ninfa Liríope. E,por ser filho de deus se achava lindo, divino e maravilhoso. Passava o dia admirando-se no reflexo das águas da lagoa Eco. O problema era ficar de quatro, alguém poderia querer amá-lo também.
Por ordem de Narciso, o melhor artífice do reino criou o espelho: recortou um pedaço da lagoa e colocou-o numa moldura de brancas nuvens.
Narciso ao contemplar-se pela primeira vez ouviu o espelho repetindo: – Eco, eco, eco. Curioso e intrigado, aproximou-se bem do pedaço da lagoa e perguntou:
– Você só sabe dizer eco? O que dizes de mim?
– Você tem mau hálito.

※ ※ ※ ※ ※
Imagem de Narciso por Caravaggio

25 abril 2007

Opostos

Um casal de amigos, Paulo e Fernanda, são opostos em tudo. A começar, naturalmente pelo sexo. Ele é alto, ela é baixa. Ele magro, ela gorda. Ele sovina, ela shopping center. Ele moreno, ela loira. Inteligência não é medida pela cor do cabelo, isto é puro preconceito. Ele é preocupado, ela é desligada. Ele pontual, ela, ih, esqueci. Ele toma rápido banho frio, ela demorado banho quente. Cá entre nós e a torcida do Flamengo, quem é que agüenta demorado banho frio? Ele enrola a pasta de dente, ela nem põe a tampa. Ele diz que tudo tem seu lugar, ela procura a lixa de unha na cozinha encontra a pulseira dourada. Ele sapato, flauta e violoncelo, ela apito, pandeiro e chinelo.
Ele jamais larga o sapato na frente da tevê. Ele só tira o sapato após desfazer o lacinho, para em seguida guardá-lo no armário. Ao lado do outro sapato da mesma cor, logo abaixo da etiqueta: sapato social. Todos os cedês têm lugar certo. Dentro de cada caixinha está o cedê anunciado na frente. A não ser que ela tenha escutado música na última hora.
E daí?
Daí, que quase todos os casais lembram Paulo e Fernanda. Alguns Fernando e Paula.
Esta descrição está parecendo clichê. Então, a melhor forma é parar com a descrição e contar dois fatos recentes ocorridos com o casal.

– Fernanda onde está agenda de telefones?
– Está no banheiro.
– Isso é lugar? O lugar da agenda é do lado do telefone.
– Justamente. O telefone está lá no banheiro.
Paulo resmungando vai até o banheiro, pega o telefone e agenda e retorna para frente da tevê. Começa a folhear à procura de um número.
– Para que horas devo chamar o Humberto e a Fátima?
– Na hora que chegarem. Chegaram.
– Isto significa antes ou depois das nove?
– Então marca aí a hora que você quiser.
– Então vou chamar para as nove.
Paulo continua a folhear a agenda. E pergunta:
– Você vai colocar que roupa?
– Depois eu vejo. Alguma que estiver passada.
– Onde está o número do Humberto? Procurei em erre de Rodrigues e não achei.Também não está no agá nem no efe.
– Procure em eme. É Maria de Fátima!
– Já olhei! Só falta no u de Humberto.
Paulo resolve procurar página por página. Ele há de encontrar o telefone.
– Mas que diabos, Fernanda! O número está no cê.
– Lógico. Carteado. Turma do carteado.
Os nomes são fictícios. Qualquer semelhança é mera coincidência. Ou você acha que eu iria colocar os verdadeiros nomes? E, por serem fictícios conto o outro fato:
O quê você pensaria se visse a toalha molhada do Paulo sobre a cama?
a) Que o Paulo acabou de tomar banho, está se vestindo, e que já já, vai pendurar a toalha;
b) Que o Paulo, afinal, não é tão inflexível e chato;
c) Que o Paulo não costuma deixar a toalha jogada em cima da cama. Larga no chão.
d) A Fernanda tomou banho e usou a toalha do Paulo. A dela está em cima da cadeira desde ontem. E, que o Paulo vai ficar furioso quando descobrir sua toalha molhada e em cima da cama. Do lado em que dorme.
Ontem liguei para a Fernanda e ela disse que a resposta certa seria outra:
e) Nenhuma das anteriores. A Fernanda tomou banho. A toalha dela está no chão do banheiro para enxugar os pés. Usou a do Paulo para se enxugar. Jogou-a em cima da cama para provocar. Enquanto passa um creme nas pernas pede que Paulo traga a camisola branca. Paulo vai se enfurecer pela enésima vez ao ver a toalha, porém ao entregar a camisola Fernanda muda o tom e a começa a massageá-la, antes de agarrá-la entusiasticamente.
Os opostos se atraem.

04 abril 2007

O primeiro pentelho branco a gente nunca esquece!

Este foi o tema que encontrei no blog da Moniquinha há muuuuuito tempo. http://monicaneves.multiply.com/
E, o início do texto, pertence a ela. Um super beijo, garota.

Ingredients: Uma pessoa conhecida veio falar da sua crise quando surgiu o seu primeiro pentelho branco. Me pediu conselho. Eu dei né! Segue abaixo.Directions:Minha sugestão:Assim que aparecer o primeiro pentelho branco tenha uma crise daquelas, memorável. Puxe os cabelos (não os pentelhos), grite, berre, diga o quanto a vida é injusta e que Deus é homem e nunca deve ter tido um pentelho branco. Pegue uma tesourinha e delete o pobre coitado. Enquanto for um pentelho só, a crise estará liberada. Quando forem muitos, minha querida, ou você assume a perereca branquinha ou trate de pintar a pobre coitada (fico com a primeira opção). Você também pode adotar o modelito máquina zero. Super moderno. E não esqueça: bom humor sempre! Envelhecendo, porém com charme!

Meu amigo Roberto Klotz, grande cronista, leu meu post sobre os pentelhos brancos. Não pode responder pq ainda não quer se cadastrar no multiply. Me mandou a resposta via e-mail, hilária.

Transcrevo na íntegra: Este é um tema cercado de muito tabu. A sociedade tem vergonha de discutir tão importante tema. Discutiram séculos sobre o divórcio, o aborto e a eutanásia. A questão dos pelos pubianos sequer entrou em pauta para discussão. Quando, e se, a discussão dos pelos pubianos ganhar foro pode ser que abram espaço para discussão da cor dos ditos cujos. Acredito sinceramente que a questão do enbranquecimento da cabeleira púbia é assunto apenas daqueles que já amadureceram na vida. As crianças não têm nenhuma preocupação quanto à cor nem credo dos pentelhos, apenas desejam ardentemente que a região pélvica seja preenchida rapidamente com pentelhos. Os adolescentes e maduros têm apenas a preocupação na reposição dos pelos devido ao desgaste natural nas relações interpubianas. O pentelho sofre muita discriminação. Muitas mulheres simplesmente podam os pentelhos, como podam seus maridos nas conversas, outras mulheres reduzem drasticamente a área cultivada deixando apenas a mata ciliar. O pentelho também é execrado e ofendido quando das relações orais. Normalmente cospem e ofendem o infeliz que se intromete na boca. A própria palavra pentelho era considerada de baixo calão até que nos últimos 20 anos um apresentador de televisão começou a fazer uso da palavra à exaustão. Pode-se até dizer que o tal apresentador é um chato, assunto próprio para pentelhos. Não querendo fugir à questão proposta, surgimento do pentelho branco, defendo intransigentemente os pentelhos brancos. Acho um absurdo a discriminação contra os pentelhos brancos. Neste mundo povoado por negros pentelhos, penso que devam ser abertos espaços para os pentelhos brancos. Deve ser instituída cota para pentelhos brancos, da mesma forma que existem cotas para os vestibulandos negros, devem existir cotas para os pentelhos brancos.

26 março 2007

Retrato em branco e preto

A definição de raça agora é sacramentada por um tribunal de pureza racial que fotografa os candidatos a vestibular na UnB – Universidade de Brasília, e define os que podem ou não ser enquadrados nas cotas dos negros. Na escola aprendi que raça era uma coisa e cor era outra.
O que me interessa é que devem ser criadas cotas também para os portadores de letra K no nome. Desde a alfabetização sofri descriminação. Tudo por causa da reforma ortográfica de 1943 que eliminou o K do nosso alfabeto. Os portadores de letra W ou Y que juntem sua turma para formalizar seu pleito. Vou cuidar apenas daquilo que me diz respeito.
Somos poucos, pleiteamos uma cota de apenas 0,5%. Negros e mulatos ficam com 40%; deficientes físicos 20%; egressos de escolas públicas: 35:%; pobres: 20%; indígenas: 15%; asiáticos: 4,5%; judeus: 3%; desafinados: 5%; macrobióticos 2%; órfãos: 1%; analfabetos 18,37%.
O nosso caso não necessitará de nenhuma comissão especial para confirmação. Dispensaremos atestado de pobreza e exame de DNA. A identidade será suficiente para provar nosso enquadramento na cota. Particularmente tenho K por parte de pai e de mãe.
Feliz mesmo vai ser um amigo meu Zibgniev Chlowinsky, é pobre, estudou em escola pública do nordeste, não aprendeu a escrever, é preto de pai e indígena de vizinho, sem amídalas, careca, míope e na casa dele não tem televisão colorida. Com certeza vai entrar na faculdade, pois somando todas as cotas estará com 127,38%. O problema é que irá direto para o laboratório de antropologia.

17 março 2007

O grito do Ipiranga

Pedro apesar da fama de absolutista e mandão era uma pessoa dócil e bem mandada. Sempre atendia quando chamado. Miguel, Paula, ou Joaquim. Pedro atendia da forma que o chamassem. Também pudera, batizaram-no de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.
Apesar de todas aquelas opções preferíamos chamá-lo príncipe. Era uma coisa respeitosa. Apesar de que, entre nós, às vezes a gente falava do príííncipe puchando bem o iii e colocando o queixo no ombro e piscando rapidamente os olhos. Tínhamos que ser respeitosos, afinal sempre era bom viver às custas de Sua Riqueza.
Pedro tinha mania de se vestir de príncipe. Usava calças brancas tão apertadas que permitiam saber se a moeda do bolso estava cara ou coroa. Usava também umas jaquetas com ombreiras altas e enfeitada de medalhinhas douradas. Pedro era muito avançado para a época., este figurino só virou sucesso nos bailes gays do Rio de Janeiro 250 anos depois.
Pedro era casado com Leopoldina que era tão feia que era conhecida por trem. Por isso mesmo Pedro vivia viajando fugindo de casa. Ele sempre ia a Santos para surfar. Lá as ondas são pequenas de forma que ele dificilmente caia da prancha. Sob um guarda-sol ele foi apresentado a Maria Domitília, uma paulistana que todos diziam ser de Santos. Domitília, como Pedro, era muito avançada em termos de vestimentas. Ia para praia com uma touca minúscula. Ambos tinham 23 anos e se entendiam maravilhosamente sobre os lençóis de cetim. Pedro e Domitília tinham taras sexuais incríveis: se chamavam príncipe e marquesa respectivamente.
No início de setembro, depois de dois meses de praia, Pedro já estava muito bronzeado e deveria retornar a São Paulo e cuidar dos detalhes para a sua festa de aniversário. Pedro faria 24 anos dentro de dois meses e a expectativa era muito grande para o grande baile anual de aniversário. Tudo era motivo para baile.
O mordomo, José Bonifácio, juntou todo o pessoal, mandou selar os cavalos e preparou uma charrete acolchoada para Pedro. Retornamos lentamente subindo a Serra do Mar e atravessando a Mata Atlântica. No quinto dia de viagem, em pleno feriado, chegamos ao topo da serra com esplêndida vista da baixada santista. Montamos acampamento e preparamos uma peixada real.
Os peixes já não tinham sangue azul. Estavam verdes após calorosa viagem numa época em que não havia frizer nem geladeira.
Almoçamos e seguimos viagem. José Bonifácio queria chegar em São Paulo a tempo de ver o desfille no noticiário da tevê.
O peixe verde começou a saltar dentro da barriga de Pedro. Não tardou a achar a saída. Pedro borrou-se todo. Borrou também a bela carruagem aveludada. O cheiro da condução de Pedro ficou insuportável de modo que ele teve de montar um cavalo. Foi necessário limpar-se num riacho próximo. Na falta de papel higiênico utilizou-se da Gazeta do Rio de Janeiro onde leu que foi rebaixado de regente para delegado. Neste exato momento o outro peixe verde saltou de dentro da barriga da Sua Riqueza provocando enorme dor. Pedro urrou.
– Meeeeeerda!
O peixe buscou a independência e este episódio foi retratado anos depois por Pedro Américo e batizado como “O Grito do Ipiranga”.

08 março 2007

Fé

Apaguei ontem após longa, extenuante e celestial seção de amor e sexo sob as luzes do eclipse lunar. Acordei com passarinhos alvorando na minha janela.
Antes mesmo de saber a cor do céu liguei a música do computador e o aleatório escolheu “Arpan” de George Harrison na sua fase Hare Krishna. Fechei os olhos e a minha imaginação sentou-me de cueca branca no frio piso da varanda, cruzou-me as pernas e, ioguísticamente, juntou-me o polegar e o indicador de cada mão. Posição ereta olhos fechadas num looooogo e sonoro OOOOMMMM. O sol bateu-me à testa. Reabri os olhos. É impressionante como existem dias em que nossas antenas captam melhor a energia presente na luz solar. Amén!
Li o jornal enquanto alimentava o corpo com laranja doce. Corrupção, bandalheira, desvio de dinheiros públicos, nepotismo, suborno, impunidade. Nem nos fins de semana os políticos dão folga! Vade retro!
Apliquei um filtro solar na pele e saí pelo eixão domingueiro.
Manhã maravilhosa. A cabeça a mil por hora pensando projetos. Olhos como sempre, à procura de curvas femininas. Braços se exercitando em dessintonia com o caminhar das pernas. Os órgãos do corpo não estavam em harmonia, cada um defendendo seus interesses. Caminhei roboticamente. Até que... sempre há um: até que... Até que, lá de longe, ouvi um barulho grave de tambores. Ritmo espaçado. Cadência forte e marcada. Parei e virei a cabeça para o oeste na direção da praça da Harmonia Universal. Um gramado enorme entre duas superquadras da Asa Norte. Vi um amontoado de pessoas sob um espaçoso toldo multicolorido. Um cartaz anunciava o novo ano chinês. Independentemente de qualquer comando, as pernas começaram a se movimentar naquela direção que os ouvidos perscrutaram e os olhos indicaram. As pernas correram. Pulmões foram oxigenados na corrida. O meu todo queria chegar antes daquela apresentação terminar.
Quarenta jovens, quase todos orientais, numa ginástica marcial batiam tambores e pandeiros em ritmo compassado. Movimentos amplos. Baquetas verdes, coletes vermelhos cardinais e longas meias brancas brilhantes. Tudo protegido por seis guardiões ostentando enormes bandeiras amarelas que balançavam ao vento.
Muitos aplausos e assobios. Gente de toda idade, cor e credo.
Todas as manhãs às seis ou sete e meia, há trinta anos, o mestre Moo Shong Woo promove seções de tai chi chuan. Sob as nuvens, a comunidade chinesa promove gratuitamente a ginástica e prega a paz e a harmonia. Já estiquei meus músculos e alonguei minha coluna algumas vezes em conjunto com eles. Admiro profundamente o trabalho do quase octogenário mestre Woo. Pena que os horários e a distância não sejam muito favoráveis. Gostaria que a montanha fosse a Maomé.
Agora, sob o enorme toldo colorido um grupo de vinte e cinco pessoas uniformizadas formou um retângulo e graciosamente iniciou movimentos de tai chi. A música de Enya bateu fundo. No Natal, Jorge, meu sobrinho, presenteou-me com cedê com trocentas músicas deliciosas. Entre as quais esta, de Enya, e aquela do guru Harrison bebendo das fontes indianas. Eu poderia fazer parte daquele grupo, ao menos a idade era compatível.
Muitas pessoas sob e ao redor do toldo. Um grupo de camisas douradas ensaiando coreografia com espadas. Um senhor com roupa negra de samurai. Outro senhor de vastos bigodes trajando cetim azul celeste. Uma menininha se lambuzando de sorvete de chocolate. Dezenas de fotógrafos amadores. Alguns profissionais. Um sujeito com microfone buscando entrevistas. Um político abraçando quem lhe passasse à frente. Uma grisalha oriental de mãos dadas com o netinho na bicicleta. Os alto falantes anunciando nova apresentação e pedindo que todos jogassem seu lixo nos lugares certos para devolver a praça tão limpa quanto encontrada antes do evento. Todos os tipos de gentes: crianças, gordos, pretos, maiorias e minorias.
Antes de ir embora fui olhar os quiosques. Sabonetes cheirosos. Toalhas pintadas à mão. Sushis de legumes. Budas de cerâmica e dragões de resina. Nossas Senhoras de Aparecidas. Pães de queijo e vatapás. Maravilhas de quiosques ecumênicos.
Levantei os olhos e a cinco metros, bem à minha frente estava um senhor em roupa de cetim creme, calvo, ereto, sessenta anos aparentes, sorridente, olhos puxados. Juntei minhas mãos no peito, fechei os olhos e lentamente abaixei a cabeça em reverência carinhosa. Quando abri meus olhos recebi um acolhedor aperto de mão do mestre Wu.
Já tive a oportunidade de trocar algumas palavras com ele anteriormente. Olá, bom-dia, obrigado, para o senhor também. Desta vez foi diferente. Não falei nem ouvi. Foi apenas um aperto de mão. Não qualquer aperto de mão. Fiquei mais leve. Recebi uma energia indescritível. Meus olhos marejaram. Não sei o que aconteceu. Sei apenas que o corpo estremeceu e rumou para casa.
Jamais segui qualquer tipo de religião. Mesmo respeitosamente, critico sempre o fanatismo cego e a religiosidade interesseira.
Estive na Esplanada dos Ministérios na vinda do papa João Paulo II. Milhões de pessoas reverenciando o carisma de Sua Santidade. O momento foi inesquecível. Mas não captei a mesma energia.
Só captei a mesma energia no começo dos anos oitenta quando estava nos corredores de um órgão público e pouco a minha frente caminhava um senhor de cabelos loiros encimados por solidéu. Eu arrisquei chamar: – Rabino Sobel?
O rabino virou-se, caminhou em minha direção me abraçou forte disse uma palavra carinhosa no meu ouvido e retornou ao seu grupo. Meus joelhos quase dobraram com a energia que recebi daquele homem.
E agora de novo: o mesmo magnetismo.
São dez e quinze. Eu já estou pronto. O mundo já pode acabar.

※ ※ ※ ※ ※
Desenho de Eduardo Bonfim do HQ Os Barbudão

05 março 2007

Estréia



Chegou o dia 5.
É minha vez. O dia cinco de março é dia da minha estréia no Bar do Escritor.
Três dias antes disseram que eu ficaria nervoso.
Eu me lembro de ter dito que eu tiraria de letra. O alfabeto inteiro. Estava tranqüilo. Tranqüilíssimo.
Isso foi três dias antes. Era começo de noite do dia dois.
Passei a noite em claro. Contei carneirinhos. Pensei no meu texto. Contei mais carneirinhos. Tomei água com açúcar. Contei carneirinhos. Bobagem, água com açúcar. Aguinha com açúcar e carneirinhos. Daqui a pouco aparece o lobo mau e bota um fim essa história infantil. Pensei num texto e virei um vidro de maracujina. Apaguei rapidinho.
Texto que é bom, nada.
Graças à maracujina, meu dia 3 começou lá pela uma da tarde. Aí tive que recuperar o tempo perdido fazer aquilo que deixei de fazer pela manhã.
Por que diabos fui escolher o dia cinco? O mês tem trinta dias e fui escolher logo um dia lá do comecinho. O calendário estava todo aberto e escolhi aquele número. Sou burro mesmo. Poderia, por exemplo, ter escolhido uma das dezenas do burro: nove a doze. Teria ganho uma semana.
Rogaram praga.
Já chegou outra noite, não preparei meu escrito e os lençóis já começaram a pesar. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia... A cabeça gira, gira e gira e gira e nada de fixar um conto ou uma crônica. Levanto da cama, pego um copo com água e digo com voz firme e alta:
– Não vou fazer a besteira de tomar outro vidro de maracujina. Eu sou um escritor responsável. Olhei para o copo de novo e de acordo com minha palavra, rapidamente engoli uma bolinha vermelha de Lexotan.
O dia 4 começou sonolento às três da tarde.
Meu tempo está acabando. Tenho de ter a idéia, escrever, revisar e postar. A contagem regressiva está próxima do dois , um fogo!
Ai! Deu dor de barriga.
Por que as estréias são assim?
Eu poderia ter ganho dois dias e escolhido o dia sete. Sete são as notas musicais. Sete são as cores do arco-íris. Sete são os motivos pelos quais não consigo escrever.
Meu tempo está se esgotando rapidamente e ainda tenho que organizar tudo para uma festa aqui em casa amanhã.
Tudo o que eu sempre quis na vida era escrever e ser lido. Minha grande oportunidade chegou. Dia cinco, por quê?
No fundo eu sei. Dia cinco de março completo 55 anos. É meu aniversário.
Este é meu melhor presente para quem escreve: escrever e ter alguém que leia até aqui.
Obrigado.


Enzine Bar do Escritor http://www.bardoescritor.blogspot.com/

27 fevereiro 2007

Getúlio e Virgínia Lane

Segundo o Tutty Vasques, a história da ex-vedete Virgínia Lane mudou o tiro mais famoso do país: o que matou Getúlio Vargas.
Virgínia Lane concedeu a Roberto Canázio, da Rádio Globo, no último dia de Carnaval uma entrevista onde falaram sobre marchinhas de época e da atração que as pernas da ex-vedete ainda exerce sobre o público.Em um dado momento, a conhecida relação amorosa que ela manteve com o presidente Getúlio Vargas enveredou pelo delírio absoluto. Miss Lane resolveu falar e vejam no que deu:
- Eu tive paixão por esse cara (o Getúlio);
- E você freqüentava mesmo o Palácio do Catete?
- Você quer saber de uma coisa que vou dizer pela primeira vez. É meio perigoso... Eu estava na cama com ele quando entraram e o mataram. Ele foi assassinado, meu filho! Quando ouviu o barulho de gente entrando no quarto ele ainda chamou o Gregório Fortunato e mandou que ele me jogasse pela janela.
- Você viu o assassino?
- Eram quatro homens de máscaras que atiraram nele. Dois deles ainda correram para o Jardim, tiraram minha roupa, me deixaram nua em pêlo e disseram “vai, vagabunda, vai arrumar outro presidente. Vou contar toda essa história no livro que estou escrevendo, “Sua Excelência, a vedete que viu”. Sou uma testemunha viva da morte de um homem com quem não tive um casinho, não. Passei quinze anos dormindo e acordando com ele.
Eu escutei a entrevista e fiquei pensando: será que ela esclerosou ou a história é outra?

Logo após ler a coluna de Tutty Vasques em O Globo enviei e-mail com meu depoimento:

Pois eu, Roberto Klotz, afirmo: a história de Virgínia Lane é verdadeira.

Era quinta-feira. Passamos 24 horas fechados dentro de um armário escuro no hall de distribuição dos quartos do Palácio do Catete. Trezoito, era o líder, só poderíamos sair do armário após a ordem dele. Anos mais tarde soube que ele nos contratou a pedidos de Carlos Lacerda. Cicatriz estava ansioso, queria terminar o trabalho logo. Mão Negra não dizia palavra. Nós só poderíamos entrar no quarto após o grito do presidente. O presidente mantinha uma rotina impressionante, todos os dias, às vezes mais de uma vez, urrava igual ao Tarzan, seu ídolo, ao terminar sua relação fantasiosa com Jane. O nosso problema é que o presidente estava sempre disposto, não tinha hora certa. Virgínia tinha quatro roupas selvagens para agradar ao presidente. Não tínhamos certeza da hora, sabíamos apenas que iria acontecer e que sua excelência era dinâmico e rápido.
Deviam ser umas cinco e meia daquela fria madrugada quando Virgínia abriu o armário e escolheu a roupa de oncinha que estava num cabide logo à minha esquerda. Foi um momento inesquecível. Pude sentir o perfume de Miss Lane. Não era o perfume de uma vedete vulgar, era o cheiro de uma dama. Ela fechou a porta do armário e eu fechei meus olhos deixando fluir o aroma do perfume até chegar aos neurônios que instantaneamente acionaram a vitrola cantando sassaricando na voz maviosa e provocante de Virgína Lane. Aquela era a minha sensação predileta: medo e tesão. Meu desejo era entrar logo naquele quarto onde estava presidente. Por uma questão de ordem, eu aguardaria minha vez.
Cicatriz me cutucou:
– Será que Gegê ainda vai demorar muito?
Fiquei furioso. Odeio que interrompam minhas fantasias.
Neste exato segundo, o presidente imitou o Rei das Selvas e bateu com os punhos fechados no próprio peito.
Trezoito, Cicatriz e eu saímos do armário em direção ao quarto. Mão Negra, que também estava estimulado, ficou para trás porque estava com as com as calças arriadas.
Abri a porta, Cicatriz afastou a gostosa da Virgínia, Trezoito atirou. Mão Negra abriu a janela para Virgínia correr. O Tarzan, digo, o presidente ainda chamou por Fortunato antes de bater com as dez. Trezoito pegou a arma e colocou na mão de Getúlio. Corri atrás de Virgínia e tentei convencê-la que agora seria a minha vez e depois seria a vez de Mão Negra. Ela ficou brava, se esquivou e xingou com um sonoro palavrão. Mão, irritado ainda gritou:
– Vai, vagabunda, vai arrumar outro presidente.

Guardei este segredo desde aquele 24 de agosto de 1954 por amor, tesão e respeito a Virgínia. O crime já prescreveu e como ela abriu o bico, confirmo para quem quiser saber.

Minha única dúvida é quanto ao dia da semana, quinta-feira. O restante, é a mais absoluta verdade.

※ ※ ※ ※ ※
Hoje, dia 28 de fevereiro, em 1920, nasceu a cantora, vedete e compositora Virgínia Lane.

24 fevereiro 2007

Sombra da Figueira


Fim de tarde, sentei-me no banco da praça. Minhas companhias eram a sombra da figueira e um livro ilustrado. Acomodei-me, estiquei as pernas e abri o livro.
Uma carruagem parou na minha frente. Mexi interrogativamente a sobrancelha direita. O cocheiro, numa reverência com a cartola, fez um convite para um passeio. Depois de ser chamado Mi Lord, quem não iria?
Rapidamente chegamos a um enorme paredão de pedras cercado com água por todos os lados. Uma ponte de madeira era a única ligação para a ilha do castelo. Entramos. A parelha estancou bem à frente do arco principal. Desci. Antes mesmo do primeiro passo, ouvi o chicote estalar. A poeira se levantou e fiquei só. Pela amabilidade do cocheiro imaginei uma comissão de boas-vindas. Mas não. Nenhuma viva alma. Nem viva, nem morta. Observei toda a volta, o pátio estava deserto. Não vi ninguém nas duas torres. Não percebi nenhum movimento sobre os telhados. Na guarita não havia nenhum guarda. Ninguém.
Lentamente entrei. Pares de archotes sugeriam o caminho. A curiosidade levou-me ao átrio. Um grande espaço, o teto em abóbada, paredes de pedras retangulares e vários arcos, sugerindo vários caminhos. Lugar imponente embora mal iluminado. Posicionei-me exatamente no meio da grande sala. Entre o ponto mais alto do forro e a estrela negra marcada naquele chão de pedras regulares que formavam enormes círculos concêntricos. Nenhuma sombra denunciava presenças. Mantive-me em silêncio e girei meu corpo lentamente até completar a volta inteira. O único barulho era o da minha pulsação. Fechei os olhos e puxei o ar. Não me mexi. Percebi sutil odor de suor. Aspirei novamente. Abri os olhos, direcionei o nariz para minha axila. Maldita tensão! Em vez de sair, escolhi uma das aberturas curvas. Em frente, à esquerda. Não era a maior, era a mais iluminada. O corredor de pedras prosseguia largo e, da mesma forma que a entrada, guarnecido por pares de archotes produzindo luz amarela e trêmula. Andei uns cinqüenta passos e cheguei a uma escadaria. Para cima escura e para baixo mal iluminada. Optei descer.
Dei duas voltas antes de chegar ao piso inferior. Novo corredor largo. Neste ponto o olfato acusou cheiro de resinas de árvores, provavelmente alguma mistura para aquelas chamas acesas. A sensação era de umidade, desconforto e calor. Cheguei a uma sala com várias armaduras. Na parede, observei seis longas lanças metálicas terminadas em ponta ou em lâmina com se fossem machados. Estavam dispostas horizontalmente. Vi três bastões com correntes prendendo bolas cheias de pontas. Percebi nobreza nos vários escudos com brasões coloridos. Estavam dispostas, ainda, algumas armas que pareciam enormes foices, além de outros objetos estranhos. Nenhuma armadura tinha elmo. Não encontrei elmos nem nada que lembrasse capacetes. A outra parede ostentava espadas grossas e finas. E várias facas. Escolhi uma com bainha de couro desenhada e que poderia ser presa à cintura. Imaginei guerreiros guilhotinados. Resolvi sair daquele depósito de armas.
Mais alguns passos e cheguei à ampla adega. Estanquei na entrada. Sempre foi meu desejo servir-me de uma taça de vinho diretamente de um barril de carvalho. O coração começou a bater forte. Olhei em volta detalhadamente. Uns trinta tonéis. Cada tonel devia ter uns mil litros de vinho. Nenhum movimento. Nenhum ruído. Entrei e fui direto para a estante e, na ausência de taças, escolhi um copo de estanho. Fui ao tonel mais próximo e no momento em que pus a mão na torneirinha, senti o cheiro. Aquilo não era vinho. Em vez da torneira iluminada, escolhi outra, mais adiante, na penumbra. Desta vez não aceitei a proposta do castelo. Limpei o copo com a barra da camisa e posicionei-me para receber o líqüido dourado. Eu estava certo, não eram tonéis de vinho, eram barris de uísque. Uísque especial. Aspirei profundamente o centeio fermentado até ouvir uma gaita-de-foles. Molhei os lábios, estalei a língua e sentei-me à enorme mesa.
Jamais poderia ser vinho. Fui chamado Mi Lord. As armaduras sem elmos não eram resultado de francesas guilhotinas. Certamente estaria na Escócia, e em toda Grã-Bretanha usam a forca. Imaginei a corda no meu pescoço. Senti um arrepio na espinha. E senti também uma mão no meu ombro. Tomei um enorme susto.
– Vô, não quer dormir em casa?
Rapidamente me recompus, ajeitei a faca na cintura, peguei o livro sobre transportes antigos e caminhei abraçado com meu netinho até em casa, deixando para trás a sombra da figueira.


※ ※ ※ ※ ※
Primeiro lugar no concurso de contos da comunidade ††† Vale das Sombras††† no Orkut
 
Search Engine Optimisation
Search Engine Optimisation