09 abril 2009

Jenipapo na cesta do coelho da páscoa

Hoje é Páscoa. Domingo de Páscoa. E domingo é dia de caminhar no Eixão. Espalho protetor solar no rosto e braços, faço alongamentos e disparo para a rua. O sol do outono é abrandado por suaves ventos do nordeste sugerindo chuvas no período da tarde.
Ainda penso na Páscoa e que o pessoal de propaganda do Mago sugere a distribuição de livros em vez de ovos de chocolate. Livros de Paulo Coelho.
Coelhos lembram fertilidade. Fertilidade lembra coelhas e coelhinhas atiçam meu instinto masculino. Presto atenção nos rebolados e decotes caminhantes, femininos, claro. Caminhar é muito bom para a saúde e para a mente. Podemos pensar, refletir e resolver os problemas do mundo. Acho que prefiro observar. Sou voiê. Acompanho tudo o que se passa em volta. Entre outras coisas, presto atenção nos atletas. Percebo o que está na moda e o que não está. Cabelo com rabo-de-cavalo é moda. Tênis colorido continua moda. Aquele senhor barrigudo com a camiseta branca estufada dentro da bermuda jeans com uma pouchete presa no cinto social e meias brancas até o meio das canelas definitivamente está fora de moda. Olho e vejo tudo. Coisa engraçada são os três irmãozinhos apostando corrida de bicicleta e gritando para todos saírem da frente. Coisa animal é o cachorrinho de apartamento sendo levado no colo.
Meu passo apressado pára na altura da 203 Norte. Um casal está jogando um pedaço de pau numa árvore tentando derrubar frutas. Olhei bem para aquela árvore alta, de tronco liso e retilíneo Em resposta à minha pergunta informaram que era jenipapo.
Tomei a liberdade de aproximar do nariz e aspirei um perfume ligeiramente adocicado num fruto marrom do tamanho de uma laranja. Perguntei se fariam licor e disseram que comeriam a polpa com açúcar. Achei constrangedor pedir para abrir a fruta e fiquei sem saber como é.
Voltei para o meu caminho. Já estou longe de casa. Vou andar só mais um pouquinho. Só até aquela placa. Não, até aquela coelhinha passar. Faço a volta e vou ficar olhando a coelhinha seu rabinho a balançar.
Foi o que eu fiz. Segui a coelhinha. Que coelhinha apressada!
Os olhos seguiam a coelhinha e o pensamento fixo no jenipapo. Acho que a primeira vez que ouvi falar em jenipapo foi em meados dos anos 70, quando na novela Bem Amado, o Coronel Odorico Paraguaçu era servido do afrodisíaco licor de jenipapo pelas irmãs Cajazeiras. Primeiro era servido, depois se servia. É muito estranho a gente conhecer alguma coisa e não conhecê-la ao mesmo tempo. Nunca fui apresentado a um jenipapeiro. Fiquei frustrado por não conhecer a fruta por dentro. Será que é preta? Os índios se utilizam do urucum para pintar a pele de vermelho e de jenipapo para o preto. O jenipapo é o corante usado nos cestos e vasos. Quando terei nova oportunidade?
O jenipapo era o assunto da mente. A coelhinha, dos olhos.
Olhei novamente para a coelhinha e, para os meus olhos, carregava saltitante uma cestinha cheia de ovos multicoloridos. Será que o coelho da Páscoa quando pinta os ovos usa corante de jenipapo?

05 abril 2009

NOITE DE AUTÓGRAFOS


Quarta-feira, 8 de abril às 19h

Livro: PEPINO E FAROFA

Autor: Roberto Klotz

Editora: LGE

Local: Livraria Cultura no CasaPark Shopping Center - Brasília-DF


É a sua oportunidade de conseguir uma dedicatória personalizada. Você pode, inclusive, ditar o que desejar. Eu escreverei.
Para Vinícius, anotei: Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça é Pepino que vem e que estilhaça, caminho do lar.

01 abril 2009

Desligamento do BDE, Orkut e escrita

Postei esta carta de despedida hoje às 9h05 no Orkut, Comunidade Bar do escritor


Desligamento do BDE, Orkut e escrita


Amigos,

É com muito pesar que anuncio meu desligamento desta comunidade, do Orkut. E também renuncio ao meu projeto de ser escritor.
A desilusão com as vendas e o pouco comparecimento no lançamento do meu livro “Pepino e farofa” jogaram meu ego de escritor na sarjeta. Por outro lado, um empresário captou nas páginas do livro uma vocação oculta para a culinária. Chamou-me para reorganizar um grande restaurante de Brasília. Começo a trabalhar amanhã e o restaurante será inaugurado com grande festa no dia do aniversário da cidade: 21 de abril. (por enquanto estou proibido de dizer o nome do restaurante).

Passei uma semana ruminando esta minha decisão.
Por uma questão de respeito, comuniquei minha posição pessoalmente ao presidente da comunidade ontem à noite.
De toda forma, gostaria de externar que o convívio diário com vocês foi ótimo. Pena que todos os elogios que recebi encheram demais a minha bola. A minha ficha caiu.

Abraços fraternos,

29 março 2009

Mote para crônica


Saímos da aula com o dever de anotar até o fim do dia, flashes motivadores para uma crônica.
Na porta do prédio encontramos com um senhor de uns 70 anos vestido com roupa domingueira. Pediu-nos dinheiro para voltar a Pirapora. Contou-nos, em lágrimas choradas de dor que fora assaltado na Rodoviária. Era preciso alguma coisa mais impactante para servir de mote. E seguimos caminho até um shopping. Compramos o que deveria ser comprado e retornamos ao estacionamento. Uma camionete estacionara em fila dupla fechando o nosso carro. Solicitamos a um guarda que nos ajudasse a empurrar o veículo obstruidor ou que o multasse. O guarda deu de ombros e disse que era tarefa do lavador de carros e virou-nos as costas. Também não era assunto merecedor de uma crônica opinativa. Muito engraçada foi a cena que vimos logo depois: a mocinha escancarou a porta do seu automóvel e em seguida abriu um guarda-chuva. Medrosamente esgueirou-se e colou a cabeça no guarda-chuva. Não queria se molhar em hipótese alguma. A vaidosa moça certamente passara o dia no cabeleireiro. Foi engraçado porque não estava nem chuviscando. Era um episódio muito ridículo para ser anotado. Chegando em casa vi imagens de um pavoroso incêndio na indústria química instalada entre residências. Considerei o tema óbvio demais para ser registrado. À noite fomos ao aniversário e posse de um amigo na Academia de Letras de Brasília. Comentamos que aquele era o desejo de todo homem, ter saúde, inteligência e naquele momento ser tornado imortal. Também não anotamos o que ponderei ser obviedade. Já em casa fiquei feliz. Ele deitou-se na cama enquanto e eu deitei-me no criado mudo. Por preguiça de gastar a minha tinta, convenci-o de que nada valia a pena ser escrito.

21 março 2009

Ignácio de Loyola Brandão

Ignácio de Loyola Brandão se apresentou no dia 19/03/09 no T-Bone, Açougue Cultural.

Para quem não o conhece, devo dizer que se trata de um dos expoentes da nossa literatura com mais de 30 títulos, incluindo o romance O Menino que Vendia Palavras, vencedor do Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano de 2008.

Depois da palestra procurei-o para solicitar uma dedicatória no fantástico livro autobiográfico, Veia bailarina onde relata o drama de uma cirurgia bem sucedida d 11 horas contra um aneurisma cerebral.

Ofereci o meu recém lançado livro Pepino e farofa. Para minha surpresa, Ignácio levou o livro ao nariz para aspirar os aromas das minhas aventuras culinárias.

Os cronistas sempre enriquecem fatos e imagens. Não é mesmo, mestre?

*****

Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.

O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília.

Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50

2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80

3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40

Para saber quem efetuou os depósitos acrescentarei alguns centavos identificando o número do pedido.

Faça seu pedido através do e-mail r-klotz@uol.com.br, fornecendo a quantidade desejada, o endereço para a entrega e nome para a dedicatória, se desejar.

Darei o retorno informando o valor exato e fornecendo conta corrente do BB para crédito bancário.




Espaguete à bolonhesa


Estávamos sentados à mesa da varanda. Três casais. A lua apontava cheia, criando um clima romântico junto com a descontração da tarantela Funico Li Funico La.

A conversa alegre unia o grupo. A terceira garrafa de chianti estava no final. O cheiro da manjerona do molho à bolonhesa ainda estava no ar quando veio o elogio.

Parabéns. Adorei o jantar. Disseram que você sabia fazer pizza, miojo ou esquentar lasanha. Aqui você extrapolou. A massa estava esplêndida. Como você fez?

Obrigado pelo elogio. Um amigo italiano passou a receita herdada da avó. A nona era de Modena, cidade vizinha a Bolonha.

Para fazer a massa ficar perfeita temos que ir aos detalhes. Não é suficiente uma toalha verde e guardanapos vermelhos. É preciso muito mais.

Comece na escolha da massa. O espaguete deve ser número 10. A cada cem gramas de massa ferva um litro de água com dez gramas de sal. Acrescente o sal na água somente após a fervura. Não coloque azeite nem óleo na água, senão a massa fica escorregadia e o molho não adere. O mais difícil é acertar o ponto para a massa ficar al dente, ou seja, firme o suficiente para ser sentida nos dentes.

Depois de todos estes detalhes, imagino que o molho deve ser algo super complicado e difícil.

– O molho é o mais simples. Refogue 500 gramas de carne moída de primeira junto com uma cebola ralada e um dente de alho picado. Acrescente uma lata de extrato de tomate, salsa, orégano e tomilho frescos. Uma colher de açúcar, três colheres de azeite e meia de sal. Adicione um copo de água quente e mexa em fogo baixo durante vinte minutos.

– Será que posso anotar a receita?

– Fique à vontade. Tenho caneta e papel na cozinha. Ao lado do telefone.

...

– O que é isso?... O que aconteceu?

Após o grito de espanto todos levantaram correndo curiosos para a cozinha.

– O que são estes fios de macarrão grudados na parede?

– É que o italiano me explicou que a massa fica no ponto de al dente quando gruda no azulejo.


******************
Esta crônica está em Pepino e farofa.

Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.

O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto, em Brasília.

Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50

2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80

3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40

Para saber quem efetuou os depósitos acrescentarei alguns centavos identificando o número do pedido.

Faça seu pedido através do e-mail r-klotz@uol.com.br, fornecendo a quantidade desejada, o endereço para a entrega e nome para a dedicatória, se desejar.

Retornarei informando o valor exato e fornecendo conta corrente do BB para crédito bancário

15 março 2009

Carrotes au charbon

Há dias nublados em que estou com médio apetite e devo preparar alguma coisa na cozinha. Chegou a hora da janta. A falta de inspiração me leva a abrir a geladeira e vasculhar todos os cantos e gavetas à procura de alguma solução sem esforço. Por preguiça não abro aqueles potinhos plásticos com lembranças de outras refeições. Tampouco investigo o que contêm aquelas dezenas de vidros da porta da geladeira. Fico incomodado ao ouvir o açucareiro na geladeira gritando que devo iniciar urgente mais uma guerra inútil contra as formigas. Até a garrafa d’água está quase vazia. Melhor que as formas de gelo.
– Pizza? Lasanha? Miojo? De novo, não!
Sempre ouço que deveria, nestes tempos frios, tomar uma saudável sopa, um salutar caldo ou um robusto creme. Isso é comida de maricas! Homem que é homem come pizza, lasanha e miojo. Tudo misturado. E depois vomita! Argh! Hoje não tenho que provar nada para ninguém. Afinal, estou sozinho.
– Nada como uma cervejinha para clarear a mente e a urina!
Vou ao micro e acesso a internet. Receitas culinárias? Nem pensar. Vou para uma sala de bate-papo para descobrir alguma alma caridosa que saiba preparar algo leve e saboroso para aplacar minha fome.
Salas de bate-papo sempre têm um tema em discussão, dessa forma muitas pessoas se encontram virtualmente: cada uma se conecta a partir de um micro. Os temas são variados: seleção brasileira com 38 interessados; literatura com 3 presentes; carros com 7 participantes; sexo, com 92 pessoas – Isso não é sala de bate-papo, é orgia. Antropologia, sala vazia; culinária, 6 participantes, é aí que eu vou.
Insiro meu nome e uma pergunta:
– Alguém aí sabe como preparar alguma coisa fácil e rápida? Eu sou totalmente leigo na cozinha e estou com vontade de comer algo leve.
Fico feliz com uma boa recepção. Todos me desejam boa-noite e uma Sônia muito prestativa informa que tem a solução para mim: Carrotes au Charbon.
Informo que nada entendo de cozinha e menos ainda de francês.
Ela foi muito gentil e disse que deveria ir para a cozinha descascar 2 cenouras, cortar em rodelas e colocar em uma panela com fogo alto. Ela aguardaria meu retorno para novas instruções.
Feliz com a solução. Vou à cozinha velozmente cumprir aqueles passos da receita.
Retorno ao micro, entro na sala e procuro por Sônia.
Sônia me aguardava.
– Este é um prato no qual eu sou especialista. Aprendi com meu avô. Ele era francês, um tremendo gozador e um excelente cozinheiro. Sabia preparar pratos com muita rapidez e com sabor inigualáveis. Já ensinei esta receita para muitas amigas e três namorados. Todos o consideraram um prato inesquecível. Você será o próximo a dar sua opinião.
– Sônia, rápido, qual é o próximo passo? Estou sentindo cheiro de queimado!– Parabéns, sua receita já está pronta. Carrotes au Charbon significa cenouras ao carvão.

※ ※ ※ ※ ※
Esta crônica está em Pepino e farofa.

02 março 2009

É terça, é terça, é terça

Terça é o grande dia! Hora de provar as deliciosas crônicas culinárias Pepino e farofa.

3 de março, a partir das 18h no Carpe Diem, 104 Sul.

A noite contará com a pessoa mais importante do universo: você.

O autor, Roberto Klotz, recebeu diversos telegramas onde famosos não disseram:

Neil Armstrong Um pequeno livro para o homem, um grande livro para a humanidade.

Dorival CaymmiQuem não gosta de Pepino e farofa, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou totalmente lelé.

Jânio Quadros – Li-lo porque qui-lo.

Esfinge – Leia Pepino e farofa ou te devoro.

O agente de divulgação trabalhou tão bem, que sumiu até com a máquina de passar cartões.

Leve um arcaico talão de cheques ou dim-dim.

No blog há informações para aquisição via postal.



Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.

O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília.

Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50

2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80

3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40

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27 fevereiro 2009

Convite para lançamento

Na terça, 3 de março, o restaurante Carpe Diem lançará: Pepino e farofa.

O autor do livro, Roberto Klotz informa que todas as crônicas culinárias do livro Pepino e farofa foram testadas na sua cozinha experimental. Nem sempre aprovadas.

Para agitar a noite do lançamento, convidou estrelas do jet set internacional. Fidel Castro fará breve discurso com as qualidades do livro. Andy Warhol apresentará seu mais novo quadro: a sopa de Pepino e farofa. Amy Winehouse e Maradona, apressados, virão na carreira. Todos confirmados. Tanto que já desembolsou passagens e estadias para o agente da divulgação.


Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.

O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília.

Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50

2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80

3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40

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Retornarei informando o valor exato e fornecendo conta corrente do BB para crédito bancário.


21 fevereiro 2009

Pepino e farofa - lançamento

No dia 3 de março o Carpe Diem oferecerá um cardápio inusitado: Pepino e farofa.
Pepino e farofa é um livro de crônicas culinárias resultante da inexperiência de 50 anos no comando de um fogão. O bem humorado autor, Roberto Klotz, agendou aviões para cruzar os céus de Brasília com faixas convite para o lançamento. Reservou o Píer 21 para Gisele Bündchen desfilar trajando uma sumária capa do livro. Comprometeu trios elétricos para Ivete Sangalo cantar a música composta especialmente para o livro. O agente literário sumiu com a grana e só restou convidar por e-mail.

Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.
O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília.
Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50
2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80
3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40
Para saber quem efetuou os depósitos acrescentarei alguns centavos identificando o número do pedido.
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Operação Valquíria

Participei de um desafio onde devia, semanalmente, produzir um texto com tema definido. Coube-me escrever sobre as circunstâncias que levaram Claus Schenk von Stauffenberg, em Berlin no dia 19 de julho de 1944, a prever as conseqüências para a permanência de Hitler no poder e que o fizeram aceitar a missão que executaria no dia seguinte.

Nos cinemas de todo o mundo Tom Cruise interpreta Claus Schenk von Stauffenberg, oficial alemão que colocou uma bomba aos pés do Führer no maior atentado contra o ditador. Em 2007, escrevi como teria sido o dia do oficial alemão na véspera do famoso atentado.

(conto escolhido)




Valquíria



Era a noite do dia 19 de julho de 1944. Em Berlim, no seu alojamento solitário, o coronel alemão Claus Schenk von Stauffenberg repassava informações e o plano para colocar uma bomba no bunker de Adolph Hitler no dia seguinte.

Von Stauffenberg caminhava nervosamente de um canto ao outro do quarto e revivia a angústia da reunião de dissidentes do alto comando ocorrida há vinte dias. Naquela tarde ficara claro para todos os oficiais que a partir da invasão da Normandia, o Dia D, a guerra estava perdida. Seria apenas uma questão de tempo para que a Alemanha fosse arrasada e humilhada. Os aliados, entre si, acertaram, no tratado de Teerã, que só interessava a rendição incondicional da Alemanha nazista. Desta forma não havia nenhuma possibilidade de acordo de paz em separado. Mas, para evitar que a Alemanha fosse invadida e subjugada pelos bárbaros russos, seria necessário um pacto com os americanos e ingleses. A solução seria a eliminação do Führer e a neutralização da poderosa SS. O grupo resolveu se opor justamente ao lema da SS – Schutzstaffel[1] – “Minha honra é a lealdade”.

Von Staffenberg pegara sua caderneta e relera as palavras do General Ludwig Beck "A obediência de um soldado encontra seus limites onde seu conhecimento, sua consciência e sua responsabilidade proíbem-no de obedecer ordens" O coronel alemão sabia que estas palavras, se lidas por alguém da SS, significariam a própria morte. Deu um sorriso de leve e questionou qual seria a sua condenação após o atentado. Achou que não precisava se preocupar com anotações e concentrou pensamentos na ação.

A decisão está tomada. Amanhã, bem cedo, pego o avião e pouso por volta das dez horas em Rastenburg. O motorista estará me esperando para percorrer os seis quilômetros de poeira até a Toca do Lobo[2].

A reunião do alto comando está prevista para meio-dia. Às onze e meia faço um lanche rápido junto com meu ajudante de ordens, tenente von Häften, confirmo o horário da reunião, peço licença para trocar a camisa empoeirada com a ajuda de von Häften. Todos sabem que preciso de ajuda desde que perdi meu braço direito e ainda dois dedos da mão esquerda. Von Häften engatilhará as duas bombas quebrando a cápsula de ácido que dissolve o fio que retém a bomba. O petardo explodirá ente dez e vinte minutos depois. Terei apenas cinco minutos para posicionar a valise sob a mesa e sair. Não há como desarmá-las. Estarei na sala de reuniões e von Häften me chamará para atender um telefonema urgente. Sairemos juntos, passaremos pelo alojamento e pegaremos o carro para ir até a pista de Wilhelmsdorf, de onde voarei para Berlim para ir ao Ministério da Guerra participar do levante contra o governo. Estará realizada a operação Valquíria[3].

Já se passaram dois anos, quando eu estava com Rommel no norte da África ouvindo as últimas notícias vindas da Alemanha. Eu pouco conhecia o glorioso marechal-de-campo Erwin Rommel, a Raposa do Deserto,

“Hoje a polícia prendeu o judeu Davi Stern que convidou crianças a lamber chocolate numa chapa de ferro congelada. As crianças foram atraídas pelo doce e numa armadilha infernal ficaram grudadas pela língua molhada. Essas três inocentes crianças foram mutiladas gratuitamente por um ser desprezível que gargalhava de prazer ao ouvir os gritos do desespero infantil.”

– Schweinehund! – porco imundo – berrou Rommel desligando o rádio. – Maldito Heydrich! É insuportável esta maldita e mentirosa propaganda anti-semita. Este cachorro safado vive criando falsas histórias para colocar os alemães e o mundo contra os judeus.

Fiquei nervoso e balançei a cabeça negativamente, Rommel em vez de ficar chocado com a crueldade do judeu, xingara o número dois da SS. Rommel, um homem frio e calculista, externara sua opinião para mim, um quase desconhecido, e, percebendo meus olhos arregalados, resolveu argumentar para fundamentar sua opinião.

– Sabe Claus, eu acreditei e lutei pela nossa Alemanha durante todo este tempo até que descobri que Goebbels, nosso ilustre ministro da propaganda, que vive alardeando grandes vitórias e conquistas, é um grande mentiroso. Minhas vitórias no deserto, de acordo com a língua de Goebbels, foram estrondosas, foram épicas! Passei a ser um herói imbatível e um orgulho para a raça ariana, quando na verdade eu dispunha apenas de equipamento melhor, e, modéstia à parte, um pouco de esperteza. Goebbels exaltava os alemães enquanto a verdadeira função de Heydrich, no serviço secreto, era criar boatos para desestabilizar os inimigos e fazer o mundo acreditar que os judeus eram o demônio na face da terra.

– Mas está provado cientificamente, meu comandante, que somos uma raça superior...

– Haha! Os cientistas foram contratados pelo Führer. Você ainda se lembra da Noite dos Cristais?

– Como alguém pode se esquecer daquele inverno de 38?

– Aposto que você ficou chocado quando aquele moleque judeu assassinou com requintes de crueldade nosso diplomata, não é mesmo?

– Eu e toda a Alemanha.

– O judeu nunca existiu. Foi a SS que eliminou um idiota incompetente, botou a culpa no judeu, depois colocou um monte de militares à paisana para empurrar a população incentivada pelo rádio. O resultado foi uma centena de judeus mortos, dúzias de sinagogas queimadas e a depredação do comércio judeu em toda Alemanha. – Rommel exibiu um sorriso irônico e continuou – O vidro quebrado das vitrines serviu apenas para criar um nome poético: Noite dos Cristais. – Das war der Anfang, mein Freund. – este foi o começo, meu amigo.

– Eu estou pasmo, meu marechal. Mas como o senhor me explica aquele discurso do Goebbels no ano passado, lá no Palácio dos Esportes? Goebbels perguntou para o povo se queriam a guerra total e catorze mil vozes animadas disseram sim e depois repetiram que sim.

– Mentiras! O discurso foi uma encenação gravada para transmissão por rádio e para os cinemas. Depois da derrota em Stalingrado, a intenção era entusiasmar os ouvintes e principalmente recuperar o moral dos soldados nas frentes de batalha, por isso, Goebbels referiu-se ao apoio da platéia presente, com uma centena de vaquinhas amestradas infiltradas – ressaltou – como sendo uma amostra da sociedade em seu todo. Todos ficaram empolgados por conta de uma farsa, de uma mentira. Todos mentem, todos mentem. O discurso foi gravado durante a semana e no estádio só houve encenação, teatro. – Alle lügen – Todos mentem.

Naquele fim de tarde meus olhos foram arregaçados para alguma coisa que eu já enxergara e em que não ousara crer. Em pouco tempo descobri que havia outros oficiais descontentes com a condução do governo da nossa Alemanha.

Jamais passou pela minha cabeça o assassinato do Führer. Jamais passou pela minha cabeça que eu seria o assassino do Führer. No mundo ninguém tem noção do que está acontecendo, nem os alemães, nem os nossos inimigos. A solução deve vir por aqueles que sabem. Pelos meus filhos e pelo futuro da Alemanha, estamos certos. Farei o que deve ser feito.

Já são quase dez horas da noite, toda a Alemanha canta junto com Marlene Dietrich a bela canção “Lili Marlene” antes do encerramento das transmissões radiofônicas.

Von Stauffenberg abre sua caderneta e com um lápis anota:

Fizemos o exame de consciência diante de Deus e a ação deve se realizar, pois este homem é a encarnação do mal. Queremos uma nova ordem, que faça todos os alemães portadores do Estado e que lhes garanta Direito e Justiça. Se tiver sucesso, serei considerado traidor de minha pátria; se falhar, me considerarei traidor de minha própria consciência.

As luzes do quartel são apagadas.





[1] A Schutzstaffel – escudo de proteção – ou SS, foi uma organização paramilitar ligada ao partido nazista

[2] Toca do Lobo – Wolfschanze – o QG de Hitler em Rastenburg, na Prússia Oriental.

[3] A Valquíria, é o título da ópera de Richard Wagner - segunda parte da tetralogia “O Anel do Nibelungo”.





O desfecho do atentado

A reunião foi transferida na última hora do bunker para um barraco de madeira. O bunker por ser de concreto armado teria os efeitos da bomba multiplicados.

A reunião também foi antecipada em meia hora assim, o mutilado von Stauffenberg conseguiu ativar apenas um dos dois explosivos previstos.

A bomba colocada sob a mesa, a meio metro de Hitler, foi afastada por um general que ficou incomodado com a presença da maleta.

A explosão matou quatro e feriu outras onze pessoas, mas não foi o suficiente para matar o ditador.

Von Stauffenberg foi preso e executado no dia seguinte.

Hitler ordenou vingança implacável a Himmler, chefe da SS. Consequentemente foram mortos quase 5.000 pessoas.

O herói Rommel foi convidado a se suicidar. O atentado foi previsto por Nostradamus.


Tom Cruise interpreta o alemão nas telas do cinema em filme homônimo a este conto.

16 fevereiro 2009

Assassinato na Avenida Paulista



Exercício proposto pelo Prof. Marco Antunes na oficina literária da Câmara dos Deputados: Conte-nos como, onde e quem matou Adelaide Santoro numa história de suspense que não pode ter mais que dez linhas.

Era tarde, por volta das oito horas da noite. Antes de sair tranquei os arquivos e levei um café para a doutora Adelaide Santoro. Ela estava pálida, estranha. Perguntei se ela estava bem. Agitada, estalava os dedos e olhou duas vezes para o enorme relógio da parede. Jamais tive liberdades com a doutora, mesmo assim ainda perguntei se ela queria desabafar comigo. Respondeu-me que não, que eu poderia ir embora e que já havia chamado um táxi para levá-la para casa. Todos nós, do escritório, sabíamos que o doutor Santoro guardava um revólver na gaveta direita da escrivaninha. Tenho certeza que não havia mais ninguém nas salas. Todos já haviam saído. Juro que não fui eu quem matou a Doutora Adelaide Santoro.

12 fevereiro 2009

Bebedouros

Uma imagem vale mais que cem palavras?
Este foi o exercício proposto na oficina literária da Câmara dos Deputados
Descrever a imagem, não o seu conteúdo, em exatas cem palavras. Tempo 15 minutos.

Do lado esquerdo há um bebedouro metálico. Embutidos um filtro e uma serpentina para gelar a água. O usuário tem um botão para acionar o esguicho.
Do lado direito, outro bebedouro. Este em porcelana branca. Ambos são alimentados pela mesma água.
Um tem a tubulação escondida enquanto o outro tem a tubulação oxidada aparente.
No de louça há um homem de calça escura, camisa branca e chapéu. A imagem remete aos anos 50 nos Estados Unidos. Não pelos bebedouros, nem pelo chapéu do homem sedento. E sim, pelas placas sobre os bebedouros: na direita lê-se colored e na esquerda white.


* A fotografia é de Elliott Erwitt, tirada em 1950, na Carolina do Norte

05 fevereiro 2009

Trema em único ato


Jamais pensei que um texto, é de novembro de 2005,
pudesse caducar em tão pouco tempo.
Trata-se de um diálogo, jamais havido, com a mais afamada
defensora da língua portuguesa no Centro-Oeste, Dad Squarisi.


Klotz: – Escrevi a palavra liqüidificador e o corretor ortográfico corrigiu para liquidificador. Eu já li em algum lugar que o trema ainda não teve Lei Áurea.
Dad (assente com gesto suave).
Klotz (curioso): – Consultei o Aurélio eletrônico e ele oferece as duas possibilidades. Procurei trema no índice do Manual de Redação e não encontrei. Abri à página 74 de Mais Dicas da Dad e encontrei grifado em amarelo: “Não se iluda. O trema continua vivinho da silva”.
Dad (assente com a cabeça mais uma vez esboçando sorriso).
Klotz: Consulta ao Houaiss eletrônico e verifica que este concorda com o Aurélio.
Klotz (faz cara de interrogação): – Tenho certeza que Dad está certa. Por que Aurélio e Houaiss estão errados oferecendo duas opções?
Dad (recolhe o sorriso e franze a testa com reprovação delicada).
Klotz (intrigado): Volta à página 74 e continua leitura: “usa-se nos dígrafos gu e qu seguidos de e ou i.”
Klotz (em voz alta): – LI-QÜI-DI-FI-CA-DOR. Se eu pronuncio a letra u e esta é seguida de i, então LI-QÜI-DI-FI-CA-DOR tem trema.
Dad (a testa volta a ficar lisinha, sorriso só com os olhos).
Klotz (confuso): Retorna ao Aurélio e relê: liquidificador sem trema.
Dad (com olhar didático sugere voltar à página 74).
Klotz (lê em voz alta final da nota, e comenta): – “O u deve ser pronunciado”. Pois é, eu pronuncio!
Dad (sem dizer palavra sugere que eu repita o que eu acabei de dizer).
Klotz: – Pois é, EU pronuncio!
Klotz (silencia, reflete e externa): – E há outros que não pronunciam. Líquido, liquidificador.
Klotz (alegre com enorme sorriso): – É líquido e certo que você sabe das coisas. E sabe explicar. Mais uma vez, obrigado!
Dad (abre largo sorriso e diz): – Fique tranqüilo, são questões da lingüística. Você é que é gentil.
 
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