30 agosto 2008

Piercings e morangos


Depois do expediente eu estava com vontade de comer alguma coisa, por isso quando entrei no barzinho, em vez das pessoas, procurei olhar para os pratos. Ainda era cedo, poucos mastigavam, até havia alguns lugares para sentar. Passei por três mesas repletas de cervejas, velas coloridas, cachacinhas de alambique e amendoins em pequenas vasilhas transparentes. Na quarta mesa havia uma pizza. Quatro taças de café e uma pizza individual recém-entregue. Uma pizza de morangos com queijo derretido escorrendo do prato. A repugnância provocou-me contrações mal disfarçadas. Olhei para o dono do prato. Era de uma mulher que combinava com pizza de morango. Uma refeição estranha para uma pessoa estranha. Não há o que descrever na estranhíssima comida, mas a moça já passou dos vinte anos, madura, isso é certo.

Cabelos negros com cachos cuidadosamente esculpidos pelo vento. Um delicado brinco sobressai na sobrancelha bem cuidada que emoldura olho de alegria faiscante. O rosto comprido e os cabelos curtos revelam dois piercings na parte superior da orelha. No lóbulo, uma pedra sinaliza verde para mim.

Sentei-me numa mesa favorável ao voyeurismo explícito à dona dos piercings e morangos

Sob a manga comprida do casaco, perto do pulso direito, traços escuros sugerem uma tatuagem. A postura ereta denota pessoa de personalidade forte - fiz tatoo, botei piercing, falo palavrão e faço careta - ela exerce um certo domínio na conversa, uma espécie de liderança. As três amigas da mesa são mais jovens que ela. É deselegante falar em idade após os vinte. Após os trinta, há, é falta, de educação.

Ela percebe que eu a observo e sorri discretamente sem interromper a fala.

Acho graça. Como posso simpatizar com alguém que come pizza de morangos? E se delicia lascivamente?

Ela é uma mulher diferente com seus atrativos metálicos. É extrovertida e expansiva apesar do olhar carente.

Ela leva as duas mãos para o botão superior do casaco. Abre e segue suavemente para o segundo botão. Ela não olha para mim e abre provocativamente. Uma blusa preta apertada surge por debaixo do casaco. Quando as mãos abrem o terceiro e último botão ela, tira o casaco sensualmente livrando os ombros e desnudando enormes tatuagens multicoloridas em ambos os braços. Recebo uma piscadinha maliciosa e em seguida os botões rapidamente voltam para suas casas e enclausuram surpresas.

O impacto foi devastador. Tão excitante quanto uma cruzada de pernas sem calcinhas.

– Uma cerveja, bem gelada e – estalei os dedos – por favor, um cardápio. – Pedi ao garçom.

Ela é uma mulher de vanguarda, lança moda e modismos. Não tenho dúvida nenhuma. É uma líder. Se ela criar uma expressão nova, o grupo vai imitar. Se ela usar um capacete de bombeiros, passará a ser o uniforme da empresa no dia seguinte. Depois que ela pediu pizza de morangos e lambeu os dedos será destronada, perderá o trono de rainha. Será apenas uma louca sem paladares que come pizza de morangos acompanhada de café. Argh!

Prefiro comer comida salgada. Procuro por pizzas no cardápio. Encontro empadas, crepes e coxinhas recheadas. Nada de pizzas. Nenhuma única pizza.

– Ó, garçom! Por favor eu quero comer uma pizza, traga-me o cardápio das pizzas.

– Não servimos pizzas aqui.

– Mas naquela mesa – apontei com o nariz – estão comendo uma.

– Aquele prato, senhor, é nosso carro-chefe, waffle com sorvete de creme e morangos. Aparências enganam.

25 agosto 2008

Fim do assédio moral

No dia 25 de dezembro o policial chegou ao vigésimo quinto andar e abriu a porta, nem precisou arrombar. A negra cortina do escritório balançava ao vento transformando meio-dia em caverna. Apesar dos telefones nas dezenas de mesas, o silêncio era ensurdecedor, ninguém na sala, só uma folha de papel jazia no chão.
Dr. Paulo, o senhor queria que eu desse meu sangue para a empresa. Conseguiu.
O brilho de um monitor de computador sugeria ter sido aquela a penúltima janela do morto no térreo.

22 agosto 2008

Todo mundo nu



Seu Adolfo gostava muito de cinema.
Mandava apagar a luz e abrir o gás.

13 agosto 2008

Cidade letrada

HCGN
SQS
SMPW
CLS
EQN

Cidade letrada.
Mentira
Cidade estuprada.
Verdade
Todos vêm aqui tirar um pedaço
de você e de mim!
Falta algema,
Cidade leva fama.

27 julho 2008

Professor de física, aluno da vida



José Rubens Borba de Oliveira, 28 anos, brasileiro, casado, engenheiro mecânico. Batalhador, ético e conseqüente.
José Rubens trabalha há dois anos numa empresa que desenvolve sistemas de aproveitamento de energia solar. A estabilidade conquistada permitiu mais um passo no planejamento familiar. A esposa está grávida do primeiro filho. Apesar da segurança, o salário é insuficiente para devaneios. Na busca de fontes alternativas, bem ao estilo de quem trabalha com energia, descolou aulas noturnas de física em um colégio da redondeza.
A fama do colégio não é exatamente exemplar. Muitos dos alunos foram repetentes em outras escolas e agora, nesta, buscam o certificado de conclusão do segundo grau sem muito esforço. A realidade do mercado de trabalho sugere que o conhecimento não é tão importante quanto o diploma. O diretor da escola ofereceu uma turma para o professor estreante com promessa de mais turmas e, consequentemente, melhor remuneração no segundo semestre, conforme o desempenho no ofício.
No primeiro dia de aula, digo na primeira noite, o professor estreou um jaleco branco com as iniciais JRO bordadas sobre o bolso e, de acordo com o programa, lecionou termologia.
O número de presentes correspondia a aproximadamente 25% daqueles da relação de matriculados. Começo de ano letivo é frio, depois esquenta, julgou. Iniciou morno sobre os estados físicos dos elementos e revisou conceitos de solidificação, liquefação, fusão, vaporização e sublimação.
Na aula seguinte a presença de alunos cresceu vertiginosamente para 40%. Destes, apenas quatro trouxeram o livro recomendado.
José Rubens trabalhou duro no fim de semana a tempo de elaborar e digitar, por sua conta, um resumo do tópico. Levou exatas 50 cópias. Apesar de dispor da relação de nomes, ainda não dispunha da lista de presença. Estranhou que somente 19 cópias foram pegas, apesar dos 23 presentes.
Ao perceber a dificuldade da rapaziada em transformar graus centígrados em graus Fahrenheit ou Kelvin, não mediu esforços para ensinar a base matemática, a conhecida e manjada regra de três.
A minoria trabalhava durante o dia, entretanto todos alegavam a mesma desculpa para não fazerem os deveres de casa.
O resultado da primeira prova foi insatisfatório, só dois estudantes obtiveram notas acima de cinco.
O tempo era curto e o programa longo. Mesmo com a termologia não aprendida, foi necessário seguir para a cinemática com as inevitáveis equações do segundo grau, aquelas que têm um dois sobre um xis. O professor preocupou-se porque os aprendizes continuavam com a mesma dificuldade, agora para transformar quilômetros por hora em metros por segundo.
Quando falou em movimento retilíneo uniformemente variado e escreveu a fórmula S = S0 + v0t + ½ at2 no quadro-negro recebeu uma vaia do tamanho da equação.
Foi acusado formalmente de exigir conhecimentos de física quântica dos pupilos. Coisa que nem a sapiência do diretor ouvira falar.
José Rubens sentiu a pressão. Sonhou com as três ou quatro turmas prometidas pelo mandante supremo e preveniu a turma que a aula seguinte seria importantíssima pois daria o bizu para a prova.
Escreveu cinco questões na lousa, resolveu-as paciente e didaticamente. Ninguém externou qualquer dúvida. Encheu-se de satisfação e segurança para elaborar a prova com as mesmas cinco questões onde alterara apenas os números.
Para sua surpresa e desespero, o resultado foi tão devastador quanto da primeira prova.
Indignado com o desinteresse, levou o assunto à diretoria. Foi surpreendido com uma reprimenda. Conforme o diretor, os pais dos alunos pagam o colégio e, portanto devem ser oferecidas aos alunos oportunidades reais de lograr boas notas e passar de ano. Para mostrar generosidade, deu-lhe mais uma chance de se redimir com as crianças, afinal bom mestre que era, deveria ser capaz de aplicar outra prova, esta sim, com resultados satisfatórios.
A noite foi longa. Muito longa. José Rubens questionou valores e juízos. Pensou na escola, nos estudantes e nos pais deles. Remoeu significados de ética e moral. Vivenciou a educação do filho ainda não nascido. Pesou o significado de três ou quatro turmas no semestre seguinte.
De manhã, antes do sol raiar, sentou-se à frente do computador, com o modelo nas mãos, digitou a mesma prova, igualzinha, desta vez para ser respondida por meio de múltipla escolha. O trabalho foi rápido e terminado com um sorriso de orgulho. Tanto orgulho serviu para escrever uma cartinha pensando no filho.
Chegada a hora da aula, observou que pela primeira vez a sala estava cheia, abarrotada. A secretaria telefonou aos alunos, um a um, avisando que naquela quinta-feira haveria uma nova prova, pois a anterior tinha sido anulada por uma falha conceitual em uma das questões.
O professor, em seu jaleco impecavelmente branco distribuiu as provas e solicitou que esperassem um pouco antes de iniciar. Foi ao quadro-negro, enumerou de 1 a 5 e anotou uma letra ao lado. Virou-se para o grupo, comunicou que aquele era o gabarito da prova, desejou boa sorte e solicitou o início da prova, porém que aguardassem o resultado da correção antes de saírem da sala.
O zum-zum-zum foi enorme e não levou 10 minutos para os alunos devolverem as provas respondidas. Após a correção – ainda houve três avoados que não obtiveram a nota máxima – anunciou que entregaria a sua demissão e que aquele tinha sido seu último dia na escola porque breve teria a quem educar.

15 julho 2008

Revendo conceitos

Quando fui chamado politicamente incorreto passei a noite sem dormir. Virei-me para um lado e para o outro até as quatro da manhã. Levantei-me e enchi um copo com três dedos de conhaque. Os pensamentos estavam opacos como a fumaça. Joguei a ponta do cigarro pela janela e decidi naquele momento que eu deveria mudar meus valores.
Fui até o computador, abri minha planilha intitulada trânsito.
Aumentei a pontuação de atropelamentos em 50%.

a) Adulto: 300 pontos
b) Adolescente: 500 pontos
c) Velho: 800 pontos
d) Criança: 1000 pontos
e) Casal de namorados: também 1000 pontos
f) Torcedor com a camisa do Flamengo: zero, zero pontos. O dobro ou o triplo de zero continua zero. Não há como valorizar torcedor do Flamengo.
g) Casal de cachorros fazendo sexo: 300 pontos e uma bela história para contar
h) Taturana: 10 pontos. Já sacanearam a bichinha outras vezes.
i) Criancinha com ursinho de pelúcia: 1200 pontos
j) Cadeirante 3000 pontos. E ainda acham que não valorizo cadeirante. Cadeirante tem de valer muitos pontos, pois faz um estrago danado no pára-choque.
k) Cego. Cego não vale nada, não tem graça, é muito fácil de atropelar: 200 pontos.
l) Cego com guia: 1000 pontos
m) Mendigo: 100 pontos
n) Mendigo sóbrio 5000, porque não existe.
o) Babá com carrinho de bebê: 400 pontos
p) Babá com carrinho de criança, com o bebê: 4300 pontos

Se o atropelamento ocorrer na faixa de pedestres, some 1000 pontos.
Se ocorrer em cima da calçada some 2000 pontos.

10 julho 2008

Fraldas para mau humor



Fui à farmácia comprar protetor solar e xampu.
Reparei que uma senhora comprava todo o estoque de fraldas descartáveis. Eram dezenas de caixas espalhadas nos balcões e no chão. Espantei-me com a quantidade e comentei com o vendedor.
– Nossa, não seria mais em conta comprar uma rolha?
Pra quê eu fui dizer isso?
A senhora virou-se para mim, com uma cara azedíssima – Meu filho é deficiente!
Levei um susto enorme com aquela senhora tentando morder a minha jugular.
– Julguei que estivesse comprando esta quantidade por causa da promoção! – foi só o que me ocorreu para amenizar o clima tempestuoso.
– Pois o senhor dobre a língua quando falar do meu filho! – gritou para que todo o bairro ouvisse.
Olhei em volta, não vi nenhuma criança deficiente, também nada vi que indicasse que ela fosse portadora de uma criança deficiente.
Abaixei minha cabeça humildemente, paguei as minhas compras. Senti uma pena enorme da criança. Não pela doença, mas pelo mau humor materno. Caminhei até a saída , virei-me, e, em voz alta, solicitei a um balconista do fundo da farmácia:– Moço, por favor, dê-me uma caixa de antiácidos. Esta senhora nasceu com azia!

04 julho 2008

Sexo precoce



Os jornais de hoje trazem estampados que as brasileiras fazem sexo cada vez mais cedo.

Isso é ótimo, levanto-me às seis.

22 junho 2008

Em família


Vovó era doce.


Pai durão.


Mamãe tenra.


Pensava enquanto chupava o fêmur da irmã.

01 junho 2008

Letras brancas



A pichação de muros e paredes é uma agressão.
Quando era moleque, lembro que os tapumes de toda São Paulo traziam uma mensagem estranhíssima: CÃO FILA KM 23. Todos os paulistanos em algum momento leram a frase. O enigma foi notícia de rádio e televisão. Todos palpitavam no significado da charada, a voz corrente dizia que era jogada publicitária de vendedor de cachorros.
Em outra época, não lembro se antes ou depois, as paredes amanheceram cobertas de tinta escorrida com palavras de protesto: ABAIXO A DITADURA, ELEIÇÕES DIRETAS, YANKEES GO HOME. Eram tempos sombrios e os militares de plantão julgaram que CELECANTO PROVOCA TERREMOTO, fosse outra provocação. Houve inquéritos e perseguições, mas jamais soubemos o sentido daquele aviso.
Depois do piche veio a tinta. Hoje em dia, raros são os prédios, que escapam dos sprays. As gangues rabiscam os lugares mais inalcançáveis para marcar força, poder e território.
Recentemente, letras vermelhas marcaram o fundo azul de uma banca de jornais: A LIBERDADE VEM EMBALADA EM PLÁSTICO, É COLORIDA E TEM GOSTO DE ISOPOR. Naquele dia, meus quarenta minutos de caminhada foram de muita curiosidade sem resposta. Pareceu-me vir de alguém questionando a sociedade de consumo.
Algum tempo depois, no Eixão, deparei com enormes letras negras escritas no mármore branco de um viaduto: TAMOS DE OVÁRIO CHEIO DE VIOLÊNCIA. Meus pensamentos caminhantes transformaram-se em reflexão e questionamentos.
Andei ontem meu longo percurso até a rodoviária, onde o Eixão se cruza com o Eixo Monumental. Lá fica o Buraco do Tatu, passagem subterrânea, que liga a Asa Sul à Norte. O túnel destinado apenas aos automóveis tem calçadas muito estreitas sob a poluída parede de cerâmica clara. Apenas nos fins de semana, quando o trânsito é fechado, é possível caminhar por ali. Foi uma surpresa muito agradável, pois alguns artistas em vez de picharem, removeram a fuligem e através de contrastes brancos desenharam animais remotos, guerreiros em caça e armas primitivas ressuscitando a arte dos homens nas cavernas. Mesmo nas trevas ainda temos luzes.

14 maio 2008

Andando com Nietzsche e Schubert


Caminhar é bom. Caminhar acompanhado é melhor. Caminhar acompanhado de companhia inteligente é ótimo. Eu me lembro de tudo como se tivesse acontecido agora. Dois minutinhos atrás, ou três.
Foi num quente final de tarde de março. Estávamos na trilha do Parque de Olhos D’Água, aqui em Brasília, pertinho de casa. A conversa das duas ia animada. Ana Beatriz e Rafaela comentavam a influência da obra de Shakespeare na escrita de Machado da Assis. Apesar de o assunto ser inesgotável, falaram em Nietzsche antes de descobrirem afinidades com Schubert. Perguntaram minha opinião sobre o niilismo e eu disse que tinha acabado de lanchar. O riso maroto das duas sugeriu que era melhor continuar calado.
O diálogo entre as minhas companheiras versou sobre o existencialismo, passou por discussão sobre a exploração alternativa de fontes energéticas e, quando estávamos sobre a ponte, Ana Beatriz encostou-se na amurada, ergueu o indicador para o céu e afirmou que aquela nuvem parecia o mapa do mar Adriático. Rafaela concordou com ressalvas dizendo que o Golfo de Veneza era um pouco mais fechado e em seguida apontou para outra nuvem, mais à direita.
– Veja. Lá está a Pietá de Michelangelo.
Ana Beatriz assentiu e perguntou-me o que eu via.
Olhei para o céu. Examinei as nuvens detidamente e encontrei uma nuvem linda, muito branca, parecia um coelhinho. Olhei de novo e depois olhei para o rosto das minhas amigas. Achei melhor dizer que não encontrei nada.
Concluí que às vezes é melhor caminhar só do que bem acompanhado.

08 maio 2008

Raio de luz



O despertador alarmou,
o leito me cuspiu,
o café queimou,
a gravata oprimiu,
a neblina embaçou.
Viver fede.

O trânsito congelou.
O carro pediu asilo.
A calçada me recebeu,
no raio de luz tropecei.
Trombetas tocaram.

Soltei nós,
calei gritos,
perfumei carniça,
adocei mares,
cortei a escuridão,
domei tristeza.
Namoro a dama-da-noite.

30 abril 2008

Torpedos desclassificados

No sábado recebi um torpedo no meu celular:

“mae vo viajar com uma miga dumingo volto”

Li duas vezes. E, apesar de não ser espelho, refleti que não sou mãe, que meus filhos estão reunidos comigo e que eles não cometeriam tantos crimes ao vernáculo em apenas uma linha. Conclui que aquela mensagem não era para mim. Era um engano.
Deixei por isso mesmo.
Hoje, segunda-feira, recebo outro torpedo telefônico:
“Vo almoca com uma amigas”

Pela linguagem capenga, julgo que seja a mesma pessoa.
Ameaço ignorar, entretanto a ironia coçou e se fez presente.

“Você já almoçou. Comeu um U, uma cedilha e um S.”

Enviei e, para surpresa minha, veio a resposta:

“Nao fui ainda”

Achei que eu não deveria ser desagradável só porque ela comeu, de sobremesa, o til.

15 abril 2008

O vôo fatal de Isabella

No final do expediente, o pessoal do trabalho parou para tomar um cafezinho. O assunto poderia ser a derrota do Flamengo, poderia ser mais um flagrante de corrupção na cúpula do governo ou até a nova cor vermelha da cobiçada secretária Shirlei. Mas não, o assunto é o mesmo que toda a imprensa escrita e televisiva traz em manchetes nos últimos dez dias: o vôo fatal da menina lançada pelos próprios pais através da janela do sexto andar.
Adultos, crianças e velhos, todos estamos chocados por mais uma tragédia. A história é esmiuçada em detalhes sórdidos. Uma criança indefesa é espancada e asfixiada justamente por aqueles que deveriam dar conforto e segurança. O local do crime é a própria moradia, o lugar onde seria seu porto seguro. A verdadeira mãe não demonstra a dor desesperada pela perda da filha. Há provas da premeditação de crime devido ao corte da tela de proteção da janela antes do arremesso. O terrível estigma de ódio e ciúmes de uma madrasta pela enteada é resgatado e multiplicado. O choque de imagens da família feliz nas horas que antecedem o crime se superpõe ao cadáver da criança na grama. Aparentemente não há indícios que outras pessoas estievesem no apartamento na mesma hora da bárbarie. De onde, facilmente, qualquer leigo, conclui que os assassinos só podem ser os próprios pais.
O crime aconteceu na última sexta-feira do mês de março e até agora a polícia ainda não divulgou o nome dos criminosos. Meia centena de pessoas foi interrogada. Os pais foram presos por flagrante e soltos por habeas corpus. Quase linchados e presos novamente. A população tem ânsias de justiça. Tudo parece óbvio. Mas não é.
Se a justiça brasileira não está externando os resultados das investigações é porque deve haver outras razões misteriosas e ocultas.
Talvez o pai seja um agente russo infiltrado no Edifício London. Talvez a perícia tenha descoberto um túnel subterrâneo ligando o apartamento a uma agência do Banco do Brasil localizada a apenas três quadras de distância. Talvez os pais da Isabella quisessem enviar a filha para estudar no exterior. Talvez a madrasta tenha contribuído com enormes somas de dinheiro, oriunda de lavagem de dinheiro, para a campanha eleitoral de um deputado influente. Talvez o casal faça parte da rede de internacional de traficantes de cocaína e por isso tenha proteção de algum governo vizinho com o qual nosso país deseja manter as ótimas relações.
Não, nem eu, nem ninguém, consegue inventar qualquer desculpa plausível que justifique a não acusação formal do casal. No nosso país ninguém, que não tenho bons advogados, é incriminado.
Brasileiros não punem falta de respeito, falta de ética ou de moral e a conseqüência é a impunidade também para todos os tipos de crimes. As autoridades mentem, ameaçam, chantageam, insultam, enriquecem de ilícitos e não são castigados. São os nossos exemplos.
E, daqui a quinze dias, ao final do expediente, no cafezinho discutiremos como fomos obrigados a acreditar que a pequena Isabella caiu da janela ao tentar pegar um vaga-lume que pisca-piscava alegria e inocência.
Agora só falta Isabella cair no esquecimento.

04 abril 2008

Pão com tertúlias

No intervalo entre uma crônica e um conto de Machado de Assis, durante a oficina literária, levantei-me e servi ao grupo umas fatias de pão caseiro trazidas de casa.

Dizem que tenho que sair da minha zona de conforto, sempre escrevendo crônicas bem humoradas. Foi exatamente o que resolvi fazer. Não levei nenhuma crônica para o encontro. Saí do escritório e fui à cozinha. Deixei meu público restrito e atirei-me às massas. Massa de pão mais especificamente. Levei dois recipientes com 16 contadas fatias de pão. Destampei ambos e estendi para o grupo da esquerda e logo em seguida ofereci para o grupo da direita.

Na verdade devo informar aos leitores que era à minha direita ou à minha esquerda, ninguém ali estava preocupado com posições políticas. Machado ensinou-nos que às vezes devemos lembrar ao leitor que ele não faz parte da história, para ele não se condoer de dores por algum personagem e também que não adianta salivar, pois não vai provar nenhuma fatia do cheiroso pão que está sendo compartilhado por vorazes bocas famintas de onze horas da manhã.

Aos olhares femininos, preocupados com a redonda forma, do pão, é lógico, externei, brincalhão, que aquele alimento era light. Em vez das previstas três xícaras de óleo na receita, eu havia colocado apenas meia xícara.

Mais importante que a receita é o momento certo e modo certo de servir. O momento é bem próximo da hora do almoço e a quantidade deve ser tal que todos possam provar, mas apenas alguns possam repetir. O que deixará em todos a sensação de desejo não totalmente satisfeito. A sensação do prazer, próximo do orgasmo, porém sem o gozo.

O mestre, na posição de líder, deu-se ao direito de comer uma segunda fatia para retornar energizado a leitura de outra crônica. Saboreamos Machado enquanto o odor do pão fresco ainda persistia no ambiente e nas mentes.

Ao final da aula, desta vez, não ouvi nenhuma crítica em relação aos meus textos. Nem positiva nem negativa. Várias colegas, gentilmente pediram a receita. Percebi como elogio ao meu trabalho.

Reparei que o professor correu para pegar a derradeira fatia. Foi meu melhor elogio, o gesto demonstrou que gostou de eu ter saído da minha zona de conforto.

Os ingredientes:

2 tabletes de fermento biológico (30g) – utilizei 3 envelopes de 11g com validade vencida e mesmo assim deu certo

1 colher (sopa) de açúcar

1½ xícara de água morna

½ xícara de óleo

1 embalagem de creme de cebola

3 xícaras de farinha de trigo

O modo de fazer:

Unte uma forma de pão. – É bom que a forma seja das grandes (28x11cm) porque a massa cresce um bocado e depois transborda no fogão provocando uma lambança federal além da fedentina de pão queimado. Na dúvida, use duas formas. Um pão você oferece na aula e a outro você come antes da aula

Em uma tigela grande, misture o fermento com o açúcar. Depois acrescente a água, o óleo e o creme de cebolas. Misture.

Adicione a farinha e misture até formar uma massa mole.

Preaqueça o forno em temperatura média – 180ºC

Ponha a massa na forma e deixe crescer por 30 min ou até dobrar de volume.

Leve ao forno por 25 minutos ou até dourar.

Tertúlias são o complemento ideal ao pão.

Quando for levar o pão para a aula não esqueça de deixar o recipiente semi-aberto para impregnar a sala com aroma de desejo.

16 março 2008

Ausente



Estarei fora do mundo onde haja internet até o final de março. Se, nesse período, eu não responder suas mensagens não brigue comigo.

Existe um camarada nada ético que colocou um feed no meu blogue. Basta haver uma postagem nova que aparece um span nos comentários. Veja o exemplo abaixo.

14 março 2008

Desfolhando a rosa dos ventos


O urbanista Lúcio Costa visitou meus sonhos.
Os jornais fervilham notícias do novo bairro – Noroeste – em final de gestação e eu, como brasiliense apaixonado pela cidade, participo da torcida pela construção com bons resultados para a qualidade de vida dos futuros moradores e que o grande Lúcio Costa tenha orgulho de ter assinado o anteprojeto.
Quando o urbanista pensou Brasília focou o bem-estar do homem. Os prédios teriam altura limitada para não apagar o horizonte nem esconder o céu. A disposição dos blocos nas quadras seria de tal sorte que a fachada principal de um prédio não estivesse de frente com a fachada posterior do outro prédio. A proximidade dos blocos só aconteceria fundos com fundos com a privacidade protegida por elementos vazados denominados cobogós. Todos os apartamentos, por menores que fossem sempre teriam duas frentes para permitir a circulação do ar. Os cobogós atendiam com inteligência e baixo custo a função da iluminação, ventilação natural e privacidade.
Na época da construção existia muita pressa por isso vários prédios foram construídos sem subsolo e sem garagens. Havia poucos veículos. Agora recaem ao governo as cobranças de soluções para a falta de vagas de estacionamento e conseqüentes congestionamentos em muitas vias. Hoje a situação se agravou, temos um veículo para cada 2,5 habitantes. Os financiamentos facilitaram tanto a aquisição de automóveis que podemos observar que mesmo no comércio local é muito comum haver um ou até dois veículos por quitinete. Alerto que o projeto do Noroeste autoriza a construção de quitinetes em cima das áreas comerciais. Duvido que determine subsolos para abrigar automóveis.
Em algum lugar eu li que outro problema existente tanto no Sudoeste quanto no Plano Piloto, e que não existirá no Noroeste, é a instalação de escolas próximas a quadras residência. Isso, conforme a leitura, gera congestionamentos no trânsito. O urbanista Lúcio Costa pensou de forma oposta quando planejou Brasília com as escolas-classe dentro das quadras de forma que não fossem necessários veículos.
Em números redondos é possível estimar que para os 40 mil habitantes, estimados para o bairro, serão necessárias pelo menos 16 mil vagas. A conta se agrava quando o local é projetado para a classe alta onde a relação veículo/habitante é maior. Será que os prédios terão vários subsolos para absorver a demanda? Acho pouco provável. Os empreendedores, visando o lucro, dirão que atenderam ao projeto. Sem alardear que o projeto saiu do papel graças a um convênio firmado entre o GDF e a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi).
A pressão das construtoras e imobiliárias é enorme, tanto que recentemente uma imobiliária de outro estado adquiriu o controle de duas imobiliárias tradicionais da cidade.
Em 2007, o MP – Ministério Público – entrou como uma ação na Justiça pedindo a readequação do plano urbanístico do bairro, que previa 80 mil moradores, apesar do Estudo de Impacto Ambiental autorizar apenas 40 mil.
O plano urbanístico foi refeito para 40 mil moradores, entretanto criaram uma brecha através de uma reserva destinada a urbanização futura onde cabem outros 40 mil moradores. Ou mais.
A propaganda existe para atrair. Por isso a campanha publicitária do Noroeste informa que será o primeiro bairro verde. O nome “verde” foi escolhido para sugerir construções ecologicamente corretas e não a derrubada de uma área verde, pois o terreno de 4 milhões de metros quadrados fica na Área de Preservação Ambiental (APA) do Planalto Central e foi preciso uma Licença especial de Instalação do Ibama para regularizar a expansão da cidade.
O nome verde está associado a ecologia e a um partido político. No Noroeste, conforme eu li, o verde estará presente na urbanização do Parque Burle Max e na promessa de bom aproveitamento da água, no uso de energia solar, com ventilação e iluminação natural, ciclovias e coleta inovadora de lixo.
A propaganda induz a pensar que todos os prédios serão equipados com coletores de energia solar. Este é um enorme investimento das construtoras que eu duvido que se realize. O máximo que vai acontecer será a iluminação de alguns pontos com investimentos bancados pelo governo, digo pagadores de impostos.Por favor, me belisquem, me acordem , digam que tudo não passa de um engano, de um enorme pesadelo.

06 março 2008

Quando pintei o urubu


Hoje acordei atleta e artista plástico. Acordei, mas não levantei. Apenas fiquei pensando em como é louca a nossa mente. Considerar atleta alguém que caminha quarenta minutos diários por recomendação do cardiologista jamais pode ser considerado atleta. Mas na poderosa e imaginativa mente ainda sou capaz de escalar montanhas e chegar ao outro continente com meia dúzia de braçadas. Para não me chamarem mentiroso eu diria que, tudo bem, uma dúzia de braçadas e chego à África. O mais engraçado é me achar artista plástico. Logo eu, que de artista, sei apenas que Miguelângelo pintou a Mona Lisa.
Enquanto escovo os dentes vou à janela ver como está o tempo.
– Decepcionante.
Aquela deliciosa moça do tempo diria com um sorriso que o tempo está encoberto com nuvens carregadas com o dia sujeito a trovoadas e temporais. Não acho nada sensual um dia carregado de tempestades.
Tenho que fazer alguma coisa, além de guardar a escova de dentes e tirar a espuma da boca. Vão me confundir com algum louco babando pela moça do tempo.
Minha primeira providência é procurar os meus baldes de tinta aquarela que guardo no armário da garagem junto com a árvore de Natal e junto com os meus esquis para neve.
Levo as tintas, a palheta e o pincel para a minha varanda. E abro a minha escada expansível.
Começo da esquerda para a direita. Ou do norte para leste, como preferirem. Pinto o céu de azul e as nuvens de branco. Como há nuvens demais, pinto várias de azul para se transformarem em céu. Mudo a escada de lugar girando para o leste. Apago as nuvens pretas e faço um círculo amarelo com um sol brilhante. Do meio das nuvens surge um avião cujo piloto acena um agradecimento pela melhoria das condições de vôo.
Com a minha rapidez de atleta rapidamente deixo todo o céu azul e várias nuvens branquinhas. Eu fui tão rápido e ágil que agora tenho que me desculpar com o urubu que pintei de branco. O urubu, para minha alegria, não ficou ofendido, ao contrário, disse que esse era o grande sonho dele e que não adiantava ficar apenas alisando o cabelo. Agora sentia-se uma verdadeira garça.
Eu, hem!
Guardo a escada e troco meu jaleco de artista por um calção de atleta. Lambuzo pernas, braços e rosto com protetor solar. Afinal, somente malucos caminham sob um sol abrasador como o de hoje.
Na rua, além do sol quente, percebo poeira, árvores secas e plantas sedentas. Minha consciência dói. Meu egoísmo se retrai e volto para casa como um atleta legítimo: correndo.
Como desfazer? Não tenho tinta preta? Nem sei desenhar raios e trovões.
Sento na frente do micro e aponto o mouse para aquele xizinho do canto superior direito.
– Deseja salvar as alterações em “hoje acordei atleta e artista plástico? Sim? Não? Ou Cancelar?
Apontei o mouse para não e cliquei.
Ah, como é bom poder dormir mais um pouco nos dias chuvosos.

23 fevereiro 2008

Antologia


– Ó, von Silva, o que é antologia?

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é von Silva, não tenho outro de pia.

Se eu estivesse na repartição seria normal este tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento.

Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procurando uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas, Minas não há mais, quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentá e procurar um desmancha-dúvidas. Meu reino por um dicionário!

Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai-dos-burros. Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o significado de antologia.

Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho, cadê o maldito tira-teimas?

Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente surge o salvador e consulto o verbete:

“Coleção de trechos em prosa e/ou em verso.”

– Obrigado, Aurélio!Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro.

– Mais uma vez, obrigado, Aurélio!


Pesquisa para o texto Antologia

“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima , não seria uma solução.” – O Gauche – Carlos Drummond de Andrade

“João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” – Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade

“O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” – Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto

“Porque hoje é sábado.” – O Dia da Criação – Vinícius de Moraes

“A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” – A Rosa de Hiroshima – Vinícius de Moraes

“Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” – Alegria, alegria – Caetano Veloso

“Quero ir para Minas, Minas não há mais, quer morrer no mar, mas o mar secou.” – E agora, José? – Carlos Drummond de Andrade

“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei.” – Vou-me Embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira

“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.” – Canção do Exílio – Gonçalves Dias

“Meu reino por um cavalo!” – exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare

“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” – Vozes d'África – Castro Alves

“Queixo-me às rosas mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” – As Rosas – Cartola

"Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência." – Diariamente – Nando Reis

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” – No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade

“Toda pedra no caminho você pode retirar.” – É preciso saber viver – Roberto Carlos e Erasmo Carlos

“De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” – Soneto da Separação – Vinícius de Moraes

“Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” – Wilson Mizner

16 fevereiro 2008

Achados e perdidos

Quando abri a cortina para olhar o tempo, vi a minha vizinha andando e gesticulando muito. Tomei o café, li o jornal e coloquei minha bermuda caminhante. Iniciei meus exercícios diários descendo os cinco andares pela escada.
A vizinha, agora com as duas mãos na cabeça, continuava a caminhar agitada no calçamento entre verdes gramados.
Segui meu caminho solitário. Ainda olhei para trás por duas vezes. A mulher andava para lá e para cá no mesmo trecho, nos mesmos cem metros. Parecia desolada, balançando a cabeça de forma negativa.
A vizinha é uma senhora que já passou dos setenta anos, magrinha, magrinha. Cabelos brancos amarrados em coque. Blusinha abotoada até o pescoço e nenhuma maquiagem para disfarçar as olheiras profundas. Viúva. Mora sozinha, sem gato ou cachorro. A filha mora em algum país da América Central. Confidenciou-me o síndico que rareiam os seus alunos de piano e que ela está em débito com o condomínio por cinco meses. Contou também que a solitária professora deve estar com algum outro trabalho, uma vez que passa as tardes fora de casa ao contrário dos últimos dez anos. Pela falta de luz nos olhos parecia ser daquelas pessoas que foram esquecidas pela Dona Morte.
Enquanto eu seguia o meu caminho a Dona Ernestina, esse era o nome dela, balançava seu coque branco e os meus pensamentos.
– O que será que Dona Ernestina perdeu? Algum brinco ou broche familiar? Talvez alguma pulseira que a ligasse ao amado marido?
De longe, vejo a viúva de cabeça baixa procurando na calçada e na grama. A dor também aperta o meu peito. Uma vez perdi uma abotoadura com monograma que herdei do meu avô. Nenhuma outra jóia substitui o ouro e o brilho das pessoas amadas.
A angústia tomou-me o corpo e fui em direção ao desespero personificado naquela mulher.
Ela precisa de ajuda. Quem sabe se eu chamar o pessoal do prédio para auxiliar na busca? Com a ajuda do zelador e mais três faxineiros rapidamente encontraremos a jóia sumida no passeio público.
Dona Ernestina sentou-se no banco.
Aproximei-me e sentei-me ao seu lado. O rosto da Dona Ernestina estava molhado de lágrimas. Peguei suas mãos, tomei fôlego e perguntei:
– O que a senhora perdeu?
– O piano.
Eu me senti um idiota. Perde-se uma carteira, um guarda-chuva, um cachorro ou até um amante. Mas perder um piano?
– Acho que não entendi. A senhora perdeu um piano?
– Perdi o meu piano de trinta anos. Era um Steinway.
Olhei para a grama à esquerda, olhei para a grama à direita como se estivesse procurando o objeto perdido.
– Onde a senhora perdeu o seu piano?
– No bingo. No bingo, meu filho.
Desisti de pedir o auxílio aos funcionários do prédio.A Dona Ernestina perdeu as notas, ficou sem dó.
 
Search Engine Optimisation
Search Engine Optimisation